Contribuição e tradução de Antonio Carneiro
LXV — Do meio que toma a alma para chegar ao amor puro e generoso
1. Quando a alma entrou no caminho da perfeição, passando pela doutrina — de Jesus crucificado, com o amor à verdade e o ódio ao vício, quando chegou por uma santa perseverança à célula do conhecimento de si-mesmo, recolheu-se nas vigílias e na oração contínua, e se separa da conversação dos homens. Porque se recolheu? Recolheu-se pelo temor que lhe causa a vista sua imperfeição, e pelo desejo que tem de chegar ao amor generoso e perfeito. Vê e compreende que não se pode chegar lá por um outro meio, e espera com uma viva fé minha vinda para aumentar a graça nela. Em que se reconhece esta viva fé?
À perseverança na virtude e na santa oração, qualquer coisa que chega. A menos que isso não seja pela obediência ou pela caridade, não deveis jamais abandonar a oração.
Frequentemente o demônio obceca mais a alma com suas tentações durante o tempo destinado à oração que durante o tempo que não lhe é consagrado (à oração): iria querer vos inspirar o enfado da oração. Algumas vezes diz: Esta oração não vos serve de nada, porque não se deve ser assim distraído. O demônio se esforça por esse meio para perturbar e, desgostar a alma do exercício da oração, porque a oração é uma arma com a qual a alma se defende contra todos seus inimigos, quando ela toma pela mão do amor e o braço do livre arbítrio, e que combate à luz da santa fé.
LXXII.- A alma que se conhece evita as insídias do demônio.
1.- Não quero te esconder, minha filha bem-amada, o erro onde tombam comumente os homens que se comprazem no pouco de bem que foram no tempo da consolação, e esse de meus servidores que se agarram de tal forma às doçuras espirituais, que não podem mais conhecer a verdade de meu amor e discernir onde se acha o pecado. Falei-te da armadilha onde o demônio os toma pela sua falta se não seguirem o meio que te ensinei. Assim tu e meus outros servidores, deveis seguir a virtude pelo amor por mim, e não por um outro motivo.
2.- Esses erros e perigos são para aqueles cujo amor é imperfeito, quer dizer para aqueles que amam mais minhas benfeitorias que eu-mesmo. Mas a alma que entrou no conhecimento dela mesma se exercendo na oração perfeita, rejeitando a imperfeição do amor e da oração, como t’ expliquei, esta alma me recebe pelo amor; se esforça para atrair para si o leite de minha doçura sobre o seio da doutrina de Jesus crucificado.
3.- Chegou ao terceiro estágio, quer dizer ao amor terno e filial; não tem um amor mercenário, mas age comigo como um amigo age com seu amigo que lhe faz um presente: não olhe para o presente, mas para o coração daquele que dá, e ele não ama o presente senão por amor ao seu amigo. Assim faz a alma que alcançou o amor perfeito. Quando recebe minhas benfeitorias e minhas graças, não pára no presente, mas sua inteligência contempla a grandeza da minha caridade que concede.
4.- Para que a alma não possa se excusar de não fazer assim, quis unir a benfeitoria ao benfeitor, unindo a natureza humana à natureza divina, quando vos dei o Verbo, meu Filho único, que é uma mesma coisa comigo como eu com ele. Por esta união me podeis ver o presente sem ver aquele que o fez. Compreendeis então com qual amor deveis amar o dom e o doador. Se fizerdes isto, tereis um amor não mercenário, mas puro e generoso, como os que se recolhem no conhecimento de si-mesmos.
ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
[71] … Porque em quanto adverte o demônio que o espírito está cobiçoso de receber, cai sobre ele e se transforma aquele espírito em forma de luz. Tenta as almas com aquilo em que vê as almas dispostas a desejar e aceitar, pois vê o espírito tomado, e seu desejo fixo unicamente nas consolações e visões espirituais. Não deveria apegar-se a elas, senão só às virtudes, e, por humildade, considerar-se indigna delas e buscar só consolos em meu amor. Como não é assim, apresenta-se-lhes o demônio em forma de luz de diversas maneiras; umas vezes, sob as aparências de anjo, e outras, como se fora minha Verdade ou algum de meus santos. Isto o faz para apanhá-las com o anzol do gosto espiritual que tem posto nas visões e deleites do espírito. E, se essas almas não se elevam com humildade verdadeira pelo desprezo a qualquer deleite, ficam presas neste anzol, em mãos do demônio. Mas, se desprezam o deleite com humildade e me abraçam com amor a mim e não ao dom, pois sou eu o que dá, o demônio não pode sofrer, por sua soberba, esse espírito humilde.
Se me perguntais: “Em que se pode conhecer que a visita é, mais bem, do demônio que vossa?”, eu vos contesto que o sinal é este, que se é o demônio o que veio ao espírito para visitá-lo em forma de luz, a alma, de imediato, recebe alegria com sua visita; mas quanto mais tempo permanece, mais perde essa alegria, e chega o tédio, a escuridão, o desassossego de espírito e a ofuscação interior. Em mudança, se verdadeiramente é visitada por mim, Vida eterna, recebe a alma, no primeiro momento, santo temor, e com ele alegria e segurança, junto com uma doce prudência; de modo que, duvidando, não duvida, senão que, reconhecendo-se indigna de si mesma dirá: “Não sou digna de receber vossa visita, e, não sendo digna, como pode ocorrer isto?”. Então se volta à generosidade de minha caridade, reconhece e vê que sou eu o que pode dar e que não me fixo na indignidade, pois eu mesmo a faço digna de receber a graça e de advertir minha presença, pois não desouço o desejo com que ela chama. Por isso me recebe humildemente, dizendo: “Eis a vossa serva: vossa vontade seja feita em mim”. Então sai do caminho da oração e de minha visita com alegria e gozo do espírito, com humildade, julgando-se indigna, e com caridade, reconhecendo-a como vinda de mim.
Este é o sinal de que a alma é visitada por mim ou pelo demônio: se a visito eu, no primeiro momento, ao meio e ao fim sente temor, alegria e fome de virtude; se é o demônio, a primeira aparência é a alegria, e depois fica turbada e em escuridão de espírito. Assim o dispus para que vos sirva de signo e para que a alma se quer andar humilde e prudente, não possa ser enganada. Sofre engano a que prefere navegar só com o amor imperfeito das próprias consolações antes que com meu afeto.
Os imperfeitos querem seguir somente ao Pai,
mas os perfeitos seguem ao Filho.
Visão que teve esta alma. Fala-se
de batismos diversos e de outras coisas belas e úteis
[75] Disse-vos que a alma saiu da casa, o que é signo de haver-se levantado da imperfeição e unido à perfeição. Abri os olhos do entendimento e olhai como correm pela ponte da doutrina de Cristo, que para vós foi regra e caminho. O que se acha em amor imperfeito, não quer sofrer trabalhos, e como em mim não pode havê-los, segue-me a mim; mas não a mim, senão ao deleite que em mim encontram.
Não o fazem assim os que querem a perfeição, os quais não põem os olhos de seu entendimento em mim, senão que, como ébrios e ardendo em amor, sobem os três degraus comuns que pus como alegoria das três potências do alma, e que prefiguram aqui os três degraus do corpo de Cristo crucificado, meu Filho unigênito. Subidos aos pés pelo afeto da alma, alcançam o costado, em que encontram os segredos do coração e conhecem o batismo da água, que tem valor de sangue. Nela encontrou a alma a graça do santo batismo uma vez que ela tem preparado seu receptáculo para receber a graça, empapada do sangue.
Onde conheceu a alma a dignidade de ver-se unida e empapada no sangue do Cordeiro quando recebe o santo batismo em virtude do sangue? No costado conheceu o fogo da caridade divina. Assim vo-lo mostrou minha Verdade, se vos lembrais bem, quando lhe perguntastes: “Doce e imaculado Cordeiro, vós estáveis morto quando vos abriram o costado; por que quisestes que fosse ferido e partido vosso coração?”. Se o lembrais bem, Ele respondeu que havia muitas razões para isso. Dir-vos-ei a principal: porque meu amor ao gênero humano era infinito, e o ato de sofrer penas e tormentos era finito, e pelo finito não podia manifestar todo o amor com que amava, que era infinito. Por isso quis que vísseis o segredo de meu coração mostrando-to aberto, para que vísseis que eu amava mais que o que podiam demonstrar-vos meus sofrimentos finitos. Derramando sangue e água, mostrei-vos o santo batismo da água, o qual recebeis em virtude do sangue.
Também vos mostrei o batismo do sangue de dois modos: um é aquele em que são batizados no sangue derramado por mim. Quando não podem receber outro batismo, esse tem valor em virtude de meu sangue. Outros se batizam com o fogo, desejando o batismo com afeto de amor, e não o podem receber. Não há batismo de fogo sem sangue, posto que esta se acha entremeada e empapada com o fogo da divina caridade, já que foi derramada por amor.
Falando figuradamente, recebe a alma de outro modo o batismo do sangue. Deste provê a caridade, porque conhece a enfermidade e a fragilidade do homem, pois por elas perde a graça, que recebeu no batismo em virtude do sangue. (Não é que o homem se veja forçado, por sua fragilidade ou por outra causa, a cometer pecado contra sua vontade, senão que, como frágil, cai na culpa de pecado mortal.) Por isso foi necessário que a caridade divina determinasse deixar-lhes um perene batismo de sangue, que se recebe com a contrição de coração e com a santa confissão, declarando, quando se pode, os pecados a meus ministros, que têm a chave do sangue. Com ela jorra o sacerdote a cara da alma pela absolvição.
Se um não se pode confessar, basta a contrição de coração. Então, a mão de minha clemência dá-vos o fruto deste precioso sangue; mas, podendo confessar-vos, quero que o façais. Quem o possa fazer e não queira, será privado do fruto do sangue. Certo que no último momento da morte, se quer o homem confessar-se e não pode, também receberá o sangue. Mas nenhum seja tão insensato que por esta razão se deixe levar da confiança para pôr em ordem suas ações no último extremo da morte, porque não é seguro, em razão de sua obstinação, que eu, em minha divina justiça, não diga: “Tu não te lembraste de mim na vida, quando te foi possível; eu não me lembro de ti na morte”. Por isso, ninguém se abandone, e, se algum o fez, não deve deixar para o último momento o confessar-se pretextando a confiança no sangue.
Vedes, portanto, que este batismo é perene, pelo que a alma deve batizar-se nele continuamente. Por ele conhece que minha obra, isto é, o sofrimento na cruz, foi finita, mas o fruto que dela recebestes por meio de mim é infinito. Isto ocorre em virtude da natureza divina, infinita, unida à humana, finita, que sofre em mim, o Verbo, que me acho vestido de vossa humanidade. Mas, porque se acham entremeadas e fundidas uma na outra, não porque seja infinito o sofrimento do corpo nem do desejo que tinha de terminar vossa redenção, la eterna divindade atraiu para si a pena que sofri eu com tão ardoroso amor. Por isso pode chamar-se infinita a esta operação; não porque o seja o sofrimento do corpo nem a pena de desejo que devia satisfazer por vossa redenção, senão porque ela terminou na cruz quando a alma se apartou do corpo. Mas o fruto que produziu o sofrimento e o desejo de vossa salvação é infinito, e por isso o recebeis de modo infinito.
Se não tivesse sido infinito, o gênero humano não teria sido restaurado, quer dizer, o presente e o porvir. Tampouco o pecador poderia levantar-se de sua culpa se este batismo do sangue não se tivesse dado de modo infinito, ou seja, se não fora infinito seu fruto.
[78] Estes imitam o Cordeiro imaculado, meu Filho unigênito, que, estando na cruz, se achava feliz e aflito: aflito, ao suportar a cruz, sofrendo no corpo os trabalhos e o desejo de satisfazer pelo pecado do gênero humano, e feliz porque a natureza divina, unida à humana, não podia sofrer, e constantemente fazia feliz a aquela natureza humana ao mostrar-se-lhe sem véu algum. E por isto se achava feliz e aflito, pois a carne sofria, enquanto que a divindade não podia padecer. O mesmo ocorre à alma quanto à parte superior do entendimento.
Da mesma maneira, estes filhos queridos, os que chegaram ao terceiro e quarto graus, encontram-se aflitos por levar a cruz temporal e espiritual, isto é, sofrendo temporalmente as penas em seu corpo na medida em que eu o permito; também a cruz do desejo, quer dizer, o torturante dor pelo pecado contra mim e em prejuízo do próximo. Repito que são felizes pelo deleite da caridade, que os faz bem-aventurados e não lhes pode ser arrebatada, pelo que recebem alegria e felicidade. Por esta razão não se chama a este dor “dor aflitivo”, que empobrece a alma, senão “dor aumentativo”, porque a faz crescer no afeto da caridade, pois as penas aumentam, fortificam, acrescentam e põem de manifesto a virtude.
Assim que a pena é aumentativa e não aflitiva, já que nenhum dor nem pena a podem apartar do fogo. Como o tição, quando se acha feito brasa no forno, não há quem o possa colher para apagá-lo, porque todo ele é fogo, assim as almas, postas no forno de minha caridade, não ficam fora de mim; nenhuma fica com sua vontade própria, senão feita completamente fogo em mim. Ninguém as pode agarrar e apartá-las de minha graça, porque se fizeram uma coisa comigo e eu com elas. Nunca me aparto de sua presença, seu espírito me sente dentro de si, enquanto, como vos disse, dos outros me aparto e volto, desaparecendo à sua percepção, ainda que não quanto à graça. Isto o faço para que consigam a perfeição. Chegados a ela, abandono o jogo do amor, esse marchar e voltar que se chama “jogo de amor”, porque por amor desapareço e por amor volto. Não sou eu precisamente quem desaparece, pois sou imutável, senão a percepção que põe minha caridade na alma; ela é a que vai e volta.
[79] … Dizia que os privados por mim da percepção nunca perdem minha presença. Em algum modo, sem embargo, me aparto deles, porque a alma que se acha unida ao corpo não é capaz de receber de modo permanente a união que verifico nela, e, por não ser apta, me retiro; não por causa da percepção ou da graça, senão pela união. Elevam-se as almas com anelante desejo, correm com brio pela ponte da doutrina de Cristo crucificado, alcançam a porta pela elevação de seu espírito para mim. Empapadas e embriagadas de sangue, ardem com fogo de amor e saboreiam em mim a eterna divindade, que nelas é mar de paz, onde lograram tão perfeita união que o espírito não tem movimento algum que se ache fora de mim.
Apesar de serem mortais, experimentam os bens imortais, e, suportando o pesadume do corpo, recebem a agilidade do espírito. Por isso, muitas vezes o corpo é elevado da terra, por causa da união efetuada comigo; algo assim como se um corpo pesado se fizesse volátil. Não por isso perde sua gravidade, senão que a união que a alma fez comigo é mais completa que a existente entre a alma e o corpo, e por isso a força do espírito unido a mim levanta da terra o peso do corpo, e este fica imóvel, completamente desprendido pelo afeto da alma, ao mesmo tempo que, como vos lembrareis haver ouvido de algumas pessoas, ser-lhe-ia impossível viver se minha bondade não o rodeasse de fortaleza.
Por isso quero que saibais que é maior milagre ver que a alma não se separa do corpo durante esta união, que ver muitos corpos ressuscitados. E assim, eu, por algum tempo, a privo da união, fazendo voltar a alma ao vaso de seu corpo; quer dizer, que o corpo, totalmente alienado pelo afeto da alma, recobra sua sensibilidade. Não é que a alma se aparte do corpo, o que não faz senão pela morte, senão que suas potências a abandonam, e também o afeto, pelo amor unido a mim. Pelo que a memória não se encontra cheia senão de mim; o entendimento é sublimado ao contemplar minha Verdade; a vontade, que segue ao entendimento, ama e se une ao que o entendimento vê.
Juntas e unidas estas potências, submergidas e afogadas em mim, perde o corpo sua sensibilidade, de modo que o olho, vendo, não vê; a língua, falando, não fala; a mão, palpando, não toca, e os pés, caminhando, não avançam. Algumas vezes, por causa da abundância do coração se permitirá que a língua fale, para que se desabafe o coração e para louvor e glória de meu nome. Todos os membros acham-se entorpecidos e ocupados pelo sentimento do amor. Por estes laços estão submetidos à razão e unidos pelo afeto da alma, e quase contra sua natureza, uma vez que me pedem a mim, o Pai eterno, ser separados do alma, e esta do corpo. Clamam ante mim com o glorioso São Paulo: “Desventurado de mim!; quem me desligará do corpo? Porque tenho uma lei perversa que luta contra o espírito” (Romanos 7,23-24).
[91] … Há outra classe que as lágrimas dos olhos? Sim. Há umas chamadas lágrimas de fogo, isto é, de verdadeiro e santo desejo, o qual se realiza por meio do afeto do amor. Quiseram derreter sua vida em pranto por aborrecimento de si e para a salvação das almas, e parece-lhes que não podem. Digo que estes têm lágrimas de fogo, nas quais o Espírito Santo chora em minha presença por eles e por seu próximo, quer dizer, minha divina caridade acende a alma com sua chama para que ofereça anelantes desejos em minha presença, sem lágrimas nos olhos. Chamo-as lágrimas de fogo, e por isso disse que o Espírito Santo chora. Não podendo fazê-lo com as lágrimas, oferece os desejos do pranto que sua vontade tem por amor a mim. Ainda que, se abrem os olhos do entendimento, verão que o Espírito Santo chora por meio de todo servidor meu que derrama o perfume do santo desejo e de humilde e continuada oração ante mi. A esta classe parece referir-se o glorioso san Paulo quando disse que o Espírito Santo chora por vós ante mim, o Pai, “com pranto inenarrável” (Romanos 8,26).
Vedes, pois, que não é menor o fruto das lágrimas de fogo que as de água, senão que muitas vezes é maior em conformidade com a medida do amor. Por isso, tais almas não devem chegar à turbação de espírito nem lhes deve parecer estar privadas de mim, já que querem as lágrimas, e não as podem ter da classe que desejam. Devem desejá-las com sua vontade concordada com a minha, disposta ao sim e ao não, segundo apraza a minha vontade. Algumas vezes permito que não tenham as lágrimas corporais para obrigá-las a estar de contínuo humilhadas ante mim, saboreando-me com perseverante oração e desejo. Porque, se obtivessem o que pedem, no tirariam o proveito que creem, senão que se achariam alegres de ter o desejado e diminuiria o afeto e desejo com que mo pediam. Assim que eu, para que aumentem e não para que decresçam, nego-me a dar-lhes as lágrimas corporais e dou-lhes as espirituais, quer dizer, só as de coração, cheias de fogo de minha divina caridade; de modo que em qualquer situação e momento serão gratas a mim, a fim de que o entendimento, pelo afeto e amor ao objeto de minha Verdade eterna, não se feche à luz da fé. Por isso sou eu o médico, e vós os enfermos, e dou a todos o que é de necessidade e imprescindível para vossa salvação e para aumentar a perfeição em vossa alma…
[92]… Disse-vos que todas as lágrimas procedem do coração; este as apresenta aos olhos, tendo-as recolhido do ardente desejo. Como a madeira verde que está no fogo chora água por causa do calor, porque está verde - se estivesse seca, não choraria -, assim o coração, reverdecido pela renovação que procede da graça, arranca de si a sequidão do amor próprio, que faz árida a alma. O fogo, ou ardoroso desejo, e as lágrimas acham-se unidos. E como o desejo nunca termina nem se sacia nesta vida, senão que quanto mais ama, menos lhe parece que ama, assim obra o santo desejo fundado na caridade; por causa dele choram os olhos.
Separada a alma do corpo e unida a mim, seu fim, não por isso deixa o desejo de ansiar-me, e igualmente à caridade com o próximo, ainda que esta entrou na alma como senhora, levando consigo o fruto das demais virtudes. Certo que o sofrimento termina; sem embargo, se a alma me deseja, me terá de verdade, sem temor algum a perder o que tanto tempo desejou. Deste modo fomenta-se a fome e fica o fastio afastado da saciedade e de sofrimento pela fome, porque ali não falta perfeição alguma.
Vosso desejo é infinito, pois de outro modo não teria valor, e nenhuma virtude teria vida se eu fosse servido unicamente por uma causa finita, já que eu, Deus infinito, quero ser servido por vós com algo infinito e não ter vós nada que eu não possua, a exceção do afeto e desejo da alma. Por isso dizia eu que a classe de lágrimas é infinita, e isto é certo pelo desejo infinito unido às lágrimas. As que saem da alma e do coração ficam fora, mas o afeto da caridade tomou para si o fruto delas e as consome como a água no forno. Não é que a água se ache fora do forno, senão que o calor do fogo a consome e a traz para si. Assim sucede à alma quando está unida. Prova o fogo de minha divina caridade quando saiu desta vida com o afeto da caridade a mim e a seu próximo e com o amor unitivo com que derrama as lágrimas. Meus servidores nunca deixam de oferecer continuamente seus santos desejos e suas lágrimas sem sofrimento. Oferecem não lágrimas dos olhos, sino lágrimas do fogo do Espírito Santo.