Trindade

VIDE: Vladimir Lossky

Agostinho de Hipona

Quem entende a Trindade toda-poderosa? E quem não fala dela, se é que é dela de quem o faz? É rara a alma que enquanto fala dela sabe o que diz. E questionam e disputam, e ninguém vê essa visão, sem paz. Quisera que os homens pensassem em si mesmos estas três coisas. São muito diversas estas. três coisas daquela Trindade. Porém quero dizer onde se exercitem, e comprovem, e sintam quão diversas o são. Digo estas três coisas: ser, conhecer, querer. Pois sou, e conheço, e quero. Sou sapiente, e volente; e sei que sou e quero; e quero ser e saber. Nestas três coisas, portanto, veja, quem puder, que vida inseparável existe, e uma vida, e uma mente, e uma essência, e, por último, que diversidade inseparável, e no entanto diversidade. Certamente é visível: atente para si mesmo, e veja, e diga-me. Pois disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Mas pouco depois se diz: E Deus fez o homem a imagem de Deus. Certamente não se diria de um modo correto “nossa” se o homem fosse feito a imagem de uma só pessoa, do Pai, do Filho, ou do Espírito Santo. Mas porque foi feito à imagem da Trindade, se disse: a nossa imagem. Porém, para que não pensássemos que na Trindade se deve crer três deuses, visto que a mesma Trindade é um só Deus, diz: E Deus fez o homem a imagem de Deus, como se dissesse: a sua imagem.

Johannes Tauler, segundo Giuseppe Faggin

Como Eckhart, também Tauler vê na Trindade o paradigma absoluto do processo dialético da alma humana: o Pai, por sua virtude pessoal, dirige a si mesmo seu pensamento, perscruta a si mesmo e o abismo de sua essência eterna;por esta compreensão de si mesmo se expressa inteiramente e o Filho é a palavra que ele gera na eternidade; por unidade essencial permanece em si mesmo e sai de si por diferenciação pessoal, mas para retornar a si em perfeita complacência por si mesmo. A complacência se torna em amor que é o Espírito Santo; assim o Pai permanece em si próprio, em seguida sai e mais tarde volta a si. Por conseguinte,cada saída acontece pela possibilidade de um retorno e o homem é a criatura mais perfeita e mais nobre porque pode voltar às origens e fechar em si o círculo da Vida universal, pois só quem sai de si e de sua própria individualidade pode ser gerador espiritual do nascimento divino. Porém enquanto em Deus os três momentos do único ritmo interior não perturbam de modo algum a unidade e a estabilidade do Absoluto em si mesmo, no homem a vida interior não é imediatismo senão renovada conquista, visto que supera a dispersão no tempo e nas coisas temporais na qual consiste sua condição de criatura.

Frithjof Schuon: Forma e substância nas religiões