Jesus o vivente

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 87

De pé diante da cruz, mora Jesus o Vivente em um corpo incorpóreo, psíquico, invisível, pois de não ter corpo, nem sequer sutil, seria uma luz, uma substância, derramada sem limites na imensidade do cosmos: um mar de luz, idêntico ao Salvador, no qual resplandece como um manto de Luz no que se agasalha o Pai.

Houve tempo em que Jesus o Vivente estava no corpo carnal, cativo por identificação com ele, mas logo se liberou deste corpo no caminho do Calvário, e desde então está “em pé”, apartado e livre, gozoso e bem-aventurado; e “ri” em um “corpo incorpóreo” (Apocalipse de Pedro).

Quando se diz de Jesus o Vivente que está “em pé”, se quer significar com isto que sua consciência de ordem psíquica superior, desprendida das aderências psicológicas da carne e do sangue (nefes), permanece na presença constante do resplendor da luz do Salvador. Frente a ele, pois Jesus o Vivente já não se identifica com seu corpo, está o corpo passível de Jesus, que suporta sua atitude “em cruz”. Esta atitude é a que leva até a morte natural, ditada pela Lei, do revestimento passível. A carne o o sangue, o corpo passível, não herdam o Reino de Deus.

Por todas essas coisas ri Jesus o Vivente.

Muito próximo, muito mais próximo que Jesus o Vivente, está o Salvador, que disse: “Eu sou o Espírito só acessível ao espírito. Eu sou o que resplandece cheio de Luz; o que vistes vir a mim, e a ti” (Apocalipse de Pedro).

Isso de ver vir o resplendor da Luz como se fosse “nós”, explica que quando ao espírito do homem se “manifesta” o Salvador, que é o Espírito invisível, o vê porque o vê em si mesmo, em espelho; o vê porque ele o vê a ele; e o vê em uma só glória não divisível em tendas de glória (Transfiguração), porque por isto foi dito do homem: “Apenas inferior a um deus o fizestes, coroando-o de glória e de esplendor” (Sl 8,6).

Em verdade, a glória que é a coroa de luz do homem, é espelho da glória do Salvador resplandecente, que é o manto infinito de Deus.