Vladimir Lossky
O apofatismo, como atitude religiosa diante da incognoscibilidade de Deus, não é exclusividade das Areopagíticas. Ele se encontra na maioria dos Padres da Igreja. Clemente de Alexandria, por exemplo, afirma nos Stromata que podemos chegar a Deus, não pelo que Ele é, mas pelo que Ele não é. A própria consciência da inacessibilidade do «Deus ignoto» não poderia ser adquirida, segundo ele, a não ser pela graça, «por essa sabedoria que Deus concede e que é a força do Pai». Essa consciência da incognoscibilidade da natureza divina equivale, portanto, a uma experiência, a um encontro com o Deus pessoal da revelação. Em virtude dessa graça, Moisés e São Paulo experimentaram a impossibilidade de conhecer Deus; o primeiro, quando penetrou nas trevas da inacessibilidade, e o segundo, quando ouviu as palavras que expressavam a inefabilidade divina. O tema de Moisés aproximando-se de Deus nas trevas do Sinai, tema que encontramos em Dionísio e que foi adotado pela primeira vez por Filo de Alexandria como imagem do êxtase, será a figura preferida pelos Padres para expressar a experiência da incognoscibilidade da natureza divina. São Gregório de Nísseno consagra um tratado especial à Vida de Moisés, onde a ascensão do Monte Sinai rumo às trevas da incognoscibilidade é representada como o caminho da contemplação, preferível ao primeiro encontro de Moisés com Deus, quando este lhe apareceu na sarça ardente. Então Moisés viu Deus na luz; agora ele entra nas trevas, deixando para trás tudo o que pode ser visto ou conhecido; não lhe resta senão o invisível e o incognoscível, mas o que há nessas trevas é Deus. Pois Deus reside ali onde nosso conhecimento, nossos conceitos, não têm acesso. Nossa ascensão espiritual não faz senão nos revelar, de modo cada vez mais evidente, a incognoscibilidade absoluta da natureza divina. Ao desejá-la cada vez mais, a alma não cessa de crescer, sai de si mesma, vai além dela e, ao ir além, deseja mais; assim a ascensão torna-se infinita e o desejo insaciável. É o amor da Esposa do Cântico dos Cânticos: estende as mãos para a fechadura, busca o inapreensível, ama Aquele a quem não pode alcançar… Ela O alcança consciente de que a união não terá fim, que a ascensão não terá término.
São Gregório de Nacianzo retoma as mesmas imagens e, acima de tudo, a de Moisés: «Eu avançava, diz ele, para conhecer a Deus. Por isso me separei da matéria e de tudo o que é corpóreo; recolhi-me, tanto quanto pude, em mim mesmo e me elevava para o topo da montanha. Mas quando abri os olhos, mal pude vislumbrá-lo por trás e ele estava coberto pela pedra, isto é, pela humanidade do Verbo, encarnado para nossa salvação. Não pude contemplar a natureza primeira e puríssima que não é conhecida senão por si mesma, ou seja, pela Santíssima Trindade. Porque não posso contemplar o que se encontra por trás do primeiro véu, coberto pelos querubins, mas apenas o que desce até nós, a magnificência divina que se torna visível nas criaturas». Quanto à essência divina em si mesma, é «o Santíssimo dos Santos que permanece oculto até mesmo aos serafins». A natureza divina é como um mar da essência, indeterminado e infinito, que se estende além de toda noção de tempo e de natureza. Se o espírito tenta formar uma imagem fraca de Deus, considerando-O não em si mesmo, mas no que O rodeia, essa imagem lhe escapa antes que ele tente captá-la, iluminando suas faculdades superiores como um relâmpago que ofusca os olhos. São João Damasceno se expressa no mesmo sentido: «O Divino, diz ele, é infinito e incompreensível, e a única coisa que podemos compreender é a sua infinitude e a sua incompreensibilidade. Tudo o que dizemos de Deus em termos positivos declara, não a sua natureza, mas o que rodeia a sua natureza. Deus não é nenhum dos seres, não porque não seja ser, mas porque está acima de todos os seres, acima do próprio ser. De fato, ser e ser conhecido são da mesma ordem. O que está acima de todo conhecimento está também absolutamente acima de toda essência; e, reciprocamente, o que está acima da essência está acima do conhecimento».
Seria possível encontrar infinitos exemplos de apofatismo na teologia da tradição oriental. Limitar-nos-emos a citar um trecho de um grande teólogo bizantino do século XIV, São Gregório Palamas: «a natureza supra-essencial de Deus não pode ser nem dita, nem pensada, nem vista — pois está afastada de tudo e é mais do que incognoscível, sendo levada pelas virtudes incompreensíveis dos espíritos celestiais —, incognoscível e inefável para todos e para sempre. Não há nome neste século nem no século futuro para designá-la, nem palavra encontrada na alma e proferida pela língua, nem contato sensível ou inteligível, nem imagem que possa dar qualquer conhecimento a respeito dela, a não ser a incognoscibilidade perfeita que se professa negando tudo o que é e pode ser nomeado. Ninguém pode chamá-la de essência ou natureza de maneira própria, se verdadeiramente busca a verdade que está acima de toda verdade». «Se Deus é natureza, tudo o mais não é natureza; se o que não é Deus é natureza, Deus não é natureza e nem mesmo existe, se os outros seres existem».