Olhos e ouvidos — cegueira e surdez

Evangelho de Jesus: Milagres: Cego de Betsaida; Nascido cego

“EVANGELHO — FIGURAS E SÍMBOLOS”, de Juan Mateos e Fernando Camacho

Defeitos físicos como a cegueira e a surdez prestam-se a sentidos figurados em todas as culturas. Até mesmo em nossa atual diz-se que “não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir” ou que alguém “estava cego pela paixão”, frases ou ditos em que os termos não têm seu significado físico.

Não é estranho, pois, que os termos “cego”, “cegueira”, “surdo”, “surdez” apareçam nos evangelhos com sentidos figurados. E mais: a transposição de sentido não é original dos evangelistas, mas uma continuação do uso comum na literatura profética.

Como se vê, a cegueira e a surdez podem significar não só incapacidade de compreender, como também resistência ou repulsa para compreender, o que equivale à rebeldia.

Além disso, os próprios evangelistas apontam o sentido figurado da cegueira e da surdez que aparecem nos evangelhos. Por exemplo, a primeira vez que Marcos alude à cegueira e à surdez (Mc 4,12: “a fim de que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam”), estas se referem à multidão, indicando que é impossível para ela compreender a mensagem de Jesus, a menos que primeiro mude de atitude. Todas as passagens posteriores que falam de surdez ou de cegueira dependem desta e, nelas, a respectiva incapacidade é sempre figura que assinala a dificuldade para perceber uma realidade ou a resistência para compreendê-la. Assim o expressa Jesus na invectiva que dirige aos discípulos, estabelecendo paralelo entre a cegueira e a surdez de um lado e a obcecação da mente de outro (Mc 8,17s: “Tendes o coração (a mente) endurecido (obcecado)? Tendes olhos e não vedes, ouvidos e não ouvis?”).

Pode-se dizer o mesmo dos outros três evangelistas. Assim, em Mt 11,5 promete-se como obra do Messias que os cegos recuperarão a vista, aludindo a Is 35,5s e 42,18, onde se usa o termo em sentido figurado. Segundo Isaías, na missão do Servo de Javé se incluía “abrir os olhos aos cegos”, por ser ele “a luz das nações” (Is 42,6s); neste contexto, “os cegos” são, pois, os gentios, que não conhecem o verdadeiro Deus. Em Mt 15,14, Jesus chama os fariseus “cegos e guias de cegos”, com claro sentido figurado.

O mesmo convém dizer da surdez, que pode ser acompanhada da mudez, como em Mt 9,32s; 12,22; Lc 11,14.

Em João não aparece a surdez; além disso, ele suprime a sua menção no texto de Is 6,10, antes citado (João 12,40: “Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes (embotou-lhes) o coração (a mente), para que seus olhos não vejam, seu coração (sua mente) não compreenda e não se convertam, e eu não os cure”). Isto se deve ao fato de que João, a partir do Prólogo, utiliza “a luz” como símbolo da vida contida no Projeto divino (1,4: “A vida era a luz do homem”) e formula a decisão fundamental do homem como sendo a opção entre “luz” e “trevas” (3,19-21).

Além de aparecer no texto de 12,40 antes citado, a cegueira aparece em João em outras duas ocasiões: atingindo a multidão que jaz na piscina (5,3) e no cego de nascença (9,lss).

O significado da cegueira em João é a incapacidade de perceber o esplendor da glória/amor de Deus manifestada em Jesus (na glória/amor de Jesus). Ela é provocada pelas “trevas” que impedem ver, isto é, pela ideologia do sistema judaico, que propõe falsa imagem de Deus, em que não se pode reconhecer seu amor.

A SABEDORIA DO DESERTO — SEGUNDO GALILEA, Paulinas

A condição humana está marcada pelo pecado e pela cegueira. Esta cegueira de coração impede distinguir bem e mal; impede perceber o defeito que há em nós; impede discernir em nosso espírito, e tomar assim o caminho correto. Os Padres estavam convencidos, por experiências, que a iluminação das áreas cegas que todos temos é parte indispensável da libertação interior e do acesso à humildade e à verdadeira caridade. Por isso o tema da cegueira foi tão elaborado por eles; é nos místicos do Oriente que encontramos pela primeira vez o termo “cegueira do coração”, e os remédios para dispor-se para a luz.

Gregório do Sinai: 137 sentenças diversas

Ser insensível equivale à morte. E ser cego em espírito é como não ver em seu corpo. Um é privado da faculdade de viver e de agir. E o outro, que não vê, é privado da luz divina, que permite ver e ser visto.

Boaventura: Itinerarium mentis in Deum 4,1, V, 4

Não é apenas olhando através de nossa alma que devemos considerar a Deus, mas devemos contemplá-lo igualmente na alma mesma.

Parece estranho que, tendo Deus tão perto de nosso espírito, como fica demonstrado, haja tão poucos que se apliquem a considerá-lo em si mesmos. A causa porém é que nossa alma, distraída com os afazeres da vida, não entra em si pela memória; obnubilada pelas imagens vãs deste mundo, não reflete sobre si mesma com a inteligência; e seduzida pelos atrativos da concupiscência, não volta a si com desejo da suavidade interior e do gozo do espírito. E por isto, toda submersa no sensível, torna-se incapaz de encontrar em si mesma a imagem de Deus. (…)

É estranha, pois, a cegueira de nosso entendimento que não considera aquilo que vê antes de tudo e sem o que nada pode conhecer, mas que, como o olho distraído em olhar a variedade das diferentes cores, não atenta para a luz com que vê o demais, e se a “Vê, não a percebe; assim o olho de nossa inteligência, ocupado com os entes particulares e universais, não percebe o Ser que está sobre todo gênero, embora seja o primeiro a oferecer-se à mente, fazendo-a apta para conhecer o demais. De onde se torna verdadeiro o dito de Aristóteles (se bem que o dissesse em outro sentido), que “o que acontece ao olho do morcego com a luz, o mesmo sucede a nosso entendimento com as coisas mais evidentes da natureza”; porque habituado à obscuridade dos entes criados e aos fantasmas dos objetos sensíveis, parece-lhe nada ver quando olha a luz do sumo Ser; não se compenetrando de que esta névoa é a luz mais deslumbrante. O mesmo acontece ao olho corporal quando olha fixamente o sol, ao parecer-lhe não ver coisa alguma.

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 34