O conceito platônico de “ideia” recebe uma dupla transformação: a) a ideia não é mais repouso eterno de uma forma cabe si mesma, mas o produto pensado de um pensador (Deus não está submetido ao sistema de Ideias, mas é seu “Senhor”); b) a ideia passa a ser o télos do homem de maneira radical, como o fim ou meta de um ser que caminhou através de todo o particular e se identifica com o Espírito do Deus supragenérico.
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O verdadeiro arquétipo do homem é Deus, e já não se trata do desdobramento até alcançar a estatura de uma forma, mas da ascensão do particular até a aquisição da imortalidade coeterna dos arquétipos cabe Deus.
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Da atividade do sujeito (divino) surgem as ideias; das ideias surgem as coisas; o homem deve refazer o caminho: das coisas às ideias, das ideias a Deus.
3.3. O Admirável Comércio
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O escambo de dons, no qual o homem e Deus se encontram, é a coroação do itinerário da alma, sendo a fase final de todo o comentário alegórico sobre o Gênesis, que chega a seu cume no De mutatione nominum.
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O escambo ou intercâmbio de dons é uma categoria chave para relacionar Deus, homem e mundo, onde todo o homem é um dom.
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Deus é o único que presenteia (Deus 87), não necessita nem pode receber nada (Cher 44), sendo a capacidade de doar superior à humana capacidade de receber (Mut 218).
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O mundo e o homem receberam tudo o que são como presente de Deus a si mesmos (Deus 107), e todas as criaturas são empréstimo umas para as outras (Cher 109-110).
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Existir é ser doado a si mesmo, e tudo o que existe fora de Deus se apoia ontologicamente sobre a ação divina dadora (panta charis, tudo é graça).
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Apesar da afirmação absoluta da graça, o mal e a liberdade humana pugnam por limitá-la, sendo a solução encontrada no homem: “Em nós mesmos está o depósito dos males, já o disse, em Deus somente se encontra o dos bens” (Fug 79).
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Existe uma convergência de vontades (Deter 60) pela qual Deus coroa a busca do homem, sem borrar por isso a antinomia entre esforço e graça.
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O tema da graça impõe decisões graves no campo filosófico em duas direções principais e convergentes: na concepção do ente contingente e na concepção da subjetividade.
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Em Filão e por influência bíblica, a concepção do sujeito se desloca desde o âmbito hilemórfico para o antropológico, desde o campo noético para o mais complexo da responsabilidade moral e do amor.
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O vínculo entre a insondável subjetividade e o sentimento de absoluta indigência, ligado ao tema do êxtase como experiência de Deus, abre caminho para a tematização da intersubjetividade.
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A relação “Eu-Tu”, já presente no discurso bíblico, é formalizada por Filão no conceito de aliança (diathéke), que é o resultado e a finalidade do admirável comércio.
3.3.2. Matrimônio e Filiação
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A linguagem nupcial é um dos modos privilegiados do discurso filoniano para expressar as relações entre Deus e o homem, onde Deus é denominado esposo e pai, e o homem, esposa e filho.
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Deus engendra o mundo no seio de sua sabedoria (Ebr 30), e nunca é esposo da matéria ou de nenhum princípio material, mas esposo de um princípio divino feminino concebido por ele mesmo como ciência própria.
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Se Deus é esposo e pai, então o homem é filho e esposa, sendo estas duas relações irredutíveis uma à outra, indicando uma paternidade sem dependência e um matrimônio sem fusão.
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As metáforas de pai e esposo se unem para sinalizar que Deus é criador e doador, implicando que o homem é amado sem chegar a ser nunca igual.
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O matrimônio com Deus não corrompe a feminilidade, mas a faz incorruptível; a alma fecundada por Deus se faz por isso mesmo virgem porque se faz incorruptível.
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O caráter mediador do conceito de “pai” se evidencia na paternidade biológica e humana como reflexo da paternidade do Criador, que “dá o ser ao que não o tinha”, mas estes níveis de paternidade cessam ante a consideração da divina paternidade.
3.3.3. Sacrifício de Holocausto
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O culto verdadeiro e perfeito deve superar o ritualismo e a oferenda material, oferecendo o mais íntimo que o homem é, sendo o modelo deste sacerdócio total Abraão, disposto a sacrificar seu filho maior (fruto masculino de sua alma).
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A razão do culto total reside em que se deve devolver o dom, já que o homem inteiro é um regalo ou um empréstimo de Deus, sendo o mesmo ato de sacrificar considerado não um ato “da alma”, mas de Deus que faz aparecer nela a graça (Leg I 82).
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O herdeiro divino será o que faça de si mesmo o sujeito e o objeto da oferenda a Deus (Her 76), não conservando para si seu pensamento, sua inteligência, sua apreensão, mas levando-os e oferecendo-os à causa.
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O único e último rito da alma é a libação de si mesma, ou a ustão completa em “holocausto” (Leg III 141), onde a oferta única é a totalidade de si mesmo e o prêmio definitivo é a radicação do homem inseguro na eterna firmeza da Causa.
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A doutrina do sacerdócio racional e do holocausto da alma encerra uma orientação filosófica que provém do total enfrentamento de todas as coisas com a única causa inefável e criadora, único porto para o qual pode dirigir sua rota a instabilidade humana.
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O conceito de “santidade” ingressa nos umbrais da ontologia como “separação” do causado e incausado, e a ontologia submete o conceito de ser ao desejo absoluto.
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O homem deve abandonar-se completamente a si mesmo para que Deus realize nele a transformação, e possuir o Absoluto é a contrapartida da absoluta abnegação (o “admirável comércio”).
3.4. O Cosmos, Primogênito de Deus
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Durante os inícios da era cristã, os esquemas cosmológicos (grego, persa, hebreu, gnóstico) se cruzavam e fusionavam, e a pergunta que se coloca é se na concepção global de Filão existe outro polo que se enfrente a Deus.
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Não se pode afirmar que Filão segue o esquema grego, pois a oposição inteligível-sensível já não soa como nos gregos; também não se pode colocá-lo no esquema dualista persa, pois a matéria não constitui um polo contrário, mas marca o vazio total que está frente a Deus.
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Não há dualismo nem dialética em Filão, pois o “não-ser” não tem positividade, e o único caminho possível para entender a natureza do cosmos é ascender até o Criador do cosmos.
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A tese de H. Jonas de que Filão seria um antecedente do gnosticismo (pela quebra do sentido da virtude como positividade humana e pela acentuação da nulidade do homem) precisa ser matizada.
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A diferença fundamental entre Filão e o gnosticismo reside na afirmação da bondade da criação (Deus viu que era bom, Gênesis 1,31) e na afirmação de que o homem pode decidir-se pelo bem seguindo os mandamentos.
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O que poderia parecer um desprezo pelo mundo não é senão um aspecto do sistema antinômico no qual se move Filão, devendo-se aceitar o lugar privilegiado que Jonas atribui a Filão para a compreensão do gnosticismo, mas não se deve ler a ambiguidade filoniana a respeito do kósmos em sentido dualista.
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O mundo se determina por suas relações: a primeira relação (autor-obra) diz que Deus é perfeito e sua obra é perfeita, sendo o mundo “a mais perfeita das coisas que chegaram à existência”.
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A segunda relação (mundo-homem) é pessimista e se dá quando o homem descabeça a obra criada e se esquece do autor, aparecendo então ao nu a inconsistência do criado.
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A terceira relação (Dios-mundo) se dá quando o mundo regressa a seu Criador como obra perfeita, e as imagens filonianas fazem confluir em uma só realidade as figuras do Logos santificador, o mundo e o homem.
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A existência da criatura entre Deus princípio e Deus fim é um conceito expressamente pensado por Filão (Her 120-121), onde o homem e a criação ocupam o lugar intermediário entre princípio e fim, entre Deus e Deus.
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Todo o sentido do homem é aceitar os dons de Deus (aceitar-se a si mesmo como dom) para oferecer a libação de si mesmo ao doador (Her 184).
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A cosmologia de Filão é concebida desde a antropologia, e esta, desde a teologia.
3.5. A Gravitação Universal, ou a Chave do Edifício Filoniano
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O pensamento filoniano está tecido como um sistema de gravitações, e para buscar uma ordem nestes círculos gravitacionais mencionam-se três níveis de interpretação dos difíceis textos, sobre a base de três momentos ou princípios que regem as oposições.
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Primeiro princípio (Deus): Deus é um e é tudo, é o princípio e o fim, é puramente atividade, fonte inagotável que nada necessita do produzido, sendo anterior a todo conceito, a toda palavra, a todo movimento, anterior ao Um e ao Bem.
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Segundo princípio (Deus e criação): Da fecundidade absoluta de Deus toma origem o círculo das realidades intermediárias que se movem entre Deus e Deus, onde brilha o logos e todas as potências e o cosmos inteligível, e onde os polos são Deus e o homem.
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Terceiro princípio (O homem, entre o criador e o criado): O homem, cúspide e cifra da criação, é livre; Deus o atrai, mas o criado também; é um ser intermediário entre o bem e o mal, devendo recorrer o itinerário através de todas as coisas criadas até Deus em um progresso constante.
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A função deste esquema com três níveis é a de guia hermenêutica para ler as antinomias e os deslocamentos de significados próprios de Filão, tratando-se de três níveis em que há que entender as coisas e três princípios do pensar mesmo para Filão.
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O primeiro princípio é o da solidão ontológica ou separação absoluta da Causa, mais além de toda categoria e de toda linguagem e, portanto, mais além dos contrários.
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O segundo princípio é o da semelhança, pelo qual tudo o que existe, no céu e na terra, se compõe de ícones ou reflexos sucessivos e hierarquizados da plenitude de Deus.
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O terceiro princípio é o da ambiguidade ética do homem, pelo qual todas as coisas recebem a mesma ambiguidade do que pode elegê-las desprezando a Deus.