O
Evangelho segundo Thomas apresenta a visão de que as mulheres não são dignas da vida e que Maria deve ser transformada em elemento masculino para entrar no Reino dos Céus.
A análise do tratado De opificio revela a dificuldade de Philon em conciliar a noção de lugar com o mundo ideal.
A rejeição ao conceito tradicional de lugar decorre de sua proximidade com a ideia de um espaço ou posicionamento exterior.
A argumentação philoniana redireciona a localização do mundo inteligível para o âmbito do Logos divino.
A necessidade de abrigar as ideias exige a concepção de uma receptividade adequada para acolher a semente de origem divina.
Philon questiona qual outro lugar seria capaz de receber e alojar uma única ideia pura que fosse, senão as próprias potências de Deus.
A indicação bibliográfica refere-se ao mesmo parágrafo da obra anterior.
A doutrina esotérica do filósofo fundamenta-se na ideia de uma receptividade essencial expressa de maneira alegórica.
R. Laporte, na obra sobre a doutrina eucarística de Philon de Alexandria de 1972, aponta que as alegorias da fecundação divina da virtude com Sarah, Rachel, Léa e Anna estão no centro desse ensinamento.
A história da esposa de Jacob sugere aos iniciados que a alteridade dela em relação ao criado estabelece uma semelhança com Deus.
Essa figura feminina recebe as sementes da Sabedoria para gerar e dar à luz concepções do pensamento dignas do
Pai.
A referência do texto provém do tratado Posteridade, parágrafo 135.
A figura de Eva representa a origem da vida culpada e o obscurecimento da semelhança divina original.
A restauração da semelhança divina exige uma transformação radical da condição feminina.
O desfazimento do lugar matricial que obstrui a passagem é realizado por meio de uma intervenção do princípio masculino.
A abolição desse espaço ocorre por um golpe de espada ou de chifre desferido pelo Logos.
O carneiro possui parentesco com
o Logos por sua condição de macho e por sua característica ativa.
A fundamentação provém da obra Questões sobre a Gênese, livro três, parágrafo quatro.
A reparação da figura de Eva necessita de uma mulher totalmente isenta de vínculos com a linhagem feminina ancestral ou descendente.
A identidade de Sarah vincula-se exclusivamente à linhagem dos homens por ser um princípio sem mãe gerado apenas por Deus.
O texto bíblico da Gênese afirma que ela é irmã por parte de pai, mas não por parte de mãe.
A citação é referenciada no tratado Herdeiro, parágrafo 62.
A alma virtuosa e livre identifica-se com essa figura que perdeu a forma de mulher e extinguiu todas as paixões.
A união mística e a aproximação com o divino são acessíveis apenas a essa alma purificada.
O mistério exige o afastamento ou o silêncio dos indivíduos supersticiosos.
O tratado Querubins, parágrafo 42, serve de fonte para a afirmação.
O conhecimento de Sarah pressupõe uma purificação prévia daquele que se torna seu filho.
A aproximação de Abraham com a Sabedoria não visa a procriação carnal nos moldes de um matrimônio mortal.
O relacionamento com a Sabedoria ou a Virtude opera-se por um processo distinto da fecundidade corpórea.
A introdução das sementes do bem na alma decorre da ação direta do criador não gerado.
A doação da semente divina para a alma virtuosa constitui o núcleo da receptividade essencial.
A abertura da matriz de Sarah e de Léa recebe uma interpretação exegética baseada no texto da Gênese.
A relação mística estabelece Deus como o esposo da Sabedoria e Abraham como seu amante.
O criador realiza a semeadura em uma terra considerada virgem e de qualidade superior.
A transição do conceito de virgem para o de virgindade evita as paixões associadas à forma feminina e conduz à Idée imutável.
A alma virgem pode sofrer a vergonha quando corrompida por paixões imoderadas.
A virgindade assemelha-se à Ideia que permanece sempre igual e idêntica a si mesma.
As notas remetem aos parágrafos 51 e 52 do tratado Querubins.
A semente mística representa as próprias ideias das virtudes imortais e virgens.
O encontro inteligível ocorre por meio da introdução dessas ideias na virgindade essencial da alma.
A substituição de Abraham por Deus no ato místico resulta na geração de um filho cujo destino é redirecionado.
O fruto dessa relação mística retorna para o amante mortal por causa da autossuficiência do criador.
A criatura necessita do outro para existir, enquanto o criador prescinde de qualquer alteridade.
O amante recebe a criança gerada das mãos da divindade que atuou como esposo.
A união mística também se manifesta na oferta da virgem ao Logos na condição de grande sacerdote.
O grande sacerdote é descrito como intacto e casado com uma virgem que nunca se transforma em mulher.
O comércio espiritual com o esposo interrompe o fluxo menstrual da mulher, conforme referências a Levítico e Gênese.
A passagem encontra-se no tratado Sobre os Sonhos, livro dois, parágrafo 185.
A noção estoica de logos seminal explica a dinâmica das ações corretas na alma submetida à provação.
O enfraquecimento do raciocínio correto provoca o definhamento da alma e a perda do germe gerador das boas ações.
A citação provém do tratado Alegorias das Leis, livro três, parágrafo 150, com paralelo no tratado Herdeiro.
A proximidade conceitual gera uma indistinção entre
o Logos e a Sabedoria como receptores e instrumentos divinos.
A articulação entre Deus, Logos e Sabedoria reconstitui uma cadeia de transmissão da potência divina sem contato direto com a matéria.
A dinâmica interna da sainte Família estabelece
o Logos como filho e a Sabedoria na condição de mãe.
O Logos possui como pai a divindade e como mãe a Sabedoria, por meio da qual o universo foi originado.
A fonte dessa definição está no tratado Sobre a Fuga, parágrafo 109.
O processo de emanação mística engloba simultaneamente o surgimento do mundo sensível como réplica do inteligível.
A cosmogonia philoniana define o criador como pai do universo e a ciência do criador como a mãe da obra.
A união divina com a ciência ocorre de modo distinto das relações humanas.
A recepção da semente divina resulta, após as dores de parto, no nascimento do filho único e sensível que é o universo.
O texto corresponde ao tratado Sobre a Sobriedade, parágrafo 30.
Os papéis simbólicos sofrem permutas constantes onde
o Logos atua como
Pai e
Filho, e a Sabedoria como Mãe e Filha.
O ponto de reversão da semelhança localiza-se na figura de Sarah por sua ascendência exclusivamente paterna.
A Sabedoria assume a condição de filha do pai, assemelhando-se à caracterização dada a Bathouel.
A aproximação entre as figuras de Sarah e Bathouel expressa significados específicos na ordem simbólica.
A localização de Bathouel na Mésopotamie simboliza um ponto de abrigo em meio ao fluxo da vida sensível.
A oposição geográfica coloca Sarah como originária do Alto e Bathouel como uma figura que ascende do Baixo.
A convergência de ambas as trajetórias explicita a necessidade de a virtude humana transitar pela terra e alcançar o ambiente celeste.
A permanência no céu assegura a saciedade da incorruptibilidade e a preservação intacta da virtude.
O fundamento encontra-se no tratado Herdeiro, parágrafo 35.
O vínculo entre a Potência e a virtude desenvolve-se na transição da condição de Mãe para a de filha.
O processo de geração da filha pelo
Pai preserva a divindade de tocar no elemento feminino ou de criar a matéria de forma explícita.
A alternância de símbolos revela uma estrutura rigorosa por trás da aparente confusão apontada por comentadores.
A restauração da semelhança divina baseia-se na correspondência mística entre o tornar-se macho, a virgindade e a unidade.
A purificação da alma exige o afastamento dos componentes femininos ligados à percepção sensorial.
A separação drástica imposta pelo Logos possibilita o progresso através da virilização dos sentidos.
O desenvolvimento espiritual impede o enfraquecimento dos pensamentos masculinos e promove a transformação do gênero feminino.
Os sentidos, identificados com o feminino, tornam-se viris ao seguir as diretrizes dos pensamentos masculinos.
O tratado Questões sobre a Gênese, livro dois, parágrafo 49, serve de referência.
A transformação masculina atinge sua plenitude na figura de Sara como representação da virtude soberana.
A virtude, embora possua posição externa de mulher, tem natureza masculina e semeia pensamentos benéficos e discursos sábios.
A fundamentação encontra-se no tratado Sobre Abraham, parágrafos 101 e 102.
A identidade dessa figura feminina virilizada confunde-se com a condição da própria virgindade.
O ato de dar à luz ocorre somente quando a mulher retorna ao estado original de virgem.
O processo de semear e parir na virgindade consolida a semelhança divina através do retorno à unidade.
A referência bibliográfica indica o tratado Posteridade, parágrafo 134.
O desvio inicial de Adam em direção à dualidade ocorreu sob a influência da mãe dos mortos e pelo consumo do fruto proibido.
O toque na árvore de dois ramos resultou na introdução da morte para o primeiro homem.
O tratado Sobre os Sonhos, livro dois, parágrafo 70, registra o evento.
A imagem da árvore com ramificação dupla remete simbolicamente aos órgãos geradores descritos no texto bíblico.
A instrução espiritual prescreve a amputação da faculdade que se vincula ao processo procriativo do mundo criado.
A remoção da mão feminina que segura as glândulas geradoras simboliza a rejeição das estruturas ligadas ao nascimento.
A ablação deve atingir todos os pensamentos ímpios que encontram fundamento no universo da geração biológica.
O tratado Leis Especiais, livro três, parágrafo 179, fornece a fundamentação para a amputação simbólica.
A restauração do respeito à monade permite expressar a organização do universo por meio da ciência dos números.
O dualismo numérico estabelece a unidade como imagem da Causa primeira e a dualidade como representação da matéria passiva.
Priorizar o número dois em detrimento do número um significa valorizar a matéria acima da divindade.
A legislação divina determina a exclusão dessa tendência da alma da mesma forma que se corta uma mão.
A regra provém do parágrafo 180 do terceiro livro das Leis Especiais.
A organização simbólica manifesta-se também na tensão e na elevação associadas ao número sete.
Na dimensão literal e sensível, o sete corresponde à porção irracional e feminina da alma, vinculada aos sentidos e ao sangue.
A genealogia de Damascus exemplifica a vinculação da alma irracional à linhagem materna, sem participação do princípio masculino.
A origem do nome Masek demonstra que a alma de sangue se liga à espécie feminina.
A passagem está localizada no tratado Herdeiro, parágrafo 61.
A verdadeira vida inicia-se com a transformação da natureza do sete por meio da intervenção do Logos.
A elevação do número sete altera sua condição para um estado de força e autoridade viris.
O sete é descrito como o número mais viril, dotado para o exercício do poder.
O segundo livro das Leis Especiais, parágrafo 56, atesta essa qualidade.
A tensão do sept orienta a trajetória ascendente rumo ao estado unificado e livre de mãe.
O componente feminino transforma-se na hebdomade sagrada, gerada diretamente pelo pai sem o concurso do sexo ou da procriação tradicional.
As obras Sobre a Vida de Moises e Sobre o Decálogo guardam relação com essa exposição.
A interpretação philoniana sobre o relato da criação em Gênese associa o sétimo dia ao momento inicial da criação.
O texto de Gênese 2:4 menciona a criação do céu e da terra no dia em que foram feitos.
Philon deduz que a criação ocorreu no primeiro dia, fazendo com que o sétimo dia seja reconduzido à monade original.
O tratado Posteridade, parágrafo 65, valida essa dedução.
A ascensão alegórica elimina a escuridão provocada pela diferença e pela desigualdade inerentes à díade.
A desigualdade, caracterizada pelas diferenças para mais e para menos, constitui a fonte da obscuridade.
O parágrafo 231 do quarto livro das Leis Especiais define o conceito de desigualdade.
A perspectiva ascendente da alegoria posiciona Adam em uma condição isenta de marcação de gênero masculino ou feminino.
O alcance do topo do conhecimento permite realizar o movimento inverso de descida por meio da reflexão filosófica.
A manifestação da natureza no sentido descendente inicia-se com a extensão da Potência e com o ato de divisão.
O texto bíblico indica a ação oculta de Deus na partilha e na separação das realidades corporais e imateriais.
A Escritura menciona a divisão pelo meio sem especificar o agente, indicando a atuação do Deus invisível.
O Logos atua como o divisor universal que organiza a série harmoniosa do universo.
O tratado Herdeiro, parágrafo 130, expõe o conceito do Logos divisor.
A atuação do Logos como princípio de corte revela uma diferenciação baseada na lei da igualdade.
A criação de Adam no sentido descendente engloba simultaneamente as dimensões masculina e feminina.
O relato de Gênese 1:27 adota o plural para indicar a passagem do gênero para as espécies divididas pela igualdade.
O parágrafo 164 do tratado Herdeiro serve de base para essa interpretação da igualdade.
A hebdomade sagrada atua como elemento de mediação para consumar a perfeição do arranjo entre masculino e feminino.
A estrutura do candelabro sagrado serve de imagem para ilustrar a ordenação e a separação das tríades.
A iluminação trazida pelo sétimo dia manifesta o significado e a perfeição da obra realizada nos seis dias anteriores.
A perfeição do universo exigiu a sua modelagem com base em propriedades numéricas específicas.
O mundo foi ajustado ao número seis por ser considerado um número perfeito.
A presença de gerações baseadas no acasalamento exigiu a forma de um número misto, o par—ímpar, que contém as funções de emissão e recepção de sementes.
O tratado De opificio, parágrafo 14, fundamenta as razões matemáticas da criação.
A variação da perspectiva determina a dupla definição de Adam conforme o sentido do percurso interpretativo.
No trajeto do baixo para o alto, Adam não se define como masculino nem como feminino.
No trajeto do alto para o baixo, Adam assume a dupla condição de masculino e feminino.
A operação divisora e unificadora é realizada exclusivamente por intermédio das duas funções do Logos.
O campo filosófico—simbólico constitui-se a partir do traçado gerado por essa dupla operação do Logos.
A extensão e a consolidação dessa estrutura dependem do processo de elevação do elemento feminino.
A força do Logos garante tanto a fixação da unidade quanto a sustentação da dimensão feminina elevada.
O traço unificado desenha o percurso da criatura em direção à unidade essencial.
A natureza do Logos apresenta-se como androgyne, contendo ambos os sexos ou não possuindo nenhum deles.
A organização da sainte Família é determinada pela elevação do feminino, impedindo a definição das relações diretas entre as figuras familiares.
A comparação com a mitologia grega evoca a ideia de divisão primordial expressa por meio do conceito de castração.
Damascius aponta Kronos como um deus separador que se desvincula de Ouranos e de Zeus.
A divisão expressa a noção de transcendência por meio dos mitos de castração.
A referência bibliográfica remete à obra de Damascius.
A alegoria philoniana diferencia-se do mito ao incluir de forma clara o elemento feminino no processo de corte.
O ato de corte atinge tanto as estruturas geradoras masculinas do mito quanto a matriz da figura feminina na narrativa bíblica.
O Logos e a determinação do sexo compartilham o mesmo princípio de separação e divisão originária.
A exegese que parte do plano sensível deixa a receptividade feminina em uma condição de indeterminação.
A transferência dessa indeterminação para os planos elevados ocorre quando a receptividade feminina se converte em alma.
A alma projeta a visão da divindade como um objeto que se situa além do alcance de sua própria capacidade de apreensão.
O sábio busca um objetivo de difícil captura, que se retira e mantém uma distância infinita dos perseguidores.
O tratado Posteridade, parágrafo 18, serve de fonte para a descrição da busca da alma.
A busca pelo Ser estimula o desejo de ultrapassar as fronteiras do universo físico em direção ao incriado.
Aqueles que buscam a visão do Ser recebem asas para ir além dos confins do éter e dos limites do universo.
Parágrafos dos tratados Sobre o Plantio, Sobre a Sobriedade e Sobre Abraham confirmam essa orientação.
A ausência de limites da divindade e de suas potências associa-se ao impulso da alma de romper as barreiras do mundo sensível.
A infinitude divina assume o caráter de uma negação do finito, aproximando-se da distinção cartesiana sobre o indefinido.
A percepção do Infinito manifesta-se no reconhecimento do próprio nada em contraposição à elevação da bondade divina.
O percurso da alma caracteriza-se pela oscilação constante entre a elevação teórica e a humildade de caráter místico.
A valorização e a compreensão da excelência do mundo criado permanecem desprovidas de formulação direta nesse sistema.
A restauração desse aspecto impensado exige o retorno à receptividade feminina e ao lugar como caminhos para alcançar o Infinito.
Emmanuel Lévinas aponta a necessidade de reencontrar o sentido da inclusão sob a negação presente na ideia de Infinito.
A indicação bibliográfica refere-se à obra De Deus que vem à ideia, publicada em 1982.