A receptividade espiritual plena exige, em Fílon, o devir-virgem da alma, pois o recipiente da Sabedoria não pode ser o corpo mas a alma que abandonou o que é particular às mulheres.
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Rebeca é virgem por natureza; Tamar é virgem apesar de se apresentar como prostituta; Sara retorna à virgindade.
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Quando Deus tem comércio com a alma, desfaz nela os desejos sem nobreza que a efeminavam, reconstituindo a virgindade.
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Phineas, vigilante dos orifícios, acerta com um único golpe o vaso certo, a matriz, sem se perder no labirinto dos orifícios.
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Rachel constitui o ponto de complicação irredutível no sistema de Fílon, pois não pode ser integrada ao esquema do devir-virgem nem simplesmente descartada.
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Fílon descreve Rachel como a sensação que seduz pelo prazer e é odiada por Léa, a virtude sem paixões.
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Rachel simula ter suas regras diante do pai Labão, e Fílon a reprova como sensibilidade sentada sobre os ídolos.
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Elohim ouviu Rachel e lhe abriu a matriz, versículo que Fílon não comenta, omissão que não é isolada.
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Rachel oscila em Fílon entre a crítica do sensível e a mera etapa propedêutica, sem jamais alcançar o estatuto de virgem nem o de morada da alma.
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O nome de Rachel pode ser interpretado como “visão de profanação”, o que permitiria lê-la como crítica da idolatria do sensível.
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Jacó a amaria como a uma pedra de afiar, instrumento que afia o espírito pelo atrito, não fim em si mesma.
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Fílon recua e reinsere Rachel no lugar de Agar, etapa dos estudos elementares antes da filosofia.
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O texto reconhece em Rachel o lugar em negativo de um corpo que seria sede de crítica da idolatria e de inspiração, mas o pensamento falha: um corpo espiritual só pode ser pensado por Fílon como virgindade, e Rachel não pode ser virgem.