LÉVY, Benny. Le Logos et la lettre: Philon d’Alexandrie en regard des pharisiens. Lagrasse: Verdier, 1988.
Fílon, o Judeu, comenta o texto grego da Torá: Fílon, cuja fidelidade à Lei de Moisés é assegurada, comenta na língua da filosofia os versículos da Bíblia. Que resta da questão: judeu ou grego? A resposta é evidente: ele é judeu e grego.
Ao buscar a coerência da escrita de Fílon, Nikiprowetsky evidencia uma constante: o tema, de estilo platônico, da migração.
Eis, portanto, sobre o exemplo significativo desta constante, o problema de Fílon: como converter o semantema da marcha — o lekh-lekha de Abraão, o êxodo dos hebreus — em um filosofema (iniciação ao mistério do Ser)? A estratégia de leitura de Fílon procede, de fato, desta decisão radical. Mensura-se, de imediato, o desafio: no Texto, trata-se apenas de arrancamento de uma terra, de êxodo, de travessias, de transposição; toda uma geografia, uma escrita rente à terra, anunciando profeticamente que o Conhecimento (daat) preencherá a terra. Ora, a decisão de Fílon poderia ser expressa nesta palavra emprestada de Plotino:
Lá (ekei) tudo é céu; a terra é céu.
Será necessário sublimar a terra. Plotino ainda esclarece, à sua maneira, tudo o que isso implicará:
Fujamos para a nossa querida pátria, eis o verdadeiro conselho que se nos poderia dar. Mas o que é esta fuga? Como remontar? Como Ulisses, que escapou, diz-se, de Circe, a feiticeira, e de Calipso, isto é, que não consentiu em permanecer junto delas, apesar dos prazeres dos olhos e de todas as belezas sensíveis que ali encontrava. Nossa pátria é o lugar de onde viemos e nosso pai está lá (ekei). Que são, portanto, esta viagem e esta fuga? Não é com os nossos pés que se deve cumpri-la; pois os nossos passos levam-nos sempre de uma terra a outra.
Contudo, Plotino pode fugir rapidamente, mas Fílon está preso pelo Texto a uma trajetória mais laboriosa: ele deve abrir caminho através das terras. Pode-se aplicar a ele sua própria exegese dos versículos de Números 20:17-20:
Passaremos o nosso caminho através das terras; mas não passaremos através dos campos nem das vinhas. Não beberemos a água do teu poço; seguiremos a via real, sem nos desviarmos para a direita nem para a esquerda, até que tenhamos transposto o teu território [o de Edom].
E Fílon comenta:
Que extraordinário e magnífico desafio! Podereis, dizei-me, transpor, margear, ultrapassar na caminhada todos os bens de aparência e de opinião (ta phainomena kai nomizomena) que a terra apresenta?
E precisa um pouco mais adiante:
O essencial é que os matagais inextricáveis de todos os bens aparentes não nos prendam em nenhuma das redes que cada um coloca sob os nossos passos, mas que, à maneira do fogo, sejamos fortes o suficiente para fazer, de um só ímpeto, a ruptura através de suas ondas sucessivas e ininterruptas.
À maneira do fogo, a exegese de Fílon deverá ser forte o bastante para esta ruptura: Fílon é condenado a inventar uma linguagem-de-fogo-que-perfura:
O Logos é a espada de fogo.
É preciso atravessar as terras, mas evitar pisá-las, por medo de ser capturado pelas redes colocadas sob os passos. A própria terra, em sua aparência de bondade, não dissimularia estas redes: terra-mulher, terra de Israel, terra-letra? A espada de fogo cortará estas diferenças: do masculino e do feminino, de Israel e das nações, da letra e do espírito.
O fogo do Logos queimará estas diferenças. Ao ponto de a própria diferença onde se atesta para Fílon a transcendência de Deus — diferença entre o Criador e a criatura — correr o risco de ser sacrificada neste altar. Tal é a lei operante na alegoria: estas quatro formas da diferença, a própria diferença, tendem a ser reduzidas.
E, no entanto, da própria letra ouve-se a questão, adivinha-se a resistência da diferença; poderá o Logos vencê-la?
Podereis, dizei-me, transpor, margear, ultrapassar na caminhada todos os bens de aparência e de opinião que a terra apresenta? E nenhuma resistência conterá, deterá o vosso ímpeto ofensivo?
O chifre de carneiro — isto é, para Fílon, o Logos — corre o risco de emaranhar-se nos matagais inextricáveis da diferença.