LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908
CAPÍTULO III: O PROGRESSO MORAL
O estudo do progresso moral em
Filon parte da constatação de que, se o objetivo último é a purificação da inteligência e a ciência de Deus, a atividade moral não é valorizada por si mesma, mas em sua relação com a atividade religiosa, servindo como caminho para os imperfeitos que ainda não podem alcançar a contemplação direta do Ser.
A moral de
Filon não constitui um sistema filosófico coerente, mas uma reflexão sobre a complexidade da vida interior da alma, que se utiliza de elementos da moral estoica, peripatética e cínica sem se prender a nenhuma delas, julgando-as a partir da experiência subjetiva do pecado, do progresso e da salvação.
O centro da reflexão moral de
Filon não é a definição objetiva do bem ou a determinação da natureza humana, mas a análise dos movimentos da alma, de seus desejos e necessidades, inaugurando uma abordagem que valoriza a experiência íntima em detrimento da construção de sistemas normativos.
1. — O IDEAL ESTOICO E SEU VALOR
A moral estoica é onipresente na obra de
Filon, apresentada sob a forma de preceitos e paradoxos populares, mas a teoria da paixão como juízo falso é rejeitada, e a definição da virtude como conhecimento é subordinada à análise dos efeitos das paixões na alma.
O princípio estoico da conformidade com a natureza é amplamente utilizado por
Filon, assim como a doutrina de que a honestidade é o único bem e as coisas externas são indiferentes, mas essas noções são frequentemente reduzidas a lugares-comuns retóricos, sem grande desenvolvimento teórico.
Os discursos sobre as virtudes e os vícios em
Filon não são especificamente estoicos, mas pertencem ao gênero epidítico dos sofistas e retores da época, consistindo em elogios convencionais da justiça, da coragem e em invectivas contra o prazer e a cólera.
A apatia, a ausência completa de paixões, é apresentada por
Filon como o ideal da sabedoria, exemplificado por Moisés, que retirou de si todos os sentimentos violentos, o desejo e o prazer, em oposição à simples metriopatia (moderação das paixões).
Às paixões más (pathé) opõem-se as boas paixões (eupatheiai), especialmente a alegria (chara), que é caracterizada não como um prazer sensível, mas como uma resinação ativa, uma calma e uma confiança que preenchem a alma do sábio na contemplação de Deus e do mundo bem governado.
Os paradoxos estoicos (o sábio é o único rei, o único livre, o único rico) são frequentemente citados por
Filon, mas recebem uma interpretação espiritualizada: a riqueza do sábio é a riqueza espiritual, sua realeza é o conhecimento da arte útil aos homens, sua liberdade é o afastamento da opinião.
A casuística estoica sobre as funções (kathekonta) é utilizada por
Filon para afirmar o primado da intenção sobre o ato exterior, mostrando como uma mesma ação material (como restituir um depósito) pode ser virtuosa ou viciosa conforme a disposição interior de quem a pratica.
A discussão sobre a possibilidade de o sábio se embriagar, um exemplo clássico de questão (zetema) estoica, é analisada por
Filon, que distingue entre a embriaguez como perda da razão (que é condenável) e a embriaguez como simples ingestão de vinho (que o sábio pode fazer, pois isso apenas lhe causa um relaxamento alegre, sem afetar sua sabedoria).
2. — O IDEAL PERIPATÉTICO E ACADÊMICO
Filon atribui um valor positivo à filosofia peripatética e à Nova Academia, não como um ideal supremo, mas como uma moral adequada aos seres humanos imperfeitos, que ainda precisam dos bens do corpo e dos bens exteriores para viver em sociedade.
A perfeição estoica, que exige a apatia completa e a indiferença a todos os bens exteriores, ultrapassa os limites da natureza humana e só convém ao espírito puro; para o homem comum, o peripatetismo, com sua afirmação da tripla divisão dos bens (da alma, do corpo e externos), é uma filosofia mais suave e sociável.
A doutrina da virtude como um justo meio termo entre dois vícios opostos, característica do peripatetismo, é adotada por
Filon como uma descrição do estado da alma que ainda é instável e precisa se proteger contra as tentações, sem cair nos excessos.
A vida política e prática, valorizada pelo peripatetismo, é considerada por
Filon como um caminho necessário e um prelúdio para a vida contemplativa, sendo própria da juventude, enquanto a velhice se reserva para os bens espirituais e para a contemplação.
3. — O CINISMO E O ASCETISMO
A influência do cinismo sobre a moral de
Filon é profunda e se manifesta sobretudo na identificação do prazer como a fonte de todo o mal e na exaltação do esforço (ponos) como o meio principal para adquirir a virtude.
Nos livros II e III das “Alegorias das Leis”,
Filon desenvolve uma história moral da alma na qual o prazer é o fundamento do pecado, pois atrai a sensação e, por meio dela, a inteligência, subvertendo a ordem natural que deveria colocar a razão no comando.
Contra o estoicismo,
Filon afirma que as paixões não são juízos falsos, mas afetos que residem na parte irracional da alma; contra o epicurismo, ele nega a existência de um prazer estável, mostrando que o prazer em si mesmo é algo móvel e enganador.
A virtude primordial que se opõe ao prazer é a temperança ou continência (enkrateia), que não se adquire sem uma série de penas e esforços sempre recomeçados, cujo conjunto constitui propriamente a “ascese”.
O elogio do esforço (ponos) é desenvolvido por
Filon em um longo discurso da Virtude, inspirado no famoso apólogo de Hércules entre o vício e a virtude (atribuído a Pródico), no qual se afirma que o esforço é o único meio de adquirir um bem, seja a virtude ou as artes, sendo a recompensa da virtude não o prazer, mas a própria alegria espiritual.
A ascese em
Filon envolve tanto exercícios corporais (temperança, jejum, abstinência) quanto exercícios espirituais (meditação, exame de consciência, leitura, prática do culto), sendo comparável à ascese descrita por Musônio Rufo e por Sêneca.
O asceta (asketes) é identificado com o “homem em progresso” (proficiens) dos estoicos, que ainda não atingiu a estabilidade da sabedoria e está sujeito a quedas e recaídas, vivendo uma vida alternante, ora elevada ora abaixada.
Filon critica o ascetismo radical dos cínicos mendicantes que se retiram do mundo para viver na solidão e na ociosidade, argumentando que a verdadeira ascese não foge do mundo, mas cultiva o recolhimento interior, suprimindo da alma as imagens sedutoras do mundo sensível.
4. — OS LIMITES DO CINISMO
Apesar da importância do ascetismo,
Filon limita seu alcance ao introduzir os conceitos de virtude por natureza e virtude por instrução, mostrando que o esforço humano não é a única via para a perfeição e que a graça divina tem um papel decisivo.
A tese de que a alma é moralmente neutra (nem boa nem má por natureza) e de que o corpo é um princípio de impureza e pecado entra em contradição com a afirmação da existência de uma virtude natural, que o homem possuiria sem esforço nem ensino.
Para resolver essa contradição,
Filon distingue dois sentidos de “sábio por natureza”: em um primeiro sentido, ele designa um modo de ser (tropos) da alma humana, caracterizado pela posse espontânea da virtude; em um segundo sentido, ele designa um ser real, mas esse ser não é mais um homem, e sim a inteligência pura que já habita o mundo inteligível.
O sentimento de alegria (chara) que acompanha a virtude não é um resultado do esforço humano, mas um dom divino, uma graça que penetra na alma de forma inesperada, sendo incompatível com o estado mortal e só podendo ser gerada pela alma incorruptível que se elevou acima de todo elemento mortal.
A teoria da graça em
Filon ainda é incipiente, mas já se pode perceber a tensão fundamental que marcará as discussões posteriores: se a graça é um dom gratuito que não depende do mérito, ou se ela pressupõe uma capacidade natural de recebê-la.
O “sábio por natureza”, como ser real, é identificado com o homem celeste ou divino, a inteligência pura que não tem nenhum vínculo com o corpo e que representa o ideal estoico do sábio, mas transportado para um mundo superior, funcionando como um intermediário entre Deus e os homens.
A virtude por instrução (mathesis) é discutida por
Filon no contexto do valor das disciplinas encíclicas (gramática, geometria, astronomia, retórica, música), que constituíam a educação grega superior de sua época.
Filon critica os sofistas (professores) que fazem da retórica um fim em si mesma, confundindo o discurso eloquente com a sabedoria prática, e também critica a erudição vazia (polimatia) dos especialistas que acumulam conhecimentos sem qualquer aplicação moral.
As disciplinas encíclicas são justificadas por
Filon como uma propedêutica necessária para os jovens, que ainda não estão preparados para receber diretamente o ensino da virtude; elas são como um caminho (hodos) ou um vestíbulo (propylon) que conduz à filosofia, mas não têm valor em si mesmas.
A filosofia, para
Filon, é essencialmente o sistema estoico, definido como a ciência das coisas divinas e humanas e de suas causas, dividida em lógica, física e ética; seu objeto próprio é o cosmos, e sua finalidade é moral, pois a contemplação da natureza celeste desperta no homem o desejo da ordem e o eleva acima dos bens exteriores.
No entanto, a filosofia é apenas um degrau na escada da sabedoria, pois ela não pode ultrapassar o cosmos para alcançar o mundo inteligível e a causa suprema, que só são acessíveis pela intuição mística.
5. — A CONSCIÊNCIA MORAL E O PECADO
A grande novidade da moral de
Filon é a substituição da demonstração racional, característica das éticas gregas, pelo sentimento interior do pecado e da perfeição, fazendo da consciência moral o princípio e a justificação última da vida ética.
O pecado (hamartia) consiste no afastamento interior de Deus, uma direção da vontade contrária ao reconhecimento de Deus como senhor do universo, e não em um erro intelectual (como na ética socrática) ou em uma simples desobediência a uma lei externa.
O pecado é essencialmente voluntário; existem faltas involuntárias, mas estas não são verdadeiramente pecados, pois o pecado verdadeiro implica uma escolha deliberada do mal, um orgulho (hybris) que leva o homem a se atribuir mais do que a Deus e a confiar em suas próprias forças.
Filon rejeita a tese estoica da igualdade dos pecados e estabelece uma hierarquia entre eles, classificando-os de acordo com a parte da alma que os comete (linguagem, órgãos genitais, cinco sentidos) e atribuindo a cada um deles uma gravidade diferente.
A noção de consciência moral (syneidesis) em
Filon deriva da tradição dos poetas trágicos (especialmente Eurípides) e dos historiadores (como Políbio), sendo descrita como um testemunho interior, um rei que comanda, um juiz que acusa e castiga ou recompensa a alma por suas ações.
No entanto,
Filon dá a essa noção popular um fundamento místico: a consciência não é uma faculdade inata da alma, mas a presença do divino no homem, uma graça que Deus envia à alma para melhorá-la, sendo um aspecto do Logos divino, ou um
anjo que inspira sentimentos de vergonha nos viciosos.
O progresso moral é descrito por
Filon como uma série de etapas que começam com a censura da consciência (elenchos), seguida pelo sentimento de vergonha (aidos), pela confissão dos pecados (exomologesis), e culminando no arrependimento (metanoia) e na esperança (elpis).
A confissão dos pecados é um ato interior, um diálogo da alma com Deus, e não necessariamente uma prática pública, embora
Filon mencione a possibilidade de uma confissão feita diante de ouvintes para edificação dos outros.
O arrependimento (metanoia) não é apenas o pesar pelos pecados cometidos, mas uma verdadeira transformação interior (metabole tes psyches), que faz o homem renascer para uma nova vida, obtendo o perdão de Deus e a remissão dos pecados.
Filon oscila entre duas posições quanto à eficácia do arrependimento: por vezes, ele afirma que o arrependido nunca se iguala ao que nunca pecou, pois as cicatrizes das antigas injustiças permanecem na alma; por outras vezes, ele afirma a igualdade completa entre o arrependido e o justo impecável, mostrando a força transformadora da penitência.
A unidade da moral de
Filon não está na coerência de um sistema, mas no fato de ser a primeira moral da consciência, que busca seu fundamento não em uma teoria física sobre o mundo, mas nos sentimentos interiores de temor, remorso e alegria libertadora, que são compreendidos como ações do divino sobre a alma.