LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908
A teoria dos intermediários em
Filon inclui uma série de seres, como a Sabedoria, o Espírito divino e as Potências, que possuem funções semelhantes às do Logos, por vezes com ele identificados.
O Logos é identificado com a Sabedoria divina, o mundo inteligível, o arquétipo, o
anjo, e as Graças divinas, em um sistema de divindade com muitos nomes (polionímia).
Uma hierarquia entre esses seres é estabelecida, como mostra o texto fundamental das “Questões sobre o Êxodo”, que enumera
o Logos, as potências e o mundo inteligível como os seres não sensíveis.
1. — A SABEDORIA DIVINA (SOPHIA)
A Sabedoria divina apresenta contradições em sua relação com
o Logos, sendo por vezes identificada a ele e por vezes subordinada, o que reflete origens históricas e mitológicas distintas.
Assim como
o Logos, a Sabedoria é um princípio da criação do universo e das virtudes, sendo chamada de mãe do mundo e princípio da virtude genérica.
Em certos textos, a Sabedoria é subordinada ao Logos, sendo descrita como a condutora da alma para
o Logos divino.
Em outros,
o Logos é apresentado como filho da união entre Deus (pai) e a Sabedoria (mãe), revelando uma hierogamia (casamento sagrado).
Essas contradições são explicadas pela mitologia helenística, especialmente pelos mistérios e pela teologia egípcia, onde a deusa Ísis é mãe e virgem, análoga à Sabedoria filoniana.
A união de Deus com a Sabedoria é apresentada como um mistério, onde a Sabedoria é esposa e filha de Deus, gerando o mundo ou
o Logos, o que aproxima
Filon dos mitos órficos e do tratado “Sobre Ísis e Osíris”.
2. — O HOMEM DE DEUS (ANTHROPOS THEOU)
A distinção entre o homem feito à imagem de Deus (ideal) e o homem moldado do pó da terra (terrestre) permite a
Filon desenvolver o conceito do “Homem de Deus”.
No tratado “Sobre a Criação do Mundo”, o homem à imagem de Deus é interpretado como a inteligência humana que guia a alma.
No “Comentário Alegórico”, o homem ideal é uma ideia ou modelo inteligível, incorpóreo e nem macho nem fêmea, distinto da inteligência terrestre destinada a entrar no corpo.
O homem ideal acumula todas as perfeições do sábio estoico e do primeiro homem (Adão) da lenda judaica, que é rei da natureza e cultiva o paraíso.
Essa fusão entre o Adão perfeito e o Anthropos celeste, que resulta em um ser andrógino, é uma síntese que pode ter paralelos na mitologia egípcia e nas tradições judaicas posteriores.
3. — OS ANJOS
Os
anjos são introduzidos por
Filon por meio de uma cosmologia que classifica os seres vivos segundo os elementos, sendo eles os habitantes do ar, chamados de demônios pelos filósofos.
4. — O ESPÍRITO (PNEUMA)
O Espírito (
pneuma) estoico, definido como o princípio ativo que dá coesão e unidade aos seres, é adotado por
Filon, mas sofre uma transformação radical ao se tornar um princípio de inspiração religiosa.
II. AS POTÊNCIAS DIVINAS (DYNAMEIS)
1. — O CULTO DIVINO COMO RAZÃO DA TEORIA DAS POTÊNCIAS
A teoria das potências divinas em
Filon é motivada principalmente pela necessidade de explicar os diferentes graus de conhecimento e adoração a Deus, próprios da alma humana imperfeita.
As almas muito fracas para alcançar
o Logos divino se detêm no conhecimento das potências, que são os atributos de Deus manifestos em sua ação criadora e governante.
Conhecer as potências não é a verdade sobre Deus (aletheia), mas uma opinião verdadeira (doxa), comparada às sombras projetadas pela luz ou aos pequenos mistérios de iniciação.
A alma em seu progresso moral passa sucessivamente pelo temor à potência real, pela esperança na potência benfeitora e pelo amor ao Criador, até alcançar a vida eterna do Logos.
2. — AS POTÊNCIAS COMO SERES MITOLÓGICOS
III. O MUNDO INTELIGÍVEL (KOSMOS NOETOS)
O mundo inteligível em
Filon deixa de ser apenas um conjunto de modelos platônicos e se torna um mundo de inteligências puras que praticam o culto divino, servindo como meio para se chegar a Deus.
As ideias platônicas são transformadas: não são independentes do demiurgo, mas são o próprio pensamento de Deus enquanto cria o mundo, combinando a unidade da causa divina (estoica) com a relativa independência das ideias (platônica).
As ideias são determinadas pelo método da divisão em contrários (bom/mau, inteligível/sensível) e são frequentemente identificadas com as potências divinas e as qualidades estoicas.
A imperfeição do mundo sensível é atribuída ao “mau uso” da matéria e, indiretamente, a uma mistura das ideias no mundo inteligível, uma interpretação peculiar de passagens do “Timeu” de Platão.