O Espírito (
pneuma) estoico, definido como o princípio ativo que dá coesão e unidade aos seres, é adotado por Filon, mas sofre uma transformação radical ao se tornar um princípio de inspiração religiosa.
II. AS POTÊNCIAS DIVINAS (DYNAMEIS)
1. — O CULTO DIVINO COMO RAZÃO DA TEORIA DAS POTÊNCIAS
-
A teoria das potências divinas em Filon é motivada principalmente pela necessidade de explicar os diferentes graus de conhecimento e adoração a Deus, próprios da alma humana imperfeita.
-
As almas muito fracas para alcançar o Logos divino se detêm no conhecimento das potências, que são os atributos de Deus manifestos em sua ação criadora e governante.
-
Conhecer as potências não é a verdade sobre Deus (aletheia), mas uma opinião verdadeira (doxa), comparada às sombras projetadas pela luz ou aos pequenos mistérios de iniciação.
-
A alma em seu progresso moral passa sucessivamente pelo temor à potência real, pela esperança na potência benfeitora e pelo amor ao Criador, até alcançar a vida eterna do Logos.
2. — AS POTÊNCIAS COMO SERES MITOLÓGICOS
-
As potências divinas filonianas, embora tenham uma função cosmológica no estoicismo, adquirem seu pleno sentido como entidades mitológicas e objetos de culto.
-
As duas potências mais antigas e elevadas são a potência poética (criadora), chamada Deus (Theos), e a potência real (soberana), chamada Senhor (Kyrios).
-
A potência poética está associada à Bontade e à Graça (Charis), enquanto a potência real está associada à Justiça (Diké) e à função de castigar, ambas identificadas com divindades da mitologia grega.
-
O conceito de mistura (crasis) das potências é apresentado como uma doutrina misteriosa, onde as potências, embora opostas, se unem e se limitam mutuamente para que o mundo e a alma possam conter a ação divina.
III. O MUNDO INTELIGÍVEL (KOSMOS NOETOS)
-
O mundo inteligível em Filon deixa de ser apenas um conjunto de modelos platônicos e se torna um mundo de inteligências puras que praticam o culto divino, servindo como meio para se chegar a Deus.
-
As ideias platônicas são transformadas: não são independentes do demiurgo, mas são o próprio pensamento de Deus enquanto cria o mundo, combinando a unidade da causa divina (estoica) com a relativa independência das ideias (platônica).
-
As ideias são determinadas pelo método da divisão em contrários (bom/mau, inteligível/sensível) e são frequentemente identificadas com as potências divinas e as qualidades estoicas.
-
A imperfeição do mundo sensível é atribuída ao “mau uso” da matéria e, indiretamente, a uma mistura das ideias no mundo inteligível, uma interpretação peculiar de passagens do “Timeu” de Platão.