Após a guerra, aparece Melquisedeque, rei de Salém (antiga Jerusalém), sacerdote de El Elyon (o Deus Altíssimo), que oferece pão e vinho e abençoa Abraão, que lhe dá o dízimo.
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A diferença crucial é que Abraão responde ao rei de Sodoma retomando a fórmula de Melquisedeque (“Deus Altíssimo, mestre do céu e da terra”), mas com a adição do verdadeiro nome divino: Senhor (14.22).
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A epístola aos Hebreus (Novo Testamento) usa Melquisedeque para demonstrar a superioridade do sacerdócio de Jesus sobre o levítico, mas a argumentação é frágil (a bênção de Melquisedeque a Abraão não prova superioridade, e o autor ignora que o rei de Salém era um idólatra).
A ruptura entre o cristianismo e o judaísmo (obra de Paulo) foi inevitável para atrair as massas pagãs, abolindo a santidade, a observância, a circuncisão e as obras; o cristianismo pôde conquistar o mundo, tornando-se seu escravo e cúmplice.
O pacto dos animais partilhados (animais cortados ao meio) significa que Deus passará no meio deles para confirmar a aliança, mas também para avisar Abraão de que sua posteridade será escravizada por quatrocentos anos (15.13).
O versículo “Ele creu no Senhor, e Ele o imputou como justiça” (15.6) pode ser interpretado de três maneiras:
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Interpretação clássica: Abraão creu nas promessas, e Deus lhe imputou isso como justiça (base para a teoria paulina da justificação pela fé, dispensando as obras).
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Segunda interpretação: Abraão imputou a justiça a Deus por lhe ter feito a promessa, vendo-a como um ato de misericórdia.
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Terceira interpretação: o sujeito do primeiro verbo é a posteridade (que crerá no Senhor, e isso lhe será imputado como justiça).
Como Sarai não dava filhos, ela deu sua escrava Agar a Abraão, que gerou Ismael; treze anos depois, Deus aparece pela segunda vez a Abraão, muda seu nome para Abraão, estabelece a aliança da circuncisão e muda o nome de Sarai para Sara.
A terceira aparição de Deus a Abraão (nos carvalhos de Manre) anuncia o nascimento de Isaac e a destruição de Sodoma.
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Deus diz que escolheu Abraão para que ele ordene a seus filhos e sua casa depois dele que guardem o caminho do Senhor, praticando a virtude (tsedaka – misericórdia) e a justiça (mishpat – direito rigoroso).
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Abraão, então, intercede por Sodoma, perguntando: “Farias perecer o justo com o ímpio?” e barganha para que a cidade seja poupada se houver ao menos dez justos.
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Pela primeira vez, a questão fundamental da justiça se coloca: os maus serão perdoados pelo mérito dos justos que vivem entre eles? Abraham ensina que o amor supera a justiça.
Toda a história de Abraão se concentra em torno de sua posteridade; ele rejeita sucessivamente Ló, Eliezer e Ismael, até que Deus lhe promete Isaac como filho da aliança, nascido de Sara, a esposa legítima e parente próxima.
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Também se concentra em torno da terra prometida, que é dada a Abraão e sua descendência como posse perpétua.
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Além da terra e da descendência, a história de Abraão é a de uma fé total, expressa pela palavra “hinéni” (“eis-me aqui” ou “estou pronto”), dita em resposta ao chamado de Deus antes mesmo de saber o que lhe será pedido.
Deus diz: “Toma teu filho, teu único, aquele que amas, Isaac”; a liberdade de Abraão é absoluta (o verbo hebraico tem uma partícula que indica uma prece, não uma ordem), mas ele já respondeu “hinéni”, indicando que na alma conquistada pelo divino não há hesitação.
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A narrativa do sacrifício de Isaac é um dos pontos culminantes da Escritura, onde Abraão vai além do amor humano, alcançando a “crainte de Deus” (tradução inadequada para um sentimento que não é medo, mas a relação inumana do místico com o divino).
O livro do Gênesis nunca aplica o verbo “amar” à relação do homem com Deus, usando-o apenas para o amor humano (Abraão ama Isaac, Isaac ama Rebeca, Jacó ama Raquel).
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O termo usado para a relação de Abraão com Deus é a “crainte” (yir’ah), que expressa a experiência mística de solidão e deslumbramento.
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O amor de Deus (introduzido a partir do Êxodo) é uma representação social da relação homem-divindade, típica do pagão e do cristão, que necessitam de um ídolo ou símbolo.
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A “crainte de Deus” é o termo que qualifica a fé absoluta dos patriarcas e profetas, e só pode ser compreendida pelos santos de Deus.
O dilema de Abraão (sacrificar Isaac e perder a posteridade, ou recusar e perder Deus) é um falso dilema, pois a recusa seria a inação, e não um verdadeiro livre arbítrio entre duas ações positivas.
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Abraão escolhe sacrificar Isaac porque, mesmo sem descendência, Deus continuaria sendo seu Deus (Deus pessoal), o que é mais precioso do que uma posteridade.
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O ato de Abraão não é um dever moral ou religioso, mas um ato livre que obedece a uma necessidade interior absoluta; sem ele, nada pode subsistir no mundo.
Isaac caminha com seu pai em silêncio, sabendo que ele é a vítima; sua aceitação total é expressa pela frase repetida “e eles caminhavam ambos juntos”.