ORÍGENES — COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DE JOÃO
Tradução de Cécile Blanc, na coleção Sources chrétiennes, COMMENTAIRE SUR SAINT JEAN.
A publicação do comentário de Orígenes sobre João é apresentada como os primeiros frutos de um trabalho cuja introdução definitiva só será composta após a conclusão de toda a tradução.
ELEMENTOS BIOGRÁFICOS
O comentário sobre João é uma das primeiras obras de Orígenes, iniciada em Alexandria após uma viagem a Antioquia a pedido da mãe do imperador Alexandre Severo.
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Segundo Eusébio,
Orígenes começou seus comentários sobre as Escrituras ao retornar a Alexandria, depois de um encontro com Mammae em Antioquia.
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Orígenes tinha pelo menos trinta e três anos quando começou o trabalho, pois tinha dezessete em 202, ano da morte de seu pai Leônidas.
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A notoriedade de
Orígenes era grande devido à sua vida austera, aos sucessos de sua catequese e à sua prodigiosa erudição.
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Antes de partir de Alexandria por volta de 231, ele escreveu os primeiros livros do comentário sobre João, Gênesis e
Salmos, além do comentário sobre Lamentações, o livro sobre a Ressurreição, De Principiis e os Stromatas.
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Orígenes confiou a catequese dos iniciantes a Heráclas para se dedicar a uma forma de exposição da doutrina cristã voltada também para os cultos.
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Ele converteu um rico
valentiniano chamado
Ambrósio do gnosticismo à fé da Igreja, a pedido de quem escreveu o comentário sobre João.
OBJETIVO DO AUTOR
O comentário sobre João foi composto em parte para refutar Heracleão e para responder à expectativa dos intelectuais cristãos que poderiam ser atraídos pela gnose.
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Contra os hereges,
Orígenes proclama a unidade de Deus, a personalidade distinta do
Filho com sua divindade, a unidade da revelação e da natureza humana.
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O cuidado pastoral de
Orígenes vai além de proporcionar a verdade, pois a mais alta contemplação terrestre é apenas uma sombra da visão futura, quando caírem as opacidades da vida terrena.
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Orígenes mostra a todos os cristãos que Cristo habita neles e, por meio de um único Cristo, uma multidão de cristos vem à existência.
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O homem recebe ajuda na transformação pela oração dos
anjos, dos santos falecidos e dos mártires, além da intervenção divina de diversas maneiras.
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A atividade mais digna de um cristão é buscar compreender a Palavra de Deus, que é
Jesus Cristo, escondida sob o véu da letra no
Evangelho.
A GNOSE
Orígenes empreendeu seu comentário diante da gnose para reconhecer a verdade e combater o erro por meio da exegese, enfrentando problemas como a origem da multiplicidade, da matéria e do mal.
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O termo gnose é usado para designar as heresias dos primeiros séculos, embora
Orígenes e Clemente o usassem para o conhecimento de Deus.
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Os gnósticos, diferentemente dos monarquianistas, modalistas ou proto-arianos, reconheciam vários deuses, opondo-os ou subordinando-os.
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Marcião rejeitava o
Antigo Testamento e compôs seu próprio cânon a partir do texto expurgado de Lucas e algumas epístolas de Paulo.
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Para Basílides e Valentim, o demiurgo formava o mundo visível, sendo considerado o deus do
Antigo Testamento.
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Valentim ensinava que o
Pai transcendente dava origem a um primeiro casal de éons, Inteligência e Verdade, que emitiam Verbo e Vida.
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O último éon, Sabedoria, ao querer sair de seus limites, causou o aparecimento do mal, da matéria e dos demônios.
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Dos germes espirituais vindos do pleroma resultavam três naturezas: a material (hílica), a psíquica e a espiritual (pneumática).
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Orígenes se opõe a esses ensinamentos afirmando que Deus concede os bens celestiais aos homens apesar de sua natureza inferior, e que o homem, antes trevas, pode se tornar luz.
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Heracleão, discípulo de Valentim, é conhecido principalmente por meio dos escritos de
Orígenes, que o cita para refutá-lo.
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Orígenes critica Heracleão e os discípulos de Marcião por fazerem violência ao texto das Escrituras, interpretarem arbitrariamente, rejeitarem a Igreja e criarem fábulas.
UM PROBLEMA PARTICULAR: A PRÉ-EXISTÊNCIA
O pensador cristão, ao refletir sobre Jesus Cristo e a ressurreição, busca conciliar a responsabilidade humana com a presciência e a onipotência de Deus, enfrentando duas correntes da filosofia grega.
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A tendência materialista, de Demócrito e Epicuro, não buscava nada além da vida presente, considerando a alma como um princípio de vida momentâneo.
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A tendência espiritualista, de Pitágoras e Platão, afirmava a grandeza da alma humana, destinada à imortalidade e responsável por seus atos.
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Empédocles via nas almas humanas seres divinos, porém culpados e momentaneamente exilados do céu, sua verdadeira pátria.
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Platão afirmava que o destino de toda alma é viver na companhia dos deuses e que, sendo imortal, não tem começo, sendo a maneira como viveu determinante para suas reencarnações.
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Plutarco declarava que a parte superior da alma, chamada por alguns de “nous”, é, de fato, um “daimon”.
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Filon de Alexandria reinterpretou a filosofia grega, afirmando que os que Moisés chama de sábios são descritos como estrangeiros residentes, considerando o espaço celestial como sua pátria.
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Justino afirmava que a alma, tendo sido criada, não possui a imortalidade por natureza, mas a recebe de Deus como um dom para quem observa seus mandamentos.
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Irineu combatia a metempsicose e insistia na unidade do composto humano (corpo, alma, espírito), afirmando que a alma não existiu antes do corpo.
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Clemente de Alexandria falava da pátria celestial e das alturas sublimes de onde o homem caiu, podendo ser interpretado como pré-existência.
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Tertuliano rejeitava totalmente a pré-existência, afirmando que a alma foi criada ao mesmo tempo que o corpo e por um mesmo ato.
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Orígenes, respondendo aos gnósticos, afirmava que Deus criou todas as almas originalmente iguais e igualmente dotadas de liberdade.
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Em busca de afirmar a justiça de Deus e a liberdade do homem,
Orígenes considerava a pré-existência provável, mas rejeitava claramente a metempsicose e a reencarnação.
ANÁLISE
A análise dos primeiros livros do comentário abrange desde uma introdução sobre os diferentes sentidos de evangelho até a explicação detalhada dos primeiros versículos do prólogo de João, incluindo a natureza do Verbo e o testemunho de João Batista.
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No livro I,
Orígenes discute as categorias do povo de Israel e dos cristãos, concluindo que o estudo dos primórdios da Escritura, o
Evangelho, é a atividade daqueles consagrados ao culto de Deus.
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O autor estuda o valor dos livros do Novo Testamento, afirmando que os escritos dos apóstolos são, à sua maneira, um
evangelho, mas os quatro
evangelhos, especialmente o de João, têm um lugar privilegiado.
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A explicação dos primeiros versículos de João (No princípio era o Verbo) ocupa a parte final do livro I, onde
Orígenes passa em revista todos os sentidos da palavra “arché” (princípio).
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O comentário avança mais rapidamente a partir do livro II, que estuda os sete primeiros versículos do prólogo, começando pela frase E o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
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Orígenes distingue entre o Deus (o
Pai) e um deus (aquilo que participa do
Pai pelo
Filho), havendo várias categorias de verbos que se degradam a partir do primeiro Verbo.
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O comentário sobre Todas as coisas foram feitas por seu intermédio estabelece que o Verbo é causa instrumental, e
Orígenes afirma que o
Espírito Santo tira sua origem do
Pai pelo Cristo, sendo superior a todo o resto.
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Sobre a frase Sem ele nada foi feito,
Orígenes argumenta que o mal é esse nada que não foi criado por Deus, aplicando essa teoria ao
diabo e ao assassino.
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Ao comentar O que foi feito nele era vida e a vida era a luz dos homens,
Orígenes afirma que a vida e a luz são privilégios do santo, sendo Deus o único que possui verdadeiramente a vida.
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A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam; existem várias luzes (mandamentos, conhecimento) e várias trevas (más ações, falsas opiniões), e as Escrituras também conhecem boas trevas.
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Sobre Houve um homem enviado por Deus; seu nome era João,
Orígenes vê a prova da pré-existência da alma de João, pois todo envio implica uma mudança de lugar.
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O precursor do Cristo é a voz que revela a Palavra de Deus, e ele veio como testemunha para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
A PRESENTE EDIÇÃO
A presente edição do comentário se baseia no texto estabelecido por Preuschen, a partir do manuscrito Monacensis 191, com algumas correções indicadas em notas.