===== BOUTROUX ===== //LE PHILOSOPHE ALLEMAND JACOB BOEHME (1575-1624)// * Não é comum, mesmo na Alemanha, atribuir ao sapateiro teósofo da Renascença, Jacob Boehme, um lugar importante na história da filosofia. * Reconhece-se nele, com Hegel, um espírito poderoso. * Diante de uma obra escura e confusa com doutrinas voltadas à teologia e à edificação cristã, recusa-se a enxergar monumentos da ciência profana e racional. * Uma apreciação dessa natureza mostra-se natural na França, onde a filosofia, segundo o espírito de Descartes, depende sobretudo do entendimento e desconfia do misticismo. * O espírito cartesiano francês afasta-se de construções teosóficas. * Na Alemanha, a filosofia não assumiu de forma constante a vestira racionalista. * Ao lado da linhagem de Leibnitz, Kant, Fichte e Hegel, que representam a escolástica alemã moderna, existe a série de filósofos da crença, da religião ou do sentimento. * Integram essa vertente Hamann, Herder, Jacobi, o Schelling teósofo e o filósofo cristão Franz von Baader. * Esses pensadores configuram-se como dissidentes místicos diante dos racionalistas, assim como outrora Eckhart e Tauler se posicionaram frente ao racionalismo tomista. * Mesmo os filósofos alemães da reflexão e do conceito, como Kant e Hegel, revelam-se menos isentos de misticismo e de teosofia do que aparentam ou declaram quando analisados pelo fundo e espírito de suas doutrinas. * Esses pensadores clássicos também situam o absoluto verdadeiro no espírito, concebido como superior às categorias do entendimento, e buscam fundamentar a natureza nesse absoluto. * A forte marca de misticismo e teosofia presente nos sistemas filosóficos alemães, inclusive nos clássicos, exige grande atenção ao sapateiro teósofo na busca pelas origens da filosofia local. * Desperta-se o questionamento se Boehme não merece o nome de filósofo alemão, título que recebeu ainda em vida de seu admirador e amigo, doutor Walther. * À primeira vista, a designação de filósofo parece não convir a Boehme, que não se apresenta como sábio, dialético ou pesquisador desinteressado. * Filho de camponeses, o teósofo iniciou a vida como pastor de rebanhos. * Posteriormente, estabeleceu-se como sapateiro em Görlitz, cidade vizinha ao seu local de nascimento, onde exerceu o ofício conscientemente no temor do Senhor. * Casou-se com Catharina Kuntzschmann, filha de um honrado açougueiro da cidade, com quem teve quatro filhos e, segundo relatos, duas filhas. * Os filhos foram educados de acordo com a condição familiar e tornaram-se operários. * A existência do sapateiro transcorreu na piedade, simplicidade e humildade cristã. * A meditação sobre assuntos religiosos revelava-se constante em sua rotina. * Toda a preocupação residia em buscar no coração de Deus um abrigo contra a cólera divina e contra a maldade do diabo. * A produção escrita de Boehme foi considerável, levantando indagações sobre as fontes em que se baseou. * Sem leitura de clássicos ou escolásticos, o sapateiro conhecia apenas os místicos e teósofos. * O conhecimento obtido derivava, antes de tudo, de revelações pessoais e sobrenaturais. * A luz celeste manifestou-se quatro vezes ao pensador, que vislumbrou ora o Cristo, ora a Virgem eterna. * As aparições proporcionaram mais ensinamentos em poucos instantes do que anos de frequência às escolas. * No início de cada obra consta a inscrição: escrito em virtude de uma iluminação divina. * A obra escrita reflete diretamente as condições excepcionais de sua composição. * O conteúdo apresenta um amálgama confuso de teologia abstrusa, alquimia, especulações sobre o insaisissável, poesia fantástica e efusões místicas, configurando um caos cintilante. * A primeira obra composta por Boehme intitula-se A aurora nascente, ou a raiz e a mãe da filosofia, da astrologia e da teologia consideradas em seu verdadeiro princípio descrição da natureza, onde se vê como todas as coisas foram na origem. * O texto aborda a gênese da santa Trindade, a criação e a queda dos anjos, a criação e a queda do homem, a redenção e os fins últimos do mundo. * A ciência expressa na obra funciona como uma alucinação metafísica que busca fazer ver muito mais do que demonstrar. * A linguagem sofre constante violência para expressar o inexprimível. * Termos da antiga mística, da alquimia e da filosofia são amplamente utilizados. * Significados de sutileza inédita são impostos às palavras para que haja infinito e mistério no fundo de todo pensamento. * Questiona-se a possibilidade de o historiador da filosofia colher matéria em tal obra sem transformar arbitrariamente em conceitos o que no autor é pura intuição e imaginação. * Julgar um homem que visava apenas libertar o espírito da letra exige não se deter nas aparências. * Boehme não se reduzia ao homem simples e ignorante que afirmava ser. * Uma inteligência viva e aberta caracterizava o pensador, conforme notado por seus primeiros mestres. * A existência do sapateiro transcorreu em uma época e em um país nos quais se agitavam os maiores problemas espirituais. * A antiga mística ainda florescia na Alemanha com Schwenckfeld e Sébastien Franck. * Desenvolvia-se paralelamente, desde Nicolau de Cusa e sob influência do naturalismo italiano, uma teosofia brilhante que reabilitava e divinizava a natureza antes anulada pelos místicos da Idade Média, representada por Agrippa de Nettesheim e Paracelso. * No campo moral, Luther havia oposto ao otimismo de Eckhart e seus discípulos a doutrina do mal radical e positivo, que se ergue contra Deus como adversário real e não como mera privação. * Os novos princípios teológicos entraram cedo em relação ou conflito com as bases da antiga mística. * O protestantismo ensaiava a reconciliação de suas origens místicas e paulinas, de seu monismo espiritualista e dualismo moral, de seu princípio de liberdade e de disciplina. * A teosofia unia-se à mística em Valentin Weigel, que oferecia à reflexão subjetiva de Eckhart o homem de Paracelso — resumo e perfeição das três naturezas, terrestre, sideral e divina, que compõem o universo criado. * Boehme participou avidamente desse movimento de ideias desde a juventude. * Nas viagens como companheiro sapateiro para se tornar mestre, o jovem conversava sobre temas religiosos e teosóficos, observava, lia e refletia. * As leituras, embora pouco numerosas, concentravam-se em livros importantes e de forma profunda. * A Bíblia representava o livro dos livros, atuando como o aguilhão mais poderoso da reflexão desde Luther. * O sapateiro também estudou os escritos de diversos mestres da espiritualidade. * A leitura de Schwenckfeld alertou Boehme para as objeções contra a doutrina da satisfação vicária, que substitui pela ação exterior a operação interna da graça. * A leitura de Paracelso agradou ao pensador por revelar o apóstolo da vida, a potência mágica da imaginação e o vislumbre da imagem de Deus no mundo e no homem natural. * O estudo da alquimia foi direcionado à busca de seu sentido espiritual e verdadeiro. * A transmutação alquímica operou como símbolo do novo nascimento ao qual o homem é chamado. * A pedra filosofal realizou-se aos olhos do teógrafo na potência da fé e do abandono a Deus. * A leitura de Valentin Weigel impregnou o sapateiro do misticismo espiritualista herdado de Tauler, da teologia alemã, de Schwenckfeld e de Sébastien Franck. * Através de Weigel, concebeu-se a ideia de combinar a mística e a teosofia. * A leitura de Boehme estendeu-se para além dos livros, aplicando-se diretamente à natureza. * Tudo o que a natureza oferece aos olhos constituía um ensinamento para o sapateiro. * A matéria não representava um ser à parte ou estranho ao espírito, mas o próprio espírito revelado e visível. * O teósofo contemplava com recolhimento as estrelas, o sol, os elementos da terra, o crescimento da árvore, o instinto animal e a luta interior do homem contra o mal. * Na comunicação imediata com a natureza, aguardava-se que esta lhe infundisse seu espírito e revelasse os mistérios do ser. * A busca do pensador direcionava-se ao ser eterno, interior e vivo em tudo e por toda parte. * Os fenômenos naturais e as doutrinas dos livros funcionavam como signos a decifrar, não como o objeto final do conhecimento. * A leitura e a observação serviam para fornecer a matéria onde o espírito encontrava apoio para refletir. * O esforço de Boehme consistia em libertar o espírito da letra, captar a força atuante no fenômeno inerte e penetrar até as fontes primeiras da realidade. * A experiência interior e a reflexão consolidaram-se como os verdadeiros meios de investigação do teósofo. * A meditação assumia a forma de prece e as descobertas eram tidas como revelações divinas decorrentes da iluminação. * A explicação que o indivíduo confere ao modo como as ideias entram na consciência importa menos do que o valor intrínseco do pensamento. * A geometria analítica de Descartes não perde a verdade pelo fato de o matemático reportar sua invenção à assistência da Santa Virgem. * Pertence à constituição do espírito humano atribuir inicialmente a uma revelação sobrenatural as ideias novas que surgem com força e beleza. * As essências platônicas, o intelecto de Aristóteles, o ideal cristão e os princípios supremos do conhecimento foram recebidos como seres em si antes de serem explicados pelas leis do espírito humano. * O natural manifestou-se primeiramente como sobrenatural, pois o gênio desconhece o próprio processo e surge para si como um Deus que visita a criatura. * Boehme não se limitou a receber revelações na inteligência, atuando também como um visionário. * A sabedoria não criada e a Virgem eterna apareceram diversas vezes ao sapateiro. * Um entusiasmo místico excessivo pode tanto aumentar quanto enfraquecer as forças do espírito humano. * O abalo do organismo físico resulta frequentemente da tensão excessiva a que o espírito submete o corpo para realizar suas criações. * O caniço pensante verga sob o esforço da reflexão mais do que sob o peso da matéria. * A única chave e medida da obra de um pensador ou de um artista reside na própria obra realizada. * O autor funciona como o molde que se quebra para que se possa ver a estátua. ** II ** * A análise da obra de Boehme revela tanto seu espírito e significado interno quanto seu conteúdo real e objetivo para a história. * A investigação deve conciliar a intenção do autor e o escopo histórico. * O móvel das reflexões do sapateiro teósofo concentrou-se na busca exclusiva pela salvação. * Desde a juventude, buscou-se apenas uma coisa: o salvação da alma, o meio de conquistar e possuir o reino de Deus. * O objetivo puramente prático e religioso provocou profundas especulações metafísicas no espírito de Boehme. * A busca mística desencadeou um desdobramento filosófico. * O conceito de posse divina foi aprendido pelo pensador por meio dos ensinamentos dos antigos mestres místicos. * Esses mestres ensinavam que não se deve assimilar a posse de Deus à posse de uma coisa material. * Deus define-se como espírito, ou seja, potência geradora anterior a toda essência, inclusive à própria essência divina. * O espírito manifesta-se como vontade pura, infinita e livre, voltada à realização da própria personalidade. * A recepção de Deus não ocorre por meio de uma operação passiva na alma humana. * A divindade só é possuída se criar a si mesma no interior do indivíduo. * Possuir Deus equivale a viver a própria vida de Deus. * A concepção do homem natural foi assimilada por Boehme a partir das teses de Luther. * O homem natural não se reduz a um filho distante do pai, e a distância entre a criatura e Deus não é um espaço inerte ou um não-ser sem resistência. * O homem natural encontra-se revoltado contra o criador, erguendo-se o pecado como uma potência real e positiva que se opõe à ação divina. * O mal não se define como mero não-ser, mas como um ser verdadeiro que luta contra o bom princípio. * A guerra efetiva observada por Luther na consciência humana foi reencontrada por Boehme em toda a extensão da natureza. * A oposição espiritual projeta-se sobre o mundo físico. * O conflito manifesta-se no sol, nas estrelas, nas nuvens, na chuva, nas criaturas racionais e nas irracionais, como madeiras, pedras e elementos da terra. * Por toda parte divisa-se o mal face ao bem, a cólera em face do amor, a oposição entre o sim e o não. * A própria justiça terrena mostra-se em luta constante contra o seu contrário. * Os ímpios prosperam tanto quanto os fiéis, e povos bárbaros dominam as mais ricas regiões, gozando dos bens da terra mais do que os servos de Deus. * A observação dessas contradições lançou o teósofo em profunda melancolia, perturbando o seu espírito. * Nenhum livro conhecido trouxe consolo ao pensador nesse estado. * O diabo espreitava o sapateiro, soprando pensamentos pagãos difíceis de expressar. * Questionamentos surgiram na consciência de Boehme sobre a soberania e a bondade absolutas de Deus. * Indagava-se se Deus é realmente amor, como ensina o cristianismo, e se é todo-poderoso a ponto de nada ter realidade diante dele. * O diabo intentava fazer com que o pensador renunciasse a penetrar o mistério, adormecendo-o na indiferença. * Os desígnios do adversário foram percebidos e combatidos pelo teósofo. * A tarefa autoproposta por Boehme consistiu em conciliar o fim ideal da atividade humana com a realidade corrompida do mundo. * Buscou-se harmonizar o ideal otimista dos místicos com o pessimismo de Luther e o realismo factual. * A revolta radical do homem e da natureza contra Deus gerou o desafio de manter a possibilidade do nascimento divino na alma. * Se o homem, como árvore podre, só faz o mal, restaria apenas abandoná-lo à podridão ou lançá-lo ao fogo. * Se a natureza está em oposição absoluta a Deus, ou Deus nada pode sobre ela, ou deve destruí-la. * O problema místico tradicional transformou-se no espírito do sapateiro a partir desse impasse realista. * Enquanto os místicos buscavam saber como Deus nascia no que não é ele, Boehme questionou como Deus pode renascer naquilo que violentamente se separou dele. * A solução do problema exigiu a descoberta da fonte da existência divina e da origem do mundo e do pecado. * Essa ciência confunde-se com a própria regeneração. * Quando atinge as fontes, o conhecimento confunde-se com a ação e a realidade. * Ver as coisas do ponto de vista de Deus significa renascer para a vida divina. * A divisão fundamental do sistema de Boehme estabeleceu-se em três eixos principais. * O primeiro eixo investiga como Deus gera a si mesmo. * O segundo eixo examina por que e como Deus criou o mundo, e como o mal se introduziu nele. * O terceiro eixo analisa como Deus pode renascer no seio da criatura corrompida e quais são os fins últimos dos seres. * A questão da origem e do fim foi posta em sua total generalidade, dominando todas as outras subdivisões do conhecimento. * O foco metafísico deslocou-se em relação à tradição filosófica. * O filósofo buscou compreender como se fez o próprio absoluto, diferenciando-se dos antigos que buscavam a posteriori princípios estáveis sob o movimento dos fenômenos. * Os antigos não conheciam meio-termo entre um absoluto indeterminado ilusório, como o acaso, e um absoluto pleno, como a inteligência. * Para Boehme, toda natureza resulta de uma ação, descendendo, no caso do próprio Deus, da potência infinita até a produção do ser determinado. * A filosofia de Boehme configurou-se como uma construção, em contraste com a filosofia dos antigos, que era sobretudo uma classificação. * O problema da gênese substituiu o problema da essência das coisas. * O sistema despontou como a aurora de uma filosofia nova, focada na pessoa consciente, livre e atuante. * A linha de pensamento pode ser denominada filosofia da personalidade, considerada em si mesma e em suas relações com a natureza. * Os meios da filosofia ordinária revelaram-se impotentes para a pesquisa da origem que faz o ser brotar do nada. * Trata-se de captar a passagem do nada ao algo. * A erudição acadêmica resulta apenas em opiniões e ideias abstratas desligadas da fonte viva. * A própria Bíblia, se consultada sem que se retorne para além dela, permanece letra morta e símbolo inexplicado. * Os sentidos e a razão exterior partilham das mesmas limitações atribuídas à erudição. * Os sentidos dão a conhecer apenas o exterior fixado e os produtos das coisas, não o fundo e a vida interna. * A razão exterior, baseada na elaboração natural dos dados da experiência, permanece tão morta quanto os materiais que reúne. * Essa razão analisa e separa os objetos, arrancando-os do todo vivo e tornando-os seres fictícios incapazes de instruir sobre a origem verdadeira. * A razão exterior insinua ao homem que o mal equivale ao bem e que a existência do Deus da religião é problemática ao constatar a prosperidade dos maus. * O erro comum dessas abordagens reside em serem passivas e mortas. * Os métodos tradicionais supõem um objeto realizado e colocam o espírito como um espelho inerte diante dele. * Apenas um método vivo pode permitir a penetração nos mistérios da vida. * Somente o ser conhece o ser, sendo necessário engendrar com Deus para compreender a geração. * O método verdadeiro consiste em assistir e tomar parte na operação divina que resulta no florescimento da personalidade. * O conhecimento define-se como consciência da ação. * Esse método caminha da causa para o efeito, enquanto o método puramente lógico tenta em vão elevar-se do efeito à causa. * A incapacidade do homem de ascender a Deus por forças próprias não impede o processo metodológico interno. * Subir até Deus mostra-se impossível, pois não há transmutação da criatura no criador. * Se o homem não pode subir a Deus, Deus pode descer ao homem. * A descida divina não ocorre por coerção de falsa magia ou por obras de devoção exterior. * Deus desce no homem se este morre para a sua natureza inata e corrompida, oferecendo-se à ação divina. * O ensinamento de Christ apontou a necessidade de nascer de novo para ver o reino de Deus. * A conversão do coração abre os olhos da inteligência, permitindo ao homem novo ver o mundo divino onde habita, assim como o homem exterior vê o mundo físico. * O retorno para Deus é possível ao homem porque este foi criado à imagem da divindade. * O indivíduo deve entrar no mais profundo de si mesmo, desengajando o homem interior do homem exterior. * A exortação mística sintetiza o caminho da autocompreensão espiritual e da união com o criador. * Considera-te a ti mesmo, busca-te, encontra-te — eis a chave da sabedoria. Tu és a imagem e o filho de Deus. * Tal é o desenvolvimento do teu ser; tal é, em Deus, o eterno nascimento. * Deus é espírito, e, da mesma forma, em ti, o que comanda é espírito e foi criado da soberania divina. * O posicionamento do homem no ponto de vista interno da gênese universal transforma o que era névoa em símbolo transparente. * A erudição, a Bíblia, a tradição, os conceitos e os fenômenos ganham animação e vida sob o olhar do espírito. * A palavra eterna que fala no fundo do indivíduo revela o sentido verdadeiro da palavra escrita e sensível. * Há uma reciprocidade de ação entre o interior e o exterior. * A observação das coisas exteriores jamais revelaria por si mesma o princípio manifestado, que exige ser apreendido em si próprio. * O primeiro ser apresenta-se inicialmente como uma forma vazia. * É pela justa interpretação dos fenômenos que o princípio toma corpo e se determina. * O espírito primordial jamais encontra nos fenômenos uma expressão inteiramente adequada. * Sendo infinito, o espírito não pode ser totalmente manifestado, pois toda manifestação utiliza o finito. * O espírito constitui, por essência, um mistério eterno. * Os fenômenos devem ser usados para vislumbrar os detalhes das perfeições divinas, lembrando que são manifestações imperfeitas. * Os discursos sobre a origem de Deus e das coisas devem apelar às imagens dos sentidos e da razão apenas como metáforas grosseiras. * As metáforas devem ser entendidas em espírito e em verdade. * A sabedoria de Deus não se deixa descrever. ** III ** * A máxima da indescritibilidade da sabedoria aplica-se logo no primeiro passo da teosofia ao tratar do nascimento de Deus. * A exposição aborda a maneira como Deus sopesa e engendra a si próprio. * Falar em nascimento de Deus em sentido literal constitui o uso da linguagem do diabo. * O sentido literal sugeriria que a luz eterna brotou das trevas e que Deus teve um começo. * O uso do termo nascimento impõe-se pela limitação da linguagem humana para a compreensão mútua. * Como seres limitados, os homens falam fragmentando as coisas e quebrando a unidade do todo. * Não há em Deus alfa nem ômega, nascimento nem desenvolvimento. * A ordenação sucessiva dos fatos é uma imposição discursiva, cabendo ao leitor não ler com os olhos da carne. * A natureza eterna engendra a si mesma sem que haja um começo cronológico para o processo. * Boehme aborda aqui o problema clássico da aseidade. * O teósofo exige que a expressão Deus causa de si ganhe um sentido preciso, concreto e positivo, distanciando-se dos escolásticos que a viam como propriedade negativa. * Sonda-se o mistério dessa causa como a questão primeira e capital para iluminar todas as outras. * A pesquisa não cessa até que se reconstrua pelo pensamento a sequência lógica das operações pelas quais Deus se eleva do nada à plena existência. * Investiga-se o germe a partir do qual Deus se engendrou no início. * No início estava o ser que não supõe nada antes de si, no qual nada é essência, natureza, forma finita ou determinada. * Tudo o que existe como coisa determinada exige uma causa e uma razão. * O espírito humano concebe esse ser inicial apenas como o nada eterno, o infinito, o abismo, o mistério. * O termo Ungrund é empregado para designar a fonte primeira das coisas, indicando a ausência de base abaixo de Deus e a não manifestação do fundamento. * O infinito primordial caracteriza-se em si mesmo como silêncio, repouso sem começo nem fim, paz, eternidade, unidade e identidade absolutas. * No Ungrund não há meta, lugar ou movimento para buscar e encontrar. * O princípio está isento do sofrimento que acompanha o desejo e a qualidade, não sendo luz nem trevas. * O absoluto constitui para si mesmo um mistério impenetrável. * A condição inicial da divindade não se confunde com o seu pleno preenchimento ou acabamento. * Reduzir Deus a essa condição inicial equivaleria a transformá-lo em propriedade abstrata, desprovida de força, inteligência e ciência. * O Deus inerte seria incapaz de criar o mundo onde se encontram as perfeições de que estaria privado. * Mostra-se impossível que Deus seja um ser inerte habitando além dos céus. * O Pai é todo-poderoso, omnisciente, doçura, amor, misericórdia e a própria bem-aventurança. * O mundo herda da divindade todas as perfeições que nele se manifestam. * O problema do trânsito do Deus nada para o Deus pessoa e criador constitui o ponto capital do sistema de Boehme. * A solução oferecida pelo teósofo para a geração eterna representa sua contribuição própria, abrindo caminhos para futuros filósofos. * Os antigos místicos já haviam ingressado nesse campo de investigações metafísicas. * Eckhart questionava como a divindade puramente potencial e inativa tornava-se o Deus vivo e pessoal. * O místico explicava a passagem pelo papel da imagem ou ideia de Deus, emanada espontaneamente da potência primordial. * A substância absoluta tomava consciência de si e se punha como pessoa ao contemplar-se na própria imagem. * Boehme inspirou-se nessa doutrina, mas realizou desenvolvimentos que ultrapassaram a mera continuação. * O senso de existência concreta e de natureza impediu o sapateiro de se satisfazer com o Deus abstrato dos antigos místicos. * Eckhart explicara de certa forma a autoconsciência divina, mas esta representa apenas a sombra da existência. * A verdadeira personalidade de Deus e a fundação positiva da natureza exigem que a geração divina siga leis distintas das formuladas por Eckhart. * Boehme parte do princípio de que Deus, sendo mistério, quer revelar-se na plenitude do ser como pessoa viva e criadora. * Deus quer e estabelece todas as condições para a revelação de si mesmo. * Vigora uma lei suprema para as coisas divinas e humanas: toda revelação exige uma oposição. * Uma coisa qualquer só se põe ao opor-se ao seu contrário, assim como a luz só se torna visível quando refletida por um corpo escuro. * O que não encontra obstáculo caminha sempre adiante e jamais retorna a si, nunca existindo manifestamente para si ou para outrem. * Distinguem-se dois momentos na relação do princípio dado com o seu contrário. * A mera presença do princípio negativo diante do positivo manifesta este último apenas como potência ou possibilidade. * A transformação da potência em realidade exige que ela atue sobre o princípio negativo, disciplinando-o como seu instrumento e expressão. * A lei da oposição e da conciliação governa a própria gênese divina. * Se o espírito divino deve revelar-se, ele não permanecerá em si, mas suscitará o seu contrário. * Atuando sobre o contrário gerado, o espírito o assimilará e o espiritualizará. * Deus engaja-se em uma série de oposições no sistema de Boehme. * A personalidade divina realiza-se à medida que as contradições e conciliações se produzem. * A essência contrária ou natureza na qual Deus se apoia para se personificar constitui o fundamento eterno da natureza criada. * Essas ideias dominantes imprimem o caráter próprio ao sistema de Boehme. * As teses centram-se no princípio de que o ser se põe como potência ao se opor, e como realidade ao conciliar o que lhe é oposto. * As ideias gerais são postas em prática ao longo de todo o desenvolvimento do sistema. * No começo estava o nada, mas este nada não se identifica com o nulo absoluto. * Trata-se do próprio ser, do Bem eterno, da eterna doçura e do eterno amor, porém em si mesmo e não manifestado. * Uma oposição interna reside nesse nada originário. * O princípio não é nada e é tudo; representa a indiferença e a excelência. * O nada manifesta-se como instável e vivo, movendo-se para conciliar-se consigo mesmo. * O primeiro efeito da oposição interna é a cisão do infinito primordial em dois contrários: o desejo e a vontade. * O nada é desejo porque é mistério, e o mistério tende a manifestar-se; o nada configura-se como desejo de tornar-se algo. * O objeto para o qual o desejo tende não é indeterminado, consistindo na manifestação e posse de si mesmo. * Desejo por um lado, o infinito revela-se vontade por outro. * O desejo inconsciente e insatisfeito engendra a vontade, mas a vontade dotada de conhecimento e entendimento regula e fixa o desejo. * Ao desejo pertence o movimento e a vida; à vontade pertence a independência e o comando. * A vontade apresenta-se como maior do que a potência da qual nasceu. * Essa qualidade constitui a origem de todas as oposições suscitadas pelo progresso da revelação divina. * A vontade configura-se como o germe da personalidade divina e o fundamento de toda personalidade. * O desejo, como essência e corpo da vontade, constitui o germe da natureza eterna e o fundamento da natureza sensível. * A vontade manifesta-se graças à presença do desejo que faz contraste com ela. * O sim e o não não constituem duas entidades externas uma à outra. * Trata-se de uma única e mesma coisa dividida apenas para permitir que o sim se revele. * A separação configura-se, por sua vez, como um estado instável. * O sim, desprovido de essência e tênue na separação, esforça-se para tornar-se concreto absorvendo o não e reconstituindo a unidade em seu proveito. * Um terceiro termo sobrepõe-se aos opostos desejo e vontade, consistindo na ideia de uma conciliação entre ambos. * A produção do terceiro termo constitui a obra da imaginação. * A imaginação define-se como o desejo aplicando-se a uma imagem e tendendo a absorvê-la para produzi-la fora, transformada em realidade viva. * A vontade que é espírito une-se ao desejo para imaginar a revelação e tornar-se capaz de realizá-la. * A imaginação transforma a vontade em uma força mágica. * O que a vontade quer determina-se no próprio esforço de autorrepresentação. * Ela quer encontrar-se e fixar-se, desejando formar em si um espelho de si mesma; utilizando o desejo como matéria, ela quer que o desejo infinito se torne esse espelho ao fixar-se no Bem. * A tarefa que se apresenta a Deus ou à vontade consiste em regular o desejo segundo a lei do Bem. * Forma-se um objeto que serve de espelho à vontade, no qual ela pode contemplar-se e reconhecer-se. * Ao cumprir essa tarefa, a vontade divina sai do nada e conquista a realidade. * O propósito de manifestação exige uma tríplice ação. * Deus deve primeiro pôr-se como vontade indeterminada, capaz de querer o bem ou o mal. * Uma vontade nesses termos não é boa nem má, devendo Deus sair dessa indiferença. * A saída da indiferença ocorre pela geração do Bem único e eterno, ou seja, a vontade determinada. * O bem que é Deus não constitui um objeto ou coisa, mas a vontade firme e infalível. * Um começo estabelece-se no infinito com a geração dessa vontade, formando-se um fundo no abismo e sobrepondo-se uma razão ao mistério eterno. * A vontade primeira não se esgotou na geração da vontade determinada, conservando a fecundidade infinita. * Do concurso da vontade infinita e da vontade determinada nasce uma terceira vontade, voltada a sair de si para produzir um objeto. * O objeto resultante da tríplice ação é a sabedoria eterna, o espelho da própria vontade. * A sabedoria não é Deus, mas a sua imagem. * Graças a ela, Deus passa a revelar-se a si mesmo, enxergando-se como vontade tríplice e una. * Os três momentos da atividade divina podem ser caracterizados como vontade propriamente dita, razão e força. * Podem também receber os nomes de Pai, Filho e Espírito. * Não se trata de três deuses, pois cada um é um ser espiritual e a separação de substâncias só existe no mundo material. * Os três momentos não constituem ainda três pessoas no sentido estrito. * A vontade diante da imagem é apenas conhecimento e consciência de si, não exercendo o império sobre um ser-coisa que condiciona a personalidade. * Deus só é efetivamente pessoa no Christ. * A geração considerada reduz-se a uma tríplice ação da vontade una. * A sabedoria eterna, resultado da ação onde a Trindade se vê, situa-se diante dela como representação ou objeto e não como quarta vontade. * A sabedoria cumpre a conciliação do desejo com a vontade que esta última se propusera realizar. * Sendo espelho, a sabedoria permanece passiva e não engendra, definindo-se como a virgem eterna. * Nela residem todas as perfeições divinas como ideias e paradigmas, não como forças ou seres vivos. * As perfeições são objetos de vontade, não vontades em si mesmas; sem a vontade que as fundamenta, a vida não existiria. * A vida e a fecundidade pertencem exclusivamente às pessoas em sua ação segundo as ideias, e não às generalidades abstratas. * Tal é a gênese divina resultante do surgimento do desejo e da vontade no infinito primordial. * Deus encontra-se distante do nada e conhece a si mesmo como vontade boa. * Questiona-se se ele já constitui o Deus pai, todo-poderoso, amor, luz e alegria que se busca. * O estágio atual da divindade ainda não realiza a personalidade, limitando-se à inteligência autoconsciente. * A inteligência não se apresenta como algo concreto e apreensível em nós. * Ela não constitui uma essência, mas a potência ou o germe de uma essência. * O Deus cuja ação interior visa apenas a si mesmo permanece um Deus escondido e incompletamente revelado. * Trata-se de Deus enquanto possível, o ideal divino. * A realização do ideal e a vivência da personalidade exigem que a vontade continue a obra de geração eterna. * Deus necessita de um segundo nascimento. * A lei dos contrários encontra aqui sua aplicação principal. * As coisas deste mundo que existem verdadeiramente são feitas do sim e do não. * Em sim e não consistem todas as coisas. * O dia não existiria sem a noite, nem a noite sem o dia; o frio condiciona o calor, e o calor o frio. * A supressão da oposição e da luta reconduziria tudo ao silêncio, à imobilidade e ao nada. * O um enquanto um nada possui que possa querer. * Para que queira e viva, é necessário que se desdobre. * A unidade não pode sentir a si mesma, sendo a sensação possível apenas na dualidade. * A postulação de um ser como real exige sua oposição ao contrário. * O grau de oposição mede o grau de realização. * Deus não fora oposto a um contrário verdadeiro no desenvolvimento anterior de sua atividade. * A potência de objetivação que ele determinou como sua imagem diferia dele apenas como a ideia difere da inteligência. * O princípio passivo não oferecia obstáculo à ação divina, pois um espelho reflete os raios sem resistência. * Na oposição puramente ideal, Deus adquiria apenas uma existência ideal. * A consolidação como pessoa exige o engajamento em uma luta com um contrário verdadeiro. * O contrário deve ser uma potência positiva e ativa com ação oposta à divina. * Deus deve suscitar esse contrário, entrar em relação com ele, resistir-lhe e finalmente discipliná-lo e penetrá-lo para concluir a geração. * Investiga-se como se operará esse novo desenvolvimento. * A vontade realizada na evolução anterior, denominada razão, permanece puro espírito, infinito e mistério. * O mistério exige a revelação que o determina como tal enquanto subsistir. * Mistério e revelação supõem-se mutuamente como todos os contrários. * A vontade não poderia permanecer como a potência escura e tenebrosa que ainda é. * No seio da noite divina acende-se um desejo novo de existir de maneira real, concreta e corpórea. * A noite não se inflama em fogo nem a razão muda em desejo de viver por si mesma. * O termo para onde tende la vontade divina é a realização da personalidade como forma excelente da vida. * No fundo da razão habitava tanto a luz quanto as trevas, a aurora da vida perfeita e o desejo escuro da vida em geral. * O obscuro inflamou-se e tornou-se fogo ao contato com a luz nascente. * O desejo de viver constitui, no fundo, a vontade de bem viver. * O Deus possível desdobra-se em desejo da vida em geral e em vontade de realizar a vida perfeita. * O desdobramento resulta em duas forças positivas e vivas, e não em entidades abstratas. * As forças apresentam-se inicialmente como energias rivais prontas para a luta mútua. * O amor à vida entregue a si mesmo impulsiona o ser a existir de todas as maneiras, sem diferenciar bem e mal, belo e feio, divino e diabólico. * A vontade de bem viver e de ser pessoa comanda uma escolha entre as formas possíveis, excluindo as não conformes ao ideal. * O primeiro desdobramento do nada em desejo e vontade produzira apenas a oposição lógica de sujeito e objeto. * O desdobramento da vontade em negativa e afirmativa, fogo e luz, força e amor, resulta em oposição real e guerra interna na divindade. * A primeira das potências rivais, a força ou vida em geral, constitui o princípio e a mãe. * A segunda potência, o amor ou a luz, constitui a lei e o fim. * Uma é o fundo da natureza real, a outra o fundo da personalidade divina. * Deus desperta para a vida pessoal nessa segunda oposição. * Situado diante da natureza como diante de uma potência inimiga, ele é de início apenas energia latente de amor e luz. * O desdobramento e a realização da energia exigem que o amor entre em relação com a força e lhe imponha sua lei. * O progresso da revelação pede a conciliação dos dois contrários surgidos na vontade. * A conciliation exige primeiramente ser posta como ideia e como meta, trabalhando a vontade divina para realizá-la. * A conciliação da força com o amor, ou do fogo com a luz, identifica-se com a realização da sabedoria eterna que a divindade formara como espelho. * Trata-se de fazer descer a ideia das alturas vazias de um céu transcendente para misturá-la às forças vivas e manifestá-la em uma natureza corpórea. * A sabedoria ideal como objeto a realizar constitui o terceiro termo sobreposto aos dois contrários da vontade. * A nova tarefa cumpre-se no terreno da vida, onde matéria, agente e fim são seres dotados de força e atividade. * A conciliação opera-se pela cooperação dos três princípios. * Se o amor tende a adoçar a força, a força constitui um movimento inconsciente em direção ao amor. * A própria sabedoria ideal, tomada pelo desejo de viver, tende à própria realização; a virgem aspira a trazer à luz as maravilhas divinas que nela dormem. * A magia eterna forma o Deus pessoa a partir desses elementos. * A vontade une-se pela imaginação à ideia que se propõe realizar, contemplando-a, apaixonando-se e absorvendo-la para engendrá-la como realidade. * A ideia mostra-se ativa e deseja a existência como uma alma que busca um corpo. * Ela vai ao encontro da vontade que a chama, realizando-se sob a ação do esquema gerador do desejo. * O espírito dá a si mesmo uma natureza, uma essência e um corpo por operação interna, sem realidade corpórea preexistente. * A realização da sabedoria eterna constitui uma obra complexa cujo detalhamento importa considerar. * Deus a realiza por meio de sete espíritos organizadores engendrados para esse trabalho. * Os espíritos são forças nascidas no elemento escuro sob influência do luminoso, com a missão de transformar a vontade do não na vontade do sim. * Eles disciplinam e divinizam a natureza. * Boehme retoma e adapta a antiga doutrina cabalística das sete essências naturais, cuja última constitui o reino divino. * Os sete espíritos nascem sucessivamente uns dos outros, marcando o progresso da natureza para Deus. * Os três primeiros espíritos conduzem a natureza ou elemento escuro até o ponto de contato possível com o elemento luminoso. * O quarto espírito realiza o contato, e os três últimos fazem reinar a luz e o amor sobre a natureza submetida. * O desejo propriamente dito ou tendência egoísta nasce primeiramente na vontade que deseja ser algo. * Sem nada diante de si que determine a posse, a vontade toma a si mesma como objeto e tudo quer para si. * Ela imagina ser algo, permanecendo apenas faim e vazio. * A primeira essência constitui o obscuro, o sólido, a força de contração, o sel dos alquimistas. * O movimento surge em seguida como segunda essência ou segundo espírito natural. * A vontade não se satisfaz ao tomar a si mesma como objeto sendo infinita e vazia. * Ela volta-se para o exterior e torna-se o agudo, o amargo, a dor, aguilhão da sensibilidade, força de expansão, o mercúrio dos filósofos. * As duas forças produzidas encontram-se em conflito mútuo. * A primeira direciona o ser para si mesmo; a segunda direciona-o para outra coisa. * O resultado da oposição é a inquietude como terceira essência, movimento incessante de uma alma que não encontra o bem em si e não sabe onde buscar. * A força de concentração e a de expansão contradizem-se, mas não podem se separar. * Vazia em si, a alma não se fixa no egoísmo; movida por este quando busca o bem fora, não atinge a abnegação e o amor. * Ela foge de si e busca a si mesma em um movimento inquieto de roda que não chega a meta alguma, mas prossegue sempre. * A rotação ou combinação da força centrípeta e centrífuga expressa a terceira essência. * Ela constitui o fundo do enxofre dos alquimistas. * A natureza eleva-se por si mesma até esse ponto, onde cessa a sua potência. * Sacudiu-se o sono do egoísmo e buscou-se fora o objeto ausente por dentro. * O infinito exterior mostra-se tão vazio quanto o interno para o olho do corpo. * A alma obteve apenas a entrega a duas impulsões contraditórias. * A contradição interna de buscar o repouso pela agitação constitui um suplício insuportável. * A natureza não pode pôr fim ao suplício por suas próprias forças por ter esgotado os recursos. * O salvamento só pode provir do que está acima da natureza: Deus ou a liberdade eterna. * Investiga-se como as duas potências contrapostas conseguirão se reunir. * A inquietude manifesta a fraqueza da natureza, demonstrando que ela não se basta nem forma um todo. * O homem que conhece a própria miséria é menos miserável que o ignorante. * A natureza sente logo um ansioso desejo de liberdade sob influência do espírito que paira sobre ela. * Algo diz à alma que ela deve doar-se ao superior e que se encontrará no sacrifício, nascendo verdadeiramente ao morrer para si. * O espírito e a liberdade necessitam da natureza para se manifestarem e realizarem. * Se a natureza antevê no espírito sua lei, o espírito busca na natureza sua realidade e corpo. * O espírito quer existir assim como a natureza tende a libertar-se do sofrimento. * Impulsionados mutuamente, espírito e natureza aproximam-se. * A natureza mantém o movimento próprio e a força de inércia. * O desejo novo apenas desponta e não modifica o hábito natural imediatamente. * Ela choca-se contra o espírito que busca e que desce até ela. * Do choque nasce o fenômeno do relâmpago, o quarto momento do progresso da existência ou quarta essência. * O momento representa a manifestação do contato entre a natureza e o espírito. * No centelhar do relâmpago, o obscuro, o grosseiro e o violento da tendência egoísta são devorados e reduzidos ao nada. * As trevas inflamam-se e tornam-se o fogo vivo, foco da luz. * A natureza passa a estar assujeitada ao espírito e capaz de realizá-lo. * Cumpre-se uma lei divina aplicável a todos os seres doravante. * Toda vida implica um duplo nascimento, sendo o sofrimento a condição da alegria; chega-se à luz passando pelo fogo ou pela cruz. * Através da cruz até a luz. * O nascimento é precedido por mal-estar e inquietude tanto na ordem intelectual quanto na física. * A natureza trabalha e sofre sem sentir força para trazer à luz o fruto concebido. * Um esforço sobrenatural produz-se repentinamente, chocando-se sofrimento e alegria em um instante indivisível. * O relâmpago brota e o novo ser passa das trevas para a luz. * O filho da carne passa a possuir forma própria e desenvolvimento segundo sua ideia diretora. * O fruto da inteligência deixa de ser um caos vago e torna-se pensamento consciente que se engaja na expressão manifesta. * O aparecimento do relâmpago encerra a primeira existência da natureza divine e o avanço da tríade negativa. * Inicia-se paralelamente o desenvolvimento da tríade positiva, que representa a existência segunda e definitiva da natureza. * Contração, expansão e rotação reaparecem no progresso da natureza regenerada, mas com sentido novo e sobrenatural. * A nova concentração constitui a obra do amor ou potência unificadora do espírito. * As forças abdicam da violência sob a influência do amor, comprazendo-se umas nas outras. * As paixões egoístas apagam-se; a unidade de indivíduos que pretendiam existir sozinhos é substituída por uma unidade de penetração em acordo com o todo. * O amor define-se como o quinto espírito ou quinta essência. * O símbolo reside na água, que apaga o fogo dos desejos e confere o segundo nascimento segundo o espírito. * Os seres não devem apenas se fundir uns nos outros de forma indiferenciada. * A unificação não pode significar absorção ou aniquilamento. * O progresso da revelação deve tornar perceptível a multiplicidade dentro da unidade espiritual conferida pelo amor. * Um sexto espírito surge para destacar os elementos da sinfonia divina em sua individualidade e relação com o conjunto. * O sexto espírito constitui a palavra inteligente ou o som. * As vozes deixam de ser ruídos indistintos e adquirem a determinação que as torna compreensíveis e discerníveis. * O amor unificava o múltiplo; a sexta essência representa a percepção do múltiplo no seio da própria unidade. * O acabamento da realização de Deus exige reunir e coordenar todas as forças suscitadas sucessivamente. * Se o superior deve governar o inferior, não deve substituí-lo ou aniquilá-lo, pois o inferior constitui sua própria realidade. * Privado do suporte inferior, o elemento superior dissipar-se-ia no vazio dos espaços transcendentes. * A luz existe apenas quando fixada sobre o obscuro. * Um sétimo espírito surge para atrair o inferior ao superior pela persuasão e fazer descer o superior ao inferior pela graça. * A natureza inteira é chamada à manifestação da vontade divina. * A sétima essência constitui o corpo ou espírito de harmonia, completando a revelação do Eterno. * A sabedoria deixa de ser mera ideia e torna-se um reino de seres vivos, o reino de Deus ou da Glória. * Boehme considera o céu não criado, o reino do Pai e a glória de Deus como realidades essenciais da vida divina, e não como simples metáforas da Escritura. * O lírio veste-se de beleza superior à magnificência de Salomão. * O homem possui seu vestígio de glória na riqueza, casa, potência e honras que manifestam sua personalidade invisível. * Deus também se revela em um fenômeno que se distingue dele embora não tenha outro conteúdo senão ele mesmo. * A Glória de Deus constitui suas vestes, sua forma exterior, seu corpo e sua realidade: representa Deus visto por fora. * Descrever a harmonia e a beleza do reino da Glória mostra-se impossível. * O reino contém tudo o que se vê na terra, mas em estado de perfeição e espiritualidade inacessível à criatura comum. * As cores são mais brilhantes, os frutos mais saborosos, os sons mais melodiosos e a vida mais feliz. * Os seres divinos possuem a plena realidade do corpo junto à pureza do espírito. * A vida não constitui um desejo insatisfeito, mas o ser em sua plenitude e acabamento. * O reino caracteriza-se pela harmonia conciliada com o livre desenvolvimento de todos os indivíduos. * Os pássaros das florestas louvam a Deus cada um à sua maneira, em todos os tons. * Deus não se ofende com a diversidade nem silencia as vozes distintas. * Todas as formas do ser são preciosas aos olhos do ser infinito. * No reino da Glória os seres estão isentos de contrainto, pois cada um possui e manifesta a Deus segundo seu próprio caráter. * Tal é a natureza eterna em seu acabamento, revelação do mistério divino. * Ela carrega três princípios que funcionam como as razões de determinação vindas do nada primordial. * O primeiro princípio é o fundo das três primeiras qualidades ou da natureza entregue a si mesma. * Trata-se do obscuro ou fogo latente que aguarda a centelha, denominado comumente fogo. * O segundo princípio é o fundo das três últimas qualidades, ou seja, a expressão da sabedoria ideal. * Trata-se do princípio da luz. * Os dois princípios são eternos e excluem-se mutuamente em certo sentido. * O fogo não admite limites e devora o que se lhe opõe. * A luz representa o absoluto da doçura, a negação das trevas e o termo da aspiração. * O fogo constitui a vida do todo ou do infinito indeterminado; a luz constitui a vida de Deus ou do um excelente e determinado. * Nenhum dos dois princípios basta-se a si mesmo. * O fogo tenta em vão ser o todo, permanecendo apenas uma parte. * A luz desdenha em vão as trevas, pois só se realiza destacando-se sobre o obscuro. * Um terceiro princípio faz-se necessário para unir o primeiro ao segundo e produzir a existência verdadeira. * O terceiro princípio constitui o corpo, pelo qual o espírito encarna na matéria e se torna real. * A união do primeiro princípio ao segundo não acarreta absorção completa, mantendo-se os três irredutíveis. * A operação que ordena o fogo sob as leis da luz não destrói o fundamento do fogo. * O infinito da vida subsiste sob a forma de perfeição que o determina. * O comando divino não se dirige a escravos, mas deseja e encontra seres livres. * Fogo, luz e corpo — vida, bem e sua união em um ser real — configuram os três princípios da natureza divina. * Deve-se evitar identificar essa natureza com o verdadeiro Deus. * Por mais excelente que seja, a natureza divina não existe por si nem em vista de si mesma. * Ela representa a realização das perfeições compreendidas na ideia da sabedoria. * Trata-se da virgem eterna descrita como vinda do possível para o paraíso da existência atual pela voz de Deus. * A natureza passa a render graças ao autor comunicando-lhe sua vida e existência corpórea. * A virgem eterna fecundada pelo espírito passa a dar à luz o Deus pessoa. * O fruto é o Deus que se conhece, se possui e se espalha fora de si pelo amor e pela ação. * Deus punha-se apenas como trindade ideal ou personalidade possível enquanto situava a sabedoria eterna como espelho diante da vontade infinita. * Ao assumir na natureza um contrário vivo e dobrá-lo às leis da vontade boa, Deus engaja-se em diferenciação real. * A divindade conquista a personalidade efetiva da trindade cristã por meio desse processo. * O autoconhecimento confere apenas a existência para si; a ação engendra a existência absoluta e conclui a personalidade. * A ação desdobra-se em três e põe três pessoas correspondentes aos três princípios da natureza. * Deus é primeiro a vontade que preside à vida em geral ou ao fogo eterno, sendo o Pai, a potência, a justiça e a cólera — consciência da atividade vital infinita. * Deus não deseja a vida pela vida em si mesma, mas como realização da ideia para engendrar a palavra viva. * O Pai dá nascimento ao Filho, consciência do segundo princípio ou da luz, que quer a subordinação da vida ao bem. * O fogo da cólera é eternamente apaziguado pelo Filho como Deus de amor e misericórdia. * O Filho revela-se maior do que o Pai nessa função. * A existência da vontade boa diante da vontade de viver não basta para realizar o bem, exigindo aproximação e conciliação. * O processo ocorre numa terceira consciência e pessoa, da qual decorre o terceiro princípio, denominada Espírito Santo. * Deus põe-se verdadeiramente como Pai, Filho e Espírito à medida que forma a natureza eterna, sem abdicar da própria unidade. * As três realizações de Deus constituem pessoas e não coisas, escapando à lei do espaço e do tempo que impede a compatibilidade entre unidade e multiplicidade. * A personalidade admite e supõe a penetração mútua. * Um ser pessoal só se põe como tal em união com outras pessoas. * O ser que se concebe como exterior a outros situa-se no espaço e atribui a si a individualidade, inimiga da personalidade verdadeira. * O egoísmo constitui a base da individualidade; o dom de si constrói a pessoa. * A geração de Deus encontra-se realizada como personalidade perfeita em três pessoas que são individualmente a parte e o todo. * O Pai é a consciência da força, o Filho a consciência do bem e o Espírito a consciência do acordo entre ambos. * A natureza eterna desdobra-se diante de Deus como sua obra e glória, realizando todos os possíveis que expressam a perfeição divina. * Tal se resume a doutrina de Boehme sobre o nascimento de Deus. * O significado e o alcance filosófico transparecem através dos símbolos teológicos e alquímicos empregados. * A ideia mestra dita que a pessoa é o ser perfeito e deve existir, devendo realizar-se todas as condições para essa existência. * Todo o sistema decorre do princípio de que a personalidade supõe pensamento e ação. * Pensar e agir exigem a relação com algo oposto a si. * O pensamento necessita de um objeto para considerar e assimilar; a ação necessita de uma matéria para domar e espiritualizar. * A lei mostra-se universal, não podendo a própria personalidade absoluta escapar dela sem contradição. * O ser absoluto deve ser causa de si e não depender de elemento estrangeiro. * O absoluto deve tirar de si um objeto oposto a si mesmo se deseja ser pessoa, aplicando ali sua inteligência e atividade. * A divindade una e infinita transforma-se em dualidade: um termo é o Deus verdadeiro, o outro a natureza de que este Deus necessita. * Deus passa a ter uma tarefa a cumprir como sujeito diante de matéria vinda de seu próprio fundo, a saber, a resolução da antinomia interna. * O cumprimento da tarefa realiza a divindade como pessoa. * A ação, o pensamento e a vida divinos constituem os tipos perfeitos dos quais a existência das criaturas oferece apenas pálidas imagens. * Questiona-se se o sistema de autogeração divina por superação do contrário não reabilita a antiga doutrina da Noite como primeiro princípio condenada por Aristóteles. * Aristóteles afirmava que o primeiro ser não é o imperfeito, mas o perfeito; o perfeito é posterior na ordem dos fenômenos, mas primeiro e absoluto na ordem do ser. * A doutrina de Boehme assemelha-se a um antropomorfismo ou naturalismo como a dos velhos teólogos. * O sapateiro observou que no homem a indeterminação precede a determinação, a luta condiciona o progresso, a imagem é necessária ao entendimento e a matéria à vontade, transportando essas condições para Deus. * Mesmo que esse julgamento fosse fundado, não constituiria uma condenação pura e simples da doutrina. * O sistema não seria desprovido de importância caso se aplicasse na realidade apenas aos seres finitos. * Deve-se perdoar o teósofo por informar imperfeitamente sobre a trindade divina se, acreditando falar de Deus, fala com sagacidade sobre o homem. * O princípio de que a vontade fundamenta a vida e a liberdade constitui o seu fim não perde interesse se concernir apenas ao mundo criado. * O sistema estranho de riqueza confusa e brilho ofuscante esconde observações psicológicas modestas e reflexões morais práticas. * Boehme declarou buscar a divindade no fundo da própria consciência. * O homem pode conhecer a geração divina porque Deus se engendra no próprio homem. * Não causa surpresa que o conhecimento de Deus seja, antes de tudo, o conhecimento do próprio ser humano. * O teósofo não se reduz a um puro naturalista sob o ponto de vista metafísico. * Nota-se a diferença entre a sua doutrina e aquela rejeitada por Aristóteles sem necessidade de aderir a especulações sem controle. * A antiga filosofia do caos e do infinito via a geração do perfeito pelo imperfeito como a realidade absoluta das coisas. * Para Boehme não existe antes e depois no absoluto de Deus. * A condição de seres finitos pertencentes à natureza obriga a considerar Deus sob o prisma natural e a representar sua vida como progresso. * O caos dos antigos constituía uma natureza dada, uma coisa confusa da qual se fazia brotar o ser determinado por evolução necessária. * O ponto de vista dos antigos caracterizava-se como objetivo. * Ao indeterminado Aristóteles opõe o ato puro como coisa inteiramente determinada; o neoplatonismo propõe uma unidade inominável que se reduz à coisa despojada de qualidades pela abstração. * O princípio do místico teósofo apresenta-se de modo totalmente diverso. * Cristão e espiritualista, ele atribui o primeiro posto à personalidade sob sua forma mais perfeita. * A indeterminação, o infinito e o nada ganham sentido oposto ao da filosofia antiga sob a ótica de Boehme. * O nada não representa a falta de qualidade de uma coisa que exige determinação, mas a fecundidade infinita de um espírito que não se esgota nas produções. * O princípio de Boehme revela-se absolutamente positivo sob o ponto de vista interior da vida, embora negativo sob o prisma externo da objetividade. * O princípio é o perfeito em si mesmo, sendo o progresso relativo ao espírito humano um avanço na manifestação e não na perfeição intrínseca de Deus. * O sistema do mundo metafísico foi invertido: não é mais a inteligência que está suspensa ao inteligível, mas o inteligível à inteligência. * O objeto passa a existir pelo sujeito, e não o sujeito a depender do objeto. * A substituição decorre da descoberta no fundo do sujeito de algo irredutível na vontade e no espírito, julgado mais real do que as substâncias tangíveis. * A marcha de Boehme não se confunde com a dos pitagóricos ou neoplatônicos. * O progresso que vai da vontade às operações não se assimila ao trânsito da coisa indeterminada para a determinada. * A teologia de Boehme não se caracteriza como um monismo evolucionista. * Questiona-se se o sistema não incorre em dualismo ao tentar evitar o evolucionismo. * Indaga-se se a perfeição divina é mantida apenas pela postulação de um princípio inimigo e coeterno fora de Deus como sujeito do mal. * O próprio Deus surge como solidário a esse princípio negativo segundo a máxima do avanço pela cruz. * A inexistência de luz sem trevas, ação sem matéria ou Deus sem natureza aponta para as bases do dualismo. * Boehme enxerga na matéria a condição de manifestação do espírito como peça essencial do sistema. * O teósofo não pretende alinhar-se ao dualismo, considerando uma monstruosidade igualar o mal ao bem e a natureza a Deus. * O princípio negativo não existe por si, mas pela ação do princípio positivo que o suscite para manifestação. * Deus permanece soberano, e o movimento interno da vontade divina põe a matéria fora de si como condição desse próprio movimento. * A matéria constitui o aspecto exterior e o fenômeno da ação invisible do espírito. * Ela fixa em formas mortas o jorro contínuo da luz viva. * A natureza submete-se ao espírito quanto à destinação, embora dependa dele na origem. * O fim natural consiste em fornecer o objeto de que o espírito necessita para se personificar. * A resistência oferecida pela natureza serve para que o espírito desploque suas forças. * O instinto natural configura-se como inteligência ignorante e a paixão como desejo inconsciente de liberdade. * A natureza começa a existir ao apelo de Deus em vez de ser sua igual. * O termo do desenvolvimento natural reside na exata adaptação à vontade do espírito. * A teologia de Boehme afasta-se do dualismo e do evolucionismo sem naufragar neles. * O pensador busca um meio-termo entre as duas doutrinas. * Os antigos místicos erraram ao proscrever todo dualismo na visão do teósofo. * O erro impediu a realização da filosofia de personalidade que haviam concebido. * O Deus místico tradicional carecia das condições de existência real, não ultrapassando o estágio ideal. * A personalidade divina só pode ser concebida como existente ao tomar do dualismo a ideia da matéria eterna como contrário do espírito para lhe servir de corpo. * O Deus pessoa deve permanecer o ser infinito fora do qual nada existe por si. * O dualismo repugna ao pensamento religioso que exige um Deus todo-poderoso e independente, além de mera forma. * A existência da matéria deve resultar de uma operação da potência divina e não de um primeiro ser concorrente. * O impasse da matéria exterior que sai de Deus resolve-se pela tese da objetivação e realização de si mesmo para a revelação. * O objeto e a realidade exterior postos por Deus não se confundem com ele porque a vontade básica é infinita e não se perde nos esforços. * Deus possui uma natureza ou corpo que não se confunde com ele embora forme sua existência real. * O corpo é posto por Deus e reduz-se à sua própria vontade vista pelo lado de fora. * O mistério eterno revela-se no fenômeno de Deus sem que a revelação dissipe o mistério. * A natureza participa da essência de Deus, mas Deus mantém-se independente da natureza. * O sistema define-se como uma sorte de espiritualismo concreto ou naturalista. ** IV ** * O conhecimento da gênese divina faz-se necessário para possuir a Deus, mas não se revela suficiente por si só. * Os místicos erraram ao crer que toda ciência estava compreendida na ciência de Deus. * A natureza e o homem não encontram explicação em uma simples diminuição da essência perfeita. * Há nas criaturas algo próprio que as distingue de Deus e permite a revolta contra ele. * O mal decorrente das criaturas não constitui um não-ser, mas um ser que diz não. * Trata-se do ódio que visa destruir o amor e da violência que tenta quebrar a lei. * Existe uma ciência da natureza distinta da ciência de Deus. * A dificuldade reside em explicar a distinção mantendo a relação de dependência para com o ser absoluto. * O primeiro problema levantado pela existência da natureza concentra-se na criação. * Boehme rejeita a doutrina comumente chamada teísmo para a resolução do problema. * O teísmo afirma que Deus retira o mundo do nada absoluto por sua única vontade infinita, sem emprego de matéria sensível ou suprasensível. * Um mundo nesses moldes careceria de realidade verdadeira por não estar fundado em Deus. * Tratar-se-ia de um mundo puramente possível e ideal; a inteligência sem matéria gera apenas ideias. * O modelo teísta anula a personalidade verdadeira nas criaturas. * A divisão entre bons e maus, predestinados à felicidade ou à danação, decorreria da vontade arbitrária de um Deus de opressão e não de energias vivas nas almas. * Idealismo e fatalismo configuram-se como as consequências da doutrina teísta. * A rejeição do teísmo não joga Boehme nos quadros do panteísmo. * O reconhecimento de uma natureza em Deus levanta a questão se esta constitui o fundo do mundo visível. * Indaga-se se o mundo seria o próprio Deus ou o corpo de sua manifestação conforme as teses panteístas. * A interpretação panteísta contraria o desígnio de Boehme, que se afasta do panteísmo com mais energia do que do teísmo. * Deus é tudo num sentido, pois céu, terra, espírito e mundo extraem dele a sua fonte. * A imensidade divina seria prejudicada caso o mundo medisse a sua perfeição. * O mundo foi extraído da força e sabedoria divinas para manifestação sensível e não para o aperfeiçoamento de Deus. * A perfeição de Deus subsiste completa independentemente da criação. * Os sofistas erram ao confundir Deus com o mundo com base na doutrina da natureza divina. * A natureza exterior não se confunde com a interna; a interna é viva e perfeita, enquanto a outra possui vida derivada e imperfeita. * O mundo exterior não é Deus e não pode receber esse nome sem que se incorra em blasfêmia. * Afirmar que Deus é o mundo exterior equivale a falar como um pagão e professar a religião do diabo. * O problema de Boehme reside em derivar a matéria do espírito sem aderir ao teísmo, fundando a natureza sensível na divina sem cair no panteísmo. * Investiga-se a resolução desse impasse. * O nascimento do mundo define-se como criação por meio de matéria sob agência espiritual, diferindo do nascimento de Deus que era pura geração mágica sem matéria preexistente. * O agente espiritual identifica-se com o Deus uno em três pessoas. * A matéria identifica-se com la natureza eterna. * Nenhum dos dois princípios confunde-se com o mundo ou o contém previamente. * O Deus pessoa constitui puro espírito; a natureza eterna representa uma harmonia perfeita de penetração mútua dos seres expressando a unidade. * As perfeições distinguem radicalement Deus e a natureza divina do mundo sensível, que é material e composto de partes exteriores entre si. * O Deus pessoa e a natureza eterna encerram os elementos do mundo, residindo ali a nobreza e a realidade do que foi criado. * Deus planejou criar o mundo por puro amor ao ver na sabedoria as ideias e na natureza as forças para realizá-las. * O plano consistia em fazer existir de modo corpóreo o que existia essencialmente, separando o que estava junto. * O ato criador deu-se sem coerção ou obrigação de qualquer espécie. * Não há uma razão explicativa para a criação, cujo porquê reside em mistério sem revelação. * A criação seria necessária e imposta a Deus caso se originasse no Deus manifestado e não no abismo primordial. * Deus deseja filhos e não mestres; o mundo depende de Deus, mas Deus não necessita do mundo. * O mundo não foi feito a partir de uma matéria bruta que operasse como contrário absoluto da pessoa. * A criação utilizou a natureza divina através da ação dos sete espíritos que corporificaram as ideias da sabedoria. * As produções dos espíritos no mundo da Glória eram figuras de contornos fluidos cheias de vida e espiritualidade, representando o infinito visível no finito. * Os mesmos espíritos fixam a ideia em matéria dura que esconde o infinito realizado no mundo criado. * O mundo da Glória caracteriza-se pelo equilíbrio entre o real e o ideal; o mundo criado marca o domínio do real. * Tais são as participações do Deus pessoa e da natureza divina no processo. * Um terceiro operário intervém para realizar o mundo: a própria criatura. * A criatura faz esforço para cruzar o limiar e implantar-se na luz assim como a obra do artista secunda a vontade deste por sua vida própria. * Todo espírito constitui uma alma que deseja um corpo. * A palavra criadora rompeu o laço que mantinha as forças espirituais na união e harmonia. * Cada força passa a querer existir para si e manifestar-se segundo a tendência própria. * A criação define-se como a introdução do espaço e do tempo no mundo das vontades particulares. * As vontades eram universais no objeto dentro da eternidade embora individuais em si mesmas. * Realizadas em corpos separados pelo tempo e espaço, as vontades destacam-se do todo e dobram-se sobre si mesmas. * O espaço e o tempo constituem o fundamento especial da realidade do mundo sensível. * Tudo provém de Deus no mundo criado, mas nada do que estava em Deus poderia produzir tal existência por simples desenvolvimento. * Deus faz surgir o mundo da descontinuidade por meio de um ato livre e original de criação verdadeira. * A divindade não se anula na criação assim como a inteligência humana não se esgota ao manifestar-se. * A vontade divina conserva-se tênue como o nada, sem que nenhum ser maciço possa aprisioná-la. * O mundo origina-se da glória de Deus — sua forma exterior — e não de seu núcleo central. * A glória permanece após a criação o que já era antes por ser a periferia da divindade. * O mais não é contido pelo menos embora o menos esteja contido no mais. * A divindade não se absorve na manifestação sensível como sujeito ou objeto. * A criação não representa uma transformação de força mecânica. * Deus cria a partir do nada e de uma matéria simultaneamente. * O Deus pessoa cria utilizando a natureza divina como matéria. * A personalidade e a natureza divinas enterram suas raízes no nada primordial do mistério da vontade infinita. * Investiga-se o conteúdo da criação e as partes essenciais do sistema do mundo. * O modelo e os instrumentos encontram-se na sabedoria e na natureza divinas sob a forma da eternidade. * A criação projeta essa sabedoria e natureza sob as formas do tempo e da separação. * A relação permite deduzir o conhecimento das coisas criadas a partir das eternas quando se adota o ponto de vista de Deus. * A dedução constitui a filosofia da natureza, especulação de grande desenvolvimento posterior na Alemanha com rudimentos na teosofia de Boehme. * A construção do mundo exterior segue analogia com a do mundo interior e divino. * A personalidade busca manifestação nos corpos sensíveis assim como na natureza eterna, sendo a incompletude da matéria sensível a única diferença. * O mundo apresentará três princípios correspondentes aos divinos: o fogo, a luz e a corporificação de ambos. * Deus forma os anjos a partir do primeiro e do segundo princípio sem apelo ao terceiro, mantendo-os vizinhos da perfeição divina. * Os anjos são puros espíritos sem existência por si mesmos, com corpos mais compactos do que o corpo glorioso da divindade. * Os seres angélicos situam-se numa eternidade derivada intermediária entre a absoluta e a sucessão temporal. * Deus formou uma natureza terrestre a partir do terceiro princípio simultaneamente à criação dos anjos. * A natureza terrestre mostra-se mais concreta e material que a divina embora submetida ao espírito e harmoniosa. * Os anjos governam essa natureza criados para refletir a luz divina com mais brilho sobre superfícies duras. * O som ressoa mais claro e o reino da alegria estende-se fora do círculo da glória divina por meio dessa estrutura. * A manifestação de Deus não se torna mais perfeita em si, pois o realce de uma qualidade custa a diminuição da harmonia geral. * Convinha à potência e ao amor realizar os possíveis que apresentassem perfeição fora da natureza divina. * Os anjos devem caminhar do Pai ao Filho, da cólera ao amor, seguindo o exemplo do próprio Deus para cumprir o destino. * As criaturas angélicas foram dotadas de liberdade e determinam-se sem coação externa. * Uma parte dos anjos conformou o livre-arbítrio à vontade divina enquanto outra se revoltou contra Deus. * Lucifer apresenta-se como o chefe dos rebeldes e o primeiro autor do mal por escolha livre de sua vontade. * O pecado realizou-se pelo fato de Lucifer fixar sua imaginação na natureza e não no espírito. * A natureza transfigurou-se de obscura em brilhante sob o olhar da imaginação mágica. * O elemento defeituoso parou-se de perfeições e a parte inflou-se até parecer o todo. * A alma do anjo apaixonou-se pela idolo e desejou-a com exclusividade, renegando a Deus. * O inferno foi criado nesse momento como resultado da separação desejada por Lucifer. * O resultado proveio do efeito imediato da cólera ou da natureza à qual o anjo se votara, e não de intervenção transcendente. * O inferno constitui o princípio das trevas, a força e a vida pura entregues a si mesmas em oposição ao amor e à luz, sem direção ou harmonia. * Trata-se da vida com o único fim de viver, desencadeada por Lucifer. * Lucifer foi criado eterno e sua falta revela-se irremediável por não possuir suporte corpóreo sujeito à sucessão e à mudança de hábito. * O livre-arbítrio de um puro espírito esgota-se em um único ato. * Nenhuma conversão é possível para o rebelde que se transformou em puro fogo e cólera sem recepção para a luz. * O inferno criado é eterno como a vontade que o gerou. * A natureza terrestre governada pelos anjos sofreu o contragolpe da falta angélica com a introdução da confusão. * O exílio do amor quebrou o laço das forças, escapando cada uma segundo o próprio capricho. * A unidade pessoal cedeu lugar à multiplicidade individual onde cada parte se considera o todo com exclusão das outras. * A terra tornou-se informe, nua e coberta de trevas sobre a face do abismo. * O Espírito de Deus paira sobre a obra sublevada e o Pai resolve realizar uma nova criação para retirar a natureza da noite. * Trata-se da criação relatada por Moïse. * Deus ordenou a existência da luz separando-a das trevas e restabeleceu a harmonia em sete dias conforme o número dos espíritos divinos. * A obra de Lucifer não foi destruída pura e simplesmente. * Deus concedeu à natureza o tempo como arma contra o mal e instrumento de regeneração. * A sucessão temporal impede que o conceber seja imediatamente o agir, permitindo à vontade parar antes do precipício. * O ato consumado não esgota mais a atividade total devido à dinâmica temporal. * Os bons não estão fixados no bem nem os maus no mal definitivamente na terra. * O espaço liga-se ao tempo conferindo independência relativa aos indivíduos. * A vida no espaço e no tempo toma como sujeito a matéria sensível propriamente dita. * O homem constitui o termo e a perfeição da criação como concentração harmoniosa dos três princípios. * Distinguem-se três partes no ser humano: a alma como potência infinita do bem e do mal, o espírito como inteligência e vontade reta, e o corpo como realidade concreta. * A primeira parte responde ao princípio do fogo, a segunda ao da luz e a terceira ao da essência ou realidade. * Os três princípios manifestam-se no homem com a perfeição própria do espaço e do tempo. * O dever humano consiste em subordinar o primeiro e o terceiro princípio ao segundo, orientando a vontade e a ação para o bem. * O fim do homem é engendrar o rei da natureza que Deus resolveu suscitar para destronar Lucifer. * A alma deve fixar a vontade no coração de Deus assim como o Pai quer eternamente engendrar o Filho. * Adam deve constituir a semente do Christ. * A tarefa humana não se reduz ao plano puramente espiritual por ser o paraíso uma natureza sensível. * O homem prepara o advento do Filho ao trabalhar para extrair e produzir os tesouro contidos na natureza. * O mundo espaciotemporal compõe-se de indivíduos separados que devem ser unidos no comum homenagem ao Eterno. * Trata-se de elevá-los à participação da personalidade sem apagar os caracteres próprios. * O destino foi prescrito ao homem de forma livre e não imposta, sendo a vontade dotada de liberdade. * Coexistem no indivíduo fogo e luz, violência e doçura, egoísmo e abnegação. * Uma vontade temporal oriunda da natureza terrestre situa-se entre os princípios, capaz de voltar-se para qualquer um deles. * O homem possui as condições da liberdade, podendo afundar em si ou encontrar-se pela renúncia ao eu. * A tradição e a experiência respondem sobre o uso feito desse poder de escolha. * Sabe-se que o homem desobedeceu a Deus a exemplo de Lucifer, caindo de sua nobreza primitiva. * A falta narrada no texto mosaico cumpriu-se pelo relaxamento da imaginação que passou a contemplar a natureza em preferência a Deus. * O homem adornou a idolo com as perfeições ideais tornando-a sua divindade. * O indivíduo apaixonou-se e ardeu pelo desejo de engendrar a natureza conforme a via na imaginação. * Esquecido do espírito, ele quis a autonomia plena da natureza sem entraves. * A imagem e o desejo tornaram-se corpo segundo as leis do ser. * A natureza proclamou autonomia e o homem caiu sob o império das forças violentas desimpedidas. * As fases do progresso da falta diferenciam-se no texto sagrado. * O ponto de partida foi o desejo de conhecer as coisas pelo isolamento e análise, rompendo a harmonia feita por Deus. * O homem quis saber o que eram em si o quente, o frio, o úmido, o seco, o duro e o doce isoladamente. * Buscou-se o segredo da vida na morte que fixa e dispersa. * O fruto divino do conhecimento concreto perdeu o atrativo, desejando-se o fruto da natureza terrestre e do saber fragmentado. * A natureza respondeu objetivando o desejo sob a forma da árvore da ciência do bem e do mal. * A árvore da tentação constitui a realização sensível da vontade de conhecer o bem e o mal separadamente como opostos. * O homem passa a ver o bem e o mal como exteriores entre si no espaço, podendo abraçar o mal com exclusão do bem. * O surgimento da árvore da ciência analítica constitui o primeiro pecado, caracterizado como o pecado do entendimento. * Trata-se de uma ladeira perigosa por conceber o mal e tornar o homem suscetível de quere-lo, embora não seja a queda final por restar a escolha. * Uma segunda tentação sucede à primeira. * Adam tinha até então a Virgem eterna por companheira e o ideal por objeto de pensamento. * O homem apaixonou-se pelo mundo de forças e instintos ao analisar as coisas sob a forma terrestre. * Ele quis viver a vida animal e reproduzir-se como as bestas. * A imagem de Deus apagou-se e a virgem voou diante da paixão acesa; Adam adormeceu em seguida. * A imagem do mundo difere da imagem de Deus por não manter o espírito desperto. * A contemplação do mundo cansa a vista e gera o sono por estar sujeita à sucessão. * Operou-se uma mudança de condição: o homem adormeceu no mundo dos anjos e acordou no tempo e no mundo exterior. * O homem viu diante de si a objectivação humana do desejo terrestre sob a forma de uma mulher criada por Deus durante o sono. * Compreendendo a origem da mulher, buscou-se a união corpórea com ela. * O ato constitui o segundo pecado, definido como o pecado da sensibilidade, avançando o homem rumo à perdição. * A queda não estava consumada por restarem a posse de si e a vontade apesar dos desejos da carne. * A consumação deu-se pela perversão da vontade sob o sopro do diabo que instigou o desejo de viver por conta própria e fazer-se Deus. * O homem cedeu à desobediência e pôs-se diante de Deus como igual. * O indivíduo precipitou-se no mal abandonando a mera inclinação para ele. * Tornou-se deus no sentido inverso ao imaginado: o deus da cólera, das trevas e da morte. * Trata-se da personificação sacrílega do fundo misterioso da divindade. * O homem amaldiçoou a si mesmo declarando-se filho do diabo. * A vontade má desligou-o de Deus e votou-o à cólera. * O mundo passou do estado de harmonia para o de dispersão individual por efeito dessa situação. * Cada ser passou a viver para si na dinâmica da luta pela vida como lei única. * O homem não foi condenado para sempre como Lucifer devido às condições diferentes da falta. * O diabo fora a causa total do próprio pecado por não existir o mal antes dele. * Lucifer formou o mal em matéria e forma a partir da mera possibilidade, sendo autor dos motivos e da determinação. * A situação humana desenhou-se de outra forma pela preexistência do mal e da inclinação para o erro. * O homem pecou sob solicitação de Satan. * A decisão pertence ao homem, mas os motivos preexistiam como instintos e natureza anterior. * A responsabilidade limita-se à determinação e não aos motivos cedidos. * A falta de Adam não se revela irremediável apesar de mortal caso o homem fosse abandonado. * A misericórdia pode opor a tendência ao bem contra as solicitações más na alma dando à vontade temporal a faculdade de recuar. * Questiona-se se Deus enviará ajuda e um salvador ao homem revoltado. * A decisão de enviar um redentor pertence às profundezas místicas da vontade infinita sem necessidade que a ordene ou exclua. ** V ** * Deus deliberou chamar o homem à regeneração após ter restaurado a harmonia perturbada por Lucifer. * O bem e o mal encontravam-se em presença no tempo e na eternidade, decidindo Deus provocar a reconciliação possível. * O Filho deveria nascer sob forma humana para manifestar a palavra no tempo segundo os decretos anteriores à falta. * Deus decretou que a vinda do Christ seria de salvador e redentor pelo fato de o homem ter se entregue à cólera. * A vinda foi preparada pelos eventos do Antigo Testamento, culminando na entrega do Filho para ser crucificado. * Através da cruz até a luz. * O Christ define-se como criatura humana e Filho da Vierge éternelle. * A morte é vencida nele; quem sofre com ele é glorificado com ele. * Importa examinar de perto a realização do salvamento por meio de Jésus-Christ. * A razão imagina Deus como algo distante que habita além das estrelas e ordena as coisas de modo mecânico no espaço quando ouve falar de sua vontade. * A razão empresta a Deus um modo de pensar análogo ao humano por assimilá-lo às criaturas. * Supõe-se uma deliberação prévia à criação para fixar o lugar de cada criatura. * A inteligência comum supõe que Deus escolheu salvar uns para manifestar a graça e condenar outros para manifestar a cólera. * Deus teria estabelecido diferença eterna entre os homens para desdobrar potência nos dois sentidos. * Existe uma eleição da graça, mas esta não segue os moldes imaginados pela razão exterior. * Deus não seria eterno e mudaria caso deliberasse do exterior e se dividisse. * Questiona-se como Deus poderia querer a danação de suas criaturas sendo ele amor voltado ao bem de todos. * A eleição e a danação não decorrem de vontade externa ao homem. * O homem é absolutamente livre por ter a raiz de seu ser mergulhada no fundo eterno e infinito das coisas. * A vontade humana não sofre coação traseira, sendo o primeiro começo das próprias ações. * A eleição ou danação resultam dessa mesma liberdade fundamental. * O homem pode voltar-se para a luz ou trevas, amor ou egoísmo, fazendo-se anjo ou diabo. * O indivíduo carrega em si o próprio paraíso e inferno; as estruturas exteriores são apenas símbolos da boa ou má vontade. * O homem não dispensa a graça divina nem se basta a si mesmo. * O bom querer reduz-se a uma prece ineficaz sem o socorro divino, prece que Deus previu desde a eternidade. * As ações livres mantêm-se como tais na presciência divina que se confunde com o fundo comum das vontades no abismo. * A fé constitui o primeiro sinal e efeito da eleição, sendo frequentemente mal compreendida. * Todos se vangloriam de possuir a fé, mas sua realidade mostra-se ausente. * A fé contemporânea reduziu-se a uma história decorada de cor. * Questiona-se onde está a criança que realmente crê no nascimento de Jésus. * Se cresse, aproximar-se-ia do Menino Jesus para recebê-lo e cuidá-lo em si mesma. * O homem conhece apenas o menino histórico enganando a consciência com erudição vazia. * Nunca se falou tanto em fé e nunca a verdadeira fé esteve tão doente, o que se prova pelas disputas e condenações mútuas. * Indaga-se se Deus condena as aves da floresta pelo fato de cada uma louvá-lo em tom diferente. * A potência infinita comporta uma variedade infinita de homenagens. * Os que perseguem os irmãos revelam-se mais inúteis que as flores do campo e mais loucos que as bestas. * Trata-se de aves de rapina que assustam os outros pássaros impedindo-os de cantar os louvores divinos. * Crer em Jésus-Christ sob o ponto de vista puramente histórico possui a mesma utilidade de crer em uma fábula. * Muitos judeus e turcos mostram-se mais cristãos que os falsos fiéis que sabem o que Jesus fez e praticam o que o diabo faz. * Ouvir a verdadeira palavra difere da mera crença na letra alegada pelos homens. * A Escritura é útil, mas não constitui a palavra em si; representa apenas o seu traço apagado e mudo. * A palavra é viva por carregar o espírito, sendo infinita como Deus sem que nenhuma fórmula a abrace. * A verdadeira fé define-se como a vontade reta livremente submetida à lei do espírito. * Ela consiste em renovar em si o nascimento, baptismo, tentações, sofrimentos e morte do Christ. * Imitar o Christ constitui a marca dos filhos de Deus; o verdadeiro cristão não pertence a nenhuma seita. * O fiel pode habitar em uma seita sem depender dela por ser sua religião interior e irredutível a formas. * A fé nesses termos marca o início da regeneração. * Questiona-se o valor dos meios exteriores que as igrejas adicionam ao processo. * As obras por si mesmas nada valem, sendo a Igreja Católica Romana a Babel do mundo cristão por lhes atribuir valor intrínseco. * Mostra-se errônea a crença de que os méritos do Christ nos salvam por aplicação externa sobre matéria passiva. * Tal operação não alteraria o fundo da alma nem operaria o segundo nascimento. * A fé não salva por operação teúrgica que acorrente a justiça divina; ela salva pela graça santificante interna que gera a penitência e o Cristo redentor. * Justificação identifica-se com santificação. * A própria fé regenera o homem e não o seu objeto externo. * Nenhum meio particular revela-se eficaz caso a fé não constitua a sua alma. * A verdadeira prece não é pedido passivo, mas ato de humildade da vontade que busca a Deus como alimento ao reconhecer a própria indigência. * Trata-se da alma que chama e recebe a graça. * A verdadeira pregação não se limita ao ensinamento do padre ou da Bíblia. * Toda criatura ensina o fiel que vê e ouve com o espírito. * Os sacramentos não constituem socorros que atingem o homem sem a sua participação. * O sacramento real é a graça que desce e que a alma apropria apenas pela fé. * A regeneração não constitui uma nova natureza enxertada sobre a antiga. * Trata-se do espírito que desperta e se desdobra no fundo da natureza. * A pessoa cria-se pela renúncia ao eu individual, substituindo o homem interior ao homem exterior. * A vida do homem regenerado não se confunde com apatia, indiferença ou aniquilamento no nada. * O espírito não se reduz ao nada inerte gerado pela supressão lógica das diferenças. * Todo ser interior tende a tornar-se exterior; o infinito deseja a forma, o mistério se esforça para revelar-se e o espírito quer ser corpo. * O mesmo ocorre com as virtudes cristãs que se desdobram e manifestam em vez de restarem abstractions. * Elas manifestam-se pelo renascimento, abandono a Deus, humildade, amor aos homens, comunhão além das diferenças, império sobre os desejos terrestres e pela alegria. * O homem novo não destrói o antigo e exterior, mas evita esquecer-se nele. * O cristão vive no mundo e exerce profissão honrada devendo agir, trabalhar, ganhar dinheiro e fazer a terra produzir. * Buscar ouro, fazer arte, construir e plantar constituem ações boas. * A sabedoria impõe uma regra inicial: não colocar a alma nessa vida exterior. * O espírito livre não deve ser acorrentado nessa prisão. * A preservação da liberdade garante o sucesso no mundo onde tudo canta louvores a Deus para quem sabe ouvir. * As próprias faltas do companheiro terrestre não atingem a alma do homem novo e mostram-se úteis. * Uma ação isolada não constitui um hábito, e a árvore vigorosa endireita-se após o açoite do vento. * A falha do homem exterior ajuda a compreender a fraqueza da natureza e a grandeza da misericórdia divina. * O homem não está dispensado da prece e do esforço em sua vida terrena sob pretexto algum. * A liberdade impede a confirmação definitiva no bem durante o tempo por não poder este conter a eternidade. * O apego a Deus não retira o homem totalmente do poder do diabo; a luta contra o mal dura até o fim. * A natureza reinstala-se caso haja relaxamento; a forma aprisiona o espírito assim que este cessa a ação. * É necessário retomar-se a cada instante, renovando o nascimento e recriando Deus em si. * A árvore da fé, esperança e amor ergue-se indestrutível apenas no término da vida pelo esforço constante. * O mundo do tempo prepara a aproximação dos princípios bom e mau para a reconstituição definitiva da unidade primordial. * Todo fim tende a reencontrar o começo elevando-se ao ponto fixo de onde este dependia. * O homem pode e deve escolher enquanto habita um corpo terrestre. * A contingência das ações desaparece com o fim da natureza temporal; a morte introduz o ser na eternidade. * O fruto das livres determinações amadurece e destaca-se, fixando o que o homem é definitivamente. * O indivíduo passa a pertencer a Deus ou ao diabo conforme a natureza criada em si. * O livre-arbítrio fixa-se em liberdade e amor ou em capricho e violência. * O fim último das coisas configura-se como o dualismo definitivo do bem e do mal como obras da vontade livre. * Deus engendrou o bem e o mal no início apenas como possíveis, criando as condições para as ações. * A realização dos possíveis decorreu do comportamento factual dos seres livres. * O ser atravessou três fases nos dois lados: o possível, o fato contingente e a determinação definitiva. * A ideia transformou-se em coisa e o possível em necessário ao atravessar a vontade consciente. * O reino de Deus constitui a harmonia indestrutível entre o espírito e a natureza. * Os indivíduos subsistem e distinguem-se no reino sob pena de desaparecimento da própria natureza. * Eles vivem sem luta pelo amor sozinho sem necessidade do ódio. * A verdadeira unidade conquistada não é aproximação externa para interesses egoístas, mas participação comum das almas na personalidade divina. * A vontade de viver sacudiu toda lei e direção no reino do diabo. * O grupo obteve a vida como único fim da vida conforme desejava. * Nenhuma harmonia, bondade ou amor subsistem ali; o egoísmo e a anarquia reinam sem partilha. * O indivíduo põe-se como mestre; a soberania baseada na revolta constitui luta sem fim e tormento infinito. ** VI ** * A exposição dos fins últimos encerra a doutrina de Boehme. * A linha teológica apresenta-se como a história metafísica do Ser percebida pela intuição no fundo da história física. * O percurso partiu do eterno e retornou ao eterno através do tempo, fechando o círculo e cumprindo a revelação. * Investiga-se a natureza da doutrina denominada aurora nascente, explicação do mistério e cristianismo segundo o espírito. * Trata-se primeiramente de uma doutrina religiosa com discípulos situados principalmente entre teólogos. * Julgar o pensador exige não se ater à letra por ele mesmo ter dito que a verdade habita o espírito inexprimível. * A teoria da inexprimibilidade joga a religião positiva para o segundo plano e eleva a filosofia — ou a religião confundida com esta — ao primeiro posto. * Doutrinas de caráter filosófico transparecem a cada passo sob as efusões religiosas quando se busca o sentido espiritual. * Os mistérios da Trindade, queda e Redenção funcionam como solicitações que excitam a reflexão do sapateiro. * Ele enxerga sob os mistérios o problema da conciliação do finito e do mal com a personalidade infinita como fonte única do ser. * A solução do problema constitui uma metafísica sob a capa de uma teologia. * As condições suprasensíveis da natureza finita e da ação mágica são distinguidas do finito e do mal captados pelos sentidos. * As condições são deduzidas da vontade divina em seu propósito de manifestar-se como pessoa. * Deus põe o seu contrário para captar a si mesmo, distinguindo-se dele e impondo-lhe a lei por não haver manifestação sem oposição. * O contrário ou natureza eterna ligada a Deus fundamenta a realidade do finito e do mal sem confundir-se com eles. * O finito é a disseminação temporal livre das essências contidas na natureza divina. * O mal define-se como a natureza — que é apenas parte — posta como o todo pela vontade livre das criaturas. * O finito e o mal derivam das condições de existência da personalidade quanto à matéria, e da iniciativa livre da vontade quanto à realização sensível. * O mundo possui realidade e existência interna fundamentada em Deus, distanciando-se do mero não-ser ou do efeito sem consistência de vontade arbitrária. * O mundo repousa sobre a natureza de que Deus necessita para manifestar-se. * Os germes de um sistema filosófico encontram-se nessas ideias expressas através das metáforas. * Indaga-se o valor e o significado do sistema e sua relação com a história geral da filosofia. * Os filósofos de profissão limitam-se a elogios vagos sem assimilar as doutrinas, com exceção de Saint-Martin, Baader e Schelling em sua última fase. * As ideias de Saint-Martin encontraram apenas historiadores na França. * Os alemães desenvolveram a filosofia intelectualista vinda de Leibnitz, Kant e Spinoza que rejeita a realidade absoluta da natureza e o livre-arbítrio. * Deve-se evitar o apego às aparências e detalhes também nesse ponto. * Dois traços caracterizam as especulações do teósofo: o espiritualismo como verdade fundamental e o realismo deduzido daquele com base na experiência. * O espírito é o primeiro e verdadeiro ser para Boehme: a liberdade infinita que cria objetos e formas permanecendo superior a eles. * Trata-se do ser insaisissável atuante por toda parte sem se tornar objeto de experiência comum. * A pessoa perfeita constitui a existência viva da qual a realidade determinada é manifestação imperfeita. * Boehme mostra-se realista por outro lado ao rejeitar que o múltiplo seja fantasma ou o mal um mero bem menor. * A natureza possui princípio próprio de existência contrário ao espírito. * O mal constitui força viva voltada a destruir o bem. * O trabalho de Boehme consistiu em pôr o espiritualismo como tese, o realismo como antítese e conciliar ambos em uma síntese. * O fundo dos principais sistemas alemães reproduz essa mesma estrutura. * O espírito constitui o ser e o infinito vivo para Leibnitz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel. * O mundo possui realidade própria para todos esses pensadores, operando como escândalo que deve ser deduzido do próprio espírito. * A filosofia alemã debate-se na antinomia entre o espírito como princípio e a matéria como realidade. * A monadologia, o idealismo transcendental e a filosofia do absoluto constituem soluções diversas para o mesmo problema. * Os traços de idealismo, realismo e busca de conciliação reencontram-se na própria nação alemã segundo os historiadores. * Os filósofos alemães unem-se a Boehme por laço mais forte que a mera influência, partilhando o mesmo gênio como expressões da mesma face humana. * Não foi mau profeta aquele que, em 1620, após ler a obra do sapateiro, saudou-o com o nome de Philosophus teutonicus. * O trabalho foi lido perante a Academia de Ciências Morais e Políticas em 1888 e publicado em seu relatório.