====== CONHECIMENTO ====== Alguns pensadores reconhecem um sentido superior ao conhecimento, como algo além do "saber", algo que guarda uma intimidade com o "conhecido" e não apenas informação sobre este (a não ser que se entenda "informação" como aquilo que "forma por dentro"). Alguns pensadores usam inclusive a noção bíblica no Gênesis, onde se fala que "Adão conheceu Eva", no sentido de ter se unido intimamente a ela; outros levantam uma possível interpretação, por conta da língua francesa, onde "con-naître" significaria originalmente "nascer com". Deste modo o conhecimento se apresenta como algo que pode levar o homem a um estado, que o simples saber não alcançaria, por estar intimamente ligado ao compreender, e este à união de ser e saber. Algumas correntes como o Gnosticismo chegam a colocar o conhecimento (gnosis) como fundamento escatológico em sua doutrina. Gregório do Sinai (137 sentenças diversas): Considera que o conhecimento da verdade é antes de tudo a sensação da Gratia. Todos os outros conhecimentos, devem ser chamados expressões de ideias e demonstrações das coisas."" //Paul Nothomb: «Ça ou l'histoire de la pomme racontée aux adultes»// Deus fala a Adão diretamente a respeito das árvores que o cercam e constituem a única vegetação mencionada no Éden, convidando-o a delas dispor e delas desfrutar à vontade. A árvore dita da Onisciência não faz parte destas árvores anônimas, é manifestamente um caso aparte cujo caráter simbólico é ainda sublinhado pela advertência de Deus a Adão imortal que ele certamente morrerá (quer dizer se tornará mortal) se aí "toca". Contraste total com as árvores a consumir. É que o conhecimento — e aqui o mais alto: a onisciência, o conhecimento da totalidade — não se consume. Ele se cultiva. A princípio é para o cultivar e o guardar, dito explicitamente no texto (Gn 2,15) que Deus pôs Adão no jardim. Não para cultivar e guardar o jardim, segundo a tradição de nossas bíblias. Trata-se bem entendido do conhecimento perfeito, simbolizado pela árvore portando este nome, logo do conhecimento da Verdade, e não o conhecimento da evidência para a qual a consumação bastaria. O conhecimento da verdade, ao contrário, se cultiva no secreto. Diria no jardim secreto de cada um, de cada "ser humano". Ou talvez do "ser do Homem" se se traduz assim "heyot haadam". Tateando-se. O Adão original dispõe do Conhecimento perfeito, sob forma da árvore do mesmo nome, que pode contemplar à vontade para dele se impregnar. Ainda é preciso que o faça sem se deixar distrair pelas árvores "a consumir", que ele integra este dom de Deus que está livre de rejeitar, que ele o cultiva e o guarda. Livremente. Não por obrigação moral, ou outra. "Não é preciso que ele obedeça" (v. adama). Que doravante este Conhecimento, conscientemente entretido, seja então aquele do Outro, do outro si mesmo no seio do Homem Um e múltiplo, que não difira da alteridade em geral (mundo exterior, animais) e em particular vis a vis de seus semelhantes, o episódio seguinte, dito da "Costela de Adão", o confirmará. O Conhecimento começa pela simpatia e acaba pelo Amor. Nada tem de abstrato no início. É quando se destacará da árvore (Eva Serpente Maçã), desenraizado do Éden, que se tornará intelectual e estéril. Assim como nas funções da nutrição reconhecemos que há órgãos para receber os alimentos, para contê-los, elaborá-los e para distribui-los e aplicá-los, também na alma, tanto do homem como dos animais, há uma faculdade para receber as impressões dos sentidos, a qual se chama imaginativa; outra para retê-las, ou seja a memória; outra que as aperfeiçoa, a fantasia, e, finalmente, a que as classifica segundo seu assentimento ou dissenção, que é a estimativa. Com efeito, as coisas espirituais são imagens de Deus, ao passo que as corporais são de certo como simulacros daquelas; por isso não deve surpreender que se infiram as coisas espirituais das corporais, como também há representações dos corpos em sombras ou pinturas. [Juan Luis Vives: De anima et vita, I, 10] //[[trd>burckhardt:|Titus Burckhardt]]// Entre os autores sufistas, alguns, como Muhyi-din Ibn Arabi, Ahmad ibn al-‘Arif, Suhrawardi de Alepo, Al-yunayd e Abu-l-Hasan al-Shsadili, manifestam uma atitude fundamentalmente intelectual; consideram a Realidade divina como a essência universal de todo o conhecimento. Outros, como ‘Umar ibn al-Farid, Mansur al-Hallaj e Jalal al-Din Rumi, expressam-se com a linguagem do amor; para eles, a Realidade divina é, antes de tudo, o objeto ilimitado do desejo. Mas essa diversidade de atitudes não tem nada a ver com as divergências entre as escolas, como alguns têm acreditado. Segundo estes, os sufistas que utilizam uma linguagem intelectual teriam sofrido a influência de doutrinas alheias ao Islã, como o neoplatonismo, e somente os representantes de uma atitude emotiva seriam os porta-vozes da verdadeira mística, derivada da perspectiva monoteísta. Na verdade, a diversidade em questão está relacionada à diferença de vocações, que se inserem de maneira muito natural nos diferentes caracteres humanos e encontram seu lugar dentro do quadro do verdadeiro taawwuf; a diferença entre a atitude intelectual e a atitude afetiva não é senão a mais importante e geral que se pode observar neste campo. //[[spc:islamismo:izutsu:|Toshihiko Izutsu]] – Sufismo e Taoismo// Qual é o limite máximo do conhecimento? É a fase representada pela ideia de que nada jamais existiu desde o início. Esse é o limite mais remoto [que o Conhecimento pode alcançar], e nada mais pode ser acrescentado a ele. (Zhuangzi) Como já vimos no capítulo anterior, esta é a fase final, aquela que o homem alcança após “sentar-se no esquecimento”. Nela, o homem está tão completamente unificado com o Caminho e tão perfeitamente identificado com a Realidade que estes nem mesmo são percebidos como tais. Trata-se da fase do Vazio e do Nada no sentido explicado anteriormente. Guo Xiang explica: “Nesta fase, o homem esqueceu completamente o Céu e a Terra, retirou todas as coisas existentes de sua mente. Externamente, ele não percebe a existência do universo. Internamente, perdeu a consciência de sua própria existência. Ilimitadamente ‘vazio’, nada o obstrui. Ele muda à medida que as coisas mudam, e não há nada a que não corresponda”. Na fase seguinte, há consciência de que as “coisas” existem. Mas [nessa consciência] os “limites” entre elas nunca existiram. Nesta segunda fase, o homem toma consciência do Caminho que contém todas as coisas em estado de pura potencialidade. O Caminho se diversificará, na fase seguinte, em “dez mil coisas”. Mas, por enquanto, não há limites entre elas. As “coisas” permanecem indivisíveis como um Conjunto composto por um número ilimitado de elementos potencialmente heterogêneos. Continua sendo um plano uniforme, um Caos no qual as coisas ainda não receberam as distinções “essenciais”. Na fase seguinte [ou seja, a terceira], percebem-se os “limites” [entre as coisas]. Mas ainda não há distinção alguma entre o “correto” e o “incorreto”. Aqui, o Caos começa a revelar as formas definidas das coisas que contém. Todas as coisas mostram suas próprias demarcações, e cada coisa marca claramente seu próprio “limite”, aquele que a distingue das demais. É a fase das “essências” puras. A Unidade original se divide e se diversifica em Multiplicidade, e o Absoluto se manifesta como uma infinidade de existentes “relativos”. Consequentemente, a Realidade, que até então se encontrava fora do alcance da cognição humana, torna-se, pela primeira vez, acessível. No entanto, mesmo nesta fase, ainda não se distingue entre o “correto” e o “errado”, o que indica que ainda estamos em contato com o Caminho em sua integridade original, embora tal contato já seja indireto, uma vez que se produz através do véu das “essências”. Recordemos o mito do Imperador Caos (Hun Dun), mencionado no capítulo II desta segunda parte, que morreu assim que seus amigos praticaram orifícios em seu rosto “amorfo”. Como demonstra o presente trecho, neste mito ocorre uma simplificação excessiva, já que Caos não “morre” simplesmente pelos “orifícios” (ou seja, as distinções essenciais) que lhe são feitos. A verdadeira morte de Caos ocorre na fase seguinte. Assim que o “correto” e o “errado” surgem, o Caminho fica danificado. Assim que o Caminho fica danificado, nasce o Amor. Com o surgimento do “correto” e do “errado”, o Caos perde sua vitalidade natural e fica fossilizado como as “formas essenciais”, que são rígidas e inflexíveis como cadáveres. Como diz Wang Xianqian: “Quando o ‘certo’ e o ‘errado’ se tornam reconhecíveis, a integridade ‘caótica’ do Caminho é imediatamente prejudicada”. Assim que isso ocorre, nasce o Amor. O nascimento do Amor simboliza a atividade das emoções humanas, como o amor e o ódio, a simpatia e a repulsa. Esta é a fase última e inferior do Conhecimento. Como é natural, há outro aspecto da questão. Diz-se que o Caminho morre com o surgimento das emoções humanas, como o amor e o ódio. Mas isso só ocorre quando se considera a situação em relação à integridade “caótica” original, ou seja, a “indiferenciação” primitiva do Absoluto. Por outro lado, cada coisa é uma manifestação particular do Caminho e, como tal, até mesmo uma “essência” fossilizada é uma “autodeterminação” do Absoluto. No entanto, esse aspecto da questão é irrelevante para o tema que nos ocupa.