===== 43-49 ===== //Jacob Boehme. De la vie au-delà des sens. Tr. Gérard Pfister. Paris: Arfuyen, 1997.// 43 — O que é, então, um anjo ou a alma de um homem, para que possam assim se manifestar no amor ou na ira de Deus? — Têm a mesma origem: um fragmento da inteligência divina da vontade divina, brotado da palavra divina e constituído como objeto do amor Divino. Eles provêm do fundamento da eternidade, de onde emanam a luz e a escuridão. Na complacência com nossa própria cobiça estão as trevas, e na conformidade da vontade com a de Deus está a luz. Onde a vontade do ego da alma quer com Deus, o amor de Deus está em ação; e onde a vontade da alma se compraz em si mesma, a vontade de Deus age com dificuldade e permanecem as trevas, para que a luz seja conhecida. Eles nada mais são que uma manifestação da vontade divina, seja na luz, seja nas trevas das propriedades do mundo espiritual. 44 — O que é, então, o corpo de um homem? — É o mundo visível: uma imagem e substância de tudo o que o mundo é. E o mundo visível é uma manifestação do mundo interior e espiritual, surgida, por uma operação espiritual, da luz eterna e da escuridão eterna. É uma projeção da eternidade pela qual a eternidade se tornou visível, e onde a vontade própria e a vontade abandonada agem misturadas – ou seja, o mal e o bem. O homem exterior também é essa substância: pois Deus criou o homem exterior a partir do mundo exterior e insuflou nele, como alma e vida inteligente, o mundo espiritual. Por isso a alma pode, na substância do mundo exterior, receber e operar o mal e o bem. 45 — O que haverá, então, após este mundo, quando tudo isso passar? — Apenas a substância material terá fim – os quatro elementos, o sol, a lua e as estrelas. Então o mundo interior e espiritual se tornará plenamente visível e manifesto. E tudo o que neste tempo foi operado pelo espírito, bom ou mau, cada obra do espírito, se separará espiritualmente, seja na luz, seja na eterna escuridão. Pois o que foi gerado por cada vontade retornará ao que lhe é semelhante. As trevas serão chamadas inferno – um eterno esquecimento de todo bem; e a luz será Chamada reino de Deus – uma alegria eterna e um eterno louvor dos santos por terem sido libertos desse tormento. O Juízo Final será um incêndio do fogo segundo o amor e a ira de Deus, onde cessará a matéria de toda existência. Cada fogo atrairá o que é seu – a substância do que lhe é semelhante. O que foi gerado no amor de Deus atrairá o fogo-amor de Deus; nele arderá como amor e se abandonará a essa mesma substância. Mas o que operou na ira de Deus, nas trevas, atrairá o tormento e consumirá a falsa existência. Assim, restará apenas a vontade atormentada em sua própria imaginação e forma. 46 — Em que matéria, ou sob que forma, nossos corpos ressuscitarão? — Um corpo natural é semeado, grosseiro e elementar, semelhante agora aos elementos exteriores. Mas nele há uma força sutil, assim como na terra há uma boa força sutil que se une ao sol – que também surgiu, no princípio, da força divina, de onde veio igualmente a boa força do corpo. Essa boa força do corpo mortal deve retornar numa propriedade bela, transparente, cristalina e material, em carne e sangue espirituais, e permanecer eternamente. Assim como a boa força da terra, ela se tornará cristalina, e a luz divina brilhará em toda existência. A carne grosseira do homem, como a terra grosseira, passará e não viverá eternamente. Tudo virá a julgamento e será separado pelo fogo: a terra como as cinzas do corpo humano. Quando Deus mover novamente o mundo espiritual, cada espírito atrairá sua substância espiritual. Os bons atrairão a boa substância, e os maus, a má. Mas entende-se aqui apenas uma força substancial material, pois a substância é apenas força – como uma tintura material –, e a grosseria desaparecerá em tudo. 47 — Não ressuscitaremos, então, com nossos corpos visíveis, nem viveremos neles eternamente? — Quando o mundo visível passar, passará também tudo o que foi exterior e dele provém. Do mundo restarão apenas o modo e a forma celestes, cristalinos. Do homem, restará apenas a terra espiritual. Pois o homem será inteiramente semelhante ao mundo espiritual que agora ainda está oculto. 48 — Na vida espiritual, haverá homem e mulher, filhos e parentes? Haverá laços como os de agora? — Como podes pensar de modo tão carnal? Não haverá homem nem mulher, mas todos serão como os anjos de Deus, virgens viris. Nem Filho, nem filha, nem irmão, nem irmã – todos serão de um mesmo sexo em Cristo. Todos serão um, como a árvore e seus ramos. Serão criaturas distintas, mas Deus será tudo em todos. Haverá conhecimento espiritual do que cada um foi e fez, mas não haverá complacência ou desejo nessa existência. 49 — Todos desfrutarão igualmente da alegria eterna e da glorificação? — A Escritura diz: "Como é o povo, assim é seu Deus" (Os 4:9). E também: "Com o puro, te mostrarás puro; e com o perverso, te mostrarás astuto" (Sl 18:26). E São Paulo escreve: "Há diferença entre a glória do sol, da lua e das estrelas" (1Co 15:41). Sabe, pois, que todos desfrutarão da ação divina, mas sua força e iluminação serão muito diferentes. E isso conforme cada um, neste tempo, na angústia de sua ação, tenha sido revestido dessa força. Pois a angústia da ação da criatura agora é um advento e geração da força divina, pela qual a força de Deus se torna móvel e ativa. Aqueles que agora agiram com Cristo, e não nos prazeres da carne, terão grande força e glorificação. Mas outros, que apenas esperaram recompensa e serviram ao deus de seus ventres, mas no fim se converteram, não terão tanta força e iluminação. Por isso haverá entre eles diferença como entre o sol, a lua e as estrelas – e como entre as flores do campo, em beleza, força e virtude.