===== Boehme ===== //[[.:start|NICOLESCU, Basarab]]. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.// * A vida de Jacob Boehme surpreende por sua relativa normalidade, sem nenhum dos clichês associados às vidas de místicos ou iluminados. * Boehme era natural de Görlitz, Alemanha, membro do sindicato dos sapateiros, casado com a filha de um açougueiro e pai de vários filhos * Após vender sua oficina de sapataria, abriu uma loja de fios * Alexandre Koyré registra que em 1619 e 1620 Boehme é visto em Praga negociando luvas de lã, compradas de camponeses da região de Lusácia para revender no mercado * Gregor Richter, pastor principal de Görlitz e seu inimigo declarado, o acusou de heresia perigosa — Boehme foi perseguido e brevemente encarcerado * Dias após sua morte, os cidadãos de Görlitz destruíram e vandalizaram a cruz de seu túmulo * Ainda assim, Boehme morreu tranquilamente, em sua própria cama, de doença relativamente banal * O verdadeiro mistério de Boehme reside em suas experiências de iluminação — em especial a revelação aos vinte e cinco anos, desencadeada pela contemplação do brilho de um vaso de estanho, que se tornou a base de toda a sua obra subsequente. * A experiência inicial ocorreu no ano 1600 e consistiu num fluxo extraordinário de informações sobre a natureza oculta das coisas * Boehme aguardou doze anos em quase total silêncio para compreender o que lhe havia sido "dado" naquele momento inesquecível * Dessa gestação nasceu A Aurora — obra magnífica e singular * Numa carta de 1621 dirigida a Caspar Lindner, agente alfandegário de Beuthen, Boehme descreveu sua experiência com força e sinceridade que simultaneamente impressionam e perturbam. * Caspar Lindner era alfandegário de Beuthen e destinatário da carta de 1621 * Boehme escreve: "A porta se abriu para mim, de modo que em um quarto de hora vi e soube mais do que se tivesse passado muitos anos numa universidade... vi e conheci o ser de todos os Seres... também o nascimento ou geração eterna da Santíssima Trindade; a descida e a origem deste mundo" * Em A Aurora, o caráter essencial de sua visão é afirmado com ainda maior clareza, revelando tanto a amplitude do que foi contemplado quanto a longa espera necessária para que a compreensão plena se tornasse possível. * Boehme escreve em A Aurora: "Nessa luz meu espírito viu de repente através de todas as coisas, e em todas as criaturas, até nas ervas e na relva, conheceu a Deus... e de repente nessa luz minha vontade foi impelida por um impulso poderoso a descrever o ser de Deus" * Ele acrescenta: "O primeiro fogo era apenas uma semente, e não uma luz constante e duradoura: desde então muitos ventos frios sopraram sobre ela; mas a vontade nunca se apagou" * Os doze anos de silêncio foram marcados por considerável turbulência interior, fruto da tentativa de reconciliar a riqueza da experiência com a pobreza da palavra escrita para expressá-la. * Boehme menciona um "abismo horrível" e escreve: "Meu sol foi frequentemente eclipsado ou apagado" * Ele confessa: "se o espírito me fosse retirado, eu não poderia conhecer nem compreender meus próprios escritos" * Admite a tentação de desistir: "pois quando me preocupava com o sustento e resolvia abandonar esse trabalho em mãos, então a porta do céu em meu conhecimento se fechava" * Chegou, porém, a um poderoso ponto de equilíbrio, enunciando seu princípio: "não escreverei nada de estranho, que eu mesmo não tenha experimentado e conhecido, para não ser encontrado mentiroso diante de Deus" * Boehme desconfiava de toda prova pela razão lógica não fundada em experiência interior — aquela razão que, girando em círculos, conduz apenas à ilusão —, mas isso não o tornava adversário da razão: ao contrário, a racionalidade que habita sua obra é uma racionalidade viva, enraizada na experiência. * Boehme escreve: "Li os escritos de mestres muito elevados, esperando encontrar neles o fundamento e a verdadeira profundeza; mas não encontrei senão um espírito meio morto" * Quanto a seu próprio método, declara: "meu espírito se qualifica, mistura ou une a Deus, e prova ou sonda a Divindade, tal como ela é em todos os seus nascimentos e gerações" — sendo que "qualificar" significa, segundo Louis Claude de Saint-Martin em sua tradução francesa de A Aurora, "a reunião ativa e simultânea de diferentes faculdades, que resulta numa impregnação mútua" * Um pesquisador num colóquio da Universidade de Picardia afirmou peremptoriamente que Boehme desejaria "com ódio e fúria, colocar a razão e o entendimento em oposição" — interpretação considerada absurda * A oposição de Boehme não é à razão em si, mas à razão morta, desligada de toda experiência e nascida de pura associação mental mecânica * A racionalidade da obra de Boehme manifesta-se por meio da metáfora da árvore — recorrente em seus escritos — e possui importância contemporânea que ultrapassa os limites históricos de sua época. * Boehme escreve: "O jardim dessa árvore significa o mundo; o solo significa a natureza; o tronco da árvore significa as estrelas; pelos galhos entendem-se os elementos; os frutos que crescem nessa árvore significam os homens; a seiva da árvore denota a pura Divindade" * Antoine Faivre, retomando essa metáfora, escreve: "À árvore de Descartes, eu oporia esta de Boehme... o que significa antes de tudo fazer com que nossa árvore ocidental permaneça viva, carregada de folhagem e frutos ricamente coloridos; que a seiva a nutra e a penetre; que não se assemelhe mais a uma árvore morta numa paisagem invernal, como uma imagem formalizada e abstrata de um ser exangue" * Boehme escreve sobre sua época, com validade plena para o mundo atual: "A santa luz é hoje considerada mera história e conhecimento nu, e o espírito não age nela; e ainda assim supõem que é fé o que professam com a boca" * Boehme frequentemente se declarava um "homem simples" e se assombrava diante da totalidade de uma obra que se lhe impunha como necessidade urgente — e as perguntas sobre a origem desse fluxo extraordinário de dados e sobre o mecanismo pelo qual a razão decifra uma experiência essencialmente irracional permanecem, no estado atual do conhecimento, sem resposta. * O termo "imaginal", introduzido por Henry Corbin, pode ser invocado para designar o verdadeiramente imaginário — criativo, visionário, essencial, fundamental — sem o qual o real se dissolve numa cadeia interminável de imagens veladas, deformantes e mutilantes * Nada parecia predispor Boehme à abertura fundamental de 1600 * O desafio assumido por Boehme — reconciliar princípios opostos preservando sua especificidade — permanece crucial: razão e irracional, matéria e espírito, finalidade e infinitude, bem e mal, liberdade e lei, determinismo e indeterminação, imaginário e real. * Esses conceitos aparecem, no contexto de sua filosofia, como aproximações irrisoriamente pobres de ideias muito maiores * Uma filosofia das contradições fundada primeiramente em experiência interior só podia exprimir-se numa linguagem distinta da linguagem discursiva ordinária fundada na lógica aristoteliana — e por isso mesmo os amantes da obra de Boehme se desconcertam diante de seu idioma. * Alexandre Koyré considerou Boehme "um bárbaro" e descreveu sua linguagem como "embaraçosa e gaguejante" * Koyré escreve: "Boehme fala de tudo em relação a tudo o mais. Cada uma de suas obras é uma exposição completa de todo o seu sistema; e as repetições são tão frequentes quanto as contradições. Ninguém — exceto talvez Paracelso — fala uma linguagem tão bárbara, tão desajeitada" * O próprio Boehme reconhecia as dificuldades: "Oh, se eu tivesse a pena do homem e pudesse escrever o espírito do conhecimento. Só posso balbuciar dos grandes mistérios como uma criança que começa a falar; tão pouco pode a língua terrena exprimir o que o espírito compreende" * O milagre é que Boehme redescobriu por si mesmo uma linguagem adequada à sua filosofia — a linguagem do simbolismo, corrente no pensamento tradicional —, cuja lógica do terceiro incluído exige uma ruptura com a linguagem "natural" cotidiana. * Gilbert Durand escreveu: "O símbolo é uma representação que torna aparente um sentido oculto; é a epifania de um mistério" * O símbolo opera a unidade dos opostos e pressupõe a interação de sujeito e objeto * O símbolo nunca possui um sentido último ou exclusivo — sua precisão reside exatamente na capacidade de abarcar um número ilimitado de aspectos da realidade * O simbolismo implica uma entropia decrescente da linguagem, uma ordem crescente, um aumento de informação e compreensão à medida que atravessa diferentes níveis de realidade * A Aurora permanece o texto fundamental de Boehme — posição partilhada com Hegel —, pois é nela que a abordagem simbólica se manifesta em toda a sua riqueza e esplendor, enquanto as obras posteriores representam um esforço de racionalização numa linguagem mais próxima da lógica binária. * Os especialistas em Boehme consideram quase unanimemente A Aurora apenas um "primeiro esboço" de seu sistema filosófico * As obras posteriores expõem com maior precisão as ideias já presentes em A Aurora e introduzem algumas ideias novas, o que pode explicar a maior fascinação que exercem sobre o leitor ocidental moderno * A aceitação parcial dos símbolos nas obras posteriores é quase tão enriquecedora quanto o choque produzido pelo encontro com sua plena manifestação em A Aurora