===== Espíritos vitais ===== {{tag>Primal XII alma}} //Guillaume de Saint-Thierry. Oeuvres choisies. Introduction, traduction et notes J.-M Déchanet. Paris: Aubier, 1944.// 2° Forças vivas e espíritos vitais. [700b] Tal é a repartição dos humores, provenientes da digestão hepática. Do fervor dessa mesma digestão procede uma espécie de vapor, que dá origem ao espírito que se chama “natural”, o qual vivifica o próprio fígado e lhe permite responder às exigências da virtude natural. Três forças vivas ou “virtudes” repartem entre si, com efeito, a condução do corpo humano — chama-se aqui “virtude” a disposição de um órgão para determinada operação que lhe é própria. Há a virtude natural, que tem sua sede no fígado; a virtude espiritual, que jaz no coração; enfim, a virtude animal, [700c] que reside no cérebro... Virtude natural. — Alternadamente apetitiva, retentiva, digestiva e expulsiva, a virtude dita “natural” é comum às plantas, aos animais e aos homens. Preside às funções generativas, nutritivas e ao crescimento. O esperma e sobretudo o sangue lhe servem de agentes principais. A ação do sangue é secundada por três órgãos, encarregados de filtrar-lhe as impurezas: o fel, o baço e os rins. O fel atrai a bile vermelha e neutraliza em parte suas propriedades corrosivas. O baço retém as matérias indesejáveis do sangue. Os rins filtram e evacuam para a bexiga as superfluidades aquosas que são em seguida expelidas para fora. Tais são as operações do espírito dito “natural”, nascido no fígado, regente e propulsor da virtude natural, cuja atividade ele vigia. Virtude vital ou espiritual. — A virtude espiritual jaz no coração. Comum aos homens e às bestas, comanda a respiração e a circulação do sangue. Sob sua ação, o coração se dilata e se contrai alternadamente. A dilatação do coração acarreta a das artérias; produz a aspiração do ar exterior e a do sangue, que, pelas veias, aflui do fundo do organismo. O coração tem como adjuvantes os pulmões, as cartilagens e os músculos do peito. O ar inspirado nos pulmões tem por fim temperar o foco cardíaco. Pois o coração está na base do calor animal e, se não for metodicamente resfriado, corre o risco de se consumir ou de queimar os órgãos vizinhos. O excesso do calor cardíaco é expulso para fora sob forma de exalação. Diz-se por vezes que o coração repousa no seio do pulmão como no seio de uma nutriz. É que o ar constitui para esse órgão um verdadeiro alimento. Se vem a faltar inteiramente, o coração não tarda a morrer. Os físicos dizem com razão que o homem não pode viver mais de sete dias sem alimento nem mais de sete horas sem ar. [701c] Nascido no coração, o espírito vital ou sopro espiritual se espalha através dos membros, veiculado pelo sangue ao longo das artérias, mantendo e desenvolvendo a vitalidade do corpo. As artérias são canais cobertos e revestidos de pelos. Estes têm por missão seja reter o calor que vem do coração, seja operar, no curso da circulação, a purificação do sangue. [702c] O coração, como já se disse, é ardente por natureza. Por isso atrai para si tudo o que pode temperar seu calor fundamental, isto é, o ar e o sangue. Dividido em duas aurículas, recebe na aurícula direita, por intermédio de uma veia, o sangue que aspira do fígado. Expulsa em seguida esse mesmo sangue — e com ele o espírito vital — através do corpo, por meio de uma grossa artéria que sai da aurícula esquerda. Veias e artérias estão, aliás, em estreita relação por todo o corpo. Por poros que a natureza previdente lhes preparou, comunicam-se entre si e procedem a trocas. As artérias fazem passar para as veias o espírito vital; as veias passam às artérias o alimento que veiculam. Assim, em nenhum lugar o sangue perde sua riqueza nem sua virtude nutritiva. [702c] Grave erro a propósito do espírito vital. — Certo número de filósofos, para os quais a alma era corpórea, por vezes a identificaram com o espírito ou virtude vital de que se acaba de falar. Grave erro. A alma é, com efeito, uma substância espiritual, formada à imagem de Deus e muito semelhante a seu modelo. Está presente ao corpo como Deus está presente ao mundo. Dito de outro modo, está em toda parte e toda inteira em toda parte; toda inteira nas operações naturais, toda nas operações vitais, toda nas animais. Misteriosa nas naturais, sua ação é mais obscura nas operações animais, para tornar-se inteiramente oculta nas operações vitais, literalmente espirituais. Preside naturalmente às funções generativas e nutritivas do corpo humano. É passiva e ativa nas funções ditas animais, isto é, sensação e movimento; comanda diretamente as funções espirituais, isto é, respiração e circulação. Quanto às virtudes ditas natural, animal e vital, elas não são a alma, mas instrumentos da alma. Volte-se, aliás, ao assunto. Virtude animal. — A virtude dita “animal” é produzida pela passagem do sangue através da caixa craniana. Tem o cérebro por sede. Várias de suas operações são comuns com as bestas; outras são exclusivas do homem. [702a] Cumpre saber que o cérebro opera ora por si mesmo, ora por intermédio de seus acólitos, isto é, do sistema nervoso. Por si mesmo, raciocina, imagina, rememora. Tal como rainha e senhora, a razão, que eleva o homem acima dos animais, tem sede no centro desse órgão; a imaginação [702b] está na proa, isto é, na parte anterior do vaso cerebral; a memória, na popa, ou seja, atrás desse mesmo vaso. É também na proa que se encontra o centro nervoso, receptor das sensações; da popa partem as incitações motoras, transmitidas pelos nervos aos diferentes membros. Razão, memória, imaginação são, portanto, próprias do cérebro humano. Os animais sem razão representam-se e recordam, do mesmo modo que sentem e se movem. De outro modo, como o cão reconheceria seu dono, como o pássaro reencontraria seu ninho? Cumpre saber, no entanto, que não há neles nem memória nem faculdade imaginativa, mas somente uma capacidade sensorial muito maior que no homem. Sua alma é sem inteligência, fixada ao corpo do qual depende inteiramente. É uma simples faculdade de sentir e de mover-se. Por isso mesmo, seus movimentos são mais rápidos e seus membros mais ágeis que no homem. [703a] É pelos nervos, seus auxiliares, que o cérebro comanda os movimentos e percebe as sensações. [...] O principal desses auxiliares é um enorme nervo, chamado “nucha” em língua árabe. Partindo da base do cérebro, esse nervo desce, através das vértebras do dorso, ou espinha dorsal, até as partes inferiores do tronco. A “nucha”, ou medula espinhal, apresenta grandes afinidades com o cérebro a que serve. Como ele, é protegida por uma dupla envoltura, óssea e cartilaginosa. Uma doença da medula, ou mesmo uma simples incisão, paralisa toda sensação e todo movimento abaixo da lesão ou da parte enferma.