===== 4 ===== //Orígenes — Comentários ao Cântico dos Cânticos// - O Verbo de Deus fala à alma digna e à Igreja, chamando-a para levantar-se e vir, pois o inverno passou, a chuva cessou, as flores apareceram, chegou o tempo da poda, a voz da rola se ouviu, a figueira deu seus gomos e as vides em flor exalaram seu fragrância. - A alma não se une ao Verbo de Deus antes que todo inverno de perturbações e toda borrasca de vícios se afastem dela, para que não seja mais joguete de todo vento de doutrina. - Quando os obstáculos se afastam da alma, começam a brotar nela as flores das virtudes, chega o tempo da poda (cortar o que é supérfluo nos sentidos espirituais) e ouve-se a voz da rola (a sabedoria mais profunda de Deus, oculta no mistério). - A figueira que dá seus gomos representa o germe dos frutos do Espírito Santo no homem, e a vide que floresce e exala fragrância representa as virtudes que alegram o olfato com a suavidade da fragrância que transcende de sua flor. - O Verbo de Deus, vendo tais inícios de virtude na alma, chama-a para que se apresse a sair e vir a ele, desechando todo o corpóreo, para se fazer partícipe de sua perfeição. - Os pecados e vícios não têm substância alguma, pois quando deixam o homem não se juntam para formar outra substância, mas vão-se e dissolvem-se em si mesmos, reduzindo-se a nada. - Cristo diz estas palavras à Igreja, encerrando em um ciclo de um ano toda a extensão do tempo presente: o inverno representa o tempo das pragas do Egito, das guerras de Israel e da incredulidade que se opôs ao Salvador. - Por causa do pecado de Israel veio a salvação para os gentios, e agora Cristo chama a Igreja para levantar-se e vir, pois já se acabou o inverno que retinha os incrédulos na ignorância. - O tempo da poda chegou pela fé na paixão e na ressurreição de Cristo, quando os pecados são podados e tirados dos homens no batismo pelo perdão dos pecados. - A figueira que dá seus gomos pode entender-se dos frutos do Espírito Santo que agora se manifestam à Igreja, ou da letra da lei que, antes fechada, agora brota o germe da compreensão espiritual. - As vides que florescem e exalam fragrância representam as diversas igrejas disseminadas por todo o orbe ou as forças celestiais e angélicas que dão aos homens a fragrância da doutrina e da instrução. - O texto pode ser interpretado como uma profecia referida à Igreja chamada às futuras promessas depois do fim do mundo, no momento da ressurreição, quando o inverno das tempestades da vida presente tiver passado. - O esposo, que veio até a esposa saltando pelos montes e brincando pelos outeiros, ao divisá-la através das janelas, diz-lhe pela segunda vez que se levante e venha, acrescentando agora a indicação do lugar ao abrigo da penha, junto ao antemuro. - O esposo pede à esposa que, tão logo chegue ao lugar mais escondido, lhe mostre o rosto (jogue para trás o véu) e lhe faça ouvir a voz, pois sua voz é doce e sua face formosa. - Por inverno da alma entendem-se as ondas das paixões e as borrascas dos vícios que a sacodem; enquanto a alma está nesta situação, o Verbo de Deus não a exorta a sair, mas a estar recolhida em si mesma e fortificada. - Para a alma, é primavera quando se dá repouso à alma e sossego à mente; então o Verbo de Deus a chama para sair não só da casa, mas também da cidade (de tudo quanto é corpóreo e visível no mundo). - O abrigo da penha é a firme e sólida doutrina de Cristo, pois Paulo declara que a penha era Cristo; protegida com a doutrina e a fé de Cristo, a alma pode chegar segura ao lugar secreto onde contemplará a glória do Senhor a rosto descoberto. - A penha que é Cristo não está fechada por todas as partes, mas tem uma fenda; a fenda da penha é o que revela e faz os homens conhecer a Deus, e ninguém vê as costas de Deus (o que ocorrerá nos últimos tempos) senão quando conhece essas coisas por ter-lhas revelado Cristo. - O Verbo de Deus convida a alma que chegou ao antemuro (as realidades que não se veem e são eternas) a mostrar-lhe o rosto, para ver se não lhe resta já nada do velho véu, podendo assim observar com intrépidas miradas a glória do Senhor. - A voz do alma é doce quando ela fala palavras de Deus, trata da fé e da doutrina da verdade e explica os desígnios de Deus e seus juízos; se de sua boca saem necedades ou palavra ociosa, sua voz é áspera e desagradável. - A face do alma é formosa quando se renova de dia em dia à imagem do que a criou e não tem em si mancha nem ruga nem nada semelhante, sendo santa e imaculada. - O antemuro (um muro diante de outro muro) significa uma proteção maior e mais forte; por ele se entende que o Verbo de Deus, quando chama a alma e a tira das ocupações corporais, deseja instruí-la sobre os mistérios do mundo futuro. - Cristo diz estas coisas à Igreja, que lhe é tão chegada e tão formosa (formosa para ele só e para ninguém mais), despertando-a e anunciando-lhe o Evangelho da ressurreição. - A Igreja foi chamada no meio, entre as duas chamadas de Israel (primeiro Israel, depois a Igreja, e novamente todo Israel quando entrar a totalidade dos gentios), e por isso dorme entre esses dois lotes ou chamadas. - A Igreja deve caminhar oculta e coberta sob a sombra da penha (como está escrito: À sua sombra viveremos entre as gentes), mas quando chega ao antemuro (a condição do mundo futuro), deve mostrar o rosto e fazer ouvir a voz. - O esposo manda aos companheiros que cacem as raposinhas que destroem as vides, pois elas mostram já os primeiros gomos e não as deixam chegar a florescer. - Por raposas entendem-se as potestades inimigas e os demônios malvados que, por meio de torcidos pensamentos e errônea interpretação, exterminam na alma a flor das virtudes e aniquilam o fruto da fé. - Os anjos caçam os maus pensamentos no homem quando sugerem à mente que esses pensamentos não procedem de Deus, mas do espírito maligno, e dão à alma a capacidade de discernir os espíritos. - Enquanto um mal pensamento está ainda nos começos (pequeno), pode ser expulso facilmente do coração; se se repete com frequência e permanece largo tempo, induz a alma a consentir e depois a realizar o mal. - Por raposas podem entender-se também os perversos doutores das doutrinas heréticas, que com a astúcia de seus argumentos seduzem os corações dos inocentes e arruínam a vinha do Senhor. - Os doutores católicos devem caçar as raposinhas enquanto são ainda pequenas, refutando os sofismas dos hereges imediatamente, em seus mesmos começos, para que sua palavra não repita como a gangrena e se torne incurável. - Os exemplos bíblicos das raposas (Salmo LXII, Evangelhos, Sansão, Esdras) confirmam que os malvados doutores que enganam o alma do justo com vãs palavras descem ao profundo da terra e se tornam porção das raposas (porção dos piores demônios). - Sansão, que aprisionou trezentas raposas e as atou rabo com rabo, representa o verdadeiro e fiel doutor que caça os falazes e perversos doutores com a palavra da verdade e os refuta tomando de suas mesmas palavras argumentos e proposições. - O número de trezentas raposas indica a tripla forma dos pecados (ação, palavra e consentimento da mente), e os hereges que dizem ser fácil destruir as muralhas do Evangelho com a astúcia da palavra são como raposas que querem destruir o Santo dos santos. - Os santos doutores e mestres da Igreja receberam poder para caçar as raposas, assim como receberam poder para esmagar serpentes e escorpiões e contra toda potestade do inimigo. - As raposas destroem as vides pequenas (as almas ternas e principiantes), mas não podem lastimar as almas firmes e robustas; se os bons doutores caçam estas raposas e as expulsam da alma, então ela progredirá nas virtudes e florescerá na fé.