===== 3 ===== //Orígenes — Comentários ao Cântico dos Cânticos// - O esposo intervém pela segunda vez no diálogo com a esposa, declarando que ela é formosa por ser-lhe muito chegada e repete o elogio de sua formosura, acrescentando agora que seus olhos são como pombas. - A comparação dos olhos da esposa com pombas indica sua capacidade de compreender as Escrituras não segundo a letra, mas segundo o espírito, pois a pomba simboliza o Espírito Santo, e tais olhos espirituais veem e compreendem espiritualmente. - A esposa, agora com olhos de pomba (compreensão espiritual), contempla a beleza do esposo e declara que ele é formoso e aprazível. - O leito que a esposa diz ser comum com o esposo indica o corpo da alma que, ainda encerrada nele, é considerada digna de ser consorte do Verbo de Deus, e menciona que é um leito umbral, isto é, frutífero e sombreado por boas obras. - O esposo responde à esposa descrevendo as casas que lhes são comuns, cujos madeiramentos são de cedro e cujas vigas são de cipreste. - A Igreja é a casa de Deus, e os madeiramentos de cedro representam os presbíteros, enquanto as vigas de cipreste representam os bispos, que sustentam o edifício com sua solidez e aroma de virtude e doutrina. - O esposo declara ser a flor do campo (no povo judeu cultivado pela lei e profetas) e o lírio dos vales (no lugar rochoso e inculto dos gentios). - No campo (povo judeu), o Verbo foi flor, mas não pôde chegar à perfeição do fruto porque a lei não conduziu ninguém à perfeição; nos vales (gentios), o Verbo se fez lírio, sendo vestido pelo Pai com uma carne mais gloriosa do que a glória de Salomão. - O esposo acrescenta que, assim como o lírio está entre as espinhos, assim a que lhe é chegada está entre as filhas, referindo-se à Igreja dos gentios que brota entre os infiéis e os hereges que saíram da fé. - A esposa compara o esposo à macieira entre as árvores silvestres, desejou sentar-se à sua sombra e declara que seu fruto é doce em sua boca. - Por árvores silvestres (filhos) podem entender-se os anjos ou os hereges; a sombra da macieira é a proteção da encarnação de Cristo que dá vida aos gentios, como profetizou Jeremias e como aconteceu na concepção de Maria. - O fruto doce na boca representa o gosto da sabedoria divina, em contraste com as bocas que são sepulcros abertos e que profetizam palavras de morte. - A esposa pede aos amigos do esposo (profetas, apóstolos e anjos) que a introduzam na casa do vinho, onde se bebe o vinho da alegria preparado pela sabedoria e onde se sentam os que vêm de oriente e ocidente no reino de Deus. - A esposa pede aos mesmos amigos que ordenem nela o amor, ou seja, que lhe ensinem as diversas regras e medidas do amor. - O amor desordenado ama o que não deve ou ama na medida errada; o amor ordenado consiste em amar a Deus sem medida (com todo o coração, alma e forças) e ao próximo como a si mesmo, guardando a igualdade. - No amor ao próximo, deve haver distinção proporcionada aos méritos e à dignidade de cada um, amando mais aqueles que se afadigam na palavra de Deus e os que vivem santamente do que os que nada fazem. - Também no amor aos inimigos há um ordem, devendo-se distinguir entre o inimigo que é honesto e o que é criminoso, assim como no amor aos parentes e às esposas há diferentes graus e medidas. - Deus mesmo ama todas as coisas que criou, mas não amou igualmente os egípcios e os hebreus, nem Moisés e Aarão, pois dispõe o amor segundo a medida dos méritos de cada um. - A esposa, ferida de amor, pede que a sustentem com perfumes e a apoiem sobre as macieiras, referindo-se respectivamente aos catecúmenos (que têm a fragrância da invocação mas não produzem fruto) e às almas que produzem bons frutos. - A esposa declara estar ferida de amor, recebendo a saudável ferida da saeta escolhida do Verbo de Deus; uma alma pode estar ferida de sabedoria, de poder, de justiça ou de bondade, mas todas compartilham esta mesma ferida de amor. - Existem também as saetas de fogo do maligno (fornicação, avareza, jactância, vaidade) que ferem de morte as almas não protegidas pelo escudo da fé, que apaga todas as saetas encendidas. - O esposo coloca sua esquerda sob a cabeça da esposa e com sua direita a abraça, descrevendo a união da alma com o Verbo de Deus de modo dramático, mas sem interpretação carnal. - A esquerda do Verbo de Deus é onde estão as riquezas e a glória (a fé na encarnação e na paixão de Cristo), enquanto a direita é onde está a longura da vida (a natureza divina e eterna do Verbo). - A esposa deseja ter a esquerda do esposo sob sua cabeça (a proteção da fé na encarnação) e ser abraçada por sua direita (ser instruída sobre os mistérios ocultos antes da encarnação). - Tudo o que pertence à humanidade de Cristo (a encarnação, a paixão, os pecados que ele carregou) chama-se esquerda do Verbo, enquanto sua natureza divina, que é toda direita, toda luz e toda glória, chama-se direita.