===== 2 ===== //Orígenes — Comentários ao Cântico dos Cânticos// - A esposa, respondendo às filhas de Jerusalém que a criticam, afirma ser morena (ou negra) mas formosa, comparando-se às tendas de Cedar (negras) e às peles de Salomão (também negras), indicando que sua beleza interior supera a escuridão exterior. - A esposa representa a Igreja reunida dentre os gentios, enquanto as filhas de Jerusalém são as almas da cidade terrena que a desprezam por sua falta de nobreza ancestral; a Igreja, porém, reconhece sua negrura como ausência da lei mosaica, mas sua formosura vem da criação à imagem de Deus e da união com o Verbo. - A esposa negra e formosa é prefigurada na esposa etíope de Moisés, cujo casamento provocou a crítica de Maria e Aarão, mas fez com que Deus louvasse Moisés como seu servo fiel, mostrando que a lei espiritual (Cristo) se une à Igreja dos gentios. - A rainha de Sabá, etíope que veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, prefigura a Igreja dos gentios que vem a Cristo, o verdadeiro Salomão, trazendo ouro, perfumes e pedras preciosas (pensamentos, boas obras e virtudes), e recebe dele toda a sabedoria. - A rainha de Sabá admirou a prudência de Salomão (casa, manjares, assento dos servos, ministros, vestidos, copeiros e holocaustos), que simbolizam os mistérios da encarnação, a vontade do Pai, a ordem eclesiástica, os diáconos, o revestimento de Cristo no batismo, os doutores que escanciam a doutrina e as celebrações litúrgicas. - A rainha de Sabá disse não ter acreditado no que ouvira em sua terra, mas agora seus olhos veem que nem a metade lhe fora contada, e proclama ditosas as mulheres e os servos de Salomão que estão sempre em sua presença. - A rainha de Sabá ofereceu ao rei Salomão cento e vinte talentos de ouro (número consagrado aos anos da vida de Moisés e ao tempo da penitência antes do dilúvio) e grande quantidade de perfumes de qualidade superior, simbolizando as orações e as obras de misericórdia da Igreja. - O salmo LXVII profetiza que a Etiópia (o povo dos gentios) tenderá apressadamente suas mãos a Deus, precedendo os que primeiro receberam a palavra, e a esposa negra se torna formosa apesar da inveja e calúnia das filhas de Jerusalém. - O profeta Sofonias anuncia que Deus acolherá os que vêm de além dos rios da Etiópia (os que estão enegrecidos pela abundância de pecados) e trazem oferendas, e que Israel não será mais envergonhado por suas maquinações. - Ebed-Melec, o eunuco etíope que tirou Jeremias do aljibe onde os príncipes de Israel o haviam lançado, prefigura o povo dos gentios que, pela fé na ressurreição, tira Cristo da morte e por isso recebe a promessa de salvação. - As peles de Salomão, que cobriam a tenda do testemunho, representam a glória da verdadeira tenda que Deus armou (não o homem); embora negras como pelos de cabra, eram úteis para a tenda divina, assim como a esposa é negra por fora mas formosa por dentro. - A esposa pede que não se fixem em sua morenice, pois o sol (o sol de justiça) a descuidou: o sol espiritual não enegrece por seus raios, mas por seu descuido, quando a alma não se mantém reta diante dele, andando em posição oblíqua. - O sol de justiça tem duplo poder: ilumina os justos e queima os pecadores, endurecendo o coração do Faraó (matéria de barro) enquanto ilumina Israel; assim, Deus é luz para os justos e fogo consumidor para os pecadores. - Os filhos da mãe da esposa (a Jerusalém celestial) pelejaram na esposa (na Igreja dos gentios) para vencer nela a infidelidade e os sofismas, e depois a constituíram guarda das vinhas (os livros da lei, profetas, evangelhos e cartas apostólicas). - A própria vinha que a esposa não guardou representa a antiga ciência e as observâncias judaicas ou as doutrinas gentílicas que ela abandonou como estiércol ao receber a fé em Cristo, considerando-as perdas para ganhar a justiça que vem de Deus. - Para a alma que se converte a Deus, os anjos (filhos da mesma mãe celestial) combatem os demônios em seu coração e depois a constituem guarda das vinhas divinas, enquanto a vinha própria não guardada representa as antigas normas do homem velho. - A esposa dirige-se ao esposo (não mais às filhas de Jerusalém) perguntando onde ele apascenta o rebanho e onde sesteia ao meio-dia, para que ela não ande como coberta com véu de noiva atrás dos rebanhos dos companheiros. - O esposo é também pastor, e seus companheiros são os anjos que pastoreiam outros povos (rebanhos dos companheiros), enquanto o rebanho do esposo são aqueles que ouvem a sua voz; a esposa quer evitar assemelhar-se às esposas veladas desses companheiros. - O meio-dia representa a luz plena e perfeita da ciência divina, o momento em que o sol de justiça está no zênite; a esposa anseia por essa iluminação meridiana, que lhe revele os pastos verdejantes e as fontes tranquilas do bom pastor. - Abraão recebeu a visita de Deus ao meio-dia, sentado à entrada de sua tenda junto ao carvalho de Mambré (que significa visão), indicando que a mente fora do corpo e dos pensamentos carnais pode ver a Deus na luz meridiana. - José fez seus irmãos comerem com ele ao meio-dia, e os evangelistas, ao narrarem a crucificação, mencionaram a hora sexta (e não o meio-dia) porque a sexta hora refere-se ao dia em que o homem foi criado e ao sacrifício da vítima pascal. - A esposa busca os redís do meio-dia para não se assemelhar às escolas dos filósofos (cuja verdade está velada), pois a esposa de Cristo contempla a glória de Deus com o rosto descoberto.