===== LIBERAR A ALMA ===== Mateus o Pobre — A Vida de Oração Ortodoxa - A alma humana foi criada leve e pura, com forte desejo de permanecer junto a Deus, liberdade de elevar-se e disposição amorosa para com toda outra alma humana, podendo por essa natureza formar uma entidade perfeita de amor e harmonia com Deus e com o próximo. - Numa alma fiel a Deus, os elementos de poder, leveza, liberdade e amor puro são ilimitados em sua capacidade de crescimento, pois a alma se abastece continuamente de Deus para ganhar essas propriedades. - O que acorrenta a leveza da alma, suspende seu movimento e lhe tira a liberdade é o ego humano, que pesa sobre ela, puxa-a para a terra e impede sua expansão e crescimento; descobrir esse elemento é a questão central da vida espiritual. - O ego humano pode querer o que Deus não quer, desejar o que contraria sua vontade, rejeitar seus conselhos, desprezar seu amor e por fim provocar a própria destruição do homem. - O ego não é outra coisa senão a própria alma: quando a alma se submete totalmente a Deus, o ego não tem existência independente e sua vontade é a vontade de Deus; quando a alma se recusa à submissão, o ego vive para si mesmo e morre para Deus, existindo apenas no mal e na ilusão materialista. - O afastamento do ego da vontade de Deus é sempre induzido pelo engano do diabo, à semelhança do engano da serpente a Eva no paraíso. - O único meio de mortificar o ego humano para que viva para Deus é a submissão total à vontade divina, que não exclui o esforço humano para resolver problemas e tomar decisões, mas exige a entrega dos resultados finais a Deus em pleno contentamento. - Nunca confiar na própria sabedoria ou força humana impede que a mente fique obscurecida e que a graça seja bloqueada; tudo o que há de bom no homem vem de Deus, e se o homem não o atribui a Deus, Deus o retira dele ou o abandona como simples dom humano sujeito à corrupção. - O ego que não se submete voluntariamente a Deus é entregue a disciplina contínua de tribulação após tribulação até se render em contrição; quem rejeita a disciplina é abandonado por Deus para sempre. - A rendição voluntária é o caminho mais fácil: contar-se como nada em palavra e obra e seguir o caminho da graça onde quer que o Espírito queira conduzir; do contrário, a libertação do ego acontecerá à força pela disciplina. - A submissão a Deus é um dom gratuito da graça que exige fé confiante, oração, súplica e vontade resoluta de renunciar ao próprio eu em todos os momentos e obras, dentro da consciência e não ostensivamente diante das pessoas. - A disciplina de Deus é um grande proveito, pois Ele cerca a alma por todos os lados, a amargura com humilhação interior e exterior, até que ela se aborreça de si mesma, amaldiçoe sua própria inteligência e se entregue a Deus sentindo-se esmagada e humilde. - O caminho mais curto e simples para libertar a alma é sentar-se diariamente sob a disciplina da graça e examinar pensamentos, intenções, palavras e ações à luz da Palavra de Deus, descobrindo assim a corrupção do ego e separando-se progressivamente dele até negá-lo por completo. - O momento em que o homem reconhece no fundo do coração que ele não é nada e que Deus é tudo é o momento em que a verdade o liberta. - Entre os fatores ocultos que prejudicam o movimento espiritual da alma está a ignorância: da vontade de Deus, cujo remédio é a leitura bíblica e a oração constante; do caminho estreito, cujo remédio é a coragem; das artimanhas de Satanás, cujo remédio é a humildade e a vigilância; e da transitoriedade das glórias deste mundo, cujo remédio é uma visita ao cemitério. - Os hábitos corporais e mentais contrários ao cristianismo, aprendidos no ambiente familiar, também se insinuam na vida de oração, confinam seu alcance e apagam sua chama; romper esses laços exige o corte resoluto como com faca afiada de fervor espiritual. - Os hábitos mentais são sintomas de fraqueza ou de autograndeza, mas em qualquer caso são resultado direto da perversão do eu por seu afastamento de Deus; libertar-se deles não é possível sem arrependimento sincero e contrito sob a mão de Deus. - Os comportamentos contrários à ética cristã revelam o abismo que separa a alma de Cristo, e seu remédio consiste unicamente no retorno ao significado da cruz de Cristo. - Assim como um pássaro amarrado a um fio não pode voar, e tentar fazê-lo lhe quebra a asa, a alma que está presa às coisas deste mundo, mesmo que seja por um único laço por menor que seja, não pode viver para Deus; após repetidas tentativas fracassadas, abandona o ardor pela vida espiritual. - Muitos que avançam na vida de oração encontram subitamente seu progresso interrompido pela apatia; a causa pode ser um laço oculto como um pecado, um vício, uma busca encoberta de fama ou um amor sensual por algo deste mundo. - Quem foi libertado de seus pecados anteriores não deve confiar em si mesmo nem lançar-se prematuramente ao ministério antes de que seu espírito tenha alcançado a maturidade que torna a liberdade divina e não humana; muitos recaíram de maneira pior do que antes por descuido nesse ponto. - A libertação da alma não deve se limitar a um único aspecto, mas abranger toda a vida interior; é melhor parecer morto aos olhos dos outros e ser salvo do que ascender aos mais altos postos perdendo a liberdade ou a vida eterna. - O último conselho para quem ama a Deus é não acrescentar novos pecados aos antigos por dissolução e paixões descontroladas, pois se os pecados antigos já exigem muitas lágrimas para ser curados, quanto mais difícil é curar quem multiplica os pecados dia após dia. - O primeiro passo prático para entrar na verdadeira liberdade é a rendição total e absoluta à vontade de Deus sem resistência, o que qualifica o homem para suportar no coração a libertação de seu ego e de suas paixões; quem vive obstinadamente na vontade de Deus ganha uma espécie de imunidade contra toda tentação ao pecado. - Quando o processo de submissão da alma a Deus atinge seu pleno ritmo, o homem não consegue mais suportar qualquer prazer ou sedução que o afaste dessa submissão a Deus; isso é a liberdade, a liberdade absoluta. ** Ditos dos Padres sobre a libertação da alma ** - O Abba Isaac ensina que ninguém pode oferecer oração de intensidade e sinceridade adequadas sem buscar viver sem ansiedade pelas necessidades corporais, sem detração, ira, tristeza indevida, luxúria ou amor ao dinheiro; é preciso ser antes da oração o tipo de pessoa que se deseja que Deus encontre durante ela. - O Abba Isaac compara a alma a uma pluma: se livre de umidade, eleva-se ao menor sopro de vento; se umedecida, cai ao chão; assim também a mente, se livre do peso do pecado e das paixões, recupera sua leveza natural e a oração sobe até Deus. - São João de Dalyatha exorta os mergulhados nas trevas das coisas materiais a erguerem a cabeça para que a luz do Pai os ilumine e os desvincule de seus laços. - São João de Dalyatha afirma que quem guarda qualquer relação com o mundo ou suas concupiscências não pode entrar na cidade dos seres espirituais; quem foi infundido com o amor de Cristo não suporta a companhia deste mundo nem pode prender sua mente a coisas terrenas. - São João de Dalyatha distingue a concupiscência terrena, partilhada com cães e porcos, da concupiscência por Deus, que é partilhada com os anjos. - São Isaac, o Sírio, instrui a libertar-se primeiro de todos os laços externos antes de tentar unir o coração a Deus, pois a unificação com Deus é precedida pela soltura da matéria. - São Isaac, o Sírio, ensina que quanto mais a mente se desapega das coisas visíveis e se ocupa com a esperança das coisas futuras, mais ela se torna refinada e translúcida na oração; por isso o Senhor ordenou que antes de tudo o homem se prenda à não possessividade e se retire da agitação do mundo. - São Isaac alerta que a possessividade não consiste apenas em ter ouro e prata, mas em adquirir qualquer coisa a que a vontade se apegue. - São Isaac ensina que na medida em que o homem despreza este mundo em seu ardente temor de Deus, nessa mesma medida a providência divina se aproxima dele, e ele percebe secretamente sua assistência e recebe pensamentos límpidos para compreendê-la. - São Isaac adverte que quando a doença, a necessidade, o esgotamento corporal e o medo perturbam a mente a ponto de afastá-la da alegria da esperança e do cuidado de agradar ao Senhor, isso revela que é a carne, e não Cristo, que vive dentro do homem. - São Macário, o Grande, exorta a pedir a Deus as asas de pomba do Espírito Santo para voar até Ele e descansar, e que Ele retire da alma e do corpo o vento mau do pecado, pois só Ele pode fazê-lo. - São Macário ensina que arrancar o pecado e o mal profundamente enraizados pertence exclusivamente ao poder divino; ao homem cabe lutar, combater, ferir e receber golpes, mas extirpar o mal pertence somente a Deus, pois sem Jesus o homem não pode se salvar nem entrar no Reino. - São Macário afirma que a alma considerada digna de receber o poder do alto pelo desejo consumidor, pela expectativa, pela fé e pelo amor está sendo despida de toda afeição mundana e libertada de todo laço do mal. - São Macário observa que assim como o amor terreno pode desapegar alguém de todos os outros amores, com muito mais razão os que entram em verdadeira comunhão com o Espírito Santo serão libertados de todo amor mundano. - São Macário descreve os que ardem com o anseio pelo Espírito celestial como feridos em sua alma com o amor do amor de Deus e inflamados com fogo divino, de modo que tudo o que é deste mundo se torna repulsivo e desprezível; desse amor nada os separará, como testemunha o apóstolo Paulo. - Santo Antônio, o Grande, ensina que se a alma se entregar ao Senhor com toda a sua força, Deus lhe concederá o verdadeiro arrependimento e lhe revelará suas paixões uma a uma para que as evite. - Santo Antônio exclama com espanto que, tendo todos a liberdade de praticar as obras dos santos, em vez disso os homens se embriagam com as paixões como bêbados de vinho. - Santo Antônio afirma que quem deseja se tornar perfeito no caminho ascético não deve ser escravo de nenhum mal, pois quem adora uma forma de mal está longe da fronteira da perfeição. - Santo Antônio assegura que o homem foi criado com autoridade sobre si mesmo, e que por isso é assaltado pelos espíritos maliciosos; mas o anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem e os liberta.