===== Autoridade ===== //Regula Pastoralis. Livro I.// CAPÍTULO I — QUE O INEXPERIENTE NÃO OUSE APROXIMAR-SE DE UM CARGO DE AUTORIDADE Ninguém se atreve a ensinar uma arte antes de, por meio de meditação deliberada, tê-la aprendido. Que imprudência, então, é o inexperiente assumir autoridade pastoral, já que o governo das almas é a arte das artes! Pois quem pode ignorar que as feridas dos pensamentos dos homens são mais ocultas do que as feridas das entranhas? E, no entanto, com que frequência homens que não possuem nenhum conhecimento de preceitos espirituais se professam, sem medo, médicos do coração, embora aqueles que ignoram o efeito dos remédios corem de se apresentar como médicos do corpo! Mas, como, por disposição de Deus, todos os mais altos em posição nesta era atual tendem a reverenciar a religião, há alguns que, por meio da aparência externa de autoridade dentro da Santa Igreja, buscam a glória da distinção. Desejam parecer mestres, cobiçam a superioridade sobre os outros e, como atesta a Verdade, buscam as primeiras saudações na praça, os primeiros lugares nas festas, os primeiros assentos nas assembleias ([[b>Mateus 23:6-7]]), sendo tanto menos capazes de administrar dignamente o ofício de cuidado pastoral que assumiram, quanto mais alcançaram a posição magisterial da humildade apenas por orgulho. Pois, de fato, em uma posição magisterial, a própria linguagem fica confusa quando uma coisa é aprendida e outra ensinada. Contra tais pessoas, o Senhor se queixa por meio do profeta, dizendo: “Eles reinaram, e não por Mim; foram estabelecidos como príncipes, e Eu não o sabia” ([[b>Oséias 8:4]]). Pois esses reinam por si mesmos, e não pela Vontade do Soberano Supremo, os quais, sem serem apoiados por virtudes e sem terem sido divinamente chamados de forma alguma, mas inflamados por seu próprio desejo, usurpam, em vez de alcançarem, o domínio supremo. Mas o Juiz interior, embora avance em relação a eles, ainda assim não os conhece; pois, embora os tolere por permissão, certamente os ignora pelo julgamento da reprovação. Por isso, a alguns que se aproximam Dele mesmo após milagres, Ele diz: “Afastai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade; não sei quem sois” ([[b>Lucas 13:27]]). A incompetência dos pastores é repreendida pela voz da Verdade, quando é dito por meio do profeta: “Os próprios pastores não tiveram entendimento” ([[b>Isaías 56:11]]); a quem o Senhor denuncia novamente, dizendo: “E aqueles que manejam a lei não Me conheceram” ([[b>Jeremias 2:8]]). E, portanto, a Verdade se queixa de não ser conhecida por eles e protesta que não conhece o principado daqueles que não O conhecem; pois, na verdade, aqueles que não conhecem as coisas do Senhor são desconhecidos pelo Senhor; como atesta Paulo, que diz: “Mas, se alguém não conhece, não será conhecido” ([[b>1 Coríntios 14:38]]). No entanto, essa incompetência dos pastores, sem dúvida, muitas vezes corresponde ao que merecem aqueles que lhes estão sujeitos, pois, embora seja culpa deles próprios não terem a luz do conhecimento, ainda assim é na aplicação de um julgamento rigoroso que, por causa de sua ignorância, também aqueles que os seguem devem tropeçar. Daí que, no Evangelho, a própria Verdade diga: “Se um cego guia outro cego, ambos caem na vala” ([[b>Mateus 15:14]]). Daí que o salmista (não expressando seu próprio desejo, mas em seu ministério como profeta) denuncie tais pessoas, quando diz: “Que seus olhos sejam cegados para que não vejam, e sempre inclina as suas costas” (Salmo 68,24). Pois, de fato, são chamados de “olhos” aqueles que, colocados bem diante da mais alta dignidade, assumiram a função de explorar o caminho; enquanto aqueles que estão ligados a eles e os seguem são denominados “costas”. E assim, quando os olhos ficam cegos, as costas se curvam, porque, quando aqueles que vão à frente perdem a luz do conhecimento, aqueles que os seguem ficam curvados para carregar o fardo de seus pecados.