===== 2 Hipótese de leitura ===== //LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970// - As análises anteriores mostram que o Cântico do Sol seleciona imagens materiais cujo sentido não se esgota nas realidades objetivas, pois sua matéria imaginada é preciosa, carregada de valores inconscientes, de dimensão mítica e arquetípica, e o acréscimo das estrofes humanas sugere uma ligação profunda entre a parte cósmica e o desfecho humano do cântico. - O Cântico do Sol constitui propriamente uma linguagem simbólica, pois seus signos não apenas designam realidades imediatas, mas conduzem a um outro sentido que só pode ser alcançado por meio da própria visão simbólica. - O outro sentido do Cântico do Sol ainda permanece a decifrar, mas já se impõe a evidência de que a obra nasce de um temperamento onírico rico, aberto aos arquétipos e às grandes forças imaginativas e afetivas, nas quais a luz e a serenidade do poema revelam uma reconciliação profunda após um longo itinerário de lutas e sofrimentos. - O Cântico do Sol pode ser entendido como linguagem simbólica da reconciliação total da alma, na qual Eros e Ágape se encontram de modo singular e permitem unir a aspiração mais alta ao Altíssimo com as ligações mais humildes e obscuras à Terra mãe. - A hipótese de leitura exige reler o poema a partir de seu movimento íntimo. - O Cântico do Sol começa pelo movimento vertical da alma em direção ao Altíssimo, mas a consciência da indignidade humana diante da transcendência divina leva Francisco a abandonar a pretensão de nomear Deus diretamente e a louvar o indizível por meio das criaturas. - O movimento inicial, orientado para a transcendência, torna-se também movimento horizontal de comunhão fraterna com todas as criaturas, e o caminho para o Altíssimo passa paradoxalmente pela descida do céu à terra, das alturas solares às realidades humildes e maternas. - O caminho cósmico é também caminho de intimidade, pois os elementos fraternalmente celebrados abrem diante da alma uma via para suas próprias profundidades inconscientes. - A celebração do cosmos só manifesta o sagrado porque faz vibrar a alma em suas profundezas, de modo que a dimensão cósmica e a dimensão psíquica da louvação são inseparáveis. - A exploração do sagrado no mundo acompanha a exploração secreta do sagrado na alma, pois imaginar as coisas em sua profundidade permite que a alma se conheça indiretamente por meio das imagens do mundo. - A celebração franciscana das realidades cósmicas pode ser lida como linguagem simbólica de uma aventura espiritual noturna da alma, em que a sequência ordenada de imagens materiais exprime um processo de metamorfose, retorno às origens humildes e reconciliação das forças obscuras do desejo com a aspiração mais alta. * A alma parte da contemplação do Altíssimo e reconhece sua indignidade de nomeá-lo. * As imagens cósmicas acolhidas fraternalmente conduzem a alma de volta a si mesma e às suas profundezas inconscientes. * A comunhão com a Terra mãe simboliza uma descida ao arcaico, ao obscuro e ao selvagem. * As forças obscuras do desejo consentem em ser penetradas pela visada mais alta do espírito. - As duas últimas estrofes já não aparecem como acréscimo acidental, pois revelam o desfecho do cântico na grande misericórdia e na paz, celebrando o ser humano reconciliado em quem Eros e Ágape se fundem num desejo de perdão universal. - A reconciliação conduz ao encontro autêntico com Deus, pois a alma que aceitou louvar o Altíssimo pelas criaturas e comungar fraternalmente com elas reencontra o Altíssimo como plenitude de misericórdia e de paz. - Essa leitura ilumina a sabedoria franciscana que une mística evangélica despojada e mística cósmica entusiasta, mostrando que o movimento da alma rumo ao Altíssimo passa pelo consentimento humilde aos enraizamentos cósmicos e psíquicos, conforme o modelo cristológico do abaixamento e da exaltação. - O Cântico do Sol exprime o cume da iluminação da alma, na qual o finito e o infinito, as profundezas da terra e a imensidão do céu, a criatura e o Criador se unem no Cristo como centro e repouso da alma pacificada.