====== Escrevendo o Evangelho ====== Eusébio de Cesareia //COOGAN, Jeremiah. Eusebius the evangelist: rewriting the fourfold Gospel in late Antiquity. New York, NY, United States of America: Oxford University Press, 2023.// - O estudioso Victor de Capua, em 546 d.C., descreveu em seu prefácio ao Codex Fuldensis três projetos anteriores de composição evangélica: Amônio de Alexandria, que teria justaposto excertos dos outros evangelhos ao de Mateus; Taciano, o Assírio, que teria composto um evangelho a partir dos quatro; e Eusébio de Cesareia, que teria refinado o exemplo de Amônio com um aparato de índices numéricos para indicar as passagens comuns e próprias de cada evangelista. - A abordagem de Eusébio foi inovadora ao utilizar tecnologias textuais emergentes — paratextos prefaciais e tabelas de colunas e linhas — para criar novas possibilidades de navegação e leitura do evangelho quádruplo, mas sua ênfase na diferença em relação aos precedentes obscureceu as continuidades com dinâmicas anteriores de escrita evangélica, incluindo não apenas Taciano e Amônio, mas também os próprios evangelhos canônicos. - O aparato eusebiano dá continuidade a uma trajetória de escrita evangélica que começa com a textualização das narrativas sobre Jesus, processo no qual tanto textos existentes quanto tradições orais contribuíram para a produção, transmissão e transformação dos evangelhos, caracterizado por uma dinâmica contínua de escrita e reescrita que se estende até o quarto século. - A curadoria textual oferece um quadro para compreender a reescrita como um trabalho de composição que envolve coletar, filtrar e ordenar informações em uma forma narrativa navegável, criando novas estruturas de conhecimento experiencial para os leitores, o que se observa precisamente na reconfiguração eusebiana do evangelho quádruplo. - A reescrita frequentemente expande ou contrai textos anteriores por meio de adição, omissão, absorção, abreviação e substituição, processos que frequentemente coexistem em tensão produtiva, como se vê em Mateus e Lucas em relação a Marcos, ou em Taciano e na expansão do final de Marcos. - A curadoria textual também estrutura e apresenta os textos por meio de recursos paratextuais, como ressequenciamento, segmentação, justaposição e emolduramento, criando novas sequências e possibilidades aprimoradas de acesso não linear, como exemplificado no aparato eusebiano, nas divisões do Evangelho de Tomé e nos títulos e prefácios dos evangelhos. - Os termos "edição", "correção" e "harmonização" são problemáticos porque refletem noções contingentes de autoria e julgamentos sobre a secundariedade ou inferioridade dos textos produzidos, enquanto os processos subjacentes — adição, omissão, ressequenciamento — são os mesmos observados em outros textos, incluindo os canônicos. - Mateus criou um novo evangelho expandindo Marcos, absorvendo mais de 90% do material marcano, acrescentando cerca de 40% de material próprio e transformando sua fonte por meio de abreviação, omissão, adição de detalhes e ressequenciamento, como exemplificado no tratamento da controvérsia de Beelzebu. - Lucas também reescreveu Marcos, absorvendo seu evangelho, acrescentando material próprio, especialmente no início e no fim, e transformando sua fonte por meio de omissão, adição e ressequenciamento, como demonstrado na forma como combinou Marcos e Mateus na narrativa da zombaria de Jesus antes da crucificação. - Taciano, trabalhando no final do segundo século, compôs um evangelho (conhecido como Diatessarão) que tece os quatro evangelhos canônicos em uma nova narrativa contínua, alternando entre blocos de material ou entrelaçando detalhes de múltiplos relatos, e preservando o máximo possível de suas fontes, embora sem identificar a origem do material. - O fragmento de Dura Europos, possivelmente parte do Diatessarão ou de um projeto similar, justapõe indicadores cronológicos de múltiplos evangelhos, preservando quase todos os detalhes, inclusive redundâncias, o que reflete uma negociação autoconsciente da pluralidade evangélica. - Taciano, como Mateus e Lucas, ressequencia material de fontes anteriores, adotando a ordem de Mateus para as tentações de Jesus, mas seguindo a sequência de Lucas para a discussão sobre colher grãos no sábado e as bem-aventuranças, e criando novos contextos e sequências para o material que incorpora. - O evangelho de Taciano foi recebido por séculos simplesmente como "o Evangelho" nas comunidades de língua siríaca, até ser substituído pelos evangelhos separados no quinto século, o que demonstra que, tanto na produção quanto na recepção, seu projeto era entendido como escrita evangélica, não como mera harmonização. - Marcião, em meados do segundo século, produziu um novo evangelho revisando drasticamente um único texto existente (geralmente identificado como Lucas), omitindo material que não servia aos seus propósitos narrativos e teológicos, ressequenciando sua fonte e intervindo paratextualmente com títulos e prefácios, apresentando sua composição como o único Evangelho. - A produção evangélica também envolveu a reconfiguração de textos existentes sem resultar em novas obras distintas, como os finais expandidos de Marcos (especialmente o Final Longo, 16,9-20), que reconfiguram material de outros evangelhos, transformam o significado do medo e da dúvida no evangelho e criam conexões com outros textos, mas circularam simplesmente como "Marcos". - Outros exemplos de reconfiguração sem distinção de obra incluem a adição da perícope da adúltera a João e as formas expandidas de Mateus com detalhes, ditos e histórias adicionais, que circularam como formas de "Mateus", evidenciando que a expansão textual criou novos textos legíveis, mas não resultou na recepção de novas obras como distintas. - A montagem de múltiplos evangelhos em um único códice, facilitada pela inovação dos códices com múltiplos cadernos, reforçou argumentos emergentes sobre unidade, autoridade paralela e estrutura quádrupla, e criou novas práticas textuais, incluindo o aparato inovador de Eusébio. - Amônio de Alexandria, predecessor direto de Eusébio, produziu um "evangelho através dos quatro" justapondo as seções correspondentes dos outros evangelistas ao lado do evangelho de Mateus, preservando distinções entre os textos anteriores e facilitando a leitura de um corpus evangélico pluriforme, em uma abordagem que se assemelha à de Lucas e Taciano. - Eusébio, contrastando seu projeto com o de Amônio, preservou o conteúdo e a sequência de cada evangelista individual, mapeando paratextualmente as coisas semelhantes em vez de privilegiar a estrutura ou linguagem de qualquer evangelho, articulando Mateus, Marcos, Lucas e João como uma unidade complexa — um único evangelho quadriforme. - O aparato eusebiano é um projeto de escrita evangélica que absorve os textos existentes em uma estrutura mais abrangente, expande a rede de leitura criando novos contextos para o material existente, delimita o corpus evangélico a precisamente quatro textos e utiliza novas tecnologias para criar uma densa teia de conexões paratextuais que mapeiam justaposições específicas e convidam a uma multiplicidade de novas sequências de leitura. - Apesar das diferenças em relação a seus predecessores, Eusébio dá continuidade às dinâmicas existentes de escrita evangélica, repetindo não apenas o material evangélico existente, mas também os processos de expansão, ressequenciamento e negociação da pluralidade, de modo que seu projeto do quarto século ainda é escrita evangélica, e não mera erudição. - Ao reconfigurar Mateus, Marcos, Lucas e João como uma unidade bibliográfica, Eusébio construiu um texto que circulou por mais de um milênio, codificando novas possibilidades de leitura no livro evangélico e criando um novo texto legível que reconfigura as possibilidades experienciais e semânticas da leitura evangélica. - O aparato eusebiano torna-se parte do evangelho quádruplo, pois está entrelaçado com o próprio texto evangélico, sendo mais do que um comentário, e a distinção entre paratexto e texto é instável e heurística, de modo que a intervenção paratextual é uma forma de reescrita. - A reescrita, entendida como um processo que não marca seus produtos como subordinados ou seus antecedentes como superiores, aplica-se aos evangelhos cristãos primitivos e ao aparato eusebiano, sendo que vários textos reescritos, incluindo o evangelho quadríforme eusebiano, tiveram um sucesso dramático, dominando a tradição manuscrita e a história da recepção dos evangelhos. - Ao retratar Eusébio como um quinto evangelista, os Evangelhos de Abba Gärima III ilustram a tese de que o aparato eusebiano é uma forma de reescrita evangélica que, ao criar uma matriz de conexões em todo o evangelho quádruplo, oferece ao leitor recursos para reescrever os evangelhos repetidamente, iluminando como os leitores continuaram a mudar os evangelhos por mais de mil e quinhentos anos.