===== Sacerdócio 6 ===== {{tag>Primal IV}} //João Crisóstomo, Sacerdócio Livro VI// - A condição futura dos líderes eclesiásticos será insuportável, pois eles terão que prestar contas por cada alma sob seus cuidados, enfrentando não apenas vergonha, mas castigo eterno, conforme a advertência sobre os que vigiam pelas almas e a lei do atalaia que, se não soar a trombeta, será responsabilizado pelo sangue do que perecer. - O sacerdote precisa de virtudes angélicas, com alma mais pura que os raios do sol para que o Espírito Santo não o abandone, e ele possa dizer que Cristo vive nele, enfrentando tentações muito maiores do que os reclusos do deserto, pois a beleza feminina, os enfeites e perfumes são capazes de perturbar a mente, a menos que ela seja endurecida por muita abstinência. - Homens que escaparam dessas armadilhas caíram em outras opostas, como aparência descuidada, vestes sórdidas e pobreza, que primeiro despertam pena e depois levam à ruína; e como será possível respirar livremente com tantos laços em volta, incluindo as honras vindas de mulheres e homens, que geram bajulação servil e orgulho insensato? - A maioria dos sujeitos ao sacerdote está atolada nos cuidados desta vida, tornando-se mais lenta nos deveres espirituais, de modo que o mestre precisa semear a doutrina diariamente; além disso, o sacerdote age como embaixador do mundo inteiro diante de Deus, pedindo por vivos e mortos, e ao invocar o Espírito Santo e oferecer o sacrifício terrível, sua alma deve ser mais pura que qualquer coisa, com os anjos em volta do altar. - O conflito do sacerdócio é muito maior que o dos reclusos, pois estes dependem da força do corpo para jejuns e vigílias, enquanto aquele exige pureza de alma e virtudes como sobriedade e prudência, sem necessidade de vigor físico, sendo que o sacerdote deve ser um homem versátil, nem fingido nem bajulador, mas cheio de liberdade e firmeza, adaptando-se proveitosamente às circunstâncias. - O recluso necessita de boas condições corporais e lugar adequado, mas o sacerdote dispensa esses aparatos, tendo toda sua habilidade armazenada no tesouro da mente; admiro a vida solitária como prova de paciência, mas não de fortaleza completa da alma, pois quem governa a nave no porto não dá prova de sua arte, ao contrário do que a guia em alto-mar. - Não é surpreendente que o recluso, vivendo só, não cometa muitos pecados graves, pois não encontra irritações; mas quem se dedica a multidões e permanece firme em meio à tempestade merece justa admiração; Crisóstomo evita o mercado e a multidão para não ter muitos acusadores, mas se alguém examinar sua mente, encontrará muita corrupção, e ele confessa que, se pudesse escolher, preferiria mil vezes a distinção no cuidado da igreja, se fosse capaz. - Basílio pergunta se devem colocar na administração da igreja os que vivem em sociedade, cheios de artifícios e vícios; Crisóstomo responde que tais homens não devem sequer ser considerados, mas sim aqueles que, mesmo misturando-se com todos, mantêm sua pureza e santidade inabaláveis; o cargo clerical testa as almas como o fogo testa os metais, revelando e agravando os defeitos, sendo que o bispo deve cuidar também das mulheres, o que oferece muitas oportunidades de ataque do maligno. - O bispo verdadeiramente excelente não deve menosprezar as censuras, mas se purificar diante de todos com grande tolerância e mansidão, seguindo o exemplo de Paulo, que temia até a suspeita de furto e por isso providenciou outros para administrar o dinheiro, removendo antecipadamente as causas dos boatos ruins, embora fosse loucura suspeitar dele. - Basílio pergunta se Crisóstomo está livre de trabalhos e cuidados vivendo só; ele responde que ainda os tem, mas a diferença é como entre cair num oceano sem limites e atravessar um rio; embora não possa ajudar outros, contenta-se em salvar a si mesmo das ondas, pois acredita que seu castigo será mais brando se não salvar outros do que se destruir a si e aos outros após tão grande honra. - Deus acusa mais veementemente os israelitas porque pecaram após tantas honras, e ordena que se ofereça pelo sacerdote o mesmo sacrifício que por todo o povo, provando que as feridas do sacerdócio precisam de mais ajuda; até as filhas dos sacerdotes, por causa da dignidade do pai, sofrem punição mais severa pelo mesmo pecado que as filhas dos leigos. - Crisóstomo pergunta se parecem razoáveis seus temores, pois embora agora seja tomado pela vaidade, muitas vezes se recupera, e desejos desenfreados acendem chama lânguida por falta de combustível; mas se viesse entre a multidão, não poderia se beneficiar dessas reflexões, e sua alma fraca seria facilmente dominada pelas paixões, que são como feras selvagens alimentadas por honras, poder, reputação, luxúria e sociedade feminina. - Desde que Basílio lhe transmitiu a suspeita do bispado, Crisóstomo tem estado em perigo de desmoronamento completo, chorando pela noiva de Cristo, entregue a ele, o mais indigno; e para ilustrar sua angústia, imagina a filha do rei, belíssima e virtuosa, sendo dada a um homem vil e aleijado, ou um jovem pastor sendo posto no meio de um exército terrível, com todas as calamidades da guerra. - Não pense que a descrição é exagerada, pois se pudesse ver com os olhos a batalha tenebrosa do diabo, veria algo muito mais terrível, com almas caídas e feridas espirituais, sem tréguas nem descanso, exigindo armadura constante; como então desejar comandar os soldados de Cristo, sendo o mais inexperiente e fraco, traindo-os para o serviço do diabo? - Basílio lamenta, pois veio aprender que desculpa dar aos que acusam Crisóstomo, mas agora se preocupa com que desculpa dar a Deus por si mesmo; ele implora que Crisóstomo estenda a mão e não o deixe, mas Crisóstomo sorri e diz que virá confortá-lo sempre que possível, abraça-o e o exorta a suportar corajosamente sua sorte, crendo que Cristo lhe dará tal segurança que o receberá no tabernáculo eterno.