===== ORAÇÃO ===== {{tag>oração}} Teoleptos da Filadélfia — Seleção de Jean Gouillard ==== Análise da oração (euche) ==== Sentada em vossa cela, lembrai-vos de Deus, elevai vosso espírito acima de todas as coisas e prostrai-vos em silêncio diante de Deus, derramai a seus pés todos os sentimentos ( lit.: toda a disposição ) de vosso coração ([[tnpl:kardia:]]), aderindo a ele pelo amor da caridade. A lembrança de Deus é a contemplação ([[tnpl:theoria:]]) de Deus, que atrai para si o olhar e o desejo ardente do espírito, iluminando-o com sua própria luz. O espírito que se volta para Deus suspende todos os conceitos que informam sobre os seres; então, ele vê Deus sem imagem nem forma e, no desconhecimento supremo, ligado à glória inacessível, purifica o olhar. Ele não conhece — seu objeto é incompreensível — e, no entanto, conhece, na verdade daquele que é por essência, e que é o único a possuir o que ultrapassa o ser. Na transbordante bondade que surge desse conhecimento, ele alimenta seu amor e goza, assim, de um repouso bem-aventurado e sem limites. Tais são as características da verdadeira lembrança de Deus. A oração ([[tnpl:euche:]]), por sua vez, é uma conversa da inteligência com o Senhor. A inteligência ( discursiva ) percorre as palavras da súplica, ao passo que o espírito fica inteiramente fixo em Deus. A inteligência não cessa de sugerir o nome do Senhor; o espírito aplica intensamente a atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) à invocação do Santo Nome, e a luz da ciência divina estende sobre a alma (psyche) a sua sombra. A verdadeira lembrança de Deus é acompanhada de amor e de alegria: "Lembrei-me de Deus e me alegrei" ( Sl 77,4 ). A oração ([[tnpl:euche:]]) pura é acompanhada do conhecimento e da compunção ([[tnpl:katanyxis:]]): "Quando vos invoco, eu sei: tu és meu Deus" ( Sl 56,10 ) e "O sacrifício agradável a Deus é um coração ([[tnpl:kardia:]]) contrito" ( Sl 51,19 ). De fato, quando o espírito e a inteligência se mantêm diante de Deus com atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) intensa e oração ([[tnpl:euche:]]) ardente, a compunção ([[tnpl:katanyxis:]]) está junto. Quando o espírito, a inteligência e o pneuma ficam prostrados diante de Deus, o primeiro pela atenção ([[tnpl:epimeleia:]]), a segunda pela invocação, o terceiro pela compunção ([[tnpl:katanyxis:]]) e pelo amor, o homem interior, todo, serve ao Senhor conforme o mandamento desse mesmo Senhor: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração ([[tnpl:kardia:]])..." ( Lc 10,27 ). Gostaria que soubésseis também isto, para que não vos arrisqueis a vos afastardes da oração ([[tnpl:euche:]]) e, imaginando orar, "correrdes em vão" ( Gl 2,2 ). Muitas vezes, na salmodia vocal, é possível que a língua recite os versículos, enquanto o espírito se deixa levar para outros lugares e se dispersa entre as paixões e os objetos; assim, a significação da salmodia estará perdida. É o que se passa também quanto à inteligência. Muitas vezes enquanto ela passa pelas palavras da oração ([[tnpl:euche:]]), o espírito não anda junto, não fixa o olhar em Deus, o interlocutor do diálogo da oração ([[tnpl:euche:]]). Desatento, ele se deixa desviar por certos pensamentos. A inteligência pronuncia as palavras por rotina; o espírito deixa escapar o conhecimento de Deus. A alma (psyche) fica confusa e fria, porque o espírito se dispersa entre imagens e vaga à mercê das coisas que o surpreenderam ou que ele procurou. Se falta ciência à oração ([[tnpl:euche:]]), se quem ora não está presente naquele que pode consolar, como poderia a alma (psyche) sentir alívio? Como poderia rejubilar-se o coração ([[tnpl:kardia:]]) que aparentemente estivesse orando, mas não empregasse a verdadeira oração ([[tnpl:euche:]])? "Alegre-se o coração ([[tnpl:kardia:]]) dos que buscam o Senhor" ( Sl 105, 3 ). Ora, busca o Senhor aquele que, com inteligência total e afeição calorosa, prostra-se diante de Deus, afasta todo pensamento mundano através da ciência e do amor de Deus, que surgem da oração ([[tnpl:euche:]]) regular e pura. Para maior clareza, vou propor uma dupla imagem: dos olhos, quanto à contemplação ([[tnpl:theoria:]]) da lembrança de Deus no espírito; da língua, quanto à dignidade e à função da inteligência na oração ([[tnpl:euche:]]) pura. A pupila é para os olhos, a emissão da palavra é para a língua, o qüe a lembrança e a oração ([[tnpl:euche:]]), respectivamente, são para o espírito e para a inteligência. Os olhos desfrutam a sensação visual do objeto visível, sem a mediação de palavras; percebem, na própria experiência visual, o conhecimento do objeto visto. Assim, o espírito que se aproxima de Deus amorosamente por meio da lembrança, unindo um sentimento ardente ao silêncio da intelecção simples ao extremo, é iluminado pela irradiação divina e atinge a garantia do esplendor futuro. A língua, por sua vez, ao emitir as palavras, manifesta ao ouvinte a intenção secreta do espírito. De modo semelhante, a inteligência, ao proferir com assiduidade e ferver as breves palavras da oração ([[tnpl:euche:]]) ( lit.: as palavras de algumas sílabas ), manifesta, ao Deus que tudo sabe, o pedido da alma (psyche), através da perseverança na oração ([[tnpl:euche:]]) e do coração ([[tnpl:kardia:]]) insistentemente contrito; a contrição abre as entranhas afetuosas do Misericordioso e recebe a abundância da salvação. O profeta disse: "Deus, tu não desprezas o coração ([[tnpl:kardia:]]) contrito e humilhado" ( Sl 51,19 ). Outro exemplo para vos conduzir à oração ([[tnpl:euche:]]) pura: a atitude diante do imperador da terra. Se conseguis ser recebida pelo imperador, ficais reta diante dele, pedis com a língua, fixais nele os olhos. Quando vos reunis com vossas irmãs em nome do Senhor, juntai, à presença do corpo ([[tnpl:soma:]]) e à salmodia vocal, a atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) do espírito às palavras e a Deus, consciente daquele a quem vos dirigis e que vos dá audiência. Quando a inteligência se consagra à oração ([[tnpl:euche:]]) cem ardor e pureza, o coração ([[tnpl:kardia:]]) goza uma alegria inviolável e uma paz indizível. Quando, depois, estiverdes de novo na cela, entregai-vos à oração ([[tnpl:euche:]]) da inteligência, com o espírito vigilante e o pneuma contrito; e a contemplação ([[tnpl:theoria:]]) estenderá sobre vós a sua sombra, graças à vigilância; a ciência habitará em vós pela oração ([[tnpl:euche:]]), a sabedoria descerá sobre vós pela contemplação ([[tnpl:theoria:]]), banindo todo prazer insensato e substituindo-o pelo amor Divino. Acreditai-me: é a verdade que vos digo. Se, em todas as vossas ocupações, não vos separais nunca da mãe de todo bem, a oração ([[tnpl:euche:]]), dentro em pouco ela vos mostrará o quarto nupcial, vos fará entrar e vos cumulará de um júbilo e de uma alegria indescritíveis. Pois, ela retira todos os obstáculos, aplana o caminho da virtude e o torna fácil para quem procura. Escutai os efeitos da oração ([[tnpl:euche:]]) da inteligência. A conversa com Deus destrói os pensamentos apaixonados; a fixação do espírito em Deus afugenta as idéias mundanas. A compunção ([[tnpl:katanyxis:]]) da alma (psyche) expulsa a amizade da carne. A oração ([[tnpl:euche:]]) que consiste em repetir silenciosamente o nome divino, manifesta-se como a harmonia e a união evidente do espírito, da razão e da alma (psyche); pois, "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles" ( Mt 18,20 ). Eis aí como a oração ([[tnpl:euche:]]), congregando as potências da alma (psyche), dispersas entre as paixões, atando-as entre si e a ela própria, une a alma (psyche) trina ao Deus uno em três Pessoas. Em primeiro lugar, através da conduta virtuosa, ela retira da alma (psyche) a torpeza do vício; depois, reproduz a beleza dos traços divinos, por meio da santa ciência que ela tem de si própria, e apresenta a alma (psyche) a Deus. A alma (psyche) imediatamente reconhece o seu criador e é por ele conhecida, pois "o Senhor conhece os que lhe pertencem" ( 2Tm 2,19 ). Ela o conhece na pureza da imagem, pois toda imagem remete a seu modelo; é conhecida por ele graças à semelhança das virtudes ([[tnpl:arete:]]) que a fazem, e a um só tempo, conhecer Deus e ser por Ele conhecida. Quem quer obter a complacência divina, pode proceder de três maneiras: suplicar com palavras, manter-se em silêncio ou ainda prostrar-se diante daquele que pode vir em seu auxílio. A oração ([[tnpl:euche:]]) pura, que liga em si espírito, inteligência e pneuma, pela inteligência invoca o nome de Deus; pelo espírito, conduz sem distração para o Deus que consola; manifesta pelo pneuma sua contrição, sua humildade, seu amor, e se humilha diante da eterna Trindade e um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. A variedade dos pratos abre o apetite. Assim também, a variedade das virtudes ([[tnpl:arete:]]) desperta a diligência do espírito. Por isso, percorrendo o caminho da inteligência, repeti incessantemente as palavras da oração ([[tnpl:euche:]]), sem vos cansardes de invocar... a exemplo da viúva importuna. Então, caminhareis segundo o espírito, não prestareis atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) às cobiças da carne e não interrompereis a continuidade da vossa oração ([[tnpl:euche:]]) por causa dos pensamentos mundanos. Quando cantais a Deus sem distração, passais a ser o templo de Deus. Se orais assim na inteligência, conseguireis chegar à lembrança de Deus, penetrar nas profundezas do espírito, ver o invisível numa contemplação ([[tnpl:theoria:]]) mística e servir a Deus, só vós e Ele, na união da ciência e das efusões do amor. Se notardes que vossa oração ([[tnpl:euche:]]) enfraquece, recorrei a um livro; leia-o com atenção ([[tnpl:epimeleia:]]), para penetrar-lhe o significado. Não vos contenteis em percorrer superficialmente as palavras, mas examinai-as com a inteligência e entesourai o seu sentido. Depois, refleti no que lestes, para tocar, de modo agradável, a inteligência através do significado e torná-lo, para ela, inesquecível. As santas reflexões vão, assim, inflamar cada vez mais o vosso fervor... Como a trituração dos alimentos torna agradável a sua degustação, as palavras divinas, passando e repassando na alma (psyche), dão à inteligência unção e alegria...