===== Inteligir e Ser ===== //Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960// * Ser significa permanecer absolutamente idêntico consigo mesmo e bastar—se como essência sem que essa exclusividade receba um caráter negativo. * A negatividade limitaria o o que se é ao opô—lo ao que não se é. * Um ser que se distingue dos outros pelo que é encerra um momento de negatividade e de não—identidade que constitui o não—ser. * A identidade desse ser é relativa, pois o ser—si—mesmo supõe uma série de negações de identidade e determinações negativas em relação ao outro. * Esse ser não possui identidade exclusiva consigo mesmo por seu si—mesmo incluir em sua definição positiva as relações negativas com o que não é. * Ser exclusivamente si mesmo sem dependência em relação a uma alteridade exige que a identidade do o que é possa se exprimir negativamente como exclusão de toda negatividade. * O Uno dito negativamente, a negação da negação do ser, constitui a afirmação mais pura e a positividade absoluta do ser que é ser: Ego sum qui sum. * Essa fundamentação vincula—se à análise anterior sobre a negação da negação. * Dizer que Deus é Ser ou que Ele é Un constitui exprimir de duas maneiras diferentes a mesma verdade que foi revelada a Moisés, dado que o ser é a identidade consigo mesmo. * O ser só pode convir a Deus nessas condições doutrinais, de onde provém a primeira proposição da Obra Tripartida de que o Ser é Deus. * O Prólogo Geral formula essa proposição fundamental. * O ser é o sujeito nessa proposição insolite, não se tratando de uma definição de Deus que não a possui. * Ser significa identificar—se com Deus se o ser é Deus, não se podendo ser absoluto nesse sentido de outro modo. * Não se pode ser idêntico consigo mesmo permanecendo distinto do Próprio Ser que é indistintamente Ele mesmo e tudo o que é. * O caráter absoluto do próprio ser ou existir tomista que exclui meio termo entre a existência e a não—existence vincula—se aqui ao que é ou não é idêntico com o Ser—mesmo. * O mestre Eckhart afirma com rigor eleático que todo ente dividido de Deus é dividido e distinto do ser, porque Deus é o próprio ser, e o dividido do ser e distinto é necessariamente nada. * Essa tese é formulada no Comentário sobre a Sabedoria. * A indistinção do ser que é Deus em Eckhart não constitui a esfera homogênea e finita do real de Parmênides, nem a unidade do ser ilimitado de Melisso. * O o que é dos Eleatas é idêntico consigo mesmo no sentido que conviria à matéria indistinta das coisas, quer seja limitado ou não. * O o que é não possui nada de material no mestre turingiano se for verdadeiramente idêntico consigo mesmo, tratando—se da quididade intelectual que é indistinta do Inteligir pelo qual o Ser—Uno retorna sobre a sua própria Essência. * Esse retorno afirma a identidade do Ser—sujeito com o Ser—predicado no Eu sou quem sou. * A mesma quididade—semente presente no fundo íntimo de cada ser particular sem se misturar com o criado é o princípio da cognoscibilidade como ser verdadeiro e a causa da existência exterior como ser bom das criaturas. * As duas presenças íntimas — a de Deus—Verdade iluminadora de Santo Agostinho e a do próprio ser de São Tomás — encontram—se fundidas. * Essas presenças constituem a única presença inacessível da causa essencial ou princípio intelectual no qual Deus criou todas as coisas. * A quididade ou essencialidade primeira das coisas identifica—se com o Inteligir divino definido como Próprio Inteligir e Próprio Intelecto, quer esse Princípio seja o Filho—Logos que concentra as razões ideais ou o Intelecto paternal que concebe o Filho. * No Comentário sobre o Gênesis, explica—se a função do Filho e do Intelecto paternal. * No Comentário sobre João, afirma—se a identidade entre o inteligir e o intelecto. * O Deus Acto puro de existir de São Tomás deve corresponder na teologia de Eckhart ao ato intelectual pelo qual o Uno retorna sobre a sua própria Essência inoperante, manifestando a sua identidade absoluta consigo mesmo e com tudo o que é. * O Próprio ser é o Próprio inteligir, constituindo a atualidade divina na qual as coisas são o que são virtualmente segundo o seu ser primeiro. * As criaturas não possuem a identidade com elas mesmas e com Deus em sua existência ou natureza própria que é exterior à Inteligência. * As criaturas são marcadas pela dualidade que opõe a sua quididade incréa ou essência não de outro ao seu ser criado ou ser de outro na medida em que são criadas. * Esse ser de outro é o ser parcial das substâncias individuais produzidas pela Causa eficiente fora do viver e inteligir divino. * Essa oposição entre a razão eterna e a substancialidade criada das coisas, entre o ser primeiro e o segundo, recebe expressão clara quando formulada nos dois registros do inteligir e do ser. * O que corresponde em Eckhart à distinção entre a essência e a existência nas criaturas surge sob uma nova luz nessa perspectiva de oposição que será levada até o fim nas Questões Parisienses. * A unidade significa identidade no sermão latino Deus unus est baseado no Deuteronômio 6, 4 e Gálatas 3, 20, cuja cópia manuscrita está coberta de notas de Nicolau de Cusa. * O manuscrito C encerra esse sermão de importância exegética. * M. Grabmann aproxima esse sermão das Questões Parisienses destacando o seu caráter não tomista contra a posição de O. Karrer, utilizando trechos originais para evidenciar as diferenças. * Galvano della Volpe enxerga nesse sermão uma transição entre as Questões Parisienses, caracterizadas pela negação do ser em Deus, e a tese positiva da Obra Tripartida. * A unidade é reservada exclusivamente ao Intelecto, sendo este apropriado a Deus—Un. * O ser um com Deus e a identidade com Deus pertencerão a todo ser criado na medida em que ele tiver parte no intelecto ou na intelectualidade. * No manuscrito, explica—se que fora do intelecto sempre se encontra e ocorre diversidade e deformidade, enquanto o Salmo 101, 28 afirma que Tu és o mesmo. * A identidade é a unidade, e a partir dos ditos pode—se colher o modo pelo qual quem adere a Deus é um só espírito, conforme I Coríntios 6, 17. * O intelecto pertence propriamente a Deus, e Deus é um. * Na medida em que cada coisa possui o intelecto ou o intelectual, possui a Deus e possui o ser um com Deus. * Deus é um intelecto e o intelecto é Deus um, de modo que Deus nunca está como Deus senão no intelecto. * O relação entre o Un distinto e os entes submetidos à divisão mas conservados na unidade pela participação no Uno corresponde à dependência ontológica das criaturas em relação a Deus. * Um ente criado é idêntico consigo mesmo e com Deus apenas no Inteligir divino, não o sendo em sua natureza própria por estar fora do Intelecto. * No manuscrito, afirma—se que Deus é rico e profuso pelo fato de ser um, sendo o primeiro e o supremo sob a razão de uno. * O uno descende em todas as coisas e em cada uma, permanecendo sempre uno e unindo as coisas divisas, pelo que seis não são duas vezes três, mas um seis vezes. * Ouve, Israel: o teu Deus é o Deus um, e a unidade ou o uno parece ser próprio e propriedade apenas do intelecto. * Nicolau de Cusa anotou à margem que a unidade é propriedade do intelecto. * Os seres criados são simultaneamente um e não um, identidade e não—identidade, pois devem ser considerados ao mesmo tempo em Deus e em si mesmos. * O mestre Eckhart refere—se ao último capítulo do Livro das Causas que trata das substâncias partilhadas entre a eternidade e o tempo que pertencem ao ser e ao fieri. * As substâncias recebem uma unidade de outro, definida como adquirida e criada, diferente do uno primeiro verdadeiro. * A proposição 32 do Livro das Causas indica que toda substância que cai em algumas disposições suas sob a eternidade e sob o tempo é ente e geração ao mesmo tempo. * O comentário explica que o que possui a unidade fixa e não dependente de algo é o uno primeiro verdadeiro, e o que possui a unidade encontrada a partir de outro está fora do uno verdadeiro, constituindo uma unidade adquirida do uno primeiro. * Toda unidade após o uno verdadeiro é adquirida e criada, e o uno verdadeiro puro é o que cria as unidades. * Essa proposição depende de Proclus nos Elementos de Teologia que afirma que tudo o que é eterno em um sentido e temporal em outro é ao mesmo tempo ser e fieri. * O esquema de Proclus é retomado por Eckhart sobre uma base nova onde a unidade—identidade é atribuída a esse Deus—Un que é Intelecto em sua totalidade, em quem o inteligir e o ser coincidem indistintamente. * É fácil estabelecer a não—identidade que afeta um ser sensível com base em Proclus e no Livro das Causas: por ser mutável, ele está submetido ao fieri, ao tempo e à quantidade que são alheios ao uno primeiro. * Pode—se constatar o caráter criado dessas naturezas materiais ao se reportar à dualidade de forma e matéria. * Um ser composto é um e não—um, não possuindo a verdadeira unidade ou identidade pura que é própria do Intelecto. * Será necessário proceder de outro modo para descobrir a dualidade que marca as criaturas nos seres imateriais alheios ao tempo e ao fieri, como os anjos que são naturezas intelectuais. * Essas substâncias simples não são menos privadas da verdadeira unidade embora não tenham nada da composição hylemórfica, pois a sua essência não é o ser ou porque o seu ser não é o inteligir. * Os seres intelectuais são constituídos de ser e essência, ou de ser e inteligir. * No manuscrito da Obra dos Sermões, explica—se que os entes materiais são um e não um por serem quantos ou compostos de forma e matéria, enquanto os entes imateriais são não um porque a sua essência não é o ser ou porque o seu ser não é o inteligir. * Eles são compostos de ser e essência, ou de ser e inteligir, remetendo—se ao comentário da última proposição do Livro das Causas. * Essa distinção entre o ser e o inteligir expressa pela conjunção ou poderá ser compreendida de duas maneiras por marcar tanto a assimilação quanto a alternativa. * A essência distinta do ser representará a quididade incréa das criaturas no primeiro caso, constituindo a sua razão inteligível que em Deus nada mais é do que o próprio inteligir. * O ser designará a primeira coisa criada que é o supósito sensível ou inteligível produzido fora do Intelecto divino. * Essa interpretação possui o inconveniente de estender a todos os seres criados um modo de não—identidade que devia caracterizar de modo especial os seres intelectuais, embora enquadre com as linhas da doutrina de Eckhart. * A primeira distinção exprimirá a dualidade de ser e essência que define todo ser criado no segundo caso se houver alternativa entre as duas distinções, enquanto a segunda se reportará à não—identidade das naturezas intelectuais cujo supósito existente permanece distinto do inteligir. * O intelecto ou a intelecção designará uma faculdade de se desprender de seu próprio ser determinado que permite alcançar a identidade com Deus na região do intelecto onde não há distinção e tudo está em tudo, como na segunda hipóstase plotiniana. * A distinção entre o inteligir e o ser nas criaturas superiores deve ser entendida nesse último sentido proposto por Eckhart. * O inteligir constitui uma faculdade de união, uma virtude do ser um com Deus concedida aos seres criados à imagem de Deus. * O ser marca a divisão e a não—identidade que afeta as criaturas intelectuais na sua distinção em relação ao inteligir. * O mestre Eckhart interroga—se sobre a identidade ou não—identidade do ser a partir da pureza do inteligir no mesmo sermão. * Pergunta—se se existe intelecto ou intelecção em um determinado ser. * Os seres privados de intelecto foram produzidos pela Causa primeira que os determinou naturalmente ao ordená—los a fins certos. * Trata—se das criaturas inferiores ao homem governadas por suas formas substanciais e privadas de meios para se elevarem em direção à identidade do ser. * Será necessário indagar se existe algo outro além de seu inteligir quando se está diante de um ser intelectual capaz de se determinar por si mesmo. * Esse ser não é simplesmente um como Deus se possuir um ser diferente do inteligir e se não for o seu próprio ato de intelecção, constituindo um composto de inteligir e ser, de incriável e de criado. * Deus sozinho é propriamente, sendo Ele o Intelecto ou a Intelecção, e constituindo unicamente inteligir por exclusão de qualquer outro ser. * No manuscrito da Obra dos Sermões, explica—se que se pergunta de cada um se nele há intelecto ou inteligir. Se não há, consta que não é Deus ou a causa primeira de coisas ordenadas a fins certos que carecem de intelecto. * Se nele há intelecto, pergunta—se se nele há algum ser além do inteligir. Se não há, tem—se o que é um simples, incriável, primeiro, e este é Deus. * Se possui outro ser além do inteligir, é composto e não simplesmente um. * É manifesto que apenas Deus é propriamente sozinho, sendo Ele o intelecto ou inteligir, e constituindo o só inteligir sem outro ser. * Apenas Deus produz as coisas no ser pelo intelecto, porque apenas nele o ser é inteligir. * Nada além dele pode ser puro inteligir, pois de outro modo não seria criatura, tendo as criaturas um ser diferente do inteligir tanto porque o inteligir é incriável quanto porque a primeira das coisas criadas é o ser. * Nicolau de Cusa acompanhou essa passagem com quatro notas: em Deus não há outro ser além do inteligir; Deus é propriamente sozinho; produz as coisas pelo intelecto; o inteligir é incriável. * O ato de intelecção pelo qual uma criatura pode atingir a identidade do ser em Deus é oposto ao ser não—idêntico das naturezas criadas no sermão Deus unus est. * O inteligir e o ser excluem—se mutuamente e denotam a falta de verdadeira unidade nas criaturas douadas de intelecto, o que não significa que o ser deva ser entendido apenas como razão de criabilidade e recusado a Deus considerado como Inteligir puro. * O ser e a intelecção surgem como idênticos em Deus neste sermão, diferindo das Questões Parisienses e não deixando lugar à oposição que obrigaria a excluir o ser da noção de Causa primeira: em Deus o próprio ser é o que é o só inteligir. * No início da primeira Questão Parisiense, Eckhart admite igualmente a identidade de ser e inteligir em Deus. * Na Obra dos Sermões, afirma—se essa identidade em Deus. * Essa identidade encontra a sua razão no Uno, definido como Intelecto paternal, que manifesta a indistinção do Ser inefável na essência divina. * O Uno concerne essencialmente ao Ser—mesmo ou à Essência nas palavras de Eckhart. * Na Obra dos Sermões, nota—se que o uno olha por essência para o próprio ser ou essência. * O Uno é mais simples do que as outras propriedades transcendentais sobre as quais possui primazia por sua imediatidade em relação ao Ser—mesmo e a Deus. * Na Obra dos Sermões, explica—se que o uno é mais alto, primeiro e simples do que o próprio bem, sendo mais imediato ao próprio ser e a Deus, ou constituindo um só ser com o próprio ser. * O Uno é o ser—un com o Próprio Ser conforme indica o seu nome, e nenhuma outra propriedade divina é amada por si mesma. * A potência, a sabedoria, a bondade e o ser só são amados em razão da união identificificante. * Na Obra dos Sermões, explica—se que nem a potência, nem a sabedoria, nem a bondade seriam amadas se não estivessem unidas a nós. * Quem ama verdadeiramente só pode amar o uno, e após a frase Deus é um, segue—se que amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração. * Deus não quereria ser senão o uno que se ama por inteiro. * Nicolau de Cusa anotou à margem que Deus não quereria ser senão o uno que se ama com todo o seu ser. * O que se ama verdadeiramente é o Uno que representa a identidade do ser. * O ser convém a Deus pelo fato de Ele ser um, sendo necessário que Deus seja o seu próprio ser, o Ser primeiro e o ser de tudo o que é. * Na Obra dos Sermões, afirma—se que Deus é um porque pelo próprio fato de ser um compete—lhe o ser, de modo que seja o seu ser, o primeiro ser e o ser de todos. * Esse Deus é o ser—identidade de Parmênides com a diferença de que o ser—un de Eckhart é reservado apenas ao Intelecto. * Nada além de Deus é verdadeiramente um, pois nada criado é puro ou puramente o que é por sua quididade estar misturada com a alteridade em uma substância particular. * A criatura deveria ser intelecto em sua totalidade para possuir a pureza do ser, constituindo um ato puro de intelecção subsistente por si mesmo onde o conteúdo inteligível é o próprio inteligir. * A criatura deixaria de ser criável nessas condições. * Na Obra dos Sermões, nota—se que nada criado é verdadeiramente um por não ser intelecto em sua totalidade, pois de outro modo não seria criável. * As criaturas não—intelectuais estão cindidas em duas em seu ser na medida em que a sua verdadeira essencialidade permanece dividida da natureza própria que possuem sob as formas substanciais. * A situação é diferente para as criaturas intelectuais por estarem dotadas em sua natureza de um princípio dinâmico de unidade que consiste na faculdade de se ultrapassarem para atingir a identidade com Deus. * Esse privilégio que torna deificáveis as criaturas superiores não supõe que a sua natureza seja composta de uma parte criada e outra incréa. * O mestre Eckhart protestou contra essa interpretação estática de sua doutrina da alma humana durante o processo de Colônia, afirmando que constitui erro pensar que alguma partícula da alma seja incréa e incriável. * A incriabilidade do inteligir pode ter um sentido negativo em Eckhart, respondendo ao abandono do ser determinado, à saída deste mundo e de si mesmo, e ao desprendimento sem o qual não se alcança o ser um com Deus. * Esse sermão latino deve ser interpretado levando em conta a doutrina eckhartiana da união mística se for esse o caso. * Os seres feitos à imagem de Deus poderão se apresentar como totalmente criados e totalmente incriáveis sob relações diferentes nessa perspectiva dinâmica onde a identidade e a não—identidade são visadas simultaneamente. * A dualidade que os afeta traduz—se pela oposição de seu ser parcial como supósito criado determinado a ser apenas isto ou aquilo e de seu inteligir como princípio de indeterminação que é fonte de liberdade. * Na Obra dos Sermões, afirma—se que ascender ao intelecto e submeter—se a ele constitui unir—se a Deus, e unir—se e ser um significa ser um com Deus, pois Deus é um. * O texto prossegue indicando que todo ser fora do intelecto é criatura, é criável e é outro em relação a Deus. Em Deus não há outro, e o ato e a potência são divisões do ser criado universal. * O ser é o primeiro ato e a primeira divisão, enquanto no intelecto ou em Deus não há nenhuma divisão. * Nicolau de Cusa anotou que todo ser fora do intelecto é criatura. * M. Grabmann analisa essa passagem e atribui a Eckhart a tese do caráter incréu do intelecto, mas a sua leitura omite termos que tornam a frase inteligível. * O ato criador ao dar lugar à dualidade de ação e paixão implica para o ser criado um momento de separação de Deus que constitui a primeira divisão na base do ser divisível. * Esse princípio de divisão e alteridade que se vincula ao ser só pode ser superado no intelecto onde a criatura não é outro. * Um ser dotado de intelecto é um e não um em maior grau do que qualquer outra criatura: ele participa da Unidade nos gêneros e espécies da qual se separa em sua natureza própria, e possui em sua particularidade a faculdade de se desprender de si mesmo para atingir a unidade do ser com Deus. * A dualidade de ser primeiro e segundo que caracteriza as criaturas encontra—se presente na própria estrutura dos seres intelectuais. * As criaturas superiores são as únicas a mostrar uma espécie de composição metafísica nesse sentido, pois o inteligir e o ser estão reunidos nos seres criados à imagem de Deus embora sejam idênticos no Próprio Inteligir divino. * A sua condição é paradoxal porque os dois princípios que as compõem parecem se excluir mutuamente: uma natureza intelectual pertence a todas as coisas que formam o universo enquanto ser, integrando esse todo criado que cai sob a causalidade da causa primeira. * No Comentário sobre a Sabedoria, explica—se que o todo criado cai sob a causalidade e o aspecto da causa primeira. * O indivíduo destaca—se do todo por seu inteligir ao sair do universo e deixar de integrar a criação na medida em que alcança na união com Deus a identidade de todas as coisas com o Uno. * Na Obra dos Sermões, explica—se que a Escritura exorta à saída deste mundo e de si mesmo, a esquecer a casa de sua geração e a sair de sua terra para crescer em uma grande nação, o que se realiza na região do intelecto onde todas as coisas estão em todas as coisas. * A região do intelecto onde todas as coisas estão em todas as coisas identifica—se com a esfera intelectual infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum. * Um ser individual dotado de intelecto pode encontrar a sua coincidência com o Centro omnipresente da esfera infinita se possui a faculdade de atingir o ser—um—com—Deus, reunindo todas as coisas em si mesmo na união com o Uno. * A identidade de todas as coisas com o Uno e a unidade das coisas entre si não podem ser encontradas fora do Intelecto no todo do universo que é maior do que as suas partes. * O ser idêntico é acessível em uma região secreta transcendente ao criado onde cada ser parcial está em outro, o maior no menor, o todo na parte e o fruto na flor. * Maria escolheu a melhor parte porque não preferiu o mais e o todo em relação ao menos e à parte, sabendo que Deus está totalmente em cada criatura tanto em uma só quanto em todas juntas. * Nos Sermões sobre o Eclesiástico, explica—se que nas coisas divinas qualquer uma está em qualquer uma, o máximo no mínimo e o fruto na flor, porque Deus é uma esfera intelectual infinita cujo centro está em toda parte com a circunferência, existindo tantas circunferências quantos pontos. * O Êxodo 16 afirma a respeito do maná divino que quem havia colhido menos não encontrou menos, e Lucas 10 menciona que Maria escolheu a melhor parte porque o ótimo e o todo estão na parte. Deus está todo em qualquer criatura, em uma como em todas, e a obra de Deus frutifica na flor. * No Comentário sobre João, repete—se que o todo e o ótimo estão na parte, sendo Deus a esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum. * No Comentário sobre Ezequiel, nota—se que em Deus não há mais nem menos, e as coisas que possuem mais e menos em si tornam—se um e recebem o ser um nele. * O homem justo que ama a Deus em todas as coisas usufrui do mínimo possuindo nele o Deus todo a quem ama por Deus ser todo e tanto no mínimo quanto no máximo, não buscando nada maior além dele. * O maior e o menor não caem em Deus nem no uno, estando aquém e fora do uno, pelo que quem busca o mais e o menos não é divino. * No livro dos 24 Filósofos, afirma—se que Deus é uma esfera intelectual infinita que possui tantas circunferências quantos pontos, cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum, estando todo em seu mínimo. * D. Mahnke analisa essa imagem geométrica em Eckhart observando que ela não visa as partes da Divindade, mas as partes mínimas do mundo criado em cada ser particular onde toda a esfera divina está presente. * Essa esfera sem circunferência e sem exterioridade criada constitui a Omni—unidade divina, representando a identidade de todas as coisas com o Uno na região da transcendência interiorizada que é mais íntima a cada um do que o seu ser próprio de criatura. * O intelecto criado possui por objeto o ser—un de todas as coisas no Uno, visando a sua essencialidade incréa ou quididade que não é distinta do Verbo no Intelecto paternal. * A inteligência criada deve transcender a si mesma e ultrapassar no inteligir o seu ser intelectual para atingir a razão de tudo o que existe em sua verdadeira interioridade como o Logos silencioso que não procede para fora. * A inteligência pode alcançar a identidade absoluta de Aquele Que É ao se reconhecer como nada de criatura na negatividade de uma intelecção desprendida de todo ser determinado, unindo—se ao Acto puro do Próprio Inteligir. * O sermão Deus unus est devia ocupar um lugar importante no conjunto dos escritos latinos de Eckhart. * O Mestre dominicano referiu—se a essa peça de sua obra exegética ao complementar o seu primeiro comentário sobre o Gênesis quando teve de abordar o problema da unidade divina e da dualidade criada. * No Comentário sobre o Gênesis, adverte—se que Deus criou no princípio o céu e a terra como duas coisas e não mais, não criando o uno porque o que é criado decai da unidade e da simplicidade. A unidade e a simplicidade são propriedades de Deus, conforme anotado sobre o trecho Deus é um. * H. Bascour analisa a dupla redação do primeiro comentário sobre o Gênesis identificando nesse texto uma referência ao sermão latino Deus unus est ao qual atribui grande importância doutrinal. * Esse sermão sobre o Uno—intelecto reúne os elementos essenciais da especulação metafísica de Eckhart com a sua doutrina da união mística onde culminam a ontologia e a noética do turingiano. * Divisam—se as grandes linhas do retorno pelo intelecto e pela graça em direção à identidade do ser em Deus de onde todas as coisas saíram pela criação. * O homem possui a faculdade da união por ser criado à imagem de Deus na medida em que é douado de intelecto, embora não seja verdadeiramente um. * O inteligir será a engrenagem de sua conversão, dessa epistrophé que ultrapassa a dualidade de Criador e criatura para descobrir a identidade inicial de todas as coisas consigo mesmas e com Deus além de sua oposição. * O termo da união coincide com o princípio da procissão no fundo secreto da transcendência interiorizada onde a Mônada engendra a Mônada e retorna sobre si mesma. * Esse operação triádica reconduz tudo o que produz em direção à indistinção da Essência inoperante, inexprimível e incognoscível. * Reencontra—se o Ser inominável da apófase mística que constitui o aspecto supremo da teognose de Eckhart que havia sido perdido de vista ao se estudar os nomes divinos predicáveis a partir das criaturas. * A via negativa cedia o passo a uma correção dos conceitos formados por nossa mente e a uma purificação do que pode ser afirmado por eminência a respeito da Causa primeira nesse nível inferior do conhecimento de Deus aquém da causalidade criadora. * O nome do Uno colocado acima de todos os nomes reconduzia todos os atributos à unidade indistinta do Principe da ação divina. * A negação de toda multiplicidade real ou de razão no Uno concebido como negação da negação do ser orientava em direção a uma noção parmenidiana do ser—identidade revelada na afirmação pura do Eu sou quem sou. * O Ser—Deus surgia com o caráter absoluto de identidade do o que é nessa nova perspectiva alheia ao tomismo, opondo—se ao nada das criaturas que estão marcadas pela não—identidade ou nulidade ontológica. * Divisou—se a via do retorno em direção ao ser—um—com—Deus ao se encontrar a tensão entre a identidade e a não—identidade nas criaturas superiores nas quais o inteligir e o ser se opõem mutuamente. * Será necessário considerar o momento de oposição dialética antes de resolver essa tensão em uma apófase mística que transcende a dualidade Criador—criatura. * Esse momento introduzirá no conhecimento da Causa primeira uma vida negativa concebida sob um modo novo e marcará com uma pegada particular a doutrina da analogia que é própria de Eckhart.