====== MCGINN, BERNARD ====== //ECKHART, Johannes; COLLEDGE, Edmund; MCGINN, Bernard. Meister Eckhart: the essential sermons, commentaries, treatises, and defense. New York Ramsey Toronto: Paulist press, 1981.// * O consenso inicial entre os estudiosos de Eckhart aponta para a complexidade de sua leitura, cujas interpretações divergentes ou errôneas decorrem tanto da profundidade do conteúdo quanto da forma de apresentação. * Erros e usos divergentes da obra de Eckhart. * As deficiências textuais dos manuscritos remanescentes também contribuem para as dificuldades de interpretação, uma vez que as obras em latim são fragmentárias e as em alemão apresentam severos problemas de autenticidade. * Obras latinas sobreviventes em poucos manuscritos. * Tratados e sermões alemães preservados em mais de duzentos manuscritos defeituosos. * Atuação da Deutsche Forschungsgemeinschaft com uma edição crítica de mais de quarenta anos como ponto de partida sólido. * Eckhart acumulou as funções de filósofo, teólogo, pregador, poeta e de alguém que utilizava deliberadamente paradoxos, metáforas incomuns e jogos de palavras para despertar os ouvintes de seu torpor moral e intelectual. * Cultivo proposital de efeitos retóricos e neologismos. * Presença de características retóricas até no latim técnico das obras escolásticas. * Reconhecimento de Eckhart como figura crucial no desenvolvimento do vocabulário especulativo alemão e como mestre da prosa. * O estilo atraente e complexo de Eckhart decorre prioritariamente da profundidade e da qualidade de sua mensagem, desafiando a elaboração de introduções breves. * Josef Quint, editor das obras vernáculas, e a admissão de dificuldades insuperáveis para introduzir o autor. * Multiplicidade de perspectivas e interpretações em anos recentes. * Inexistência de uma interpretação final para Eckhart, comparável ao que ocorre com Agostinho, Anselmo, Aquino ou Boaventura. * Função das introduções restrita a diretrizes preliminares para a leitura direta. * Os temas principais do sistema teológico de Eckhart manifestam-se de forma evidente e por vezes repetitiva ao longo de todos os seus escritos latinos e alemães, restando a definição de princípios interpretativos para esclarecer as relações entre eles. * Sobrevivência fragmentária da fundamentação sistemática na Obra das Proposições do Trabalho em Três Partes. * O primeiro princípio interpretativo estabelece que a compreensão integral de Eckhart exige atenção equivalente tanto às obras em latim quanto às obras em alemão. * Rejeição de abordagens unilaterais que privilegiam o teólogo escolástico sutil ou o pregador vernáculo extravagante. * Necessidade de apreender a interação entre o Lesemeister — mestre das escolas — e o Lebemeister — mestre da pregação e da vida. * A trajetória de Eckhart na Ordem dos Pregadores direcionou o propósito da teologia escolástica não para a especulação isolada, mas para a fundamentação da pregação. * Condição de fiel filho de São Domingos desde os primeiros anos. * Caráter especial dos comentários escriturísticos atestado pelo editor das obras latinas, Josef Koch. * Comparação com Tomás de Aquino para demonstrar a preferência de Eckhart por interpretações aptas ao pregador em detrimento de uma exposição sistemática total da Bíblia. * Centralidade da pregação evidenciada na forma e no conteúdo dos comentários latinos. * A correlação entre as obras latinas e vernáculas reflete a distinção entre a formulação técnica da teologia e a sua comunicação para a Igreja. * Temas explícitos na pregação vernácula baseados em um quadro teológico total apreendido nas obras acadêmicas. * Princípios essenciais latinos que operam de modo implícito na compreensão dos sermões vernáculos. * O segundo princípio orientador preconiza a necessidade de analisar a totalidade da obra de Eckhart sob uma perspectiva primordialmente teológica. * Tratamento habitual do pensador no contexto da história da filosofia pelos escolásticos medievais. * Existência de uma metafísica profunda e sutil subordinada a uma intenção primariamente teológica. **A NATUREZA DA TEOLOGIA E O PAPEL DAS ESCRITURAS** * A distinção clara entre os domínios da natureza e da graça deu lugar, em Eckhart, a uma aparente indistinção em que verdades naturais e reveladas se misturam sem esforço. * Tomás de Aquino e a defesa da sacra doctrina como ciência superior à teologia filosófica de Aristóteles. * Formulação de verdades acessíveis à razão e mistérios que a superam, como a Trindade e a encarnação, em Tomás de Aquino. * Interconexão de verdades naturais e reveladas no comentário de Eckhart ao Prólogo de João. * Discussão sobre a presença de Cristo na Eucaristia como o único ponto em que Eckhart afirma explicitamente a inacessibilidade da fé à razão. * Argumentos interpretativos que aproximam Eckhart de um filósofo ou metafísico com base em padrões tomistas. * A postura de Eckhart acerca da relação entre fé e razão alinha-se mais à tradição teológica do platonismo cristão do que às precisões conceituais tomistas, enfatizando a concordância entre a Escritura e a investigação racional. * Comentário sobre a Encarnação como ponto médio entre as emanações divinas e a produção das criaturas. * Citação de que a Sagrada Escritura concorda com o que os filósofos escreveram sobre a natureza das coisas, pois toda verdade procede de uma única fonte. * Afirmação de que Moisés, Cristo e o Filósofo ensinam a mesma coisa, diferindo apenas no modo de ensinar: como digno de fé, como provável ou como verdade. * Eckhart demonstrou otimismo quanto à capacidade da razão em encontrar provas para as verdades bíblicas, indo além de posições tradicionais. * Divergência com Tomás de Aquino, que se mantinha menos otimista sobre a capacidade da filosofia em penetrar mistérios divinos. * Avanço de Eckhart em relação a Agostinho no tocante a provas naturais para passagens do Prólogo de João. * A equivalência entre verdades naturais e reveladas na teologia de Eckhart restringe-se ao conteúdo, diferindo no modo de apreensão e no grau de certeza. * Ensinamento dos filósofos como provável, enquanto Cristo ensina como verdade absoluta. * Visão dos filósofos pagãos pela luz da razão em contraste com a visão dos santos pelo Espírito Santo. * Consideração do crente que não busca razões naturais para a fé como um covarde preguiçoso na tradição da fé em busca de entendimento. * Objetivo do Comentário sobre João definido como a explicação da fé cristã e dos dois Testamentos por meio de argumentos naturais dos filósofos. * Filosofia autêntica fundamentada na Escritura e ordenada à pregação, sem que os argumentos naturais fundem a certeza do fiel. * O entendimento da teologia de Eckhart pressupõe a análise de sua teoria de interpretação da Escritura, dado o caráter majoritariamente exegético de sua produção. * Caráter exegético da maioria das obras latinas sobreviventes e base bíblica dos sermões latinos e alemães. * Metáfora da Escritura como um mar profundo onde cordeiros caminham, vacas nadam e elefantes afundam. * A abordagem hermenêutica de Eckhart assenta-se em uma divisão dupla dos sentidos bíblicos, apresentando acentos específicos dentro da tradição cristã clássica. * Prólogo do Livro das Parábolas do Gênesis como principal reflexão teórica sobre a exegese. * Sentido mais evidente tratado no primeiro comentário do Gênesis e sentido oculto sob a casca da letra tratado na segunda obra. * Influência do pensador judeu Maimônides nos aspectos teóricos da exposição do significado oculto. * Abandono do esquema tradicional dos quatro sentidos — literal, alegórico, moral e anagógico — e rejeição do termo alegoria. * O vocabulário exegético de Eckhart privilegia termos como figura, significado místico e parábola para descrever o sentido interno do texto sagrado, cujo conteúdo abrange verdades teológicas, naturais e morais. * Uso do termo parabolice aprendido com Maimônides. * Divisão do conteúdo interno em verdades teológicas, naturais e morais associada à tradição de Jerônimo. * Citação do Comentário sobre o Êxodo atestando que a Escritura narra histórias contendo mistérios, ensinando a natureza das coisas e ordenando ações morais. * A posição de Eckhart sobre a força argumentativa dos sentidos da Escritura revela ambiguidades entre a unidade do sentido literal e a multiplicidade de sentidos verdadeiros. * Citação de Tomás de Aquino em defesa da unidade do sentido literal, onde as palavras significam apenas uma coisa. * Alinhamento efetivo com Agostinho nas Confissões, defendendo que todo sentido verdadeiro de uma passagem pode ser chamado de literal, visto que Deus é seu autor próprio. * O distanciamento de Eckhart em relação a Tomás de Aquino quanto ao uso das parábolas e metáforas processou-se por meio de ampliações conceituais ousadas e restrições metodológicas particulares. * Aceitação da premissa tomista de que o sentido literal pode ser metafórico. * Extensão da natureza metafórica a todo o terceiro capítulo do Gênesis, motivando ataques em Colônia. * Concordância parcial com Tomás de Aquino ao não pretender provar verdades divinas por argumentos parabólicos, mas utilizá-los para demonstrar a concordância com o demonstrado na Obra das Questões e na Obra dos Comentários. * Prática argumentativa no Livro das Parábolas semelhante aos demais comentários escriturísticos. * Dificuldade de distinção entre leitura literal e interpretação espiritual devido à adoção de uma abordagem especulativa amparada na multiplicidade do sentido literal. * Influência do Comentário Literal sobre o Gênesis de Agostinho na busca pelo nível mais profundo da revelação divina.