===== Gomez ===== //ÁLVAREZ GÓMEZ, Jesús. Historia de la vida religiosa: desde la “Devotio moderna” hasta el Concilio Vaticano II. Madrid: Publ. claretianas, 1990.// **1. As rupturas do século XIV** Ao longo do século XIV, foram se forjando os germes do que, séculos mais tarde, daria origem ao “mundo moderno”, sendo este um século de “rupturas” no qual se dissociaram os elementos de tudo o que os clássicos medievais haviam tentado construir. * Dante Alighieri escreveu uma obra intitulada “Vita nuova”, e Petrarca, o pai do Humanismo, criou o “dolce stil nuovo”, sendo este o melhor indício de que algo novo começava no início daquela centúria. * O edifício da velha Cristandade se rachou por todos os seus lados, não sendo mais uma Igreja que abria novos caminhos, que criava novas culturas ou que educava novos povos, mas uma Igreja consciente de suas muitas contribuições para a criação do homem europeu. * As Ordens Mendicantes, especialmente franciscanos e dominicanos, enredaram-se em rivalidades doutrinais que as afastaram da criatividade intelectual que haviam demonstrado no século anterior com mestres como Tomás de Aquino e Boaventura. * A unidade estreita entre o Império e a Igreja rachou-se definitivamente após as lutas políticas entre Bonifácio VIII e Felipe IV, o Belo da França, e entre João XXII e Luís IV da Baviera, carregadas de profunda carga ideológica. * Marsílio de Pádua, autor do “Defensor Pacis” com a colaboração de João de Jandum, foi o fautor mais representativo dessa ideologia político-eclesial, tendo sua obra condenada por João XXII na bula “Quia iuxta doctrinam” de 3 de abril de 1327. * O chamado “bofetão de Anagni” foi elevado à categoria de signo da ruptura definitiva entre o poder político e o poder espiritual que se forjou ao longo do século XIV, o século de Ockham e de Duns Escoto, nos quais Martin Heidegger quis ver já alguns elementos do “psicologismo husserliano”. * Como nota mais distintiva na Igreja do século XIV, produziu-se uma psicose coletiva de medo, uma sensação de que a Igreja era uma nau à deriva em meio a uma tempestade cujo fim não se acabava de vislumbrar. * Por toda parte levantou-se um grito incontido que pedia um golpe de leme na nau da Igreja, o grito estrondoso que pedia a reforma “in capite et in membris”, lançado primeiramente por Raimundo Lúlio em um memorando apresentado ao Concílio de Vienne (1311-1312) e que se prolongaria até o Concílio V de Latrão (1515), às vésperas da própria Reforma luterana (1517). * O chanceler Dom Pedro López de Ayala descreveu poética, dura e dramaticamente a situação da Igreja em seu “Rimado de Palacio”, no qual Menéndez y Pelayo viu “a confissão do seu século”, descrevendo que a nave de São Pedro está em grande perdição, passa grande tormenta, e o próprio chanceler põe o dedo na ferida ao assinalar o vértice da Igreja como ponto de origem de todos os males. **2. Nome e conceito de “Devotio moderna”** “Devotio moderna” é uma expressão composta por um substantivo e um adjetivo que lograram uma conjunção perfeita, uma união já inseparável, com um significado histórico e geográfico bem determinado. * Historicamente, a Devotio moderna é o movimento espiritual que surge no final do século XIV como uma contraposição aos caminhos que a religiosidade e a piedade haviam percorrido desde séculos antes, significando a contraposição do novo “homem devoto” frente ao “homem interior” que, quase pelo mesmo tempo, estava representado pelo mestre Eckhart e sua escola. * Geograficamente, por suas origens, o conceito de Devotio moderna propriamente dita se circunscreve aos Países Baixos, embora depois se estendesse a outros países europeus a ponto de se poder falar de uma Devotio moderna italiana e até mesmo de uma Devotio moderna espanhola. * O adjetivo “moderna” que acompanha indissoluvelmente o substantivo “Devotio” diz uma relação evidente com a “via moderna” que, no campo da filosofia, foi cunhada para designar a nova corrente do Nominalismo criada por Guilherme de Ockham. * A Devotio moderna e a via moderna da Filosofia respondem a uma nova situação sociocultural e sociorreligiosa que não pode deixar de se traduzir em novas correntes no âmbito da piedade e da Filosofia, de modo que, assim como na Filosofia a via moderna de Guilherme de Ockham se contrapõe à “via antiqua”, também a Devotio moderna se contrapõe à “Devotio antiqua” proveniente da Idade Média. * Segundo a definição do padre Ricardo García Villoslada, entende-se por Devotio moderna aquela corrente espiritual que, na segunda metade do século XIV, brotou nos Países Baixos por obra principalmente de Gerardo Groot e de seu discípulo Florencio Radewijns, corrente que se canalizou na associação dos Irmãos da Vida Comum (e, com menor importância, na das Irmãs) e que no século XIV e princípios do XV fertilizou com seus escritos ascético-místicos — especialmente com o “De imitatione Christi” — e com seu magistério e direção espiritual os jardins dos claustros e os amplos campos do povo cristão. * A Devotio moderna foi inicialmente um elemento a mais daquele grande movimento de reforma interior levada a cabo não pela Igreja institucional, mas por pessoas concretas que, enquanto tais, trabalharam pela reforma da Igreja mais no âmbito secular, ao estilo do que foram as Congregações de Observância no âmbito das Ordens religiosas. * A Devotio moderna expandiu-se de tal modo por toda a cristandade ocidental que, de fato, influiu em todos os demais movimentos reformadores da Igreja. **3. Origens da “Devotio moderna”** **3.1. Gerardo Groot, o iniciador** “O Mestre Gerardo Magno foi o pai de nossa reformação e a fonte de toda a devoção moderna”, segundo o mestre João Busch, sendo este Gerardo Magno Gerardo Groot, que havia nascido em Deventer (Países Baixos) em 1340. * Pertencente a uma rica família dedicada ao comércio de panos, seus pais foram vítimas da peste negra que assolou a Europa em meados do século XIV (1348-1350), e após os primeiros estudos em sua cidade natal, trasladou-se a Paris, onde aos vinte e dois anos conseguiu o grau de Mestre em Artes (Filosofia) e onde fez também incursões no campo do direito, da medicina, da teologia e até mesmo da astrologia e da magia. * A vida de Gerardo Groot tem alguma semelhança com a de Francisco de Assis: após seu regresso a Deventer, conduziu uma vida mundana, esbanjando o dinheiro fruto de sua herança familiar e dos benefícios eclesiásticos que conseguiu — primeiro uma prebenda em Aachen, e desde 1371 uma cónegos em Utrecht e outra em Colônia —, embora somente quatro anos antes de morrer se tenha ordenado diácono. * Um signo do prestígio que havia adquirido em sua cidade natal é que, em 1366, seus concidadãos o enviaram com uma delegação ao papa avinhão Urbano V. * Quando Gerardo Groot se encontrava desfrutando alegremente de suas riquezas e de suas honrarias, caiu vítima de uma grave enfermidade por volta de 1372-1373, sendo então que reencontrou Henrique Eger de Kalkar, antigo amigo de sua época de Paris que acabava de ser nomeado prior da Cartuxa de Monnikhuizen (Arneheim), e esse encontro provocou a conversão de Gerardo. * Em 1374, abandonou sua vida mundana e renunciou a seus benefícios eclesiásticos, fazendo inclusive doação de sua própria casa para uma comunidade de mulheres, as futuras Irmãs da Vida Comum, e passou algum tempo recluso na cartuxa de Monnikhuizen como “donado” (uma espécie de irmão converso, mas sem votos), dedicando-se ao trabalho manual, à leitura e à meditação. * Segundo Tomás de Kempis, Gerardo Groot “recolheu as dispersões de seu coração, raspou a ferrugem da vida passada e reformou a imagem do homem interior em toda a sua pureza”. * Seus diretores de espírito e ele mesmo perceberam que a vida contemplativa da Cartuxa não era seu destino, mas sim a ação direta em favor da reforma da Igreja, e em 1377 pôs-se sob a direção espiritual do grande místico Ruysbroeck (1293-1381), em cujas doutrinas se poderiam descobrir já alguns indícios dessa “nova” atitude espiritual que seria a “Devotio moderna”. * Depois de cinco anos de intensa preparação, Gerardo Groot, desde 1379 até sua morte ocorrida em 1384, entregou-se por completo à pregação por diversas cidades flamengas, na qual atacava a grande proliferação de heresias, fustigava os abusos dos monges e frades mendicantes em matéria de vida comum e de pobreza e, sobretudo, criticava com grande ardor a simonia e o concubinato do clero. * Sua crítica ao concubinato do clero valeu-lhe a inquina do arcebispo de Utrecht, o qual lhe proibiu indiretamente a pregação ao reservar essa função somente aos sacerdotes, e seus amigos protestaram diante do papa Urbano VI contra essa decisão, exigindo que se devolvessem a Gerardo as licenças para pregar, mas não se sabe qual foi a resposta pontifícia. **3.2. Difusão da “Devotio moderna”** Em seus escritos e em sua pregação, Gerardo Groot manifesta-se como um homem rigorista frente à decadência e corrupção imperantes na sociedade e na Igreja de seu tempo, sendo capaz de atrair em torno de si um bom número de discípulos e discípulas, demonstrando extraordinárias dotes de “condutor de almas”. * Sobressaíram entre seus discípulos Florencio Radewijns (1350-1400), João Gronde († 1392) e João Brickering (1359-1419). * A Devotio moderna propagou-se rapidamente pelos Países Baixos e por toda a cristandade ocidental através dos escritos de Gerardo Groot e dos escritos de seus discípulos, como Florencio Radewijns, do discípulo deste, Gerardo Zerbolt de Zutphen († 1398) — autor de duas obras extraordinariamente lidas: “De reformatione virium animae” e “De spiritualibus ascensionibus” — e, sobretudo, de Tomás de Kempis, autor de “A Imitação de Cristo”, o livro sem dúvida mais lido depois da Bíblia. * Há autores que falam de uma Devotio moderna francesa encarnada muito especialmente nos três grandes chanceleres da Universidade de Paris: Pedro d’Ailly (1350-1420), João Charlier de Gerson (1363-1429) e Roberto Ciboule (1403-1458), tendo sido atribuída a Gerson a paternidade da “Imitação de Cristo” de tão fortes serem os rasgos de contato de sua espiritualidade com a refletida na obra de Tomás de Kempis, embora o estilo literário seja completamente diverso. * Também na Itália a Devotio moderna teve algumas características próprias, como as observadas no grupo veneziano capitaneado por Lourenço Giustiniani e por Ludovico Barbo, o iniciador da Congregação de Observância de Santa Justina de Pádua, havendo quem pense que a influência da Devotio moderna dos Países Baixos na Devotio moderna italiana seria antes marginal, mas se há de receber o apelativo específico de “Devotio moderna”, há de depender necessariamente da flamenga, como entende H. Watrigant. * Também à Espanha alcançou a influência da Devotio moderna flamenga: pelo Caminho de Santiago, ainda que já tivesse perdido muito do esplendor medieval, ainda no século XVI afluíam para Compostela rios de peregrinos que traziam consigo suas formas de piedade e até mesmo seus livros de devoção; e, por outra parte, o cisma de Avinhão fazia circular, sobretudo pela Catalunha e Aragão, as novas correntes espirituais que invadiam o sul da França provenientes dos Países Baixos. * Na Espanha encontram-se três porta-estandartes da Devotio moderna: São Vicente Ferrer († 1419), diretor espiritual do papa avinhão Bento XIII; João de Torquemada († 1468), o grande defensor do papado; e, muito especialmente, García Jiménez de Cisneros, primo do grande cardeal, abade de Montserrat que publicou em 1500 o “Ejercitatorio de la vida espiritual”, com grandes ressonâncias da Devotio moderna flamenga, e que influirá por sua vez nos “Exercícios espirituais” de Santo Inácio. **4. Características da “Devotio moderna”** A Devotio moderna é, no fundo, uma reinterpretação de toda a vida cristã em meio àquele contexto de rupturas com tudo o que havia constituído o entramado da cristandade medieval, sendo, portanto, uma cura de urgência para um tempo de emergência e de crise quase total da Igreja e da sociedade. **4.1. Interioridade** A interioridade é o traço mais característico da Devotio moderna, constituindo uma reação contra aquela situação de cansaço que os fiéis experimentavam frente a uma Igreja decadente que apelava com suma facilidade à excomunhão e ao interdito. * Essas penas esterilizavam em grande medida o sentido objetivo da piedade sacramental e, sobretudo, faziam perder aos fiéis o sentido eclesial. * As pessoas mais selectas fogem de todo esse contexto institucional de pura exterioridade para se refugiar em seu próprio interior, e como consequência, a espiritualidade litúrgica decai, assim como a prática sacramental, para dar passo à meditação pessoal e a outros exercícios de piedade mais subjetivos, mais afetivos, aos quais os “devotos” se entregam com verdadeiro ardor, especialmente à oração meditativa. * Nessa mesma perspectiva, rebrota o tema do desprezo do mundo e a consideração da vaidade de todas as coisas que havia invadido a piedade ocidental no início da Baixa Idade Média, e o desprezo do mundo trouxe consigo a vigilante custódia do coração e dos sentidos e, muito particularmente, a busca da solidão cujo signo mais expressivo é precisamente o silêncio. * Esse retorno à própria interioridade contribuiu para dar uma maior espontaneidade à piedade e ao fervor religioso, mas aí estão os primeiros germes da escassa mentalidade eclesial e comunitária que predominou na vida da Igreja desde o século XV até que começou no século XIX a renovação litúrgica. **4.2. Afetividade** Essa nova forma de espiritualidade recebeu o qualificativo de “moderna” porque surge no contexto da “via moderna” do ockhamismo, corrente filosófica que se caracteriza pelo “voluntarismo”, e na Devotio moderna o que conta é a vontade, o coração, a devoção, a entrega generosa. * Já não contam as elucubrações mentais porque foram desprestigiadas pelo excessivo intelectualismo da escolástica decadente dos maus seguidores de Tomás de Aquino e de Boaventura, que esgotavam todas as suas energias em inúteis sutilezas especulativas. * A Devotio moderna retorna à linha afetiva da mais genuína tradição agostiniana que, expurgada dos altos voos metafísicos de Santo Agostinho por obra dos cónegos regulares primeiro e depois por obra dos cistercienses e franciscanos, se eclipsa na escolástica decadente e é ressuscitada pelos “devotos” que a tornam acessível ao povo em geral. * Essa contraposição entre afetividade e intelectualismo foi plasmada em toda a sua radicalidade por um dos mais representativos “devotos”, João Mombaer: “Todo o nosso passe ao afeto, mas santo, piedoso, casto; e reduzamos todo entendimento à catividade, em obséquio de Cristo”. * É, uma vez mais, a ruptura com o passado, uma reação contra a mística especulativa, incluída a do representante mais genuíno da escola mística flamenga, Ruysbroeck († 1381), com quem Gerardo Groot teve alguma entrevista embora não se tenha deixado influenciar por ele, como tampouco se deixou influenciar pelos místicos renanos Eckhart e seus discípulos João Tauler († 1361) e Henrique Suso († 1366). * Os “devotos” desprezavam as especulações sobre a mística levadas a cabo por esses mestres, cujos voos metafísicos não lhes atraem, e de fato Gerardo Groot nunca os menciona, com exceção de Henrique Suso que é, precisamente, o mais afetivo de todos eles. * Não seria exato negar toda influência desses místicos renanos sobre a Devotio moderna, porque eles falam com frequência do “fundo da alma” e promovem a “introspecção” que não pode deixar de conduzir ao “psicologismo” tão típico dos “devotos”. * Essa atitude encerra em si o perigo de privar a devoção de uma sólida fundamentação teológica, abrindo assim um verdadeiro abismo entre a teologia e a piedade, entre a mística experiencial e o saber científico sobre Deus, sendo o melhor exponente dessa atitude antiespeculativa, sem dúvida, Tomás de Kempis: “É preferível sentir a compunção a saber defini-la” e “De que te aproveita disputar de altas coisas sobre a Trindade se careces de humildade por onde desagradas à mesma Trindade? As palavras sábias não fazem certamente justo nem santo, mas a vida virtuosa torna o homem agradável a Deus”. **4.3. Ascética** O enfrentamento ou oposição à mística especulativa dos mestres renanos leva os “devotos” a pôr uma maior ênfase na ascética, direção na qual sopravam também os ventos de reação contra aquela situação de frivolidade e de corrupção generalizada que se estava vivendo na Igreja. * A insistência nas tendências ascéticas é uma consequência do “voluntarismo” já mencionado, próprio da Devotio moderna e do ockhamismo em geral, e, por conseguinte, insiste-se mais no esforço da vontade do que na ação direta da graça, embora, como é lógico, esta não seja negada. * Os “devotos” acentuam também o exercício das virtudes e a aniquilação dos defeitos, como se o progresso na piedade e na devoção dependesse mais do esforço pessoal do que das moções do Espírito Santo. * O caráter antiespeculativo conduz os “devotos” a se preocuparem mais pela práxis ascética e pela moral do que pelo misticismo, tratando-se de um moralismo prático que lembra em boa medida as correntes do estoicismo, sobretudo latino, o qual, mais que o grego, busca os estímulos da exemplaridade de vida. * Aqui aprofunda suas raízes a imitação de Cristo que, sintetizando toda a corrente da Devotio moderna, Tomás de Kempis tanto realçará, pois na imitação de Cristo contam mais os exemplos de Cristo que é preciso seguir do que as teorias e as especulações teológicas que, por princípio, devem ser deixadas de lado. * O próprio Ruysbroeck insistia, em sua obra “O adorno das bodas espirituais”, sobre essa exemplaridade de Cristo e sobre o consequente esforço que o cristão deve realizar para assimilar suas virtudes, contemplando tanto seu comportamento interior como exterior. **4.4. Imitação de Cristo** O cristocentrismo é algo tão evidente na Devotio moderna que a obra mais representativa de toda essa corrente espiritual é precisamente “A Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, embora nisso não haja uma ruptura com o passado, mas antes uma prolongação da devoção à Humanidade de Cristo iniciada na Reforma Gregoriana, incrementada e aprofundada por São Bernardo e por São Francisco de Assis. * Há, porém, uma ruptura com a teologia especulativa dos Cónegos Regulares de São Vítor de Paris e de sua área de influência, e com os místicos renanos, como Eckhart e Tauler, todos os quais não renunciam a considerar Cristo desde as teorias teológico-místicas, não insistindo tanto na questão da exemplaridade de Cristo para os fiéis, com o que a Devotio moderna se move também nisso dentro do contexto generalizado de rupturas da Igreja e da sociedade do século XIV. * Essas considerações teológico-místicas, em contrapartida, não interessam aos “devotos”, que se concentram na meditação das virtudes e dos altíssimos exemplos práticos de Jesus, tal como se depreende de uma primeira leitura, plana, singela, dos Evangelhos. * Em contraposição ao que pudesse parecer em razão dessa insistência na imitação prática do Jesus dos Evangelhos, o conceito que os “devotos” têm de Jesus é menos real, é menos conforme ao Jesus histórico, resultando muito mais abstrato, porque, mais do que se fixar na Humanidade histórica de Jesus, fixam-se em suas virtudes. **4.5. A oração metódica** A oração metódica é, junto com a afetividade, a nota mais distintiva da Devotio moderna e a que vai ter um influxo mais duradouro sobre a espiritualidade ocidental, sobretudo depois que Santo Inácio a tornou sua nos “Exercícios espirituais”. * O caráter antiespeculativo e, por conseguinte orientado à práxis, levará a Devotio moderna à metodização da oração, o que, na realidade, tampouco é uma inovação absoluta dos “devotos”, pois já vinha sendo forjada desde o século XIII, direção na qual já haviam dado os primeiros passos, entre outros, os franciscanos Boaventura († 1274) e Davi de Augsburgo († 1266) — este último autor de um famoso livrinho intitulado “De exteriori et interiori hominis compositione” — e o cartuxo Hugo de Balma, autor da célebre “Teologia mística” na qual segue a doutrina de Boaventura. * Em todos esses autores — Boaventura, Davi de Augsburgo e Hugo de Balma, especialmente deste último — beberam a rodos os “devotos”, mas, porque querem ser exatos, metódicos, rítmicos em tudo, levarão suas doutrinas até limites insuspeitados por aqueles, sendo o “Rosetum” de João Mombaer o cume dessa metodização levada ao extremo. * Antes de aparecer a Devotio moderna, existiam já alguns métodos para organizar a vida espiritual; o exame de consciência e a meditação são muito anteriores, tão anteriores quanto a própria Igreja, mas foi a partir do século XII, quando os cartuxos e os cistercienses e depois, no século XIII, os franciscanos, que os sistematizaram de alguma maneira; mas serão os “devotos” quem, desde finais do século XIV, os introduzirão “nas regulamentações obrigatórias das comunidades religiosas e das confrarias e beaterios de seglares”, começando pelos Irmãos e Irmãs da vida comum. * São os “devotos” quem cunham a expressão “exercícios” para expressar esses fazeres espirituais, e o exame de consciência e a meditação metodizada constituirão desde a Devotio moderna o ponto central em torno do qual girará nos últimos séculos toda a vida espiritual da Igreja ocidental, especialmente das Congregações religiosas e dos grupos mais piedosos de seglares. * Será João Mombaer quem, em seu “Rosetum exercitiorum spiritualium et sacrarum meditationum” (Zwolle, 1494), que é uma enciclopédia das doutrinas e práticas da Devotio moderna, levará a cabo uma metodização excessivamente minuciosa da meditação, estabelecendo não só os temas bem detalhados sobre os que se há de meditar, mas desenvolvendo também um complicadíssimo sistema para a meditação enquanto tal. **5. Autores mais representativos da “Devotio moderna”** Depois de Gerardo Groot, iniciador dessa corrente de espiritualidade, de quem já se disse algo, os autores “devotos” mais representativos são Florencio Radewijns, João Zerbolt de Zutphen, João Vos de Huesden e Tomás de Kempis. * Florencio Radewijns († 1400), organizador dos Irmãos da Vida Comum e fundador do mosteiro de Windesheim, é autor de duas obras fundamentais para conhecer o mais puro da Devotio moderna: “Modus vivendi Deo tam in interioribus quam in exterioribus”, escrito no gênero epistolar, e o opúsculo “Omnes, inquit, artes”, cujo tema central é a imitação de Cristo. * João Zerbolt de Zutphen († 1398) escreveu várias obras, mas a mais importante, inspirada na última obra mencionada de Florencio Radewijns, é a intitulada “De spiritualibus ascensionibus”, na qual trata dos diversos graus da virtude para se aproximar de Deus, conseguindo-se isso através da oração metódica. * João Vos de Huesden († 1424), sucessor de Florencio na direção do mosteiro de Windesheim, escreveu uma “Epístola de vita et passione Domini Nostri Jesuchristi et aliis devotis exercitiis” que vai influir muito em Tomás de Kempis e em João Mombaer. * Tomás de Kempis nasceu em Kempen (donde seu nome) em 1379, e, sendo ainda muito criança, foi enviado por seus pais para estudar em Deventer, onde conheceu Florencio Radewijns; uma vez concluídos os estudos, encaminhou-se ao mosteiro de Agnetemberg, pertencente à Congregação de Windesheim, onde seu irmão João Kempis era prior, e ali recebeu o hábito religioso em 1406 e a ordenação sacerdotal em 1413, passando ali todos os dias de sua vida, alcançando grande longevidade, pois morreu aos noventa e dois anos em 1471. * Tomás de Kempis escreveu múltiplas obras de espiritualidade, como “Dialogus novitiorum”, “Libellus spiritualis exercitii”, “De solitudine et silentio”, “Sermones ad novitios”, “De disciplina claustrali”, “Soliloquium animae”, “De elevatione mentis ad inquirendum Summum Bonum” e “Liber de tribus tabernaculis”, na qual trata expressamente das virtudes monásticas. * A obra que irá indissoluvelmente unida ao nome de Tomás de Kempis é “A imitação de Cristo” (“De imitatione Christi”), um dos livros que exerceram uma maior influência na espiritualidade cristã, como o atestam suas múltiplas edições que superam as 6.200, tendo sido traduzida a 95 idiomas; São Pio V a definiu como “o livro dos livros”, e sua leitura foi recomendada pelos papas, pelos santos, pelos diretores de espírito e pelos Fundadores religiosos. * A paternidade sobre “A imitação de Cristo” foi discutida a Tomás de Kempis para atribuí-la a João Gersen († 1245), abade do mosteiro de São Estêvão de Vercelli; a Gerardo Groot; e a João Gerson, mas até agora nenhum autor foi capaz de provar documentalmente tal paternidade, e a crítica mais moderna, inclusive a alemã, atribui a obra a Tomás de Kempis, baseando-se, entre outras coisas, no testemunho de um manuscrito do mosteiro de Agnetemberg, cópia autêntica do autógrafo conservado desde o século XV. * O êxito da “Imitação de Cristo” é merecido, porque nela se condensa o mais puro da doutrina e da experiência espiritual dos “devotos” de uma maneira plástica, direta, sem rodeios nem complicações inúteis; mas, como nela e em toda a Devotio moderna, há uma ruptura com a teologia e com a contemplação mística do passado, há também uma ruptura com uma pieda escassa ou nulamente comunitária, encerrada em si mesma, sem afãs apostólicos de salvação dos homens, o que constitui, sem dúvida, uma falha, não só da Imitação, mas de toda a Devotio moderna em geral. {{tag "Devotio Moderna"}}