===== Redenção ===== [[..:start|ANTONIO ORBE]] — [[.:start|CRISTOLOGIA GNÓSTICA]] **1. AS ALMAS SÃO REDIMÍVEIS** A doutrina gnóstica sobre a redenção das almas varia conforme a antropologia de cada seita, sendo que alguns grupos distinguem entre o elemento psíquico (proveniente do criador) e o pneumático (procedente de Sofia), enquanto outros postulam uma centelha de luz na alma humana para explicar sua redimibilidade. * Os ofitas de Santo Ireneu distinguem entre o rigoroso psíquico, vindo do criador por insuflação, e o pneumático, procedente de Sofia ou do Espírito de Deus, embora optem por falar de “almas santas” como termo genérico para os redimidos. * O “Pistis Sophia” e escritos afins supõem uma comunidade de essência entre a alma humana e a dos brutos, com a diferença de que a alma do homem possui uma centelha de luz que a torna redimível em seu duplo aspecto físico e luminoso. * O “Livro de Baruc” denomina espírito ao que provém do criador (alma racional) e alma ao que vem da terra (alma irracional), sendo que esta última é irredimível e volta à terra, à semelhança do homem hílico valentiniano. * Entre os basilidianos de Hipólito, a redenção praticamente perdeu todo valor para converter-se em mera dissociação física, pois a apolytrosis alcança a filiedade e as almas para que se possa restituir o universo à sua natural hierarquia de essências. * Os valentinianos ensinam que a redenção alcançou não somente os escolhidos (membros da igreja espiritual), mas também os chamados ou psíquicos (membros da igreja animal), que, por sua índole média e dotados de livre arbítrio, podem salvar-se se acolherem com fé o mensagem do Salvador. **2. OS ESPÍRITOS, REDIMIDOS “PLENO IURE”** Apenas o homem pneumático, ou a igreja dos eleitos, é considerado redimido em toda a regra, uma vez que os espirituais, cidadãos do reino da vida eterna, são libertados do cativeiro da hyle, da corrupção e da morte, passando de um extremo a outro. * O “Hino da Pérola” (Atos de Tomé) descreve simbolicamente a queda do homem divino, natural do Oriente, que veio cair no Egito (a terra) e foi devorado pelo dragão, sendo necessário que o Filho o redimisse do dragão e o devolvesse a seu Pai. * Alguns escritos gnósticos não distinguem efetivamente entre almas e espíritos, mencionando apenas a redenção daquelas ou da alma em sentido universal, o que depende muito da antropologia de cada gnóstico e do contexto imediato. * A “Untitled Work” (UW) descreve o drama do cativeiro que afeta as almas vindas de Sabaot e de seu Cristo (psíquico), as quais foram feitas cativas pelo arquigenetor e encerradas nas prisões dos corpos (plasma) até a consumação do século. * As almas divinas, membros da igreja espiritual cativa, escondem em seu interior o germe supra-arcôntico e interessam mais como “espíritos” do que como almas, sendo por isso que a redenção verdadeira se cumpre melhor na mulher espiritual (samaritana) do que nos indivíduos animais (samaritanos). * O verdadeiro filho de Deus, antes da vinda do Salvador, estava sujeito a um duplo cativeiro: o do mundo pagão (governado pelo príncipe deste mundo) e o do mundo israelita (governado pelo criador e seus anjos), ambos fundados na ignorância. * O processo do cativeiro do homem descrito pelos gnósticos (ofitas de Ireneu) segue um esquema invariável em três etapas: a “plasis” (formação do corpo hílico), a animação (infusão da alma pelo criador, resultando no homem psíquico encarcerado), e a secreta infusão do divino (homem pneumático) no interior da alma. * O demiurgo é o responsável normal pelo cativeiro da alma racional, pois quis animar o plasma com algo consubstancial a si, submetendo o racional às leis do hílico; para o espírito vindo de Deus, o demiurgo é apenas um instrumento inconsciente. * O cativeiro do espírito na hyle era necessário para quebrar a unidade do espírito em Deus e multiplicá-lo, pois ele não pode multiplicar-se em sua pátria (Pleroma), o reino da unidade, devendo vir à região da diáspora para crescer conforme as leis da hyle. * A “morte” ou “homicídio” de que o demiurgo é feito responsável (em exegese a [[b>João 8,44]]b) é apenas temporal e altamente benéfica, pois, graças à morte da alma ou do espírito na hyle, eles se dividem segundo a matéria, se individuam e iniciam uma vida de experiências materiais e psíquicas. * Valentino, apesar de chamar o demiurgo de homicida das psiques que como pai natural engendra, atribui-lhe também o duplo apelativo de “imagem e profeta do Deus invisível”, mostrando que o homicídio das almas é compatível com quem atua no reino da imagem como deus e senhor dele. * Os valentinianos atribuem sem reparo a aparição do espírito no mundo à mãe que lhes deu à luz (Sofia), a qual engendra para a morte seus filhos quando os lança neste mundo, sendo preciso que o Salvador venha para regenerá-los à vida mediante a gnose. * O cativeiro inicial, cuja responsável é a Sabedoria ou Espírito Santo, possui um alcance “sui generis”, sendo necessário – dentro da dispensação de Sofia – para beneficiar os filhos de Deus com as leis da matéria e da psique. * Mediante a iluminação (gnose), o interessado entende “de onde foi redimido”, conhecendo quem era, o que veio a ser, onde estava, para onde caiu, para onde se dirige e de onde é resgatado, sendo que a gnose redime das paixões, de toda sorte de cadeias, do sono, das leis da matéria e do perigo dos arcontes planetários. **3. A REDENÇÃO E A CRUZ** A morte de Jesus na cruz é interpretada por diferentes correntes gnósticas como um resgate pago ao criador (demiurgo) para comprar os homens por ele criados, sendo que a eficácia deste resgate é compreendida de maneira distinta por marcionitas e valentinianos. * Marcion lia em [[b>Gálatas 2:20]] (“do que me amou e se entregou a si mesmo por mim”) e interpretava que Cristo nos teria resgatado do domínio do criador, remetendo-lhe em recompensa o preço de seu sangue, pois a título de criaturas pertencemos a Iahweh e de suas mãos fomos comprados por Cristo. * Tertuliano relata que os hereges (marcionitas) dizem que o Salvador, tendo dado um preço, comprou os homens que o criador havia feito, argumentando que “pelo preço fostes comprados” ([[b>1Coríntios 7:23]]), sendo certo que cada um compra o que não é seu. * O Cristo, Filho de Deus, amou os que não eram seus e, como tais, os redimiu, sendo incomparavelmente maior dar a própria sangue por estranhos do que pelos domésticos, segundo a doutrina marcionita. * A dificuldade sobre a diferença entre “emere” (comprar o alheio) e “redimere” (comprar o que foi seu e deixou de ser) não foi percebida por Marcion nem por Tertuliano, tendo sido introduzida na exegese neotestamentária apenas por Epifânio e Jerônimo para refutar a doutrina marcionita. * O Cristo marcionita ofertou na cruz ao criador como preço o seu próprio sangue para comprar dele os homens por ele criados e, feitos próprios, outorgar-lhes uma saúde superior, entendendo-se que o sangue encobre a vida e que o Filho de Deus se submeteu às leis de morte e corrupção peculiares ao mundo criado pelo demiurgo. **4. VALENTINIANOS** Os valentinianos desenvolveram uma soteriologia complexa na qual Cristo, desde o princípio do mundo, havia depositado sua alma (Sofia, a igreja dos seus) em diáspora, prisioneira de ladrões (arcontes), vindo posteriormente a resgatá-la e a salvar também os estranhos (homens psíquicos). * O Evangelho segundo Filipe afirma que Cristo veio para resgatar a alguns, para livrar a outros e para salvar a outros; aos estranhos os resgatou e os fez seus, e separou os seus, que constituiu como fiança na sua vontade. * O Salvador, segundo o mesmo Evangelho, não somente quando se revelou (mediante a encarnação) depositou sua alma a sua vontade (conforme [[b>João 10:18]]), mas desde que o mundo existe depôs sua alma (alusão a [[b>Lucas 23:46]]), indicando que a entrega na cruz anuncia sua redenção. * Cristo jamais poderia ter vindo a resgatar o alheio, pois nada havia no mundo alheio a ele, vindo sim a redimir e liberar o que era próprio, que também era “próprio” (sob outro título) do demiurgo, elevando-o a seu nível e ganhando-o para o conhecimento e saúde do Pai. * A diferença entre os “seus” (homens consubstanciais com a Sabedoria, “irmã e esposa” do Salvador) e os “extraños” (racionais vindos da substância do criador) é que o resgate dos primeiros não pressupõe um cativeiro forçoso, mas um regime livremente provocado pelo Filho ao consignar sua psique aos arcontes da matéria para bem dos estranhos. * Cristo teria vindo a salvar não somente os hebraicamente bons, mas também os maus (que abandonaram sua má vida para se converter ao Deus bom), e a eficácia de sua morte sobre a redenção dos homens se estende desde a existência do mundo, não apenas a partir da encarnação. * O Apocalipse de Pedro apresenta o corpo de Jesus (homem carnal) como preço de redenção que o Filho de Deus abandona aos arcontes para liberar os “estranhos” ou espirituais, os quais não provêm deste mundo. * O epíteto “redentor” (lytrotés) é aplicado a Cristo em diversos escritos apócrifos (Atos de Tomé, Atos de João, Atos de Filipe) e também ao apóstolo Santiago (na II Apocalipse de Jacó), significando aquele que liberta os cativos do poder das trevas e da serpente. * O discurso de Mariana nos Atos de Filipe, lido em chave gnóstica, revela a história do mito ofita e valentiniano: a filha do Pai (Sofia) se perdeu ao extraviar-se na hyle e ser cativa de suas paixões, até que seu irmão Cristo veio para redimi-la do mundo sensível e reintegrá-la consigo ao Pai. * O “horos” (limite) é descrito por Tolomeu como um redentor (“lytrotés”) que atua como cruz e valado, libertando os eons do Pleroma do desordem e das paixões que ameaçavam escravizá-los, num ato de autolibertação ou autorredenção realizada pelo Filho sobre suas próprias virtudes. **5. DIFERENTES ASPECTOS DA REDENÇÃO ENTRE OS VALENTINIANOS** A redenção, entre os valentinianos, é um conceito multifacetado que se aplica não apenas à humanidade, mas também ao próprio Jesus (em sua humanidade), aos anjos e aos eons do Pleroma, sendo frequentemente identificada com a gnose e com a libertação da ignorância. * O Evangelho de Filipe distingue três apelativos do Salvador: Jesus (que em hebraico significa “Redenção”), o Nazareno (“a Verdade”) e o Cristo ou Messias (“o Limitado”), sendo que a redenção afeta à pessoa do Filho (Jesus) enquanto a limitação (crucificação) afeta ao Cristo animal assumido por ele. * Teódoto situa a redenção de Jesus ainda “no princípio”, antes de sua aparição entre os homens, afirmando que os anjos foram batizados na redenção do Nome que depois desceu sobre Jesus na pomba e o redimiu, pois também a Jesus fez falta a redenção para que não fosse retido pela ignorância da penúria. * O Logos (Jesus) saiu efetivamente do seio do Pai (do Pleroma) e entrou no Kenoma ou Hysterema (região do vazio dominada pela ignorância), mas, diferentemente de sua mãe Sofia, não se deixou reter pela “ennoia” da penúria, abrindo caminho através da Sabedoria e entrando no Pleroma, região da gnose. * Jesus, em sua humanidade (homem da economia), viveu trinta anos dominado pela “ennoia do Hysterema” (ignorância), mas abriu caminho através da sabedoria (conforme [[b>Lucas 2:40]].52) até ser finalmente redimido pela gnose mediante o Espírito Santo que desceu em forma de pomba sobre ele no Jordão. * O Evangelho de Filipe afirma que “Jesus manifestou (às margens do Jordão) o Pleroma do reino dos céus... Logo novamente foi regenerado; e... como (Filho). E foi ungido e foi resgatado. Logo resgatou Ele”, indicando que Jesus, em sua humanidade, precisou ser regenerado, ungido e redimido da ignorância anterior para poder ser instrumento de redenção para os demais. * Os valentinianos interpretavam o batismo de Jesus no Jordão como a redenção do homem Jesus (da substância dos espirituais) que, antes do batismo, foi escravo da ignorância como todos os espirituais do Antigo Testamento (Set, Abraão, Moisés). * A redenção angélica, vinculada ao batismo celeste de Jesus, consiste em que os anjos (masculinos, satélites espirituais do Salvador) se bautizaram em favor dos homens (femeninos, frutos espirituais de Sofia), a fim de que, tendo também os homens o Nome, não fossem retidos pelo horos e pela cruz ao ingressar no Pleroma. * Os valentinianos identificavam o “batismo pelos mortos” de que fala Paulo ([[b>1Coríntios 15:29]]) com o batismo dos anjos em favor dos homens (mortos, mortificados por esta existência), sendo que os viventes e masculinos (anjos) se batizam para assegurar a redenção e a união final com suas contrapartes humanas. * A fórmula ritual valentiniana “para redenção angélica” invoca o nome escondido a toda deidade e dominação, o nome verdadeiro que revestiu Jesus Nazareno nas regiões da luz, a fim de que o homem que obteve a redenção seja batizado no nome daquele em quem seu anjo havia sido previamente batizado. * A “apolytrosis” (redenção) valentiniana não é apenas a gnose que redime da ignorância e das paixões terrenas, mas também imprime no indivíduo o nome do Unigênito, dando-lhe um salvo-conduto para atravessar os céus arcônticos e penetrar, através do horos, até o seio de Deus. **6. A MODO DE SÍNTESE E COMPLEMENTO** A redenção gnóstica, longe de ser um conceito genérico e pagão de simples liberação ou reintegração de elementos divinos, é fundamental e essencialmente cristológica em seu ponto de partida e em seu mecanismo soteriológico, centrando-se no drama do Calvário. * A separação que deu origem à catividade da igreja teve lugar no eon Cristo-Eclesia (ou Anthropos-Eclesia), no Verbo, e a redenção é imperada pela necessidade de reintegrar o Cristo em sua “teleiótes” andrógina, sendo ele o “redentor” nato de uma igreja que se lhe perdeu. * O matrimônio Adão-Eva é a expressão sensível e histórica do matrimônio Cristo-Eclesia, e a dissociação dos sexos, indispensável para a dispersão e multiplicação humana no mundo, prenuncia a necessidade de um (Cristo, o segundo Adão) que os torne a juntar na unidade do Adão primeiro. * À dissociação primeiríssima (Cristo-Eclesia) e à sensível (Adão-Eva) nos orígenes da vida humana corresponde a separação do Calvário (Jesus-psique), quando o Salvador depôs, morrendo, sua própria alma nas mãos do Criador para novamente tomá-la, redimindo-a da morte. * A morte do Salvador resume o mistério redentor mediante dois atos: a entrega do corpo visível (e por seu meio, da alma própria, símbolo da igreja cativa) e a redenção da alma para voltar com a ressurreição à unidade primeira. * O campo de batalha da redenção não era o corpo carnal (abocado à corrupção e sem interesse para o inimigo), mas a alma (ou Cristo psíquico) de Jesus, que o inimigo tentou apreender em sua passagem para a Hebdomada; o Salvador, unido à alma, impediu que o Thanatos se apoderasse do Cristo psíquico, instrumento da redenção. * O preço da redenção pago ao Thanatos foi a própria morte física de Jesus, sendo que alguns textos (como o Apocalipse de Pedro) apontam para o corpo hílico de Jesus (“vaso e casa de demônios”) que o Salvador entregou aos ministros da morte para combater com o seu e liberar a igreja ou igreias até então cativas. * A obra de Jesus crucificado se revelou ao terceiro dia: ele abandonou no sepulcro o irredimível (o corpo material) como preço de resgate e ressuscitou em alma e espírito, arrastando como primícias da ressurreição (e da redenção) as igrejas por ele liberadas da morte. * O “batismo de redenção” (também chamado “batismo de redenção angélica”) é o único perfeito, que resgata os filhos de Deus da ignorância e pecados inerentes ao antigo regime, e recebe este nome tanto pela solidariedade entre anjos e homens (espirituais) quanto pelo livre voo que outorga aos regenerados em direção ao Pai. * Enquanto o criador atuar ao serviço (ainda que inconsciente) de uma sabedoria superior (do Filho ou do Pai), não há lugar para dividir os gêneros humanos entre “próprios” e “alheios”, mas sim entre “afins” (consubstanciais) e “não afins”, próprios (domésticos) e não-próprios. * Os documentos gnósticos permitem restituir as grandes linhas do drama redentor em três níveis: no Pleroma (com o horos-redentor purificando os eons e expelindo as impurezas de Sofia), na Ogdóada (com o primogênito de Sofia redimindo-se a si e a seus anjos ao passar pelo horos) e no mundo sensível (com a crucificação do Salvador a costa de seu corpo passível, redimindo as almas e os espíritos).