===== Cristo preexistente ===== [[..:start|Antonio Orbe]] — [[.:start|Cristologia Gnóstica]] * O problema inicial em relação à pessoa de Cristo se coloca a partir do início da economia. * A questão se coloca praticamente desde a primeira vontade em Deus de se revelar a outros. * O silêncio absoluto e eterno reduz—se em Deus a um ato imanente simplicíssimo, anterior a toda dualidade e superior a todo conhecimento. * Fórmulas dos Oráculos caldaicos indicam que o Pai se subtraiu a si próprio, sem incluir sequer em sua potência intelectiva ao seu fogo. * A cristologia se inaugura quando Deus rompe o silêncio, dando subsistência à potência intelectiva e concebendo em si o Intelecto, momento em que aparece o Cristo paradigma. * O mecanismo é análogo ao dos Oráculos caldaicos, conforme estudos sobre os valentinianos. * As analogias com os Oráculos, Numenio e outros autores ficam à margem da rigorosa cristologia em sua dimensão salvífica. * A essência de Deus era considerada esferoidal e sem semelhança com o homem, sendo em sua totalidade intelecto, mente e eterno, segundo Jenófanes. * A expressão da simplicidade absoluta de Deus passou a escritores eclesiásticos pouco amigáveis à filosofia pagã. * Diógenes Laércio registra essa sentença de Jenófanes. * O Pai de todas as coisas dista muito das afeições e paixões que acometem os homens. * Deus é simples, não composto, igual a si mesmo, todo sentido, todo espírito, todo sensibilidade, todo pensamento, todo razão, todo ouvido, todo olho, todo luz e fonte de todos os bens. * Irineu registra essa descrição sobre a simplicidade de Deus, havendo outros testemunhos estudados em Antropologia de San Irineu. * Frente à simplicidade de Deus, estava presente, desde a sua positiva e livre aparição, a composição peculiar ao Filho. * O Tractatus tripartitus concebe as ideias de pensamento, silêncio e graça como propriedades do Pai, derivando a complexidade para a economia gratuita. * A pessoa do Filho é integrada pela soma das perfeições na ideologia gnóstica, o que o constitui mediador entre o Pai simplicíssimo e as criaturas. * Multidões de éons, como virtudes e formas, definem o Filho física e pessoalmente. * Essa perspectiva era compartilhada por gnósticos do Apócrifo de João, simonianos, ofitas dos tratados Askew e Bruce, basilidianos e outros. * Os valentinianos caracterizavam a pessoa do Filho mediante os trinta éons do Pleroma, que representavam uma expressão divalente topológica e cronológica. * Os valentinianos acentuavam a comunhão que reinava entre os éons à altura do Intelecto, sem se contentar em apenas distingui—los e enumerá—los por ordem de aparição e dignidade. * As trinta perfeições do Filho derivam do Intelecto e, por meio dele, conhecem ao Pai, orientando—se também para a criação. * Todas as perfeições fazem unidade no Filho e comunicam mutuamente, de forma física, as suas propriedades. * Ptolomeu chega a uma formulação que evoca a fórmula de Xenófanes. * Os éons adquiriram perfeita forma e conhecimento, correspondentes à natureza e sobrenatureza, a partir da gnose outorgada por singular providência do Pai. * Diz—se que os éons foram constituídos iguais em forma e mente. * Os éons foram feitos todos intelecto, todos verbo, todos homem e todos Cristo. * Igualmente, todos os éons femininos ficaram feitos verdade, todos vida, Espírito Santo e Igreja. * Irineu e Tertuliano relatam que todos se igualavam em forma e ciência, refundindo—se em Nus, Homines, Theletos, Sigas, Zoas e Ecclesias. * O Filho vem a ser, por comunhão pessoal de éons, o que Deus Pai é em simplicidade. * Deus não consente predicação estrita porque nada pode ser afirmado sobre Ele, nenhuma forma ou noção. * O Filho sofre tantas predicações quantas são as formas, noções ou éons de que se compõe, vindo a ser todas e cada uma delas sem confusão, por igualdade. * O Pleroma de perfeições admite uma multidão de apelativos, incluindo o de Cristo. * Os valentinianos contam com trinta éons, enquanto os gnósticos do Apócrifo de João e dos tratados Askew e Bruce contam com muitos mais. * Os valentinianos parecem rehuir o problema da denominação do Filho. * Aplicam o termo escriturário de Unigênito ao Filho inmanente ao Pai, síntese dos trinta éons, e de modo particular ao Intelecto, primeiro dos estritos éons. * Deixou—se a segunda pessoa sem apelativo especial de intento, para atribuir—lhe qualquer um dos trinta nomes, desde o filosófico Nus até o bíblico Sofia. * A leitura de João 1,18 previne a distinção entre o Unigênito Logos e o Filho Logos encarnado, assinalada por Hipólito. * Sige acolheu o esperma de Bythos e deu à luz, dentro de Deus, o intelecto chamado também de Unigênito, segundo Irineu. * Ptolomeu e o Tractatus tripartitus empregam o termo Unigênito com parsimônia, enquanto o termo brilha por sua ausência em Heracleon, no Evangelium Veritatis, no Evangelio segundo Felipe e no Apocalipse de Tiago. * O século I foi marcado pela filosofia do Nus, vide os dois noes de Numenio, os três dos Oráculos caldaicos e os dois impugnados por Plotino, conforme estudos de Krämer e Schmidt. * Nenhum dos trinta apelativos vinculados aos éons e conhecidos por dupla via responde à eficácia estritamente salvífica do Hilho. * Ptolomeu e a carta doctrinal de Epifânio apresentam as duas vias de conhecimento desses apelativos. * Os dois nomes que melhor respondem à eficácia salvífica são Cristo e Espírito Santo. * Somados aos trinta éons anteriores, Cristo e Espírito Santo perfazem o número trinta e dois, característico dos deuses de Valentim. * Apenas esses dois nomes conferem ao Pleroma a gnose em que consiste a saúde, conforme indicações em Irineu e nos Actas de Tomé. * Os trinta anos de Nazaré na vida de Jesus passarão antes que o Cristo superior e o Espírito Santo desçam sobre a sua humanidade como sizígia de éons. * Essa descida ocorre para comunicar—lhe a gnose e habilitá—lo salvificamente. * Nenhum dos dois nomes, Cristo e Espírito Santo, constitui a pessoa do Filho da mesma forma que os trinta éons. * Ambos são a expressão da essência ou espírito paterno de Deus, derramada a modo de unção, ou chrisma, no Filho. * Essa unção serve para batizar o Filho em sua pessoa e capacit—lo para o batismo de espírito fora de Deus. * Qualquer um dos trinta apelativos dos éons seria mais razoável e exato para o estudo da pessoa do Filho, pois apenas estes são pessoais. * Os termos Cristo e Espírito Santo resultam comuns ao Pai ou denunciam uma dependência Dele. * Há razões para adotar o primeiro termo e falar em cristologia. * Deve haver um termo aplicável ao mundo da preexistência divina do Salvador e à sua existência futura no cosmos. * Esse termo deve salvar a unidade nos dois atos fundamentais de sua vida, dentro e fora de Deus, assim como procede Arai na monografia sobre o Evangelho da Verdade. * O termo Cristo aparece apenas duas vezes no Evangelho da Verdade, onde o termo Logos é repetido com frequência. * As denominações de Nus, Logos e Anthropos evocan ideias muito concretas e delimitam o campo a esferas determinadas. * Nus esconde muita filosofia e sublinha a mediação suprema do Filho como princípio do reino superior noético e enlace imediato com Deus Pai. * Logos acentua a missão criadora daquele por cujo meio Deus fez as coisas e fundou o reino dos racionais. * Anthropos desperta o pensamento da forma ou paradigma do homem. * Os nomes de Unigênito, Primogênito e Filho orientam a mente para o trinitário. * O nome Cristo compendia boa parte da economia do Filho, exaltando o seu destino salvífico, apesar do equívoco que o acompanha entre muitos sectários. * O termo se avém, por sua polivalência, ao análise dos aspectos mais abigarrados da pessoa e missão do Salvador. * As acepções fundamentais são o Cristo superior, caracterizado pela unção do espírito virginal do Pai sobre o Logos, e o Cristo psíquico, filho do criador, com uma unção de espírito animal de Iavé. * Alguns sectários chamam o primeiro de Salvador superior e identificam o segundo com o Messias hebraico. * Alguns conceberam o Salvador em forma de homem, de acordo com uma hierarquia de perfeições ou membros sensibilizada pelo corpo humano. * Irineu menciona a forma de verdade, feminina e acessível, havendo noções similares na cabala estudada por Scholem e em outros tratados descritos por Baynes. * Interessa o conteúdo do termo, especialmente agora a preexistência de Cristo, uma vez margens o problema indiferente do nome. * O estudo de Sofia em suas variadíssimas acepções pode esclarecer pontos da preexistência, embora na prática corra o risco de complicá—los, demandando análise prévia conforme MacRae e Stead. ** Formulações ** * Ninguém entre os gnósticos pôs em dúvida a preexistência de Cristo. * Entende—se por isso a sua existência pessoal antes da criação do mundo. * Nenhum gnóstico atribuiu a Cristo o eterno rigoroso, a saber, la coexistência com Deus. * Muitos atribuíram—lhe uma existência aionios, não temporal. * O Tractatus tripartitus ensinaria a coeternidade do Filho com o Pai e a identidade pessoal de ambos, mas prefere—se ver ali um empenho em sublinhar a consubstancialidade perfeita com terminologia pouco feliz. * Sem conceber o Filho como eterno desde sempre, como o Deus ingênito, os gnósticos também não o definiam como temporal, como o mundo sensível. * Fizeram—no autogenes, entre o ingênito e o gênito, com vida superior à matéria e à psique. * Cristo preenche o hiato entre o Deus eterno e o mundo criado. * Trata—se de um hiato miticamente cheio de éons intelectuais ou racionais puros, formas divinas ou teoremas de futuras espécies e indivíduos. * Esse esquema se organiza hierarquicamente na linha da Sofia origeniana e do Logos plotiniano estudado por Graeser, Zandee e Jervell. * O esquema em sua expressão mais ingênua seria constituído por Deus, Cristo e universo ou criação. * A preexistência de Cristo, imposta pela mediação entre Deus e o mundo, deve levar em conta a índole da mediação e os seus vários aspectos. * Aqui radica a diferença de uns documentos para os outros. ** Naassenos, peratas e setianos de Hipolito; ofitas de San Irineu ** * Há famílias que exaltam o fato da preexistência reduzindo—lo ao mais elementar. * É o caso dos peratas e setianos de Hipólito e daqueles que se desentendem da teologia do mediador e insistem em sua intervenção como veículo dos germes divinos sobre o mundo sensível. * O esquema dessas famílias é composto por Ingênito, autogenes, que equivale a Cristo, e gênito. * A preexistência e os componentes físicos do autogenes são supostos. * Adivinham—se, lendo entre linhas, os dois títulos de criador ou demiurgo universal do cosmos e salvador dos filhos de Deus disseminados nele. * Adivinham—se também as relações entre o Pai ingênito e o Filho autogenes. * Os naassenos de Hipólito discorrem com base no mesmo esquema fundamental. * Adicionam, contudo, notícias de interesse para definir o Cristo como Filho do Anthropos na trindade superior. * Os naassenos dão culto ao Anthropos e ao Filho do Anthropos, de acordo com a sua doutrina. * Esse Anthropos é andrógino e chamado por eles de Adamas, sendo—lhe dedicados muitos e variados hinos. * O tipo de hino dedicado baseia—se em expressões resumidas. * A partir de ti vem o Pai do mundo criado, e por causa de ti, a Mãe, os dois nomes imortais, engendradores de éons, ó cidadão do céu, Anthropos de grande nome. * Hipólito registra essa passagem na Refutatio, havendo estudos de Casey, Beyschlag e Kroll sobre o tema. * Não há modo de entender as linhas anteriores sem recorrer aos ofitas de San Irineu. * Naassenos e ofitas denunciam uma tríade superior, formada por Pai, Filho e Espírito Santo, duplamente formulada. * A primeira formulação da tríade superior apresenta—se como Pai, Filho e Espírito Santo. * A segunda formulação apresenta—se como Anthropos, Filho de Anthropos e Primeira Mulher. * Convém agregar a essa estrutura uma díada, traduzível de duas maneiras, sendo a primeira Cristo e Sofia ou Prunicos. * A segunda maneira de traduzir a díada apresenta—se como Pai e Mãe. * Para evitar equívocos, indica—se a dependência mútua dentro de um quadro geral. * O quadro organiza—se com o Pai, que equivale ao Primeiro Anthropos, o Filho de Anthropos, que é o Segundo Anthropos, e a Primeira Mulher. * Abaixo seguem o Cristo, equivalente ao Terceiro Anthropos, e a Segunda Mulher, que é a Mãe. * A primeira tríada se une para engendrar um homem andrógino, que se divide em Cristo superior e em Sofia, pai e mãe respectivos do mundo futuro. * O Cristo é uma projeção do Filho de Anthropos, e Sofia ou a Segunda Mulher é projeção da Primeira. * Nem os naassenos nem os ofitas de Irineu explicam a lei que preside a origem ou distinção dos cinco membros, assunto a ser visto em seu lugar. * A comunhão de nome Anthropos entre o Pai, o Filho e o Cristo, e de nome Femina entre o Espírito Santo e Sofia, denota a existência de relações especiais entre seus membros. * Os naassenos escondem sob o homem de Adamas ao Cristo, seja como Filho de Anthropos, seja como pai emanado do anterior. * A mãe é deixada pendente pelos naassenos. * Em vez de iluminar as relações do pai e da mãe com o Anthropos e Filho de Anthropos, eles perseguem a sorte de Adamas em sua epifania ao mundo. * Os naassenos dividem Adamas em três partes, como a Gerião. * Este possui a sua parte intelectual, to noeron, animal, to psychikon, e de matéria, to choikon. * Existem paralelos com os três linhagens de homens da tradição órfica segundo Proclo e os três linhagens de deuses genéticos segundo João Lido. * Os naassenos pensam que no conhecimento de Adamas reside o princípio do conhecer factível de Deus. * O princípio da perfeição é o conhecimento do Anthropos, enquanto a perfeição consumada está no conhecimento de Deus Pai. * Assim se expressam os naassenos. * Todas as coisas intelectuais, animais e materiais penetraram e desceram juntas a um homem, Jesus, engendrado de Maria. * Sobre o mesmo falaram, ao mesmo tempo, esses três homens. * Cada qual falou a partir das substâncias próprias, aos homens próprios. * Há no universo três gêneros — angélico, animal, material — e três igrejas — angélica, animal, material. * Os nomes dessas igrejas são: escolhida, chamada e cativa, significando a igreja dos escolhidos, dos chamados e dos cativos. * Hipólito relata essas concepções na Refutatio. * Os naassenos adicionam duas tríades complementares à estrutura de peratas e setianos. * A primeira situa o Cristo, igual ao autogenes, na trindade suprema de Pai, Anthropos e Mãe. * A segunda projeta—o para o mundo nas dimensões intelectual, psíquica e material, de acordo com as regiões do cosmos criado. * O trinômio ingênito—autogenes—génito se enriquece mediante o desenvolvimento dos dois extremos. * Esse enriquecimento dá—se pela presença implícita de uma Mãe e pela mediação do Cristo nas três regiões do gênito. * O novo esquema organiza—se de forma ramificada, conforme indicações de Tardieu. * Apresenta—se a Tríade Ofítica com o Primeiro Anthropos, Segundo Anthropos e Primeira Mãe. * Apresenta—se a Naasena com Pai, Segundo Anthropos e Mãe. * O Ingênito equivale ao Pai, o Autogenes une Adamas e Prunicos como Segunda Mãe, e o Gênito equivale ao mundo ou universo, dividido em espiritual ou intelectual, animal e material. * O Cristo superior atua nas esferas intelectual, animal e material. * Peratas, setianos e naassenos de Hipólito coincidem no fundo. * Apenas os últimos introduzem subdivisões explícitas tanto na região ingênita quanto na criada. * O autogenes, mediador entre o Deus supremo e o mundo, não apareceu de forma espontânea. * Provém da comunión de uma tríada superior, identificada como Pai, Filho e Espírito Santo em Irineu. * O autogenes resume, como andrógino, os dois aspectos que alguns sectários repartem entre o Cristo e Sofia, pai e mãe do mundo sensível. * O termo autogenes justifica—se por duas razões não declaradas expressamente. * A primeira é que, diferentemente do mundo gênito submetido à geração e corruptela, nasceu do Ingênito como fruto normal e espontâneo de sua ideia e vontade, possuindo qualidades desenvolvidas para a mediação. * Hipólito menciona que a segunda parte da tríada dos peratas é uma multidão indefinida de dynameis provenientes umas das outras. * O termo autogenetos aplica—se a Dios nos Oráculos Sibilinos, em passagens do Pseudo—Justino, Cirilo de Alexandria, Porfírio e Eusébio. * O Apócrifo de João cita o termo repetidas vezes, e Whittaker aduz outros testemunhos. * As Reconhecimentos Pseudo—clementinas criticam o uso de termos como autopatora e autogeneton para o ingênito. * Entre os gnósticos setianos o termo não entraña modalismo, podendo referir—se ao Filho que se faz prolaticio por nascimento espontâneo. * Nos Oráculos caldaicos, no Comentário sobre o Parmênides, em Mário Victorino e Porfírio, representa a determinação pessoal como Inteligência da pura transcendência existencial do Pai, conforme Hadot. * O epíteto de Adão nas Três Estelas de Sete identifica—o com o autogenes do Apócrifo de João aplicado a Cristo, segundo Schenke. * A noção indicada por Baynes como aquele que por si só se engendra requer complemento. * O autogenes agrega à geração espontânea duas conotações em face de Deus e da matéria, sendo concebido sem ajuda de substância alheia, conforme paralelos em Actas de Arquelau e Adamâncio. * O gênito, ao revés, requer o concurso da matéria e é posterior a ela. * A segunda razão é que, em sua aparição, o autogenes não está sujeito a uma matéria ou mundo prévio como o gênito. * Peratas, setianos e naassenos apontavam mais do que desenvolviam as suas ideias. * A aparente confusão entre o gênito e o mundo sensível encobre uma diferença rigorosa por ser demasiado sabida, conforme passagens da Refutatio. * O mundo particular, to idikon, indica o cosmos sensível, hílico, receptáculo do gênito, enquanto o gênito, to genneton, afeta diretamente o divino engendrado no mundo. * Ambos se confundem praticamente, como o continente ou receptáculo se confunde com o conteúdo mais significado, a simiente divina. * O gênito é concebido e engendrado no mundo sensível como germen disseminado de cima para o seu desenvolvimento à mercê das leis da matéria e da alma. * O autogenes nasceu do Ingênito com perfeita independência de meios estranhos, como espontânea projeção de sua economia internamente idealizada. * O autogenes compendia as perfecciones do Filho, criador e salvador, em vésperas da criação do mundo e da implantação da Igreja divina. * Bastaria analisar o autogenes para descobrir nele o Cristo histórico, que será uma projeção sensível do Cristo verdadeiro. * Os ofitas de Irineu denominam—no simplesmente Cristo. * As famílias heterodoxas estudaram o Cristo cada qual a seu modo. * As páginas de Hipólito sobre os naassenos constituem um tratado dos Nomes de Cristo mais rico do que os capítulos de São Cipriano e outros eclesiásticos. * O comentário sistemático do hino a Átis, que encerra a Prédica dos naassenos, figura entre os desiderata abertos para a ciência da gnose. * O hino encontra—se na Refutatio, com estudos de Kern e Tröger. * O comentário serviria para assinalar paralelos e apurar exegeses desconcertantes que flutuam imprecisas nos escritos hipolitianos, de Epifânio e Clemente Alexandrino. * O comentário se apoiaria nos nomes naassenos de Cristo e se abriria à doutrina de outros gnósticos. * Enriqueceria os aspectos salvíficos do Adamante, mediador entre o Pai e os membros da Igreja terrena. * É incerto se iluminaria o campo da preexistência de Cristo. * As páginas atuais naassenas contribuem pouco para o análise de suas dynameis constitutivas, destacando virtudes e aspectos sem distingui—los tecnicamente. * Não bastam, consequentemente, para restituir a série de éons que integram o organismo misterioso do Filho antes de sua revelação ao mundo. * A insistência sobre a atividade iluminativa do mediador descobre a orquestração dos corifeus do século II sobre a gnose do indivíduo por Cristo, com observações de Simonetti. * É preciso voltar à origem do Cristo a partir da tríada superior para colher os únicos aspectos viáveis de sua preexistência. * Cristo é fruto de uma trindade e, como Filho do Pai, distingue—se do Deus supremo como parto de sua primeira ideia sobre a economia da saúde. * Distingue—se do Filho a título de emitido, diferençando—se como o Logos prolaticio se diferencia do inmanente. * Distingue—se da Mãe ou Espírito Santo a título de emitido, como o pneuma que sustenta o Logos prolaticio se distingue do Pneuma paterno de onde saiu. * O Pai amorfo adquire a sua Forma pessoal no Filho e a dá a conhecer fora de si graças à projeção do Filho no pneuma emitido. * Cristo denuncia a trindade que o deu à luz: o Pai que o concebeu, o Filho que se revelou nele e o Espírito Santo de quem tomou carne no divino. * Convém prevenir que a tríada que deu origem ao Cristo preexistente não é uma trindade de pessoas. * O Pai e o Filho são pessoalmente distintos, mas o Espírito Santo ou Primeira Fêmea não o é. * O esquema implícito recorda o dos Oráculos caldaicos: Pai—Dynamis—Nous. * Desses três provém uma díada formada por Segundo Nus e Segunda Dynamis, correspondente a Cristo e Sofia, pais imediatos da economia, conforme Festugière, Theiler e Waszink. * O fragmento 8 de Des Places descreve essa díada com a missão de dar coesão ao mundo inteligível e introduzir a sensação no mundo inferior. * O esquema caldeo distribui—se entre a Tríade suprema com o Pai, Primeira Dynamis e Nus; a Díada média com o Segundo Nus e Segunda Dynamis; o seio de Deus; o reino inteligível e o mundo sensível. * Essa interpretação aproxima—se da de Krämer e afasta—se de Bousset. * O paralelo com os gnósticos distribui o Pai, Espírito Santo como Primeira Mulher, o Filho como Adã andrógino na Tríade suprema, e Prunicos como Segunda Mulher e Cristo como Adã celeste na Díada média. * Na tríada superior, o Espírito Santo é impessoal como seio de Deus ou essência do Pai, ao passo que o Pai e o Filho são pessoais. * A tríada superior profere o Filho dividindo—o em dois: o Cristo masculino, síntesis dos éons, e a Mãe, princípio feminino dos homens de luz chamados a fazer o gênito. * A tríada de peratas e setianos converte—se assim em uma êxada resumível em tríada superior, díada média e mundo inferior gênito. * A preexistência de Cristo reduz—se a duas fases, sendo a primeira de interioridade, como Filho ou Nus primeiro, em quem o Pai concibe a futura economia. * A segunda fase é de revelação fora de Deus como Cristo, Intelecto e Forma subsistente do universo, mediador entre o Pai e o mundo. * A primeira fase acentua a dignidade do Filho, em quem o Pai sintetiza o seu Pensamento global sobre a economia. * O Pai entrega ao Filho as dynameis e perfeições indispensáveis para realizá—la de acordo com um plano definido. * A história da humana saúde desenvolve o que se perfilou de golpe no Filho como Forma pessoal da criação e dispensação futuras. * Nem os peratas, setianos, naassenos ou ofitas se detiveram a analisar o Pensamiento que cristalizou no Filho, sendo necessário recorrer a outras famílias, vide indicações em Irineu. * A segunda fase assinala o passo inicial para a mediação. * Cristo é pessoalmente o Filho. * O Cristo apenas difere do Unigênito por sua maneira de ser: antes no seio do Pai, agora também fora Dele. * Se no interior era andrógino e juntava as perfeições masculina e feminina do pneuma, na revelação retém a dimensão masculina como Intelecto e abandona à Mãe a dimensão feminina para que ela o engendre no mundo sensível. * O análise de Cristo em sua fase de mediação não encontra lugar nas notícias exclusivas de setianos, peratas e ofitas. * O análise afeta a sua eficácia como Verbo Creador e como Salvador da própria Mãe, habilitando—a nos ordens físico e salvífico. * A atividade do Cristo preexistente vai sempre implícita. * A díada Cristo—Sofia cede o posto para o demiúrgico à exegese de Gênesis 1,1ss, sem discernir as ações. * Esquema análogo se adverte no Himno de la perla, a saber: Pai—Mãe—Filho. * O Filho aparece com um irmão que desce ao Egito, conforme passagens nos Actas de Tomé. * À dualidade entre o irmão maior e o menor corresponde o binômio Salvador—Sofia que não aparece no Hino. * A tríada superior adquire na Triforme Protennoia variações que difuminam as fronteiras dos três espaços governados por o Logos. * Fenômeno análogo ocorre no Evangelho dos Egípcios estudado por Böhlig. * Ambos os escritos dão relevo à Virgem masculina, expressão da fecundidade do Pai e da perfeição do Espírito. * Se por um lado adquire dimensão masculina pela Mãe, como paradigma da Mãe dos viventes anuncia o Espírito feminino, Sabedoria do mundo e origem da Igreja terrena. * Nenhum dos dois tratados permite definir a díada Salvador—Sofia, presumível por cotejo. * A Exegese sobre o alma e a Interpretação da gnose calam sobre a tríada superior e desenvolvem a história do divino feminino no mundo ou acentuam a divisão entre Adã e Eva. * O drama terreno inicia—se com essa divisão. * O acréscimo desse esquema ao dos anteriores tratados restitui a pêntada clássica dos reinos divino e criado. * A pêntada organiza—se com o Pai—Mãe—Filho de um lado, e Salvador—alma ou Sofia de outro. * O esquema anterior é verdadeiro, mas não o único, indicando os naassenos outro no salmo. * Norma era engendradora do universo, o Intelecto primogênito, ho prototokos noos. * A segunda substância que seguia o primogênito era o caos difuso, to chythen chaos. * A terceira em ordem era a psique, que tomou para o seu trabalho a dupla norma. * Revestida com a forma de cervo, elaphou, a psique fatiga—se dominada em seu empenho pela morte. * Umas vezes a psique contempla a luz com domínio basileion echousa, outras cai em miséria e chora. * Jesus disse então para o Pai olhar como ela vai errando, fora do sopro paterno, na terra em busca de males. * A psique trata de fugir do caos amargo e não sabe como atravessá—lo, hopos dieleusetai. * Jesus pede para ser enviado pelo Pai. * Em posse dos selos, Jesus afirma que baixará, atravessará os éons, dará a conhecer os mistérios, revelará as formas dos deuses e os segredos do caminho santo evocando a gnose. * Hipólito registra o salmo na Refutatio, com referências a Dölger, Simonetti, Tröger e Beyschlag. * O salmo discorre sobre o esquema Nus—Psyche—Chaos, ou Luz—Alma—Trevas, com paralelos em Krämer. * Representa o drama da Psique em vésperas do advenimento do Salvador. * Colocada entre o Primogênito, lei da economia, e o caos, assento da morte, a Psique um tempo contemplou a Luz do Intelecto. * A Psique foi arrastada ao amor da terra segundo mito geral entre os gentios, perdendo—se sem acertar a fuga para a Luz. * O diálogo de Jesus com o Pai introduz—se no esquema devido à situação lamentable da psique. * A aprovação paterna deve ter seguido o diálogo, resultando no envio de Jesus para liberar a psique. * O salmo não declara as relações de Jesus com o Nus primogênito, nem da psique com os destinatários da gnose. * A própria pessoa do Nus descenderá aos membros da Igreja perdida no caos para liberá—los da ignorância. * Os naassenos mantêm o esquema Luz—Psique—Trevas sem sacrificar o de ingênito—autogenes—gênito, harmonizando ambos. * O primeiro atende ao processo de Cristo e sublinha o duplo estádio do Cristo autogenes antes da criação e do Cristo gênito após a diáspora. * O segundo olha para a sorte da Igreja na criação. * O esquema global apresenta tabelas comparativas. * A estrutura distribui o Ingênito com o Nus no primeiro caso e correspondendo ao Nus no segundo; o Autogenes com a Psyche; e o Gênito com o Chaos e a união de Psyche e Chaos. * A situação dos elementos em I é apenas prévia ao desorden da psique e posterior à ação salvífica de Cristo. * A situação em II representa a conjuntura histórica em vésperas da saúde. * A coexistência dos dois esquemas não pertence apenas aos naassenos. * Os setianos denunciam—na em forma que recorda os basilidianos: Luz—Espírito—Trevas. * A Luz equivale ao Filho, as Trevas ao caos e o Espírito ao meson ou intermédio, conforme passagens na Refutatio comentadas por Bousset, Krämer e Meloni. ** Pistis Sophia e os Libros de Jehu (P.S. e L.J.) ** * Os ofitas de San Irineu guardam muitos pontos de contato com os sectarios da Pistis Sophia. * Haverá ocasião de comprová—lo a propósito da encarnação e do batismo, conforme notas bibliográficas. * Cabe estudar a preexistência de Cristo em Pistis Sophia e nos Libros de Jeú para descobrir o mistério que os ofitas resumem nas relações entre a tríada e a díada. * Isso faz—se sem o compromisso de vincular as mesmas ideias aos sectários de Irineu e aos dos códices egípcios. * Esses documentos foram analisados por outros, singularmente Schmidt, com páginas sobre o Salvador preexistente. * O autor contenta—se com breves considerações. * Pistis Sophia, os Libros de Jeú e o tratado anônimo de Bruce explayam—se na descrição de três regiões, sendo a primeira a do Deus supremo ou região da luz. * A segunda é a região da direita, espaço também de luz, mas intermédia. * A dextera luminis figura nos Actas de Tomé, estendendo—se entre os maniqueus ocidentais conforme Actas de Arquelau, Santo Agostinho e estudos de Decret, Bornkamm e Schlier. * A terceira é a região da esquerda ou região de kerasmos, inferior, dominada pelo diabo. * São referidos o capítulo trinta e três, o simbolismo da direita e esquerda em Schmidt, Kroll, Lobeck, Schrage e Dibelius, e passagens de Irineu sobre o príncipe da esquerda em Valentim. * Trata—se das mesmas três partes — ingênita, autogenes, gênita — encontradas em peratas e naassenos, sob outros nomes. * Registra—se uma diferença literariamente notável entre os sistemas. * Os sectários de Hipólito extremam a sobriedade para as regiões superiores, enquanto Pistis Sophia e os Libros de Jeú trazem a atenção para elas mediante infinitas divisões. * A região suprema correspondente à tríada ofítica divide—se em dois estratos fundamentais, choremata, com multidões de lugares e ordens, taxeis. * Essas divisões são a expressão de dynameis sublimes. * O primeiro chorema responde ao Inefável absoluto, fechado sobre si em transcendência e silêncio. * O segundo chorema, ainda na região suprema, encobre o posto do Filho Unigênito e denomina—se Primer Misterio. * O Primer Misterio possui duas vertientes, diferentemente do Inefável. * Uma vertente é o Primum Mysterium introspiciens, que mira o Pai como Intelecto pessoal orientado a Deus. * A outra vertente é o Primum Mysterium prospiciens, que mira para fora como Intelecto orientado para a economia. * O Primum Mysterium é o grande personagem da região suprema. * Como o Filho de outras famílias, compendia a preistória desenvolvida na região intermédia por infindáveis éons. * O trânsito da região suprema para a média realiza—se mediante a probole do Primum Mysterium do interior para o exterior de Deus. * A região intermédia corresponde ao Filho prolaticio, Cristo subsistente, mediador entre o Pai e o kerasmos. * O mesmo que antes descansava como Unigênito com preeminência do introspectivo revela—se agora como Cristo com eminência do prospectivo. * Se houvesse uma chave para ler a dimensão centrífuga dos topos e taxeis do Intermédio, haveria modo de estudar as perfeições de Cristo e a sua missão. * Tal chave talvez existiu no escrito básico em torno do qual se configurou a Pistis Sophia até a sua forma atual. * O mesmo se diz dos Libros de Jeú que completam zonas da teologia da Pistis Sophia para a região intermédia assimilável ao Cristo. * Duvida—se que os atuais Libros de Jeú, Pistis Sophia e o anônimo de Bruce permitam dar com a chave. * A leitura deixa a impressão de que o desenvolvimento do reino intermédio obedece a fins pouco soteriológicos ou cristológicos. * O sistema adivinável nos códices Askew e Bruce orienta—se para a exaltação dos céus em fase escatológica, ao revés do Apócrifo de João ou de Ptolomeu. * Esses últimos descrevem o Pleroma com miras na economia, antecipando os valores da mediação. * Os textos multiplicam topos, taxeis e séries de virtudes fazendo desfilar a variedade de formas que espera os devotos no mais além. * Descorrem o véu de uma estranha liturgia onde o cristológico praticamente se dilui, junto com a mediação simples do Filho e a ideia do Deus Pai. * O próprio Salvador indica algumas vezes o seu origem, embora faltem no primeiro livro de Jeú as folhas atinentes às relações de Jesus com o Pai, conforme Schmidt. * Essa indicação basta para justificar o esquema anterior. * Schmidt resume que o Pai atraiu todas as ideias com exceção da menor, na qual Jesus resplandeceu e se desprendeu do Pai como primeira probole e imagem. * A cristologia é considerada mais alta do que na Pistis Sophia, sendo Jesus o ser supremo imanente desde o princípio, cuja existência individual se deu pela Ennoia, mediando o processo cósmico. * O problema inicial de Cristo está na Ennoia ou primeiro Pensamento com que Deus rompeu a sua quietude, não na existência ab aeterno. * Os sectários de Pistis Sophia e dos Libros de Jeú discurriam como os outros. * A primeira Ennoia determinou com a sua aparição a do Intelecto, princípio e mediador pessoal da futura saúde. * Os Libros de Jeú orquestraram com toques pessoais este primeiro passo comum. * Subrinham que a essência de Deus Pai perseverou inacessível sem menoscabo de sua transcendência. * A economia positiva desde a concepção do Filho até a synteleia dos predestinados vem a ser a expressão da munificência do Pai, sem comprometer a sua existência soberana. * Um só raio infinitesimal orientado por Deus para fora basta para construir os estratos de Luz e colmar a história da saúde humana. * O raio voltará em sentido contrário para o ponto de origem no seu dia, incorporando os resplanderes à unidade da ideia de que partiu. * Os textos multiplicaram as riquezas nos vários estratos contidos na ideia infinitesimal para ressaltar a majestade de Dios. * Se a mínima ideia esconde tantos tesouros, questiona—se o que será Deus mesmo na plenitude de sua mente. ** Basilides ** * Sobre Basílides chegaram notícias dispares por San Irineu, Clemente, Hipólito e Hegemonio. * As de Hegemonio nos Actas de Arquelau e as de Clemente não tocan a preexistência diretamente, ao contrário das de Irineu e Hipólito, com referências a Bousset e Hendrix. * Irineu se inspira provavelmente no Syntagma de San Justino. * As suas notícias oferecem o resumo de fontes desconhecidas para o autor do Adversus haereses. * O Basílides ireneano discurria sobre um esquema relativamente simples. * Tudo arranca de uma distinção não eterna entre o Deus ingênito, innatus, e o Filho, natus. * Deus inaugurou o universo criado mediante o Filho, havido em ordem à sua manifestação aos homens. * O universo compõe—se de céu e terra, sendo o céu formado por 365 ordens de anjos governados pelo demiurgo, e a terra contendo a igreja de homens. * Importa assinalar o Natus como mediador entre Deus e o universo. * Irineu descobre nele uma série de cinco apelativos do Filho com uma disposição sintomática. * Três apelativos apresentam—se em série lineal, como de pais para filhos: Nus—Logos—Phronesis. * Os dois últimos, Dynamis e Sophia, apresentam—se como éons procedentes do último anterior, Phronesis. * Essa disposição faz pensar em uma diferença entre ambas as séries. * Os três primeiros denunciariam o Filho Unigênito no seio do Innatus. * Os éons Nus—Logos—Phronesis seriam para os basilidianos cabeças de série, correspondendo ao que os trinta éons representam para os valentinianos. * A segunda série indicaria o Primogênito, nascido do Pai de acordo com duas perfeições chamadas a intervir fora. * Essas perfeições são Dynamis, talvez como Logos prolaticio, e Sophia, como Mãe da Igreja terrena. * O binômio Dynamis—Sophia recorda dois testemunhos clássicos. * O primeiro é 1 Coríntios 1,24, que refere a Cristo como dynamis e sophia de Deus. * O segundo testemunho é Lucas 1,35. * A passagem refere que o Espírito Santo descerá e o Poder do Altíssimo fará sombra. * O esquema basilidiano de Irineu estrutura—se hierarquicamente. * Apresenta o Innatus com o Pater; o Unigenitus com Nus, Logos e Phronesis; o Natus com o Primogenitus, Dynamis e Sophia; além dos 365 céus, terra, ecclesia, psyche e hyle. * Irineu relata que Basílides estendeu a sua doutrina mostrando Nus nascido de Innato Patre, de onde nasceu Logos, de quem veio Phronesis, gerando Sophia e Dynamis, criadores do primeiro céu, repetindo—se o processo até 365 céus, justificando os dias do ano, conforme Krämer e Hendrix. * Convém destacar os estratos superiores no que concerne à preexistência de Cristo. * O Pai situa—se acima, e abaixo dele os dois estádios do Filho, dentro como Unigenitus e fora como Primogenitus. * O Cristo teve uma vida resumível em três fases no seio de Deus antes de se revelar como Virtude e Sabedoria. * Essas fases deram—se como Intelecto, Verbo interno e Discurso ou Phronesis, todas em direção ao futuro universo. * O Filho já entrañava um quefazer salvífico a título de Intelecto concebido por Deus. * Deus não tinha necessidade dele para entender—se, mas sim os homens chamados a conhecê—lo. * O Nus era a Forma pessoal em que Deus intuía a criação, além de ser Intelecto ao serviço dos homens. * O Nus resume ambas as missões de mediação salvífica e cognoscitiva. * A primeira missão permanece imutável, embora haja de atuar—se na final consumação. * Os escolhidos verão a Deus no Intelecto apenas nessa consumação. * A segunda missão muda quando o Pai move o Nus em ordem ao cumprimento da dispensação. * O Nus entende profirindo um Verbo, convertendo—se em Intelecto que fala os meios de realizar a economia. * Configura—se a emissão do Logos e de Phronesis como manifestações internas orientadas ao universo. * O mundo ainda não existe, vivendo apenas intencionalmente no Intelecto com todas as espécies e indivíduos humanos. * A história em três etapas do Filho coincide com a do mundo e da Igreja a que serve. * A Igreja intuída no Nus prepara—se com o Logos e se consuma com a Phronesis, a ponto de revelar—se no Primogênito. * As etapas vão implícitas nos epítetos trigenethlos e trigenis, com analogias em estudos de Baynes e Böhlig sobre as épocas do luminar no Apocalipse de Adã. * Nenhuma das perfeições do Unigénito se explica por relação pessoal necessária ao Pai. * Nem o Nus, o Logos ou a Phronesis miram necessariamente ao Pai, mas sim ao universo e aos futuros escolhidos. * O mesmo se diga das denominações Dynamis e Sophia. * Ambas convêm ao Primogênito melhor do que ao Unigênito, embora o Basílides ireneano o silencie. * As duas denominações supõem o nascimento do Filho extra Patrem. * Os sectários raciocinam da mesma forma que os eclesiásticos. * Deus não poderia criar o universo com as suas formas por sua única vontade soberana. * O querer de Deus basta para a creatio prima, chamando ao ser a matéria informe. * A presença do Filho é requerida a fim de conformar a matéria, sendo Ele a Forma de Deus e da criação. * O Filho atua como Intelecto, Verbo e Providência definida. * A assistência do Verbo e a sua subsistência fora de si são requeridas além da mera presença. * Apenas uma Forma divina subsistente pode imprimir formas às criaturas sem confundi—las na universal. * Aqui reside a filosofia de Provérbios 8,27 sobre estar presente com ele, conforme denúncia de Tertuliano. * Requer—se um novo passo de eficácia como Sabedoria além da assistência ao Pai como Creador. * Basílides não autoriza ulteriores análises em Irineu, não se recolhendo mais o termo. * A animadversão dos arcontes para os devotos e a liberação destes explicam—se atribuindo a Sophia a maternidade dos germes supraangélicos. * Irineu relata que o Pai enviou o seu primogênito Nus, Cristo, para a liberdade dos crentes frente aos fabricadores do mundo. * Sophia equivaleria ao Espírito Santo em tal caso, como ocorre entre outros gnósticos. * A preexistência de Cristo em Basílides põe de relevo a sua missão pessoal salvífica e criadora. * Não se adiantam outras circunstâncias nem se esclarecem mistérios da história de Jesus. * O Basílides ou basilidianos de Hipólito partem de outro esquema. * Distinguem—se três fases de acordo com eles. * A primeira fase é a eternidade do Deus solitário. * Deus, simplicíssimo e indefinível, foi sempre o que foi antes de querer revelar—se fora, com paralelos em Krämer e Quispel. * A segunda fase iniciou—se quando Deus lançou uma simiente cósmica a partir de sua misteriosa vontade. * A simiente é o compêndio de toda a economia e a projeção global, katabole, de tudo o que é estranho a si. * A fase traduz miticamente o que outros concebiam como Idea ou Pensamento inicial, durando o tempo da livre decisão divina. * Irineu menciona a Ennoia progredindo, com paralelos em Beyschlag. * A terceira fase é o desenvolvimento e estratificação do universo a partir do semen mundi. * O conteúdo do esperma vai saindo aos poucos por ordem de dignidade: o Filho de Deus, o Espírito intermédio, a substância arcôntica e a matéria. * A germinação do Filho desenvolve—se em três etapas com base em suas três dimensões ou filiedades. * O Egipcio místico menciona as três filiedades masculinas procedendo do alto ao baixo, conforme Doresse e Böhlig. * A primeira filiedade, puríssima, abandona o semen mundi antes de qualquer elemento e se situa abaixo de Deus. * A segunda filiedade, não tão pura, sai depois e sobe com a ajuda do Espírito Santo até se colocar abaixo da primeira. * O Espírito Santo atua como asas da alma. * A terceira filiedade, menos pura, permanece longo tempo na matéria à espera de quem la redima. * O Espírito Santo situa—se entre a segunda e a terceira filiedade como fronteira entre o reino da Luz e a região do Arconte ou Psyche. * O Espírito Santo é essencialmente diverso da Luz divina e da Psyche, e a fortiori da matéria. * Fala—se em espírito methorion em sentido análogo entre os setianos, com notas de Kroll e Kern. * Os neopitagóricos situavam no círculo infralunar a fronteira que separa os deuses dos homens. * Denominavam—na o istmo entre a imortalidade e a geração, segundo Ocelo Lucano e Proclo citados por Cumont. * Basílides levanta a fronteira muito mais alto, acima dos sete céus, com base em um esquema oriental confirmado pela Paráfrase de Sem. * O esquema discorre em torno de três raízes: Luz, pneuma e trevas, conforme Wisse. * A região definitiva das filiedades é la Luz. * A terceira filiedade terá membros em transe de redimir—se das trevas até a consumação final. * Os três estados não dissimulam a sua identidade, representando o Filho como Unigênito, o Cristo Salvador e a igreja dos filhos naturais. * A primeira filiedade é o Intelecto pessoal, mediador indispensável situado abaixo do Pai. * A segunda filiedade é o Primogênito, engendrado extra sinum Dei, mediador para a criação e a saúde. * Ocupa o posto outorgado pelos ofitas em Irineu ao Cristo superior, Christus allevatitius, abaixo do seio de Deus e acima da Mãe do mundo, com paralelos na Sofia Iesu Christi. * A terceira filiedade constitui a igreja dos filhos naturais disseminados à espera de redenção pela segunda filiedade. * Pode chamar—se Filho em algum modo, mas não se identifica com a pessoa de Cristo Unigênito in sinu Patris ou Primogênito extra sinum. * Os basilidianos de Hipólito não descrevem as duas primeiras filiedades que tocam a preexistência. * Dão por sabido o mesmo que os demais gnósticos. * O Unigênito não intervém diretamente na criação ou salvação do mundo. * O Primogênito atua como Logos e Salvador através do demiurgo animal e dos arcontes. * Essa última circunstância merece singular consideração dos basilidianos. * Algo é deixado traslucir por caminhos indiretos sobre o Cristo preexistente. * A segunda filiedade vale—se do Espírito Santo, pneuma methorion, para atravessar a fronteira que separa o divino do criado. * O Espírito Santo anuncia a pomba do Jordão. * As relações entre Cristo e o Espírito Santo antes da criação assemelham—se às de Sumo Sacerdote e Diácono da economia. * O Espírito Santo servirá como Diácono tanto à segunda filiedade miticamente, quanto à terceira historicamente. * O serviço serve para elevar os filhos à altura do Unigênito. * Essa circunstância típica imprime caráter na futura cristologia e soteriologia. * Supõe—se a diversidade essencial entre o Filho, segunda pessoa, e o Espírito Santo, terceira pessoa. * Ambos viverão sempre distintos, distante de comungar em natureza única como Adã e Eva. * Cristo atua como Filho consubstancial, e o Espírito como essência intermédia entre o Filho e o demiurgo. * A natureza diversa coloca a questão sobre se Deus possuía espírito e de qual índole. * Em caso negativo, questiona—se a partir de qual substância Deus pôde encerrar a tríplice filiedade no semen mundi. * A decisão dos basilidianos convida a urgir a natureza em que Deus e o Filho fazem unidade. * A natureza deve ser superior ao Espírito Santo e perfeitamente definível como essência comum. * Os basilidianos punham essa essência na Luz, origem das procissões e causa da Iluminação. * Irineu e Schmidt registram passagens sobre a luz beata, incorruptível e interminável, com notas de Kroll. * A tônica intelectual do Filho sensível em Irineu desaparece praticamente no relato de Hipólito. * Isso ocorre porque Hipólito se fixa nos preliminares arcontes do Evangelho, desentendendo—se do teológico rigoroso. * A edição da Paráfrasis de Sem de Krause ajuda a definir essa natureza intermédia, mencionando também estudos de Wisse. ** Simonianos ** * A abundância de documentos relativos a Simão Mago daria lugar a um estudo extenso. * Omitir—se—á o exame das homilias e reconhecimentos pseudoclementinas. * A doutrina das sizígias obriga a retraer a antítese dos princípios masculino e feminino a um estádio preliminar à criação. * O mesmo se diz sobre a teoria dos dois reinos ou éons atribuída ao escrito fundamental por Strecker. * É possível chegar a um éon característico do Verus Propheta por duplo caminho. * O éon integra—se por elementos parecidos aos do Unigênito e concebível como paradigma do Cristo histórico. * Outros verão esses desdobramentos. * O estudo dos simonianos a partir dos Hechos apócrifos de Pedro também é deixado a outros. * Orientar—se—ia para os simonianos de Irineu e Hipólito com probabilidade. * Algumas notícias relativas à cruz ou Horos celeste orientam para o parentesco dos Acta Petri com os valentinianos. * Não merecem estudo separado ou devem ser agregadas às teses valentinianas sobre o Pleroma, com notas de Lipsius. * O Simão Mago de Irineu aporta poucos elementos de julgamento. * Questiona—se se a tônica modalista de algumas linhas inspira confiança. * Simão foi glorificado por muitos como Deus e ensinou que apareceu como Filho entre os judeus, desceu como Pai na Samaria e adveio como Espírito Santo nas demais nações. * Afirmou ser a mais alta Virtude, o Pai sobre todas as coisas, sustentando ser chamado do que quer que os homens o chamem, segundo Irineu e Beyschlag. * A preexistência está à mercê do alcance outorgado pelo mago à Sublimissima Dynamis ou Magna Virtude de Deus de Atos 8,10. * Trata—se de um alcance problemático estudado por Beyschlag. * O alcance só pode adquirir sentido cristológico no sistema atribuído por Hipólito. * Apresentam—se linhas significativas sobre o assunto. * Simão diz literalmente na Megale Apofasis que escreve e diz o que diz para os destinatários. * O conjunto dos éons possui dois brotes sem princípio nem fim, procedentes de uma raiz que é Dynamis, Sige, Invisível, Incompreensível. * Tardieu e Früchtel registram o uso do termo brote. * Um brote revela—se de cima e é a Magna Dynamis, Intelecto de todas as coisas, masculino. * O outro brote manifesta—se de baixo e é a Magna Epinoia, feminina, que engendra todas as coisas. * Partindo de pontos antitéticos, ambos se encontram para fazer matrimônio e dão a conhecer o espaço intermédio, to meson diastema. * O encontro evoca a filosofia oculta na Pistis Sophia sobre o encontro da Verdad e Justiça, havendo paralelos com a syndrome de potências dos setianos e passagens em Hipólito. * Os simonianos supõem que a extensão espacial começa com o Espírito Santo intermédio, com notas de Daniélou, Roloff e Graeser. * Nesse intervalo acha—se o Pai que carrega todas as coisas e alimenta o que não possui princípio nem término. * A reconstrução do texto é de Miller, seguida por Cruice e Wendland, com notas de Salles—Dabadie e Cumont. * Este é o Hestos, o que está, esteve e estará em pé, Dynamis andrógina conforme a Dynamis infinita preexistente que se acha em solidão. * A partir da Dynamis andrógina saiu em unicidade a Epinoia, resultando em dois elementos. * A saída deu—se sem divisão, conforme Krämer. * O Pai era um porque continha a Epinoia em seu interior, sendo sozinho e não primeiro, embora a preexistisse. * O Pai veio a ser segundo uma vez que se revelou a si, saindo de si. * O Pai não se chamou Pai antes que a Epinoia o chamasse Pai. * Assim como o Pai se revelou a si próprio tirando a Epinoia de si, a Epinoia revelada não se pôs a fazer fora, mas escondeu o Pai e a Dynamis no seu interior. * Dynamis e Epinoia vêm a ser um andrógino com duas perfeições que se miram, não diferindo entre si por serem uma só coisa. * A Dynamis resulta vir das coisas de cima, e a Epinoia das de baixo. * O que sai a luz a partir de ambos resulta duplo sendo uma só coisa, um andrógino que contém a fêmea no interior. * São mutuamente inseparáveis o Intelecto e a Epinoia, resultando em dois sendo uma só coisa. * Hipólito relata essa passagem na Refutatio, com comentários de Salles—Dabadie, Frickel e Beyschlag. * O vocábulo Cristo brilla por sua ausência, assim como Monogenes e outros relacionados à pessoa histórica. * Fica significativamente o binômio Pai e Nus, que em rigor fazem um. * A ideologia de Simão não dista muito de outras gnósticas, mas arranca de uma fantasia alheia. * O autor não parte do princípio absoluto e simples. * Dá—se por indiscutível a repartição primigênia do universo em duas regiões antitéticas que se miram. * Um brote sai da região superior para a inferior, e outro brote sai da inferior para a superior. * Ambos representam o dinamismo sordo posto por Deus como Raiz de ambos os mundos, conforme Krämer e Leisegang. * O tecnicismo reside nos dois ramitos ou brotes, e não na voz paraphyas. * O brote de cima é o Nus, Intelecto pessoal que abarca desde o seio divino todas as coisas futuras inferiores. * O pensamento do Nus não sai espontâneo dele, vindo—lhe ao encontro desde baixo como brote das regiões inferiores. * O encontro dá—se para unir—se no espaço intermédio na região do Ar incompreensível. * As coisas inferiores projetam a Epinoia para o Nus por uma certa harmonia, constituindo o objeto da ideia do Intelecto. * Simão disocia o exercício do Intelecto criador divino de seu objeto, a Epinoia, como se este lhe viesse da região não divina. * O exercício disocia—se também de seu cumprimento no espaço intermédio, fruto da comunhão do Intelecto e de sua Ideia criada. * O artifício serve para sublinhar uma circunstância. * Nem o Nus como Pai imediato da economia, nem a Economia pensada atuam espontaneamente. * A Raiz suprema, Deus, move ambos em movimento antitético. * Deus determina a Forma da criação futura e define o Nus segundo a Forma. * O Intelecto não precede a sua Ideia em rigor, mas ocorre o inverso. * O Nus é a concreção pessoal do Pensamento concebido por Deus em ordem à sua manifestação fora, como em outras famílias. * O universo virá como fruto espontâneo do encontro de ambos, Intelecto e Ideia. * O encontro dá—se mercê à eficácia impressa pelo Deus supremo que permanece implícito como raiz única. * O anônimo desenvolve a demiurgia a partir do ar incompreensível que preenche o espaço intermédio entre o Nus e a matéria. * Questiona—se o que dizer da cristologia e se há lugar para ela. * A preexistência não pode colocar—se em Simão como entre outros explícitos sobre a identidade Nus Monogenes. * Há razões para atribuir—lhe análoga identidade. * O anônimo conhece o Evangelho e trata de impostar as suas noções. * O Antigo Testamento e o Hexaemeron do Gênesis mereceram—lhe considerações equidistantes da filosofia grega e das especulações sobre a Voz, o Nome e o Logos. * Seria improvável que esquecesse a dimensão cristológica por orientá—la para a teologia dos seis dias de Moisés. * O anônimo fala com extensão da Dynamis infinita, Raiz do universo identificada com o Fogo invisível. * O cosmos gênito foi feito a partir do Fogo ingênito, iniciando a sua existência. * O mundo gênito recebeu desde o princípio seis raízes a partir daquele Fogo, as primeiras da gênese. * As seis raízes nasceram por pares a partir do Fogo. * O anônimo chama as raízes de Nus e Epinoia, Voz e Nome, Discurso e Reflexão. * Toda a Dynamis infinita acha—se nessas seis raízes em potência, mas não em ato. * Hipólito registra as passagens na Refutatio, com notas de Salles—Dabadie e Frickel. * Beyschlag é sóbrio para temas específicos e escuros. * Chama—se Nus e Epinoia, céu e terra, ao primeiro par dessas seis Dynameis e da sétima que as segue. * O masculino Nus olha de cima e se ocupa da consorte. * A Epinoia acolhe abaixo os frutos intelectuais emparentados com o Nus que descem do céu. * O Logos olha com frequência para as coisas procedentes de Nus e Epinoia quando exclama para o céu ouvir e a terra escutar porque falou o Senhor que engendrou filhos mas foi desprezado. * O que diz isto é a Dynamis sétima, o Hestos que está, esteve e estará em pé, sendo autor de todo o bom que Moisés louvou, conforme Beyschlag. * A Voz e o Nome são o Sol e a Luna. * O Discurso e a Reflexão, ho de logismos kai he enthymesis, são o Ar e a Água. * A Magna Dynamis infinita acha—se misturada em todos estes elementos. * Ao dizerem que há três dias anteriores ao Sol e à Lua, os simonianos indicam o Nus, a Epinoia e a sétima Dynamis infinita. * Salles—Dabadie e Teófilo comentam que os três dias anteriores são tipos da tríade, com paralelos em Tardieu. * Essas três dynameis foram feitas antes de todo o resto. * Ao dizer que me engendra antes de todos os éons em Provérbios 8,23, refere—se à Dynamis sétima de acordo com Simão. * A sétima Dynamis que existia em potência na Infinita foi feita antes de todos os séculos. * Esta é a sétima Dynamis de que fala Moisés sobre um Espírito ser levado por cima da água. * O Espírito contém tudo em si como imagem da Dynamis infinita, sobre a qual Simão ensina ser imagem saída de uma Forma incorruptível que adorna as coisas. * Essa Dynamis nascida de uma Forma incorruptível basta sozinha para organizar todas as coisas. * Hipólito relata essa seção na Refutatio, anotada por Salles—Dabadie. * Não há menção de Cristo agora, completando—se as notícias anteriores. * Entende—se a prioridade do Fuego ingênito como representação estoicizante do Deus supremo. * O Fogo ingênito ocupa o posto do Deus supraexistente em Basílides ou do Bythos em Valentim, agindo como pyr technikon, conforme Edsman. * Simão denomina—o Dynamis infinita e concebe—o como princípio e sétima Dynamis. * Toma—se a Dynamis infinita como primeira e sétima sem jogar com os números. * Procede—se à maneira de eclesiásticos que tomavam o Senhor como primeiro e oitavo dia. * A Dynamis infinita é primeira, anterior às seis raízes potencialmente contidas nela. * Nus e Epinoia, Voz e Nome, Logismos e Reflexão procedem de seu Fogo ingênito. * As seis raízes resumiam—se novamente como em sétima na Dynamis infinita, virtualmente contidas na primeira da mesma forma que os seis dias do Hexaemeron estavam contidos no Verbo. * O Fogo ingênito não é apenas princípio e germe virtual das seis raízes em que se reparte o reino do divino de forma sensível. * Não é unicamente síntese ou resumo das seis a título de sétima Dynamis. * É também o Espírito que as anima e contém a todas dando—lhes unidade, e a Imagem do Fuego infinito emitida em ordem à demiurgia. * Os simonianos de Hipólito discurrem com arranjo a um esquema específico. * O esquema apresenta a Dynamis infinita como Deus sumo. * Apresenta as seis raízes em éons divididos por Nus—Epinoia, Voz—Nome e Logismos—Enthymesis. * Apresenta a Dynamis sétima como Unigênito, Primogênito e Espírito Santo. * Convém advertir que as seis raízes desenvolvem as contidas na Dynamis infinita. * Resumem—se de novo ao nascer de Deus na Dynamis sétima, Logos e Espírito Santo, Dynamis criadora e Sophia. * Nus e Epinoia aparecem formando um par de dynameis com eficácia para dar à luz o matrimônio Voz—Nome, e através deles a Logismos e Enthymesis. * Os elementos apareciam antes como dois extremos antitéticos que partiam o Nus de cima e a Epinoia de baixo. * Não há contradição nisso, situando—se no último esquema as raízes por pares ou matrimônios. * As raízes indicam sempre o próprio: os masculinos indicam um agente de vida intelectiva, evocadora e discursiva. * A Voz adquire categoria masculina como logos prophorikos, apesar de ser feminina em grego. * Os femininos indicam um eco de passividade, objeto da inteleção, evocação e discurso. * No trinômio Epinoia—Onoma—Enthymesis o segundo membro adquire categoria feminina como resposta pasiva, apesar de ser neutro em grego. * O esquema insinua o modalismo dos simonianos de Hipólito, em consonância com o de Irineu, sendo uma advertência capital. * O princípio supremo dá origem às seis raízes e se restitui como Dynamis sétima, autoengendrando—se, com notas de Krämer e Beyschlag. * Tanto vale a primeira Dynamis quanto a sétima, com a diferença de que as seis perfeições se encontram em potência na primigênia e se concentram em ato na sétima para revelar—se. * O Pai se derrama em abanico entre as seis raízes para novamente restituir—se a uma única Dynamis como Filho saído de si próprio. * Uma mesma Dynamis mereceria chamar—se Pai como primeira, e pode denominar—se Filho de si próprio como sétima. * O modalismo consignado por Irineu encontra—se justificado pela notícia de Hipólito. * Os simonianos de Hipólito descobrem o fundamento do modalismo. * Os de San Irineu projetam o modalismo como simples afirmação à história. * O mesmo Deus revelou—se como Filho entre os judeus, como Pai na Samaria e deu—se a conhecer como Espírito Santo entre os gentios. * Se manifestou—se como Filho em Jesus, anunciou—se como Pai em Simão Mago. * A preexistência de Cristo é independente de suas epifanias no mundo. * O Fogo revelou—se em Jesus como Filho de acordo com as suas seis modalidades. * É preciso acudir à héxada divina para entender o mistério do Evangelho de Jesus. * As seis perfeições condensadas na Virtude sétima darão—se a conhecer em seu alcance físico e cronológico ao longo da atividade de Filho e Espírito Santo. * Não em vão se apresentam como os seis dias do Gênesis. * Queda por assinalar que as seis raízes guardam ordem hierárquica parecida à da pêntada basilidiana. * Ocupam o posto atribuído pelos valentinianos ao Pleroma e pelos basilidianos aos três primeiros éons. * Diferem destes últimos por se apresentarem por pares ou matrimônios. * Não é difícil assinalar o processo de tónica intelectiva que preside as raízes. * Apenas diferem dos demais gnósticos nesse processo. * O que se revelou como Intelecto configura—se depois como Voz interior ou Forma da economia sem sair do próprio Intelecto. * A Voz remove o Intelecto para que disponha com o Discurso e profira ao exterior o Logos ou Dynamis criadora sétima. * A Dynamis divina cristaliza em um exercício intelectual. * Do Intelecto chega à sua Palabra ou Voz interna, e desta chega ao Verbo externo através do raciocínio. * Do Cristo e Espírito Santo virão o mundo criado e a Igreja divina inmanente a ele. * É inútil prevenir equívocos, pois a preexistência deixa a salvo a distinção nocional das seis raízes. * Cristo é pessoalmente idêntico ao Pai como primeira Dynamis e ao Espírito Santo como sétima. * O processo não contradiz a tríada anterior ao Sol e à Lua. * Não contradiz também a trindade constituída pela primeira Dynamis, o grupo das seis raízes e a sétima Dynamis. * Apresentam—se analogias para os três membros Pai—Hijo—Sophia em que se repartem as três regiões: Ingênita, Autogenes e Gênita. * Deixa—se ao inteligente leitor o desenvolvimento de tais ideias mais avenidas à cristologia trinitária do que às formas normais prévias à criação. ** Apocryphon Iohannis ** * O Salvador ou Jesucristo apresenta—se em uma das primeiras páginas do texto. * Kasser menciona que os tradutores coptas podiam ver ali um único conceito significando Jesus o Excelente. * Afirma—se estar com os destinatários em todos os momentos, sendo o Pai, a Mãe e o Filho. * Afirma—se ser aquele que é eternamente, ser sem mácula e sem mistura, conforme citações anotadas por Beyschlag. * Tais linhas orientam para a preexistência de Cristo nos estúdios de Pai, Mãe e Filho, mas não bastam para provar o modalismo. * O Pai decidiu revelar—se fora e fundou primeiramente uma pêntada de éons, como em outras famílias. * Esta é a pêntada dos éons do Pai ou do Primeiro Homem: a Imagem do Invisível, a Barbelo, a Ennoia, a Prognosis, a Aphtharsia e a Vida eterna. * Trata—se da pêntada andrógina, a saber, a década dos éons registrados no texto copta. * O anônimo contenta—se em registrar os cinco éons femininos frente ao Pai, único vocábulo masculino. * Os éons funcionam como disposições do Pai. * A primeira década reclamava a sua manifestação extra sinum Dei com bastante probabilidade. * Os éons masculinos dessa década são ignorados, sendo ela a expressão da Imagem ou Barbelo inmanente ao Pai. * A manifestação chegou a pedido de Barbelo mediante a geração de um Ser, Unigênito e Autogenetos. * O Ser foi ungido pelo Espírito do Pai. * Assim nasceu o Cristo superior, em quem cristalizaram as perfeições de Barbelo e adquiriram subsistência masculina. * Eis que surgem o Nus, Thelema e Logos no texto. * O Filho perfeito atua como Intelecto, Vontade do Pai e Verbo criador. * Os doze éons, desde Charis até Sophia, apareceram em torno do Filho governados por quatro luminares, à maneira de signos zodiacais. * Cristo denunciava a sua dignidade de sol e prevenia o cerco dos doze apóstolos na história para salvar as doze tribos. * O esquema da preexistência de Cristo no Apocryphon Iohannis organiza—se de forma definida. * Apresenta o Pai Invisível e Barbelo como a sua Imagem ou década de éons secretos. * Apresenta o Cristo subsistente formado por Nus, Thelema e Logos, junto à dodécada de éons manifestos. * Apresenta os domínios do criador, a terra, o Autogenes, Anima e Materia. * A existência de Cristo antes da criação adquire singular relevo. * Distinguem—se três etapas como entre outros sectários. * A primeira etapa é eterna, no Deus Invisível, sem personalidade alguma. * A segunda etapa é inerente à sua Imagem ou Barbelo, iniciando a existência pessoal na mente de Deus como Forma orientada para a dispensação. * A década compendiada em Barbelo representa as perfeições do Filho, em particular como Gnosis do Invisível. * A pêntada feminina anuncia as modalidades da mediação. * A terceira etapa é subsistente, fora do seio de Deus, onde o Filho se converte em primogênito do Invisível. * Aparecem como concreto masculino o Nus, o Thelema e o Logos, os três títulos para revelar—se. * Seria de interesse apurar as relações entre a pêntada de Barbelo, Imagem insubsistente, e a tríada de Cristo, Imagem subsistente. * Salta à vista o vínculo entre as duas primeiras Ennoias e o Nus. * A relação entre a Prognosis, Aphtharsia e Vida eterna com os restantes aspectos do Cristo não é tão clara. * Seria mais provável estender a Incorruptela e Vida eterna a Cristo mediante o Espírito virginal, habilitando—o para a saúde. * A complexidade de éons resumidos no mediador subsistente fica em pé a despeito de escuridões. * O signo feminino ressalta na estrutura. * O autor não dissimula a índole feminina de Barbelo como disposição ordenada para a gênese, embora não se explaye sobre a sua origem. * A dodécada de éons femininos em que se resolvem os quatro luminares responde à mesma tônica. * A dodécada anuncia a projeção ao mundo como substituto de Sophia, a cónyuge habitual. * A dodécada adiantar—se—ia ao Espírito Santo pessoal como expressão mítica de suas perfeições, se assim fosse. * O Apocryphon Iohannis apontaria para a preistória divina do Cristo Verbo mediante a pêntada de Barbelo. * Apontaria para a complementar de Sofia mediante a dodécada dos quatro luminares. ** Valentinianos ** * A família valentiniana apresenta afinidade de elementos sobre o Cristo anterior ao mundo. * Muitos elementos foram estudados em outra parte sem desejo de repetição. * O Evangelho segundo Felipe supõe os preliminares teológicos do Salvador sem se deter neles. * Seria de interesse o análise da Virgem Maria celeste, Esposa de Deus Pai e Mãe do Cristo anterior à história, conforme notas. * As notícias sobre os nomes de Jesus e de Cristo supõem uma hierarquia de elementos e a correspondência com as realidades celestes eónicas. * O Evangelho da Verdade descobre a doutrina do Nome verdadeiro em sua aplicação pessoal ao Salvador. * Arai estuda a preexistência em função do Filho como Nome e como Verbo, reduzindo—se ambos a um aspecto prático, com notas bibliográficas. * O Filho é o Nome do Pai, a sua Forma e Medida. * A geração do Logos representa a sua Denominação a dois tempos, no interior como Intelecto e Verdade, e nascido como Verbo criador, conforme passagens. * Ambas as etapas são requeridas em ordem à saúde. * Ninguém conhece o Nome secreto enquanto este não se revelar ao mundo. * O Ignoto faz—se cognoscível no Nome que outorga a Cristo ao concebê—lo pessoalmente ou ao engendrá—lo ao exterior. * O Evangelho da Verdade seria favorável às especulações hebreias em torno do Nome. * O texto estrutura as suas noções dentro de um esquema grego de sesgo estoico: o Nus, o Logos interno e o Logos prolaticio. * Deus põe em movimento o Intelecto do Filho até convertê—lo em Nome subsistente acessível ao homem iluminado. * O homem conhece no Nome a Forma pessoal do Deus impessoal e informe. * O Filho é o Nome próprio e possui a Forma do Pai em propriedade por tê—la recebido em virtude da geração. * Engendrar e nomear dizem o mesmo, conforme passagens. * O Evangelho da Verdade silencia a distinção entre a concepção interna do Nome e a sua expressão oral, mas a dá por sabida. * O texto pode falar aos homens do Topos, a saber, do seio do Pai e do próprio Pai graças a isso. * O texto conhece os éons e pleromas emanados, mas não os define, conforme passagens. * A comunhão no reino da unidade exonera—o de individuá—los. * Os fragmentos do fundador da seita não denunciam a preexistência de Cristo em forma de éons. * Não era um ponto debatido. * Os espirituais humanos existiam desde o princípio com características superiores às de Iavé para Valentim, conforme fragmentos analisados no Gregorianum. * A fortiori existia o Cristo de onde provêm. * A Sabedoria formou Iavé à imagem do Filho de Deus. * Valentim deve ter concebido a preistória segundo as fases de inmanência e subsistência. * O fundador deve ter hierarquizado a complexidade de elementos com miras em sua função criadora e salvífica. * Linhas de Irineu atestam isso de forma indireta. * A carta dogmática recolhida por San Epifânio destaca o número e a ordem dos éons constitutivos do Filho. * Os Acta Thomae gregos mencionam a cifra valentiniana clássica de trinta e dois éons sem enumerá—los, com notas nas Parábolas evangélicas. * Nem todos os discípulos os comemoram por terem várias preocupações. * Atentos à perspectiva circunstancial, os discípulos desviam a atenção para campos alheios à preexistência. * Os Excerpta ex Theodoto notificam o Pleroma e os éons com um tecnicismo demasiado evidente. * Os fragmentos de Heracleon conservados por Orígenes e Clemente tocam pontos de soteriologia histórica e omitem a preistória. * Heracleon conhecia a preistória com seus éons de acordo com uma notícia de Irineu, mas não a alegava por estimá—la desnecessária. * Ptolomeu também não a mencionava na carta a Flora, apesar de tê—la desenvolvido escrupulosamente em outra parte. * As notícias de Hipólito e as de Irineu sobre Marcos, Ptolomeu, Valentim e seguidores anônimos permitem restituir a história eónica com certeza. * Os trinta aiones descrevem as perfeições escondidas no Filho por Deus para a saúde dos futuros espirituais. * Denunciam os desígnios na economia por sua hierarquia, número de aparição e sexo. * Restam zonas de escuridão para o significado de alguns éons, mas não são fundamentais. * Cristo atraviesa dois momentos básicos: o de Unigênito, Forma do Pai ainda inerente a Ele, e o de Primogênito, Forma subsistente. * Outros títulos dinâmicos projetados para fora desenvolvem—se à margem do título capital de Forma ou Medida de Deus. * O Infinito faz—se finito nesse título para ser conhecido dos homens. * A preistória de Cristo como Intelecto Unigênito não revela uma única perfeição rigorosamente paterna. * O Deus supremo não possui perfeições em plural, e a singular de Infinito é inadaptável ao conhecimento finito da criatura. * A perfeição do Pai não pode comunicar—se ao Filho a título pessoal. * As perfeições de Cristo são suas pessoais, embora não sejam igualmente elevadas. * Acham—se mais perto das perfeições comunicadas aos homens do que da singular de Deus, na forma que revestem. * A preexistência como Unigênito inmanente se achega mais ao conhecimento humano do que à perfeição informe do Pai. * Cristo é, conceitualmente, mais próximo nosso do que de Deus. * Orígenes assevera com linguagem atrevida que o Salvador e o Espírito Santo superam as criaturas, mas o Pai excede a ambos em maior medida, conforme estudos. * O análise dos éons do Pleroma valentiniano constitui a verdade autêntica da atividade futura de Cristo. * Jamais atinaremos a entender a realidade positiva de Deus por mais que a estudemos no seio paterno. * O homem terá no Filho o Intelecto pessoal para intuir o Pai e o instrumento para chegar a Ele. * Nunca se entenderá a perfeição do Deus Ignoto, pois o objeto de tal ciência está acima da pessoa do Filho. * O modalismo foi indicado ao desenvolver o esquema dos simonianos de Hipólito. * A primeira Dynamis disocia—se em seis e se restitui na sétima. * O mesmo que se oferece em simplicidade como Pai desenvolve as perfeições entre os seis dias e as restitui no Filho como sétima Dynamis. * Uma pessoa adquire duas maneiras de ser por um duplo movimento de diástole — o desenvolvimento em seis — e sístole — a concentração em um. * O fenômeno seria designado à pessoa do Filho se a Megale Apophasis mencionasse um princípio anterior à primeira Dynamis ou indicasse que o processo se limita à economia do Filho. * Viriam a dizer o mesmo que os valentinianos com outro mito em tal caso. * As notícias de Hipólito atalham semelhante exegese, vindo confirmadas pelo modalismo de Irineu. * Os valentinianos não são modalistas, distinguindo perfeitamente o Deus sumo do Filho, conforme estudos na Teologia do Espírito Santo. * Apenas ao Filho circunscrevem os movimentos de diástole e sístole, como Pleroma de trinta éons e como síntese deles. * O processo denunccia uma concepção monarquiana entre os simonianos por englobar o primeiríssimo Deus. * O processo salva a pluralidade de pessoas entre os valentinianos por limitar—se aos dois estúdios do Filho já distinto. * Imposta—se o Cristo como mediador entre o Pai e os homens, antes e depois de engendrado. * Falar em cristologia patripasiana entre valentinianos, basilidianos e outros não possui sentido, com leituras recomendadas em Lipsius. * A preexistência não é um simples jogo de especulação ou modo de destacar a natureza divina entre os gnósticos. * As emissões graduais, desde o Intelecto até a secessão de Sofia, tratam de salvar o desnivel desde as alturas de Deus até os mundos criados. * A unidade pessoal do Filho como mediador não é comprometida por isso. * Trata—se de uma preexistência operante preenchida pela preistória do Filho. * O Filho dispõe—se a entrar na história desde a sua concepção no Pai, primeiro como Logos criador, depois como Sofia e por último como Salvador. * Os gnósticos fazem o Filho servir a uma economia lineal que parte do beneplácito de Deus e termina na fase pós—histórica. * Afasta—se a concepção de uma subsistência eterna sem trajetória em sua pessoa. * A história segue a preistória sem solução de continuidade, da mesma forma que a vida do Salvador Jesus segue a preexistência no Pleroma. * Toca ao teólogo estudar a pessoa do Filho com arranjo às perfeições naturais que desenvolve nos vários estratos. * O estudo deve guiar—se segundo a trajetória das formas que anunciam a sua atividade mediadora pelo ordem de manifestação. * O gnóstico olha para Cristo como a peça chave dentro da economia. * A saúde do homem vem preparada por toda a preistória e história, embora tenha lugar mediante a gnose. * O mistério íntimo não se entende sem o conhecimento das complexas perfeições acumuladas pela pessoa do Logos. * A Iluminação gnótica é o selo que o Filho imprime ao indivíduo para fazê—lo passar à eternidade sem história de Deus em sentido inverso. * Deve—se à mediação plena de Cristo o fato de poder comunicá—la humanamente de golpe por ter resumido a trajetória longa. * A mentalidade de Mário Victorino é instrutiva nesse ponto. * O abajamento da encarnação apresenta—se como a imagem de um processo pelo qual o Logos se afasta do Pai com um movimento que o feminiliza até allaná—lo ao homem. * O filho do Espírito virginal masculino do Pai orienta—se no divino para o mistério por obra de uma Virgem feminina que o debilita vestindo—o de carne. * O mesmo Verbo dirige—se no humano para o mistério em que o feminino se veste do Espírito masculino a partir da geração humana. * O processo direciona—se para a ressurreição de Jesus. * O feminino do Verbo volta—se então masculino, e a carne adquire a forma de Deus. * Assinala—se em paradigma o ponto final da economia quando os escolhidos se deificam e a sua debilidade feminina se torna vigorosa masculina. * Victorino apresenta linhas sugestivas em Ad Arium anotadas por Hadot. * Afirma—se que assim como foi necessidade entrar na potência virginal e gerar o filho de Deus por parto masculino, foi oportuno o ordem no corpo padecer diminuição, nascer de virgem e ressurgir pela virtude patrica retornando ao Pai. * Os gnósticos haviam—se adiantado ao grande converso no duplo movimento feminilizante de Deus ao mundo, e masculinizante do mundo a Deus, com notas de Santos. * Cristo inaugura o movimento e os escolhidos o repetirão. ** A modo de sintese ** * O ideal seria que ao estudo analítico seguisse um desenvolvimento das etapas de existência antes da criação. * Trata—se da trajetória do Filho nos séculos anteriores ao tempo, desde a sua aparição até o instante prévio à revelação. * Nem todas as famílias se ocuparam igualmente do tema ou deixaram elementos bastantes. * As mais explícitas insinuaram apenas o alcance de preexistência eónica. * Distinguiram entre o linguagem e o significado em consonância com a filosofia. * A trajetória secular do Filho não podia confundir—se com a sua história temporal, da mesma forma que o Cristo paradigma não se confunde com o sensível. * O paradigma declara por meio de éons o que a vida terrena declara por meio de anos, meses e dias. * A condição no Pleroma outorga à existência um estilo superior ao espaço, topos, e ao tempo, chronos. * Os éons funcionam tanto como unidades de tempo quanto de espaço no linguagem mítico. * Cristo vive na região da verdade por estar no Pleroma. * A verdade coincide com a do Ser e da Vida entre os gnósticos. * Os éons escapam às limitações da matéria no Pleroma pela comunidade de Espírito, unitas spiritus, que Deus comunica. * Cristo apresenta—se como plenitude de perfeições divinas hierarquicamente constituídas, apesar da unidade. * Atua como lugar de todas as perfeições e tempo desenvolvido em séculos. * O Filho possui as quatro dimensões — largura de espaço, longitude de tempo, alteza e profundeza de conhecimento — que se revelarão na história. * A pessoa de Cristo denuncia no seio do Pai uma complexidade real de perfeições organizadas, diferentemente do Deus Ignoto. * O mito representa a complexidade com o desenvolvimento progressivo dos éons, do primeiro ao último. * O desenvolvimento oferece a história interna do Filho, aparecendo os éons em ordem ou por pares. * Uma tétrada segue a primeira, vindo a ogdóada, a década e a dodécada. * O processo não improvisado revelar—se—á ao longo da vida sensível de Jesus. * O estudo analítico do Pleroma abre perspectivas à teologia trinitária e à missão cósmica, além de perfis cristológicos. * A trajetória espontânea adiantará dados para a do hysterema ou universo criado por séculos e anos. * O processo senta as bases de uma verdadeira teologia da história, apesar de seu indumento mítico. * Basta traduzir em tempo estrito o dinamismo inerente aos nomes sem descuidar a hierarquia. * Os éons não multiplicam a mediação do Filho, apenas sensibilizam o seu complexo dinamismo. * Todas as perfeições do Cristo Unigênito dizem relação ao seu exercício no universo a partir do seio de Deus. * A maioria diz relação à atuação na história do mundo sensível. * Não é difícil entender a lei que presidiu a aparição dos éons com a ajuda do Evangelho em sua aplicação óbvia. * O paradigma reflete—se na imagem, e com a ajuda desta vislumbra—se o mistério daquele. * Tal harmonia ocorre sobretudo entre os valentinianos. * Outras famílias resultam menos expressivas por falta de documentação ou por não contarem com a sobriedade e tecnicismo valentiniano. * As famílias coincidem na complexidade da pessoa do Filho frente à absoluta simplicidade do Deus supremo. * Daí decorre a possível história de Cristo em oposição à eternidade sem trajetória do Pai. * As famílias coincidem também na distinção e hierarquia dos éons componentes do Filho. * Há coincidência na mediação integral dinâmica do Filho em ordem à futura economia. * Nenhuma das perfeições é absoluta, todas miram a dispensação da saúde humana na história. * Há coincidência no fato da preexistência de Cristo como paradigma, manancial de verdade para a imagem. * Ninguém atribui à improvisação o desenvolvimento dos éons, haja ou não chave para traduzir os matizes. * Há probabilidade de que as grandes seitas indicassem o processo interior nas perfeições com miras em seu exercício. * Há probabilidade de que usassem termos de ambos os Testamentos acomodando—os ao esquema platonizante do duplo Logos. * Raríssimas seitas descem a particulares que permitam cotejar a imagem com o paradigma no estado atual fragmentário. * Raramente se permite levar o análise ao progresso do Filho desde a aparição até a revelação. * Toca ao crítico medir o peso específico das notícias ou definir o alcance. * Basílides está variamente representado por Irineu, Hipólito e Clemente, e talvez os três digam aspectos parciais da verdade. * Os simonianos de Hipólito teorizam sobre a identidade entre a primeira e a sétima Dynamis passando por alto a dimensão histórica. * Isso ocorre porque tal desenvolvimento não entrava em seus desígnios, e não por ignorância. * Desenvolver concretamente a preistória no âmbito do Pleroma também não entrava nos desígnios deste estudo. * A questão foi assinalada antes na Teologia do Espírito Santo dentro da família de Valentim. * O processo coincide com o mecanismo do Logos desde a aparição como Nus até a manifestação como Verbo. * Trata—se de um mecanismo estruturado com ajuda de noções bíblicas compatível com uma exposição de sesgo histórico. * Não resulta inútil perseguir o curso das genealogias de éons gnósticos por isso. * As noções ensinam muito ao análise da mesma forma que em Plotino, Porfírio, Proclo e nos Oráculos caldeos. * A conotação mediadora atribui—lhes um posto difícil de concretar, mas historicamente traduzível na futura existência de Jesus. * Esse não é o caminho único, felizmente. * A composição do universo divino simplifica—se em quase todas as famílias, reduzida a esquemas triádicos de fácil compreensão. * Compreende—se o essencial do Cristo superior em sua pessoa, aparição e destino uma vez entendidos os esquemas. * Houve necessidade de desenvolver alguns esquemas em atenção à figura do Filho como centro. * O planteamento de alguns críticos resulta gnósticamente pobre por limitar—se à preexistência divina. * Nenhum grande sectário discute a filiação divina ou a dignidade de Unigênito. * O problema real reside em sua mediação cósmica e salvífica. * A mediação cósmica do Filho não satisfaz nenhum gnóstico de garra. * Todos lhe atribuem a humana salvífica, dividindo—se em sua índole de acordo com a antropologia. * O ponto da preexistência em quanto tal também não interessa aos heterodoxos. * O universo arcôntico preexiste ao mundo sensível, mas nenhum dos anjos é de linhagem divina. * Caberia perseguir a trajetória dos arcontes em absoluto, mas questiona—se a que conduz. * Maior atenção merece a preexistência de Sofia desde a sua aparição até o destierro no hysterema. * A atenção deve estender—se desde a revelação extradivina até a dupla atividade como Sabedoria e Mãe. * Sofia é deus e interfere com Cristo como sua irmã, destinada a unir—se a ele em matrimônio. * É impossível traçar a preistória ou a história de Cristo sem desenvolver paralelamente as de Sofia. * Eva resulta tão capital para a existência de Adã quanto este para aquela. * A trajetória de Sofia é tão necessária para entender a de Cristo quanto o inverso. * Grande parte dos capítulos afeta a ambos por igual. * A crítica descuidou a simbiose de Cristo e Sofia, sacrificando uma perspectiva imprescindível para a história de Jesus. * A perspectiva afeta especialmente os mistérios da humanação, batismo, paixão e morte. * A preexistência de Cristo explica o trânsito do Deus infinito ao Filho delimitado, Forma do Informe. * Explica o trânsito do Pai Ignoto ao mediador, e do Deus transcendente ao Logos criador. * Esclarece—se o salto do Nus a Sofia, do Anthropos masculino à Fêmea inmatura, e da unidade divina à diáspora. * Muito disso se resume no próprio Cristo preexistente, não em sua natureza, mas em sua pessoa. * Resume—se em suas relações pessoais realíssimas com o universo e o homem, distantes de nossas categorias. ** ** Cristo em profecia ** ** * Ao conhecimento de Cristo por sua preexistência adiciona—se o das profecias do Antigo Testamento, vulgarmente mais óbvio. * É de presumir que os vaticínios tenham adiantado notícias sobre os mistérios da vida terrena. * Tal presunção pode não ser justa ou requer ulteriores dados para a aplicação. * Nem todos admitiram o valor dos vaticínios ou ensinaram a inspiração única e homogénea de ambos os Testamentos. * Prescinde—se das doutrinas meramente hebraicas. * Os saduceus prescindiam dos profetas por não crê—los inspirados de acordo com Orígenes, Hipólito e outros anotados por Schurer e Le Moine. * Faziam valer apenas o Pentateuco em sentido canônico. * A tendência acusa—se no escrito fundamental das pseudoclementinas estudado por Hilgenfeld e Strecker. * A tendência destaca—se por sua atitude frente à profecia feminina registrada nas Homilias. * As vozes dos profetas denunciam influxo vario e dão lugar a contradições, com paralelos em Clemente. * Nem todos ensinaram a inspiração única e homogénea de ambos os Testamentos na primeira literatura cristã. * O Segundo Logos de Sete atribui aos doze profetas a inspiração do espírito contrário, estranho ao verus propheta. * Apresentam—se as atitudes fundamentais na teologia do século II: a eclesiástica, a marcionita e a gnóstica.