===== GRAÇA ===== //Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.// **Capítulo VI: Liberdade pela graça** * A questão da liberdade situa-se na base do gnosticismo e do cristianismo, sendo descrita por Carl Schmidt como “a mais acalorada de todas as questões religiosas”. * A liberdade não aparece como tema secundário, mas como eixo em torno do qual se organizam a salvação, a graça, a eleição e a responsabilidade. * O problema atravessa tanto as controvérsias contra os gnósticos quanto as formulações cristãs sobre a necessidade de redenção. **1. A aparente negação da liberdade nos gnósticos** * Clemente de Alexandria, Orígenes e os heresiólogos acusaram os gnósticos de negar a liberdade humana. * A humanidade não é naturalmente livre nem capaz de dirigir-se ao bem sem uma revelação sobrenatural concedida como graça pelo Salvador. * Quem não conhece o verdadeiro bem permanece sob o domínio das Potências, mesmo quando imagina ser livre. * A liberdade é identificada com a própria salvação. * A salvação pode ser recebida, mas não produzida autonomamente pela humanidade. * O “conhecimento” só pode ser compreendido e aceito por almas destinadas a compreendê-lo. * Os que aceitam o “conhecimento” já possuem, sem sabê-lo, uma “centelha de vida”, ou foram semeados por Deus, pelo Salvador preexistente ou pelo Espírito. * Em alguns textos, os salvos aparecem como descendentes misteriosos de um ser divino. * A vontade humana parece impotente em duplo sentido: não é naturalmente livre e nem sempre parece apta a ser libertada. * A liberdade requer graça e, em certos casos, também uma predestinação chamada de natureza. * A doutrina gnóstica da graça e da predestinação aproxima-se de elementos centrais do cristianismo comum. * A salvação pela graça e a libertação de uma vontade naturalmente escravizada pertencem também à doutrina cristã. * Paulo e o autor do Quarto Evangelho ensinam a predestinação dos crentes. * Nos Evangelhos Sinóticos, a parábola do semeador mostra que a boa semente não basta, pois também é necessária a boa terra. * A especificidade gnóstica talvez esteja na imagem da predestinação como centelha de vida, semente divina ou filiação. * A existência dessa centelha só se reconhece pelo fato presente da fé ou do conhecimento. * A predestinação não funciona como barreira posta diante de alguns, mas como louvor a Deus pela salvação já recebida. * Todo mérito da salvação pertence a Deus, e a humanidade não tem direito de gloriar-se nela. * As metáforas gnósticas da centelha, da semente e da filiação podem sugerir que uma realidade sobrenatural já existe no não convertido destinado à salvação. * A diferença entre gnosticismo e cristianismo comum talvez resida nessa sugestão de uma parcela da alma sempre sobrenatural. * Essa interpretação, porém, ameaça inverter a intuição gnóstica fundamental. * A intuição gnóstica afirma grande distância entre natureza e graça, mundo e Deus. * A salvação vem do alto, a liberdade é graça, a revelação libertadora é inteiramente nova e o Salvador concede uma nova natureza. * Se algo dessa nova natureza já existisse no salvo antes da conversão, a transcendência retornaria a uma forma de imanência. * A predestinação poderia voltar-se contra a própria graça. * A passagem da graça à predestinação torna-se compreensível quando se procura explicar por que alguns acolhem a palavra divina e outros permanecem fechados a ela. * Quanto mais a salvação é apresentada como estrangeira à natureza, mais difícil se torna explicar sua aceitação por alguns. * A aceitação do conhecimento parece exigir alguma afinidade anterior com aquilo que a natureza não compreende. * No Evangelho da Verdade 21,32—22,4, a incredulidade insuperável de alguns é invocada para mostrar que uns são chamados e outros não. * Pela dialética interna da graça, passa-se à predestinação e à ideia de uma natureza oculta no crente, revelada pela graça. * As imagens da centelha, da semente e da filiação divina parecem afirmar que, em alguns, algo já está salvo antes da fé. * Essa aparência não resolve a questão decisiva. * Mesmo para quem fala assim, o predestinado não se salva sem “conhecimento”. * A questão central passa a ser onde e quando a predestinação começou a ser expressa por essas metáforas. * Também se torna necessário verificar se tais metáforas aparecem nos gnósticos mais antigos mencionados pelos heresiólogos. **2. As imagens de libertação entre os gnósticos que parecem ser os mais antigos** * A ressurreição já realizada, entendida como conversão, contradiz a ideia de uma semente do Espírito Santo presente no predestinado antes da fé. * Se o crente é ressuscitado pela graça, sua primeira natureza deve morrer inteiramente. * Antes da graça não havia nele uma centelha de salvação. * A graça recria a pessoa. * A ressurreição pode implicar eleição ou predestinação, mas exclui a presença prévia de um elemento espiritual natural. * Em Menandro, um dos primeiros hereges mencionados pelos heresiólogos, a conversão como ressurreição sugere ausência de predestinação substancial. * Se Menandro admitia predestinação, ela não consistia em substância espiritual já presente no predestinado. * A doutrina atribuída a Simão não apresenta claramente uma predestinação por centelha ou semente. * Não é certo que Simão fosse gnóstico. * A doutrina que Irineu atribui a Simão dificilmente é anterior ao fim do primeiro século. * Os libertos são os que conhecem Simão e Helena e põem neles sua esperança. * A promessa de libertar “os seus” pode designar apenas discípulos que nele esperavam. * Mesmo se “os seus” designasse predestinados, a doutrina não iria muito além de Paulo ou João. * Não aparece nela a ideia de centelha ou semente. * A figura de Cerinto, tal como aparece em Irineu, não esclarece a questão da predestinação dos crentes. * A existência de vários Cerintos é possível. * O Cerinto de Irineu é considerado o mais provavelmente histórico. * A seção de Irineu sobre Cerinto não ensina se havia predestinação em seu pensamento. * A metáfora da centelha aparece com Saturnilo, mas provavelmente designa o Espírito ou a graça dada aos crentes, e não a alma natural. * Antes de Saturnilo, a metáfora quase não aparece na literatura antiga, salvo no Livro da Sabedoria. * Em Sabedoria 3,7, as almas dos justos mortos, sobrevivendo junto de Deus, são comparadas a centelhas que correm pelo restolho. * Em Saturnilo, a “centelha de vida” parece ser um elemento que entra na alma e lhe dá a vida verdadeira. * A centelha não é a alma inteira, mas a parte divina da alma, isto é, o Espírito dado aos que creem. * Saturnilo afirma que Cristo veio para a salvação dos que creem nele, aqueles que possuem em si a centelha de vida. * A centelha não se encontra em todos. * Se a centelha fosse a alma, como pensou Epifânio em Panarion 28,1, Adão teria sido sem alma antes de recebê-la, o que contradiz concepções antigas e gnósticas da alma. * Para os antigos, todo ser animado possui alma. * Para a maioria dos gnósticos, a alma vem em geral do Demiurgo, enquanto o espírito vem de Deus. * A centelha de vida em Irineu 1,24,1 e 1,24,3 dificilmente pode designar duas realidades diferentes. * Ela corresponde provavelmente ao Espírito, à graça ou à Vida em sentido joanino. * A presença da centelha em Adão pode ser entendida como redenção de Adão ou como dom concedido à humanidade somente após a vinda de Cristo. * Caso Adão tenha recebido a centelha, seria necessário admitir que ele teve fé em Cristo antes da vinda histórica de Cristo. * A salvação de Adão aparece no judaísmo alexandrino. * Em Sabedoria 10,1, a Sabedoria ilumina Adão e o levanta de sua queda. * A Epístola aos Hebreus enumera figuras do Antigo Testamento que tiveram fé, mostrando que um cristão do primeiro século podia conceber fé antes da vinda de Cristo. * Se a hipótese da fé de Adão não for aceita, o homem criado pelos Arcontes deve representar a humanidade em geral. * Nesse caso, a centelha dada ao homem não foi concedida no princípio, mas somente quando Cristo veio. * A luz que os Arcontes não puderam apreender em Saturnilo é provavelmente a luz do Prólogo joanino, isto é, Cristo. * Os Arcontes podem ter visto a luz ou sua imagem ao criarem a humanidade como cópia de uma imagem luminosa. * A centelha não foi dada à humanidade desde o início. * As duas categorias humanas de Saturnilo não devem ser confundidas com predestinados e não predestinados. * Mesmo que Adão tenha recebido a centelha, ela não foi transmitida automaticamente a seus descendentes. * Irineu afirma que Saturnilo foi o primeiro a falar de duas categorias de humanidade criadas desde o princípio, os bons e os maus. * Essas categorias foram criadas pelos anjos, isto é, pelos Arcontes. * Os Arcontes não poderiam conceder a centelha de vida. * A oposição refere-se antes aos bons e maus do Antigo Testamento. * Cristo veio ajudar os bons, pois antes de sua vinda os demônios haviam ajudado os piores entre os seres humanos. * Cristo ajudou os que possuíam uma espécie de bondade natural e lhes deu a centelha de vida que ainda não tinham. * Hipólito usa o termo diegeire para descrever a ação da centelha, isto é, ela “desperta” ou “ressuscita” a pessoa. * Egerthe, de egeiro, é o termo usado nos Evangelhos para dizer que Cristo ressuscitou. * O dom da centelha em Saturnilo se assemelha à conversão em Menandro. * Trata-se de ressurreição, não de simples conclusão da criação do primeiro homem. * A centelha de Saturnilo é graça ou Espírito que acompanha a fé, embora seja descrita como uma nova natureza que permanece na alma. * Nada prova que os crentes já possuíssem a centelha antes da conversão. * A graça aparece como uma natureza nova, embora ainda chamada natureza. * Segundo Irineu, na morte do crente a centelha retorna ao que tem a mesma natureza que ela. * Os outros elementos da pessoa dissolvem-se nos elementos dos quais vieram. * A centelha parece estabelecer-se firmemente na alma e permanecer até a morte. * A pessoa parece incapaz de perdê-la enquanto vive. * A centelha que habita a alma e sobe sozinha ao mundo divino aproxima Saturnilo do Livro da Sabedoria. * A graça que se torna natureza no salvo recorda 1 João 3,9: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado; pois a natureza de Deus permanece nele, e ele não pode pecar porque nasceu de Deus”. * O nascido de Deus, em João, é quem recebeu a graça do segundo nascimento, o nascimento do alto, isto é, quem tem fé. * O dom recebido do alto permanece e não parece poder ser perdido. * A situação é comparável ao despertar budista entendido como estado do qual já não se cai. * A centelha de Saturnilo aproxima-se mais de João do que do Livro da Sabedoria. * No Livro da Sabedoria, a centelha não está ligada à fé. * No Livro da Sabedoria, a centelha não precisa necessariamente vir do alto. * As almas dos justos tornam-se centelhas porque viveram sabiamente e em justiça. * Deus as recompensa elevando-as até si. * Em Saturnilo, como em João, nada sobe ao céu sem antes ter descido dele. * A centelha não é a alma natural comum a todos nem um elemento sobrenatural anterior à fé. * A centelha é o dom do Espírito, a graça que torna a fé possível. * A diferença específica de Saturnilo é que a graça se parece mais com uma nova essência dada uma vez por todas à alma. * Algo semelhante pode ser dito do dom sobrenatural recebido pela alma “nascida de Deus” em 1 João. * Basilides confirma a tendência gnóstica de descrever a fé como uma espécie de natureza, sem reduzi-la à natureza empírica. * Basilides foi discípulo de Menandro. * O Basilides de Irineu e Clemente não deve ser confundido com o Basilides do Elenchos de Hipólito, provavelmente um basilidiano posterior. * Basilides não parece ter falado da centelha. * Clemente de Alexandria o censura por apresentar a fé como natureza. * Segundo Clemente, para Basilides Deus é conhecido “por natureza”, physei. * A fé própria dos eleitos aproxima-se de uma essência, ousia, e não de uma liberdade ou capacidade, exousia. * Essa fé é chamada natureza, physis, hipóstase, hypostasis, e “beleza infinita de uma posse insuperável”. * Ela não aparece como “assentimento racional de uma alma livre”, conforme Stromata 5,3,2. * A natureza que conhece Deus dificilmente é a natureza empírica e imediata. * Os basilidianos dizem que a eleição é “estrangeira ao mundo”, conforme Stromata 4,165,3. * Conhecer Deus por natureza pode significar conhecer pela nova natureza recebida com a fé. * Também pode significar uma conformidade com a natureza essencial da alma, entendida como essência mais antiga na predestinação divina. * Em Basilides, a alma é complexa e deve ser libertada de paixões parasitárias sem que isso elimine responsabilidade. * Langerbeck observa que, para Basilides, a alma não é simples. * Os basilidianos consideravam as paixões elementos estranhos à alma, prosartemata, pesos que se agarram a ela. * Essas paixões disfarçam a natureza propriamente humana sob aparência animal, vegetal ou mineral. * Isidoro, filho ou principal discípulo de Basilides, fala de uma alma adventícia ou parasitária, como segunda vida. * O termo prosphyes vem de Platão. * Em Platão, a alma é complexa e misturada, como se vê no Fédon, na República e no Timeu. * O corpo não é exterior à alma, mas está nela como um de seus elementos. * A servidão da alma vem do corpo, mas não funciona como coerção externa, pois a alma dominada pelo corpo pensa desejar aquilo que o corpo deseja. * As paixões basilidianas recordam a comparação platônica da alma com Glauco marinho, figura coberta de algas e conchas em República 611c—d. * Essa concepção platônica não elimina a responsabilidade. * Isidoro ensina que as pessoas devem dominar suas paixões e são responsáveis por seus atos. * Os basilidianos distinguem faltas voluntárias e involuntárias, admitindo até uma vontade de mal. * Basilides não é inteiramente platônico nesse ponto, pois para Platão a transgressão parece sempre involuntária. * A base de Isidoro parece estar em uma passagem da Epístola aos Hebreus. * Se a fé liberta a alma das paixões parasitárias, a alma que possui fé deve ser livre. * Gálatas 5,1 afirma: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. * Langerbeck mostra que Basilides se apoia mais no Novo Testamento, sobretudo em Paulo e na Epístola aos Hebreus, do que na filosofia grega. * Romanos 7,15 afirma energicamente a ideia de uma alma complexa que quer e não quer ao mesmo tempo. * A alma pode ser salva por sua natureza mais autêntica sem ser salva naturalmente. * A verdadeira natureza precisa ser libertada da natureza inferior. * Em Basilides, essa libertação vem da eleição divina que concede fé. * A relação platônica da alma com o divino não significa que a alma possa libertar-se sozinha. * Em República 492e—493a, Platão admite que, na condição humana, quem se salva deve sua salvação a um destino concedido por um deus. * Como cristão e seguidor de Paulo, Basilides entende que se é salvo pela fé. * Essa fé depende da eleição divina. * A existência de uma partícula divina oculta na alma antes da libertação permanece incerta em Basilides. * Basilidianos contemporâneos de Clemente de Alexandria concebiam a eleição como elemento incorporado à natureza, emphytos, garantindo a salvação independentemente dos atos. * Clemente os censura por não serem fiéis ao pensamento de seus mestres. * Clemente afirma que, para os basilidianos, há fé e eleição próprias de cada nível, diastema. * O dom da fé é proporcional à esperança de cada um, conforme Stromata 2,10,3. * Os basilidianos parecem ter distinguido classes de pessoas, como os valentininianos. * É possível que, no tempo de Clemente, tenham adotado ideias valentininianas. * Desde meados do segundo século, o valentinianismo parece estar presente em quase todas as escolas gnósticas. * Mesmo que a ideia venha de Basilides, ela não exige admitir uma predestinação substancial já presente na alma. * Carpócrates e os carpocratianos apresentam concepções contraditórias sobre liberdade e origem da alma. * Segundo Irineu 1,25,1, Jesus teria sido inicialmente um homem como os outros. * Jesus possuiria alma forte e pura, lembrando melhor que os demais o que vira antes do nascimento na esfera divina. * Carpócrates utiliza o mito platônico do Fedro nessa descrição de Jesus. * Um poder, virtus, teria sido dado a Jesus do alto, mas porque ele já sabia recordar o que vira e elevar-se acima dos costumes judaicos. * Alguns carpocratianos afirmavam que todos os que fizessem o que a alma de Jesus fez poderiam realizar as mesmas obras e obras ainda maiores. * A ideia parece apoiar-se em João 14,12: “Quem crê em mim também fará as obras que eu faço; e fará obras maiores do que estas”. * Em Irineu 1,25,2, porém, a salvação parece depender da origem da alma. * As almas capazes de fazer o mesmo que Jesus descem da mesma esfera e retornam ao mesmo lugar. * No início, parecia que todas as almas tinham estado na esfera divina, diferindo apenas pela pureza e firmeza da lembrança. * Depois, parece que apenas os que desprezam os criadores do mundo descem da esfera divina. * Permanece incerto o pensamento carpocratiano sobre a liberdade humana. * Marcião rejeita a ideia de qualquer elemento transcendente na alma antes da conversão. * Para Marcião, a salvação é inteiramente graça, e a graça é inteiramente livre. * Ele certamente acreditava na predestinação por querer ser discípulo de Paulo. * Essa predestinação não poderia resultar de uma natureza sobrenatural anterior à conversão em algumas almas. * A alma sem fé é provavelmente totalmente estranha a Deus. * Deus entra no mundo e na alma como estrangeiro. * Cristo é o Estrangeiro que veio ao mundo do Demiurgo. * Antes de Cristo, homens e mulheres não parecem ter tido comunidade de natureza com ele. **3. Predestinação nos valentininianos** * A predestinação substancial parece surgir no gnosticismo sobretudo com Valentino e a distinção valentininiana entre três naturezas. * A natureza pneumática ou espiritual pertence aos que têm conhecimento e foram semeados no mundo por Deus, por Cristo ou pelo Espírito. * A natureza psíquica pertence aos que não possuem conhecimento, mas ao menos têm fé. * A natureza psíquica é caracterizada pela alma insuflada em Adão pelo Demiurgo. * A natureza hílica ou material corresponde ao nível material. * Os heresiólogos apresentam essas naturezas como pertencentes a pessoas diferentes. * Segundo essa leitura, os espirituais seriam necessariamente salvos, quaisquer que fossem seus atos. * Os psíquicos teriam livre-arbítrio e poderiam ser salvos ou não conforme escolhas e atos. * A salvação dos psíquicos não seria entrada no Pleroma. * Os materiais seriam incapazes de receber conhecimento ou fé e, portanto, incapazes de salvação. * A tripartição das pessoas não aparece claramente nos fragmentos preservados de Valentino nem no Evangelho da Verdade. * Os fragmentos de Valentino são raros e breves. * Um fragmento pode dirigir-se aos espirituais, mas também pode dirigir-se aos cristãos em geral. * O Evangelho da Verdade é uma obra valentininiana conhecida por tradução copta. * Quando descoberto, foi considerado possivelmente obra do próprio Valentino. * A hipótese raramente é aceita hoje, mas não é impossível. * A obra possui inspiração e eloquência diferentes da escolástica valentininiana comum. * No Evangelho da Verdade aparecem os hílicos, estranhos ao Salvador e incapazes de reconhecê-lo. * Esses hílicos provavelmente são as “obras do Esquecimento” em 21,34—22,2. * Também aparecem os “perfeitos”, que possuem algo de cima, estão no Pai e têm o Pai neles. * Esses perfeitos parecem ser os semeados pelo Pai. * Não se afirma que os primeiros estejam sempre perdidos nem que os segundos estejam sempre salvos. * Os hílicos serão destruídos com o Esquecimento se permanecerem ignorantes até o fim, o que implica possibilidade de conversão. * Os perfeitos precisam ser formados, assim como os próprios eons eternos devem ser formados. * Os perfeitos devem vigiar, quebrar velhos vasos, tornar a casa santa e silenciosa, falar da verdade, ajudar os doentes, alimentar os famintos e aliviar os cansados. * Também devem não voltar às antigas faltas nem retomar o que rejeitaram. * Isso implica que os perfeitos ainda podem pecar e talvez perder-se. * As naturezas são reconhecidas pelos frutos. * Há eleição e predestinação no Evangelho da Verdade, mas a existência prévia dos predestinados está apenas na vontade e presciência de Deus. * Não há menção clara aos psíquicos. * O Tratado sobre a Ressurreição afirma eleição e predestinação, mas sem ensinar uma substância sobrenatural na alma anterior à fé. * O tratado talvez também possa remontar a Valentino. * Afirma-se nele: “Por isso fomos eleitos para salvação e redenção, pois fomos predestinados desde o princípio a não cair na loucura dos que não têm conhecimento” em 46,24—29. * O “nós” refere-se aos que conheceram a verdade, possivelmente todos os cristãos. * Como em Paulo, há eleição e predestinação dos cristãos. * Não há menção aos psíquicos. * A fé é equivalente ao conhecimento ao longo da obra. * Não se afirma que antes da fé ou do conhecimento houvesse elemento sobrenatural na alma de alguns. * A predestinação está em Deus. * O tratado inspira confiança forte nos crentes ao mostrar que seu destino sobrenatural corresponde à sua natureza interior. * Conhecer-se orientado à ressurreição, já ressuscitado de certo modo e pertencente a outro mundo, é “conhecer-se de novo como se era no princípio” em 49,35—36. * Quem conhece assim sua natureza interior foi iluminado por Cristo. * Não é certo que essa natureza sobrenatural exista oculta em quem ainda não foi iluminado. * Pelo Evangelho da Verdade, a eleição divina causa a salvação e a natureza original que coincide com a salvação do salvo. * A eleição produz a pessoa como ser sobrenatural. * O ser sobrenatural dos cristãos foi encontrado acima deles, não inicialmente dentro deles. * Esse ser é comparável aos anjos que, segundo Valentino, o Salvador trouxe para reuni-los aos humanos de quem eram o eu original. * Até essa reunião, as pessoas estavam separadas de sua verdadeira essência. * As obras que talvez remontem a Valentino apresentam um valentinianismo menos rígido que o denunciado pelos heresiólogos. * O mito valentininiano não aparece explicitamente nelas em primeiro plano. * Não parece haver nelas distinção necessária entre três tipos de pessoas. * Não é certo que ensinem a presença de um elemento sobrenatural garantidor da salvação antes da fé ou do conhecimento. * Quispel considera que, para os valentininianos, o verdadeiro eu do gnóstico, sua parte espiritual, é graça. * Tertuliano afirma em Adversus Valentinianos 29: “Spiritalem... de obvenientia superducunt jam non naturam sed indulgentiam”. * Quispel considera que a especulação sobre os psíquicos não existiu no valentinianismo oriental, mas apenas no ocidental. * Talvez o próprio Valentino, enquanto membro da Grande Igreja, considerasse espirituais os cristãos dessa Igreja. * Em certo momento, Valentino teria admitido apenas a distinção entre espirituais e materiais, ou entre espirituais e psíquicos em sentido paulino. * 1 Coríntios 2,14—15 distingue espirituais e psíquicos. * A tripartição da humanidade provavelmente pertenceu a Valentino em algum momento, pois foi ensinada por discípulos imediatos como Heracleão e Ptolomeu. * Quispel admite que Valentino a ensinou depois de romper com a Igreja. * Os psíquicos são claramente os homens e mulheres da Grande Igreja. * Para compreender os psíquicos, é preciso observar o ensino que Valentino e os valentininianos atribuem às pessoas da Grande Igreja. * A atribuição de livre-arbítrio aos psíquicos não significa negação do livre-arbítrio aos espirituais. * O livre-arbítrio aparece como meio de salvação dos psíquicos porque, segundo os valentininianos, eles mesmos põem sua esperança nos atos. * A descrição do destino dos psíquicos parece retratar aquilo que os valentininianos pensam que os membros da Grande Igreja pensam sobre sua salvação. * Para os valentininianos, esses cristãos colocam a salvação sobretudo nas obras e supõem realizá-la por livre-arbítrio. * Para os valentininianos, a salvação vem pela graça e pelo conhecimento ou fé cujo objeto é Cristo. * Valentino quis ser discípulo de Paulo, para quem as obras não bastam à salvação. * Isso não significa que Paulo negue o livre-arbítrio do cristão ou permita qualquer ato. * O mesmo provavelmente valia para os valentininianos. * A crítica valentininiana aos psíquicos reflete a acusação de que a Grande Igreja permaneceu próxima demais do judaísmo e da Lei. * A ênfase nas obras fazia os cristãos da Grande Igreja parecerem presos à religião da Lei. * São chamados psíquicos porque teriam a alma dada a Adão pelo Demiurgo, não o Espírito trazido por Cristo. * Os valentininianos julgavam que a Igreja de Roma permanecera próxima demais do judaísmo. * Também julgavam que ela não compreendia o que era próprio do cristianismo. * Os psíquicos podem alcançar certa salvação pelo caminho das obras e da obediência a regras. * Essa salvação corresponde ao “repouso” prometido aos justos no Antigo Testamento. * Ela não é união com Deus. * Ela deixa a alma à porta do mundo da verdade. * A salvação dos psíquicos por ações meritórias é descrita como crença deles próprios, não como doutrina cristã valentininiana. * Os valentininianos não creem que a simples observância exterior de regras seja o ensino próprio do cristianismo. * Não se pensa que apenas os psíquicos devam praticar ações meritórias. * Os espirituais verdadeiros não se apoiam em seu próprio mérito. * Eles sabem que são salvos pela graça e pelo conhecimento cujo objeto é Cristo. * Os espirituais não são privados de livre-arbítrio. * O conhecimento e a transformação interior que ele produz são fonte dos atos pelos quais a liberdade se manifesta. * O resultado é um verdadeiro livre-arbítrio, um livre-arbítrio libertado. * O espiritual valentininiano não é salvo simplesmente por natureza, pois a semente precisa ser formada e a centelha precisa ser reacendida. * O que foi semeado por Deus, pelo Cristo preexistente ou pelo Espírito precisa ser formado. * A centelha no fundo da alma precisa ser revivida ou acesa. * Os Excertos de Teódoto 3,1—2 falam da centelha que deve ser “acesa”. * Quem forma a semente e acende a centelha é o conhecimento trazido pelo Salvador. * Sem esse conhecimento, o espiritual não seria salvo. * A moralidade não é indiferente para os gnósticos, apesar das acusações dos heresiólogos. * Podem ter existido gnósticos licenciosos, pois Epifânio diz ter conhecido alguns. * Obras tardias como Pistis Sophia e o segundo Livro de Jeu contêm advertências contra eles. * Esses casos devem ter sido marginais em relação ao valentinianismo e ao gnosticismo em geral. * A liberdade reivindicada pelos gnósticos mais antigos era liberdade em relação à Lei judaica. * Os hereges das epístolas pastorais criticavam a Lei em Tito 3,9, 1 Timóteo 1,8 e 2 Timóteo 3,16. * Os hereges do Apocalipse 2,14 e 2,20 aceitavam comer carne oferecida aos ídolos. * A “prostituição” censurada provavelmente se refere à idolatria. * Agripa Castor repete essa acusação contra Basilides em Eusébio, História Eclesiástica 4,7,7. * Irineu a repete contra os valentininianos em 1,6,3. * A carne oferecida aos ídolos era carne comum vendida no mercado. * Paulo permitia comê-la, desde que não se escandalizassem cristãos ainda ligados à Lei judaica. * As acusações da Epístola de Judas, retomadas e ampliadas por 2 Pedro, são vagas demais para sustentar conclusão forte. * Judas parece censurar uma vida sem regra e costumes frouxos, mas as epístolas pastorais censuram os hereges pelo oposto em 1 Timóteo 4,3—8. * Carpócrates parece ter ensinado que nenhum ato é bom ou mau em si e que a alma só se liberta após experimentar tudo. * A ideia de que um ato só é bom ou mau conforme as circunstâncias é platônica. * Carpócrates pode ter se inspirado no mito final da República de Platão sobre almas que escolhem mal por falta de experiência. * Irineu duvida que os carpocratianos praticassem o que sua teologia implicava. * Mesmo repudiando regras formais, Carpócrates não era indiferente à moralidade, pois pensava que se é salvo por fé e caridade. * Clemente de Alexandria relata em Stromata 3,5—9 que o filho de Carpócrates, morto aos dezessete anos, defendeu igualdade perfeita e comunhão de bens, inclusive de mulheres. * Esse ensaio juvenil inspirado na República de Platão não expressa necessariamente o pensamento geral dos carpocratianos nem sua prática. * Carpócrates e seu filho são exceções entre os gnósticos da primeira metade do segundo século. * Sinais de deterioração no comportamento e no pensamento de alguns gnósticos aparecem apenas mais tarde. * As práticas denunciadas por Epifânio em Panarion 26,4—5 podem pertencer a indivíduos e não a seitas inteiras. * Os documentos de Nag Hammadi não confirmam as acusações de libertinismo. * Rudolph observa: “É, de todo modo, notável que até agora nenhum escrito libertino tenha aparecido nem mesmo entre os numerosos textos de Nag Hammadi”. * A hostilidade dos heresiólogos e a crítica gnóstica da Lei podem ter produzido a impressão de negligência moral. * Rejeitar a primazia das obras não equivale a rejeitar toda moralidade. * Rudolph afirma ainda que nos textos de Nag Hammadi há grande valorização dos esforços gnósticos pela vida justa e empréstimos da literatura moral e sapiencial contemporânea. * A tese dos Padres da Igreja de que o gnóstico é “salvo por natureza” deve ser tomada cum grano salis. * A Carta a Flora, de Ptolomeu valentininiano, implica moral cristã comum, mais precisamente a moral do Evangelho. * A ética valentininiana e a de muitos gnósticos parecem distinguir-se da moral cristã comum antes por maior severidade. * As contradições gnósticas sobre liberdade mostram que as metáforas de ressurreição, retorno ao eu e desenvolvimento da semente não devem ser interpretadas rigidamente. * Em Valentino e nos valentininianos, conversão como renascimento e ressurreição convive com a ideia de reencontro da verdadeira natureza. * Schenke e Tröger distinguem excessivamente salvação como renascimento, atribuída aos Mistérios antigos, e salvação como retorno ao eu ou desenvolvimento de semente, atribuída aos gnósticos. * As duas ideias parecem contraditórias, pois uma implica mudança total e a outra implica tornar-se o que já se era. * Ambas aparecem entre os gnósticos, especialmente entre os valentininianos. * A ressurreição presente aparece no Tratado sobre a Ressurreição, em Menandro, nos hereges das epístolas pastorais e no testemunho de Tertuliano sobre os valentininianos. * De Praescriptione haereticorum 33 testemunha que os valentininianos se consideravam já ressuscitados. * Os Excertos de Teódoto 7,5 falam de “ressurreição espiritual”. * O relato valentininiano do Códice XI de Nag Hammadi 41,30—38 aplica a ideia ao batismo. * O Evangelho de Filipe apresenta frequentemente essa perspectiva em 56,18—19, 66,16—20, 69,25—26, 73,1—5 e 74,19—20. * A fonte mais decisiva da combinação entre origem divina e novo nascimento está no Evangelho de João. * Os valentininianos não parecem perturbados pela tensão entre ressurreição e semente. * O décimo segundo tratado do Corpus Hermeticum não precisa ser explicado por dependência dos Mistérios pagãos apenas por tratar a conversão como ressurreição. * Tröger teria evitado recorrer aos Mistérios se tivesse considerado o gnosticismo cristão e, sobretudo, o Evangelho de João. * João 17,6 afirma que os que creem em Cristo pertencem a Deus antes de serem dados por Deus a Cristo. * João 3,3 afirma que ninguém verá o Reino se não nascer de novo. * João não procura harmonizar as imagens, assim como os valentininianos não o fazem. * Não se deve opor simplesmente a antropologia paulina à antropologia gnóstica. * Há uma antropologia gnóstica muito diferente da paulina. * Há também uma antropologia gnóstica simplesmente paulina. * Essa antropologia afirma que nada há de divino na humanidade em seu estado atual, separada de sua verdadeira essência, antes de receber o Espírito de Cristo. * Para todos, a recepção desse Espírito significa mudança absoluta. * Essas duas antropologias aparecem juntas nas mesmas obras, não em ramos separados do gnosticismo. * A distinção entre psíquicos, espirituais e materiais não pode ser fundada rigidamente em diferentes relações com liberdade e mudança. * Os psíquicos mudam, pois os Excertos de Teódoto 57,1 falam de metathesis na conversão. * Os espirituais também mudam, pois passam por ressurreição. * Os materiais também podem mudar no Evangelho da Verdade, pois sua conversão parece possível. * No Tratado Tripartido, os psíquicos parecem tão determinados por sua natureza quanto materiais e espirituais. * Conforme sua origem, convertem-se ou não, segundo 120,22—122,12 e 131,22—132,3. * No fundo, há duas classes de psíquicos: uma em situação semelhante à dos espirituais quanto à predestinação, outra em situação semelhante à dos materiais. * Os gnósticos tendem a apresentar a escolha atual como consequência de uma escolha anterior, metafísica, remontando a Deus e ao divino. * Isso não elimina a escolha na vida presente. * A predestinação pode ser elemento de todos os atos, e não apenas dos atos de certas pessoas. * A liberdade pode ser elemento de todo ato, tanto do espiritual e do material quanto do psíquico. * O Evangelho da Verdade e o Evangelho de Filipe mostram que espirituais podem perder-se e hílicos podem converter-se. * No Evangelho da Verdade, os espirituais podem retornar à vida má que rejeitaram. * No mesmo Evangelho, os hílicos parecem poder converter-se. * No Evangelho de Filipe 52,15—18, quem encontrou a Vida corre o risco de morrer, isto é, de morrer na alma. * Quem está na ignorância não pode morrer, pois nunca viveu. * Assim, o espiritual não está necessariamente salvo. * O Evangelho de Filipe 53,3—14 afirma que Cristo salva não apenas os bons, mas também os maus, não apenas os seus, mas também os estrangeiros. * Essa afirmação se opõe à predestinação substancial. * A salvação é graça, pois Cristo salva sem referência ao passado. * Ao mesmo tempo, a boa conduta parece condição da intervenção sobrenatural. * Em Evangelho de Filipe 78,33—79,5 lê-se: “Se te tornares espírito, é o espírito que se unirá a ti. Se te tornares pensamento, é o pensamento que se misturará contigo. Se te tornares luz, é a luz que participará contigo. Se te tornares um daqueles que pertencem ao alto, são aqueles que pertencem ao alto que repousarão em ti”. * Em João 1,12 e 12,36, pode-se tornar filho de Deus ou filho da luz. * No Evangelho de Filipe 75,11—13, pode-se “tornar-se filho” de Deus. * No Evangelho de Filipe 86,4—5, tornar-se filho de Deus equivale a tornar-se “filho da câmara nupcial”. * O Evangelho de Filipe 86,6—7 afirma que isso deve acontecer na vida presente, não antes nem depois dela. * Em um sentido, a pessoa talvez seja espiritual originalmente; em outro, torna-se espiritual durante esta vida. * O Evangelho de Filipe mantém ambiguidade sobre predestinação substancial e liberdade. * O conhecimento dá liberdade. * O livre não peca, conforme Evangelho de Filipe 77,15—18. * Essa afirmação pode significar que os atos do livre jamais são considerados pecados. * Também pode significar que, se alguém peca, não era verdadeiramente livre. * Em Evangelho de Filipe 56,34—57,3, o que herda o Reino não é o que vem de nós, mas o que vem de Jesus e de seu sangue. * Os libertos não retomam sua própria natureza no outro mundo, mas a de Cristo. * A parte salva da pessoa é a que pertence a Cristo. * Heracleão não entende as naturezas como destino fixo das almas antes dos atos. * B. Aland mostra que as naturezas em Heracleão não significam destinação originária de salvação ou perdição independentemente dos atos. * Os espirituais propriamente ditos não existem antes da vinda de Cristo. * Antes de encontrar o Salvador, eles são pecadores como os demais e estariam perdidos com eles. * Cristo veio salvar o Espírito enterrado no mundo. * Esse Espírito parece ter sido dado a toda a humanidade na pessoa do primeiro homem. * O que distingue os espirituais é a prontidão e a inteireza com que respondem ao chamado de Cristo. * Também os distingue a compreensão plena do sentido desse chamado. * Os psíquicos, em sentido estrito, tampouco existem antes da vinda de Cristo. * Em sentido geral, todos eram psíquicos antes da vinda de Cristo. * Em sentido restrito, alguns se tornam psíquicos após encontrar Cristo quando hesitam e não compreendem plenamente sua vinda. * Os psíquicos em sentido geral podem tornar-se espirituais ou psíquicos em sentido restrito. * Os que se tornam espirituais não o fazem necessariamente em virtude de uma semente originalmente neles estabelecida. * Heracleão diz sobre almas convertidas a Cristo na cidade da Samaria: “Alguns são semeados no campo”. * O termo “semeados” é aplicado pelos valentininianos aos espirituais. * Os hílicos são semelhantes àqueles a quem Cristo diz em João 8,37: “Minha palavra não encontra lugar em vós”. * Eles não ouvem a mensagem salvadora porque creem já possuir salvação. * Sua exclusão da Vida é, em parte, culpa própria. * Em outro sentido, para Heracleão, eles são da natureza do diabo, que não tem verdadeira vontade, mas apenas desejos. * Para Heracleão e a tradição valentininiana, o mal é ignorância, erro e ausência de luz, não uma realidade positiva. * B. Aland observa que o mal é assimilado à matéria surda e cega, que não existe positivamente. * O material não morre porque nunca existiu. * Essa concepção aproxima-se muito do neoplatonismo. * Langerbeck já havia destacado que, para Heracleão, o diabo não tem vontade. * Essa posição mostra quanto Heracleão é platônico. * Para Platão, não há má vontade: só se pode querer o bem. * O que causa o mal é cego ou constrangido por algo mais forte. * Paulo parece pensar de modo semelhante ao dizer: “Não faço o que quero”. * Surge uma distinção entre movimentos da alma que procedem da própria alma e movimentos que procedem de causa estranha. * Para os platônicos, essa causa estranha não é outra vontade, como a de um diabo, mas uma natureza inconsciente ou matéria. * A matéria pode desejar no sentido de tender a algo, mas não pode querer. * O mal radical, consciente e voluntário, não existe nessa perspectiva. * A matéria não sabe o que faz e não o quer. * O que provoca o mal existe necessariamente no mundo e em nós, pois mundo e corpo são feitos de matéria. * Essa concepção é indulgente e calma, pois não se guarda rancor da matéria. * Ao mesmo tempo, ela reconhece o poder formidável do que conduz ao mal se não for reconhecido e governado. * Para Orígenes, porém, o diabo é livre e quer. * Em Orígenes, os demônios são pessoas, inclusive na alma humana. * Isso lhes atribui a força da inteligência e da astúcia, embora seu poder seja mais remoto e limitado. * Langerbeck observa que há mais mitologia em Orígenes do que em Heracleão, pois em Orígenes os demônios são figuras pessoais. * A presença de uma natureza inferior não implica predestinação necessária ao mal nem salvação independente dos atos. * Quem foi vencido uma vez pela natureza inferior pode vencê-la em outro momento. * A natureza superior não predestina à salvação sem relação com atos efetivamente praticados. * Um fragmento de Heracleão citado por Clemente de Alexandria mostra que fé ou gnose não se separa dos atos da vida. * Heracleão distingue o testemunho verbal da fé e o testemunho dado pela vida e pelos atos. * Somente o testemunho da vida e dos atos é certamente verdadeiro. * Os valentininianos não reservavam a fé apenas aos psíquicos. * Os espirituais não são salvos “por natureza” independentemente dos atos. * A expressão “salvo por natureza” deve ser entendida em sentido normativo, não como posse empírica de uma substância salvífica. * Langerbeck mostra que “natureza” pode designar a natureza ideal. * Essa natureza ideal é a verdadeira natureza da humanidade, vinculada ao mundo de cima. * Pode ser chamada parte eterna da alma. * Os valentininianos mostram que a alma está separada dessa parte de si. * A reunião só acontece em Cristo e por Cristo. * O mito dos anjos que descem com o Salvador significa que ele traz consigo a parte celeste de cada alma. * As almas não são salvas por uma natureza que possuem de fato em si mesmas. * São salvas por uma natureza que lhes pertence de direito, mas que de fato está acima delas. * Os gnósticos não negam simplesmente responsabilidade e unidade da alma, embora rejeitem a simplicidade abstrata pressuposta pelos Padres. * Os Padres da Igreja tendem a conceber a alma como ponto simples do qual derivam decisões. * Em certo sentido, é preciso admitir um ponto central e uma vontade única, pois os seres humanos são responsáveis. * O pensamento também exige unidade. * Os gnósticos não parecem negar responsabilidade nem unidade. * Isidoro, filho de Basilides, rejeita a desculpa de que alguém fez o que não queria. * A Epístola Apócrifa de Tiago, talvez valentininiana, afirma claramente liberdade e responsabilidade. * Nesse texto, Deus favorece os que sofreram perseguição “por livre escolha”, proairesis, em 5,1—6. * Cristo diz a Pedro e Tiago: “Ai de vós que necessitais de graça! Felizes os que falaram abertamente e obtiveram graça para si mesmos” em 11,11—17. * Cristo também lhes diz que ninguém mata a alma, mas a alma mata a si mesma em 12,8. * No Evangelho de Maria, Pedro pergunta ao Salvador: “Qual é o pecado do mundo?”. * O Salvador responde em BG 7,13—16: “Não há pecado do mundo, mas sois vós que pecais quando cometeis atos adúlteros”. * Há responsabilidade e unidade da alma. * Contudo, a alma não é um ponto simples, pois nela há elementos que a prendem naturalmente ao corpo e às potências do mundo. * A queda no mal não é completamente análoga à aspiração ao bem. * Essas afirmações contradizem textos nos quais a graça é fundamental e o mundo escraviza a alma. * As contradições devem ser consideradas, não simplificadas falsamente. **4. A centelha dada a Adão** * Um mito gnóstico difundido afirma que uma centelha de vida ou semente do Espírito foi dada ao primeiro homem no princípio. * Adão, criado pelo Demiurgo ou pelos anjos, não poderia manter-se de pé sem essa centelha ou semente. * Esse mito já aparece em Saturnilo, se se admitir que a centelha se refere ao primeiro homem. * Há dificuldade nessa leitura porque Saturnilo ensina que a centelha está nos crentes. * Se a centelha está nos crentes, é difícil atribuí-la a um homem anterior à vinda de Cristo. * “Manter-se de pé” pode ter sentido figurado em Saturnilo. * Se a expressão fosse literal, todos teriam a centelha de vida, e não apenas os crentes. * Outros gnósticos parecem afirmar que Adão recebeu uma iluminação do alto. * Segundo um fragmento de Valentino, Adão foi criado pelos anjos. * Sem que os anjos soubessem, Adão recebeu um germe ou semente da essência de cima. * Os criadores de Adão ficaram apavorados quando o ouviram falar e compreenderam que havia nele algo que não tinham posto ali. * A centelha dada a Adão parece ter sido perdida ou impedida de transmitir-se a todos os seus descendentes. * Seria esperado que a centelha fosse transmitida aos descendentes de Adão. * Os valentininianos não parecem pensar assim, mesmo sem interpretar rigidamente a doutrina das três classes de pessoas. * A centelha deve ter sido perdida em certos casos ou não ter entrado em todos os seres humanos. * No fragmento de Valentino, a centelha pode ter sido perdida por Adão e seus descendentes. * Ao perceberem algo superior a eles em Adão, os anjos danificaram, estragaram ou desfiguraram sua obra. * Ephanisan deve ser traduzido como danificar ou desfigurar, não matar. * Em Valentino, há uma espécie de queda ou degradação de Adão, provocada pela inveja de seus criadores. * O mito de Saturnilo talvez deva ser entendido assim. * A centelha provavelmente foi dada ao primeiro homem, mas Adão a perdeu quase imediatamente. * Ela reapareceu muito depois, nos que foram iluminados por Cristo e creram nele. * O Apócrifo de João também apresenta iluminações sucessivas de Adão, mas o dom divino acaba ameaçado e perdido. * Adão é elevado, instruído e libertado sempre que os Arcontes tentam humilhar ou aprisionar sua alma. * Os Arcontes e o Demiurgo conseguem fazer os primeiros humanos esquecerem seu verdadeiro objetivo. * Eles esquecem o lugar onde se encontra sua perfeição. * A partir daí, permanecem nas trevas, conforme BG 61,16—62; CG II,24,4—8; CG III,31,2—5; CG IV,37,11—17. * No Apocalipse de Adão, obra do mesmo ambiente do Apócrifo de João, Adão narra a Seth e a Eva o conhecimento verdadeiro que possuía antes. * Esse conhecimento aparece em 64,24—28 e 65,9—13. * A figura de Seth não implica uma raça espiritual biológica dotada de centelha desde o início da humanidade. * Para os valentininianos, Seth difere muito de seus dois irmãos. * Seth é símbolo e protótipo dos espirituais. * Para os sethianos, como os autores do Apócrifo de João e do Apocalipse de Adão, Seth é também pai dos salvos. * A expressão “raça de Seth” designa a raça salva. * A conclusão de que haveria uma centelha divina desde as primeiras idades da humanidade é provavelmente falsa. * É necessário distinguir o Seth divino do Seth terrestre. * O Seth terrestre pode ter sido pensado como profeta. * Nas Três Estelas de Seth, ele é considerado autor de uma revelação antiga compreendida apenas muito mais tarde. * O Seth divino é o pai da “grande geração”, conforme Apocalipse de Adão 65,5—9 e Zostriano 51,14—16. * O Seth divino não se encarnou no Seth terrestre. * Segundo o Evangelho dos Egípcios CG III,63,4—64,9, o Seth divino encarnou-se em Jesus. * A “raça de Seth” pode ser nome dado aos pneumáticos, isto é, aos cristãos mais autênticos segundo os valentininianos. * O espírito dado no nascimento de Seth parece preparar a futura descida do Espírito Santo, sem garantir salvação desde o início. * O Apócrifo de João contém passagem obscura e variável nas versões BG 63,14—64,13 e paralelos. * Nessa passagem, um “espírito” é enviado pelos seres de cima no nascimento de Seth. * Esse espírito prepara a futura descida do Espírito Santo. * A descida do Espírito Santo ocorrerá somente depois de “certo tempo”. * A futura descida do Espírito Santo é anunciada em todas as versões. * O espírito dado enquanto se espera o Espírito talvez seja o espírito de Sophia, chamado em outros lugares “poder da Mãe”. * Esse poder deve ser a alma, não o Espírito. * Ele pode inclinar-se ao bem ou ao mal, conforme BG 67,4—18 e paralelos. * Langerbeck e B. Aland admitem que todos, antes da vinda do Espírito Santo dado pelo Salvador encarnado, parecem ser psíquicos em sentido geral. * L. Schottroff também observa que o “poder da Mãe” não é salvação nem certeza de salvação. * O simbolismo sethiano liga Seth ao Filho do Homem, mas não transforma os espirituais em raça biológica. * Seth, por ser filho de Adão, isto é, filho do homem, é imagem ou semelhança do Filho do Homem. * Adão significa homem. * O Filho do Homem é o Filho divino do Adão divino, Adamas. * Adamas é análogo ao eon valentininiano Homem. * O Filho do Homem é eterno e preexiste ao Seth terrestre. * O Apocalipse de Adão 65,5—9 confirma essa preexistência. * Depois de ser simbolizado por Seth, o Filho do Homem encarna-se em Jesus, o Filho do homem dos Evangelhos. * Os espirituais não são raça em sentido biológico. * A centelha não foi transmitida fisicamente aos descendentes de Seth nem a todos os descendentes de Adão. * Pelo Espírito, os espirituais são filhos do Filho do Homem encarnado em Jesus. * Para os valentininianos, o espírito presente nos espirituais é graça e não natureza. * Conforme Tertuliano, Adversus Valentinianos 29, trata-se do espírito de graça trazido ao mundo pela revelação da cruz de Cristo. **5. Uma certa ideia de liberdade** * O gnosticismo insiste especialmente nos elementos cristãos da graça, eleição e predestinação. * A humanidade às vezes é incapaz de dominar as partes inferiores de sua natureza. * A humanidade não pode sempre libertar-se por si mesma. * Para elevar-se acima dessa natureza e romper com ela, é necessário um libertador vindo de um mundo completamente separado. * A ideia básica do gnosticismo não é que a humanidade seja divina por natureza. * A ideia básica é que a humanidade é naturalmente pecadora e escrava das grandes leis que governam o mundo. * A humanidade é escrava das Potências. * Essas Potências aprisionam também dentro da alma e são perigosas porque assumem aparência de liberdade. * Como essas Potências não são sentidas como escravizantes, é necessário um chamado que desperte da escravidão. * Esse chamado é tão contrário às forças da natureza que só é ouvido quando preparado por uma espécie de chamado anterior. * A eleição e a predestinação preparam antecipadamente a recepção do chamado. * Langerbeck afirma: “Predestinação e o problema da fé não são apenas um tema gnóstico, mas o tema fundamental do gnosticismo”. * As ideias de graça, eleição e predestinação pertencem também ao cristianismo, embora hoje frequentemente provoquem desconfiança. * Essas ideias agitaram o mundo cristão na Reforma. * Voltaram a preocupar os cristãos franceses no tempo do jansenismo. * Hoje parecem ter perdido interesse para muitos cristãos. * Quando consideradas, costumam provocar suspeita, irritação e escândalo. * Parecem ofender a liberdade humana e a igualdade de todos. * Surge a pergunta sobre por que deve haver eleitos. * Surge a pergunta sobre por que haveria predestinação diferente para uns e outros. * Surge a pergunta sobre por que a graça livre e recebida sem mérito pareceria acaso e não justiça. * Lucas 2,14 afirma: “Paz aos homens de boa vontade”. * A interpretação segundo a qual se trata dos que são objetos da boa vontade divina também revolta muitos. * A eleição em Paulo e João nasce da consciência da indignidade humana diante da transcendência absoluta de Deus. * Paulo e João são cristãos e ensinam eleição ou predestinação dos que têm fé ou conhecimento. * O santo, persuadido da própria indignidade, pode desesperar da salvação. * O abismo que o separa de Deus só pode ser atravessado por Deus. * Essa é a ideia de transcendência absoluta. * Talvez seja isso que se chama “dualismo gnóstico”. * A dificuldade da moral cristã conduz a alma exigente à esperança da graça transformadora. * Cristo interioriza a Lei, mostrando que a verdadeira obediência está na disposição interior, na boa vontade e na bondade. * Essa interiorização não torna a moral mais fácil, mas mais difícil. * Uma ação pode ser forçada, mas uma disposição interior não pode sê-lo. * O amor não pode ser forçado. * Mateus 12,33—35 afirma: “Ou fazei a árvore boa e seu fruto será bom; ou fazei a árvore má e seu fruto será mau... Como podeis falar coisas boas, sendo maus? O homem bom tira coisas boas de seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más de seu mau tesouro”. * A parábola do semeador mostra que a boa semente não basta, pois também é necessária boa terra. * A parábola das virgens prudentes mostra que as reservas devem estar prontas. * Também se aplica o dito: “Àquele que tem será dado”. * É preciso estar preparado desde muito antes. * Mesmo quem se prepara não pode responder plenamente pelo que é ou será diante daquele que “vê em segredo”. * O santo só pode conceber o juízo de Deus sobre si como condenação. * Sua esperança é que Deus seja gracioso, transforme a natureza por auxílio eficaz ou a cubra com sua própria bondade como véu. * Para Paulo, a fé na cruz é essa graça que transforma a humanidade ou vela seu envolvimento em um mundo condenado. * A ignorância e a inconsciência do mal tornam necessária a graça e, com ela, um Salvador. * A ideia de que os que fazem o mal não sabem o que fazem é platônica e cristã. * A oração “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” expressa essa ideia. * Nos primeiros capítulos da Epístola aos Romanos, Paulo quer convencer judeus e gregos de que são pecadores e precisam de graça. * As pessoas querem fazer o bem e pensam fazê-lo, mas não percebem seu pecado. * Os judeus confiam na Lei, mas a Lei não os impede de serem pecadores como os demais. * O pecado reina nos corpos mortais e mantém a alma cativa. * No Evangelho de João, os inimigos de Cristo não percebem que desejam matá-lo em 7,19—20, 7,25 e 8,37. * Eles não aceitam que são escravos e creem ser livres em 8,32—36. * O ponto inicial para compreender a graça e o Salvador é reconhecer que os seres humanos nem sempre sabem o que fazem. * Eles estão muitas vezes adormecidos ou em sonho e precisam ser despertados. * O gnosticismo, o platonismo e o cristianismo partem da ideia de que a humanidade natural está nas trevas e precisa ser guiada por uma luz superior. * A humanidade começa errando. * Ela precisa pensar e buscar por si mesma. * Também precisa ser guiada por uma luz vinda de um sábio como Sócrates ou de um auxílio divino. * O erro humano atinge o ponto mais importante: o bem e o mal. * A serpente em Gênesis prometeu conhecimento, mas não o deu à humanidade ou deu apenas uma parte mínima. * A humanidade deseja o bem, mas talvez nunca saiba reconhecê-lo com segurança. * O bem é substituído pelo dever, porque o dever parece mais fácil de conhecer. * A moral do dever é moral provisória, semelhante à de Descartes. * O dever também está longe de ser claro. * Kant quase só pode citar um exemplo universalmente válido de imperativo categórico: não mentir. * Esse exemplo é duvidoso, como mostrou Schopenhauer, pois há casos em que mentir pode ser um dever. * Para conhecer o dever, há máximas prudenciais como seguir as leis e costumes do país ou obedecer a uma resolução tomada de uma vez por todas. * Essas máximas são apenas indicações e não possuem valor absoluto. * O mal também nem sempre é reconhecido como mal, de modo que o despertar por outro se torna necessário. * Parece mais fácil reconhecer o mal do que o bem. * Contudo, o mal nem sempre é sentido como mal. * O daimon de Sócrates não sugeria positivamente ações, mas advertia quando ele estava prestes a fazer algo que acabaria mal. * Não se pode supor que todos tenham sempre esse daimon junto de si. * Se todos o tivessem, só fariam o mal consciente e voluntariamente. * Platão e Sócrates parecem entender o erro como involuntário. * Há ignorância natural sobre aquilo que mais importa conhecer. * Todos precisam buscar, interrogar-se e despertar a si mesmos. * Talvez todos precisem também, em algum momento, ser despertados por outro. * Um chamado é necessário para quem dorme profundamente. * Esse despertar pode ocorrer no encontro com um sábio como Sócrates. * Também pode ocorrer diante de uma imagem desconcertante, como a do justo na cruz. * A liberdade exige conhecimento, pois escolher às cegas não é verdadeira escolha. * Liberdade é escolher por si mesmo, mesmo quando se escolhe mal. * Contudo, não se escolhe verdadeiramente quando se escolhe de olhos vendados. * Quem tira a venda não constrange, mas liberta. * A ideia de graça contém perigos quando o despertar recebido se transforma em segurança excessiva. * A graça nasce do sentimento de incerteza e de humildade. * Ela pode levar a demasiada segurança. * Quem foi despertado uma vez pode concluir indevidamente que foi despertado para sempre. * O cristão renovado, tendo o Espírito de Cristo ou o próprio Cristo em si, pode imaginar que Cristo pensa e age por ele doravante. * A memória do primeiro despertar deveria lembrar que se pode adormecer novamente. * Glucksmann afirma a necessidade de recordar sempre o “princípio de incerteza”. * A predestinação está ligada à graça, mas torna-se perigosa quando se transforma em predestinação ao mal. * A graça verdadeiramente livre não é condicionada por atos humanos. * Ela só pode ser relacionada a um destino além do tempo. * A predestinação pode ser ainda mais perigosa que a graça. * Não se deve passar da predestinação ao bem para a predestinação ao mal. * Essa passagem é duvidosa e talvez não tenha sido desejada pelos que originaram tais ideias. * A predestinação ao mal é dedução secundária e abstrata. * O que interessa a Paulo e aos gnósticos é a predestinação ao bem. * A predestinação repousa sobre a graça. * A graça é primária e expressa o desejo de relacionar a Deus não apenas o mal, mas também o bem. * Entre os gnósticos quase não há predestinação dos ímpios, e a condenação dos maus costuma ser minimizada. * A predestinação dos maus aparece apenas como consequência da predestinação dos bons. * Os gnósticos não parecem encontrar prazer em imaginá-la. * F.-M. Braun contrapõe um texto de Qumran sobre predestinação dos ímpios e dos justos a uma passagem das Odes de Salomão, em que só a predestinação dos eleitos é mencionada. * O texto de Qumran afirma: “Tu os criaste para o tempo de tua ira, desde o seio de sua mãe os reservaste para o dia da matança”. * O Livro de Tomé, o Contendor é talvez a única obra de Nag Hammadi que descreve com ênfase o destino futuro dos pecadores. * Essa obra é uma das menos gnósticas entre as encontradas em Nag Hammadi. * Os gnósticos costumam parecer embaraçados ao falar da condenação dos malfeitores, ignorantes ou materiais. * Eles reduzem ao máximo o número dos que não serão salvos. * No Apócrifo de João, todos são finalmente salvos, exceto os apóstatas que, tendo recebido conhecimento, recaíram no mal. * Essa exceção remete ao dito evangélico sobre o pecado contra o Espírito Santo. * O Evangelho de Filipe 79,14—18 afirma: “Se alguém é escravo contra sua vontade, pode ser libertado; mas, se alguém que foi libertado pela graça se vende e se torna escravo novamente, nunca mais poderá tornar-se livre”. * Paradoxalmente, apenas os espirituais parecem estar em perigo de condenação. * O Evangelho de Filipe 52,15—18 afirma: “Um gentio não morre, pois nunca viveu para poder morrer. Aquele que creu na verdade encontrou a vida, e este corre o risco de morrer, pois está vivo”. * Os materiais perdidos parecem desaparecer no não-ser como a própria matéria. * Em certo sentido, deixam de existir porque nunca existiram. * A severidade gnóstica contra a apostasia pode derivar da Epístola aos Hebreus e do dito sobre o pecado contra o Espírito Santo. * Hebreus 10,26—31 afirma que, se se peca deliberadamente após receber o conhecimento da verdade, não resta sacrifício pelos pecados, mas terrível expectativa de juízo. * A mesma passagem afirma que quem violava a Lei de Moisés morria sem misericórdia. * Também pergunta quanto maior castigo merecerá quem desprezou o Filho de Deus e ultrajou o Espírito da graça. * O autor de Hebreus talvez tenha sido levado a essa severidade pelo dito sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. * Marcos 3,28—29 e paralelos contêm esse dito. * Talvez Hebreus tenha interpretado mal o pecado contra o Espírito Santo. * A predestinação ao mal deve ser recusada mesmo quando parece consequência lógica da predestinação ao bem. * Se Deus é livre e a predestinação ao bem pode faltar, pareceria haver predestinação ao mal. * Há inferências que não devem ser tiradas. * Em certos casos, o progresso da lógica deve ser interrompido. * Kant mostrou que há antinomias irredutíveis no pensamento humano. * A predestinação pertence a esse domínio de contradições graves. * As ideias de graça e predestinação servem para recompensar, não para condenar. * A predestinação tem apenas uso negativo. * Ela significa que nada no tempo explica a graça, exceto uma decisão de Deus. * Como essa decisão não é determinada pelo tempo, pode ser comparada a um desígnio eterno. * Tudo que não é graça se explica pelo que está no tempo. * O mal vem pelo acaso, e não há verdadeira predestinação ao mal. * A predestinação contradiz a graça quando é interpretada como direito do predestinado à salvação. * Se o predestinado tivesse direito à salvação, a graça já não seria necessária. * R. A. Markus nega que o valentinianismo seja doutrina da graça porque o gnóstico teria uma centelha divina e, portanto, a salvação lhe seria devida. * Essa crítica equivale a dizer que, porque a salvação é inteiramente graça, não há graça. * Também equivale a negar a Deus aquilo que em nós aceita a revelação porque também vem de Deus. * Markus quase afirma que Deus estaria obrigado a salvar o que vem dele. * Isso significaria que Deus estaria obrigado a salvar depois de predestinar. * No campo perigoso da teologia, uma ideia passa facilmente ao seu oposto. * As contradições sobre liberdade no gnosticismo pertencem ao mesmo campo de contradições da mística e da filosofia autênticas. * Simone Weil pensava que tais contradições aparecem em toda mística e filosofia autênticas. * A predestinação parece implicar logicamente predestinação ao mal, mas não pode haver predestinação ao mal. * A predestinação pode abolir a graça, mas esse caminho é interdito porque ela repousa sobre a graça. * A predestinação pode arruinar a moral, mas esse caminho é interdito porque a teologia se funda sobre a moral. * A mística parece opor-se à moral, mas ao mesmo tempo se funda nela. * As contradições derivam de duas ideias necessárias e contraditórias de liberdade. * A obrigação moral só faz sentido se a humanidade é livre. * O pensamento sobre a liberdade já supõe que se é livre para pensar bem ou mal. * Se liberdade significa agir sentindo-se livre, essa capacidade existe quando não há coerção externa. * Se liberdade significa decidir sem ser inconscientemente determinado pela natureza física ou psíquica e pelas circunstâncias, não se pode ter certeza de possuí-la sempre. * Muitas vezes se descobre condicionamento onde se julgava agir ou raciocinar livremente. * A ideia platônica afirma que quem faz o mal não é livre nem age voluntariamente, embora pense agir. * Quem se engana não faz verdadeiramente o que deseja. * A ideia joanina parece igual. * João 8,34 afirma: “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”. * João 8,32 afirma: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. * Foerster reconhece que o gnosticismo é sobretudo uma doutrina da liberdade humana contra as ideias estóica e judaica de livre-arbítrio natural. * No estoicismo e no judaísmo, o livre-arbítrio pertence naturalmente à humanidade e nunca pode ser tirado. * Epicteto afirma: “Não há ladrão do livre-arbítrio”. * O livre-arbítrio de cada um basta para salvar ou perder, conforme a escolha. * Nessa perspectiva, não se precisa de Salvador, pois alguém pode salvar-se a si mesmo. * A Lei moral universal ou a Lei mosaica basta, e cada um é livre para obedecer ou não. * No platonismo e no gnosticismo, não basta sentir-se livre para ser livre. * Não basta desejar ser livre para ser livre. * Não basta pensar que se quer para querer verdadeiramente. * A escravidão pode ocultar-se sob aparência de liberdade. * Para libertar-se de certas faltas, pode ser necessário um despertador como Sócrates. * Também pode ser necessário alguém que chama, como o Salvador dos gnósticos e, antes deles, dos cristãos. * A responsabilidade moral exige pressupor um livre-arbítrio original, mesmo quando se admite escravidão interior. * É preciso admitir algo no escravizado que consentiu na escravidão. * Apesar de Platão, é necessário poder ser livre até no mal, sob pena de desaparecerem responsabilidade e obrigação moral. * Estoicismo e judaísmo acentuam o livre-arbítrio porque se preocupam antes de tudo com a moral. * O mesmo cuidado moral aparece no judeu-cristianismo. * Mesmo modificando a antiga Lei, o judeu-cristianismo continua a enfatizar regras de conduta. * A moral é primária e fundamento de tudo. * Ela é categórica, como afirma Kant. * Se não pode ordenar tudo, ao menos pode proibir certos atos em certas circunstâncias. * O imperativo não teria sentido se não houvesse liberdade para obedecer ou não. * A fórmula “Tu deves, portanto podes” expressa essa exigência. * A moral também exige uma liberdade transcendente, vertical, que supera a simples escolha entre alternativas do mesmo nível. * A liberdade necessária para obedecer ao dever não é apenas escolha entre duas coisas justapostas. * Ela rompe o limite entre sujeito e universal, entre sujeito e aquilo que o supera, entre inferior e superior. * É liberdade de sair de si e subir mais alto. * Trata-se de liberdade transcendental. * A verdadeira liberdade é vertical, não apenas horizontal. * Descartes afirma que a liberdade de indiferença é o nível mais baixo da liberdade. * A liberdade de indiferença talvez nem seja liberdade, pois o menor impulso externo bastaria para decidir. * A escolha deve ser possível, mas não como pura indiferença diante de termos perfeitamente equivalentes. * A liberdade transcendente parece vir de fora do sujeito natural, embora se torne também sua liberdade. * Ela não tem sua fonte no sujeito tal como aparece inicialmente, pois esse sujeito deve ser superado. * Ela liberta do eu original. * Não está sempre presente nem sempre à disposição como instrumento. * Está ligada ao sujeito por direito, como dever, vocação e fim, não necessariamente como fato disponível. * Se dependesse absolutamente da vontade, estaria sempre presente. * Se estivesse unida apenas à vontade, não permitiria vencer impulsos passionais normalmente indistinguíveis da vontade. * O que se une à vontade é antes espontaneidade do que liberdade transcendente. * A verdadeira liberdade rompe com aquilo que se é originalmente ou com aquilo que se é no momento em que se deve ser ultrapassado. * É preciso crer não simplesmente que se é livre, mas que a liberdade necessária à obediência ao dever será dada. * A mística acompanha a moral porque a capacidade de fazer o bem parece situada acima do sujeito, como o próprio bem. * Se alguém possui essa capacidade, talvez a tenha recebido como graça. * Se deve possuí-la, é porque ela lhe será dada novamente. * Crer que a liberdade será dada não equivale a crer que se a produz por si mesmo. * Se alguém a teve em certo momento, não pode transformá-la em mérito pessoal. * É preciso duvidar sempre da própria suficiência sem deixar de agir e esperar. * A moral do dever implica tanto liberdade de escolha quanto liberdade transcendente. * Quem percebe que às vezes precisou ser despertado por outro não pode vangloriar-se de possuir sempre a verdadeira liberdade. * A verdadeira liberdade possui elemento de inspiração ou graça. * Pode ser necessário invocar interiormente um outro, testemunha irrepreensível e despertador anterior. * Suas perguntas renovam o pensamento e o tornam verdadeiramente livre. * Há uma liberdade que não é apenas nossa, embora também seja nossa, e essa é a liberdade mais verdadeira. * A fé em Cristo, a confiança em Sócrates e a crença em Deus repousam na ideia de que a liberdade mais verdadeira não deriva simplesmente da natureza. * 1 João 2,23 afirma: “Todo aquele que nega o Filho também não tem o Pai”. * Se a graça não fosse necessária para ser livre, Deus talvez carecesse de prova. * Se a verdadeira liberdade pudesse existir sem a ideia de um Bem transcendente e absoluto, seria muito difícil crer em Deus. * A ordem do mundo não prova Deus. * Nada no mundo das coisas mostra claramente uma intenção organizada para o bem. * A lei das coisas parece cega ao bem. * A organização dos seres vivos talvez não possa ser explicada pelas mesmas leis do mundo das coisas. * Considerar a sociedade, a ordem social ou o poder social como Deus equivaleria a negar Deus. * O verdadeiro Deus é o princípio do santo, isto é, daquilo que o mundo não explica. * O Deus cristão é essencialmente o Pai do santo, o Pai de Cristo. * Deus é a fonte do Espírito e da verdadeira liberdade. * A afirmação da liberdade natural é necessária para a moral. * Ela não funda uma religião em que Deus seja conhecido pelo santo. * Ela tampouco funda uma teologia como a de Paulo ou João. * A afirmação de que o ser humano não é naturalmente livre é que produz teologia. * A moral, em suas escolhas mais difíceis, recorre a uma liberdade que não se reduz à vontade natural. * Nos casos de consciência mais dolorosos, busca-se algo diferente da própria vontade. * Cristo diz: “Não a minha vontade, mas a tua”. * Sygne, de Claudel, repete: “E não a minha!”. * Dizer “é necessário” não equivale a dizer “eu quero”. * Kant afirma que o “eu devo” é um “eu quero” aplicável a todos os seres racionais. * A segunda metade da afirmação kantiana preserva uma distinção profunda entre “eu devo” e “eu quero”. * O “eu devo” é obediência.