====== Templo ====== //Elaine H. Pagels. The Johannine Gospel in gnostic exegesis: Heracleon’s commentary on John. Nashville: Abingdon Press, 1973.// * **A EXEGESE DE HERACLEON SOBRE O TEMPLO ([[b>João 2]]) COMO SÍMBOLO DA ECLESIA PNEUMÁTICA E OS TRÊS NÍVEIS DE INTERPRETAÇÃO** * Heracleon e Orígenes concordam que praticar a “exegese espiritual” é interpretar os lugares, objetos e eventos descritos no texto como símbolos da realidade espiritual, mas enquanto Orígenes insiste que o “significado literal” deve ser aceito e sustentado como a fundação primária para os níveis superiores da exegese, Heracleon considera o “literal” como relevante para a exegese apenas na medida em que é entendido metaforicamente, sendo em si mesmo um obstáculo potencial para o pneumático. * Heracleon interpreta a “descida de Jesus a Cafarnaum” ([[b>João 2:12]]) como significando o “início de uma nova dispensação” (oikonomia), e como Cafarnaum está situada na parte inferior do topos intermediário, em direção ao ponto mais baixo (o mar), ela simboliza a imersão total na matéria, representando o topos do diabo ou de seu “cosmos”, que consiste de “toda a hylē, a totalidade do mal” e é a região do “seu próprio”, os hílicos, cuja condição espiritual é de ignorância total (agnoia). * A subida do salvador “a Jerusalém” ([[b>João 2:13]]) é interpretada simbolicamente como significando “a ascensão das regiões hílicas para a região psíquica (topos)”, onde Jerusalém simboliza o “topos psíquico”, o “lugar” do demiurgo, a quem “os judeus” adoram, sendo a Jerusalém terrena que simboliza este topos, e não a “Jerusalém que está acima” (CJ 10.33). * **“OS JUDEUS” EM JOÃO COMO REPRESENTAÇÃO DOS PSÍQUICOS** * Não se deve tomar o uso que Heracleon faz do termo “os judeus” literalmente como o povo de Israel, pois primeiro, tal interpretação literal contradiria sua prática exegética usual de interpretar fenômenos literais como símbolos da realidade espiritual; segundo, nenhum dos fragmentos indica que Heracleon compartilhava da preocupação dos cristãos do segundo século com sua relação com a comunidade judaica; e terceiro, o “Deus dos judeus”, em sua terminologia, designa não simplesmente o Deus da religião judaica, mas o criador a quem os “cristãos psíquicos” também adoram como seu Deus. * Heracleon explica que os levitas, a tribo santificada de “judeus” que servem no pátio do templo, são “um símbolo daqueles psíquicos que alcançam a salvação” (CJ 10.33), interpretando consistentemente “os judeus” em João como a representação dos psíquicos, enquanto interpreta os gentios (e especialmente a mulher samaritana de [[b>João 4]]) como um símbolo para os “pneumáticos”. * Esta mesma interpretação dos termos recorre na exegese valentiniana de [[b>Romanos 3]] e 4 preservada em fragmentos do comentário de Orígenes sobre Romanos, onde o exegeta valentiniano designa “os circuncidados”, os “judeus” que são “filhos de Abraão segundo a carne”, como “psíquicos”, e a “raça de Ismael” (isto é, os gentios, que são “judeus em secreto”) como representando os pneumáticos. * **O TEMPLO COMO IMAGEM DA ECLESIA E A DISTINÇÃO ENTRE O PÁTIO EXTERIOR E O SANTO DOS SANTOS** * Quando o salvador ascende a este topos psíquico (Jerusalém) e entra no santuário (naos), ele primeiro entra no pátio do templo, o “lugar” dos “levitas”, demonstrando que o salvador vem para ajudar os “muitos” que são “chamados” (termo técnico para psíquicos) bem como os “poucos” (os pneumáticos) que são “os eleitos” (CJ 10.33; 13.31; 13.51; cf. [[b>Mateus 22:14]]), e o “santo dos santos”, onde o salvador finalmente entra, é o “lugar” mais alto de todos, o topos reservado para pneumáticos, representando a “ecclesia pneumática”. * Heracleon baseia sua eclesiologia na alegoria do templo em [[b>Hebreus 9]], que ele quase certamente considera paulina, e segue sua estrutura em sua própria descrição eclesiástica: o átrio do templo é acessível aos “sacerdotes” (9.6) que ali oferecem dons e sacrifícios que falham em “aperfeiçoá-los” (9.10); atrás do “segundo véu” (9.3) está o “santo dos santos”, onde “apenas o sumo sacerdote entra” (9.7); ali Cristo através do espírito se oferece como sumo sacerdote ao “Deus vivo” (9.14), e a adoração que ele oferece ocorre no templo “verdadeiro” e “celestial”, do qual o primeiro é apenas um “antítipo” (9.23), uma “parábola do tempo presente” (9.9). * Heracleon, que toma os “judeus” de Hebreus como uma imagem dos “cristãos psíquicos”, afirma que estes cristãos falham em distinguir entre os antítipos “cósmicos” e as realidades pneumáticas simbolizadas por eles (CJ 13.19), e enquanto os “levitas” (os “psíquicos que são salvos”) permanecem no átrio do templo, seu topos permanece “cósmico” e não oferece um meio de “aperfeiçoá-los”, mas o “santo dos santos” simboliza o topos pneumático acessível aos pneumáticos através do salvador (CJ 10.33). * **A PURIFICAÇÃO DO TEMPLO COMO ALEGORIA PARA A PURIFICAÇÃO DA ECLESIA PNEUMÁTICA** * O relato joanino da purificação do templo interior torna-se uma alegoria para a purificação da “ecclesia espiritual” — dos próprios pneumáticos — e isto contradiz a compreensão simplista usual da doutrina valentiniana do “espiritual”, pois se eles são “salvos por natureza” (como muitos comentadores repetiram desde Clemente), ou se não são “substancialmente determinados” mas eleitos para a salvação, que “purificação” eles precisariam? * Heracleon claramente indica que os “espirituais” que são os “eleitos” precisam que o salvador ministre a eles e os purifique, explicando que sua falta não é “pecados”, mas a de compreender mal a base de sua relação com Deus, e o salvador, entrando em seu topos, encontra alguns entre eles que estão “mercadejando e cambiando dinheiro” ([[b>João 2:14-16]]). * Heracleon explica que estes são aqueles que consideram sua própria tarefa de evangelizar como um meio de acumular “ganho e proveito” espiritual, administrando a adoração e recebendo recém-chegados como se fosse para sua própria vantagem, e o salvador purifica a ecclesia expelindo-os do templo interior, demonstrando assim que a salvação não é uma questão de realização ou mérito pessoal, mas depende inteiramente da graça. * **O SIMBOLISMO DA CRUZ COMO HOROS (LIMITE) E STAUROS (SUSTENTAÇÃO) NA TRADIÇÃO VALENTINIANA** * Irineu relata que os valentinianos interpretam a cruz como o “limite” (horos) que separa e purifica, e como o “sustentáculo” (stauros) que apoia e sustenta, e menciona uma exegese valentiniana de [[b>Lucas 3:17]] (“a pá está em sua mão, para limpar sua eira, e para recolher o trigo em seu celeiro, mas a palha ele queimará com fogo inextinguível”), explicando que “a pá é a cruz (stauros) que consome toda materialidade, como o fogo faz com a palha, mas purifica todos os que são salvos, como uma pá faz com o trigo” (AH 1.3.4-5). * Assim como horos separou e libertou a Sophia exilada de sua paixão, o salvador veio ao cosmos “para a paixão” a fim de libertar “nós” (isto é, os espirituais) “das paixões”, e sua paixão na cruz é interpretada como um “sinal” da redenção, pois “o Senhor veio nos últimos tempos do cosmos para isso, para a paixão, a fim de manifestar a paixão que ocorreu ao último dos eons, e através de seu próprio fim, ele pudesse manifestar o fim do assunto concernente aos eons” (AH 1.8.1-2). * O Evangelho da Verdade oferece outra maneira de elucidar o simbolismo da cruz, dizendo que os “nomes dos eleitos” são revelados quando Cristo “fixa a declaração da vontade do Pai” na cruz (20.25f), e quando sua eleição é assim revelada, os espirituais podem ascender ao Pai. * **A CRÍTICA DE HERACLEON À TEOLOGIA EUCARÍSTICA NÃO-VALENTINIANA COMO “PSÍQUICA”** * Heracleon considera a interpretação tipológica em que a morte de Jesus é o cumprimento do “tipo” da páscoa como uma interpretação que permanece meramente “psíquica”, pois é característico dos psíquicos que eles confundam as imagens da realidade espiritual com a própria realidade, centralizando sua fé no Jesus físico real e nos eventos somáticos de sua vida e morte, que interpretam psiquicamente. * Os psíquicos interpretam a eucaristia em termos da “paixão do salvador no cosmos”, referindo-se primeiro ao “cordeiro” (que significa o corpo físico de Jesus, CJ 6.60) e depois interpretando o evento somático do “sacrifício do cordeiro” (a morte de Jesus) em termos psíquicos como um “sacrifício” oferecido para o “perdão dos pecados” ([[b>Mateus 26:28]]), interpretam o “comer” eucarístico como a “lembrança” (anamnesis) da morte e parousia do Senhor ([[b>1 Coríntios 11:23-26]]), e centralizando sua teologia e prática eucarística nas “imagens” que confundem com a realidade, adoram “na carne e no erro”. * Os espirituais percebem que o evento da morte de Jesus não é tanto a “realidade” de um “tipo” do Antigo Testamento, mas é ele mesmo um “tipo” (CJ 10.19) dado em termos concretos e históricos para simbolizar uma realidade espiritual, e interpretando a paixão e morte de Jesus como “tipos”, veem neles um significado mais elevado e mais simbólico do que os psíquicos percebem, celebrando a eucaristia como a “páscoa divina”. * **O SIGNIFICADO ESPIRITUAL DA PAIXÃO DO SALVADOR COMO SÍMBOLO DA RESTAURAÇÃO DA SEMENTE PNEUMÁTICA** * O sofrimento do salvador simbolizou o que Sophia sofreu (sua angústia, sensação de abandono, medo e falta de recursos), e sua cruz é um sinal de sua restauração, mas Heracleon nunca menciona Sophia diretamente, mesmo em sua exegese da mulher samaritana no poço (cuja experiência é tão paralela à de Sophia que Sagnard diz que ela deve simbolizar Sophia), chamando-a consistentemente de “ecclesia pneumática” — a semente divina como é manifesta no cosmos, não Sophia, mas sua contraparte cósmica (CJ 13.27). * Teódoto oferece uma versão revisada desta tradição, dizendo que na paixão do salvador não apenas “todo o pleroma” mas também a “semente” participou, experimentando ali a “perda do nome”, e na restauração de Sophia, a “semente” bem como “todo o pleroma” recuperam o nome, recebendo o conhecimento do Pai. * O autor do Evangelho da Verdade mostra como, na morte de Cristo, o “todo” (a totalidade da semente, que foi perdida e alienada) se torna manifesto como o eleito do Pai, e através da cruz o “Testamento” do Pai, previamente oculto, é manifestado, revelando os nomes daqueles “que o Pai prenheceu” (Ev Ver 11.21), e para Heracleon também, a “paixão do salvador” significa “realidades plerômicas” — o processo de recuperar e restaurar a semente perdida na unidade e conhecimento do Pai. * **O SACRAMENTO VALENTINIANO DA “CÂMARA NUPCIAL” E AS FÓRMULAS EUCARÍSTICAS MARCOSIANAS** * Irineu descreve como os gnósticos em torno de Marcos, “pretendendo praticar a eucaristia” (eucharistien), estenderam a fórmula de invocação (epiklesis) que pronunciam sobre um cálice de vinho misturado, considerando que a elocução desta fórmula é um ato de transformação sacramental, de modo que o vinho se torna o sangue — não de Jesus, mas de Charis, “um daqueles (eons) além de todas as coisas”, e então o celebrante oferece o cálice à congregação para beber, “a fim de que a graça (charis) flua neles” (AH 1.13.2f). * A primeira oração (“Que a inimaginável e inefável Charis, que está antes de todas as coisas, vos preencha em vosso homem interior e multiplique em vós o conhecimento dela, semeando o grão de mostarda em vós como em boa terra”) corresponde à descrição de Heracleon dos eleitos, que recebem “graça imperecível” como “riqueza fornecida do alto” (CJ 13.10), recebendo-a não em sua existência natural, mas em seu “homem interior”, que é a “vida” formada nele pelo logos (CJ 2.21). * A segunda oração (“Desejo compartilhar minha graça convosco, pois o Pai de todos contempla vosso anjo em sua presença. O lugar da grandeza em nós é através de nós para ser estabelecido. Recebei primeiro esta graça de mim e através de mim. Preparai-vos como uma noiva recebendo seu noivo, para que sejais o que eu sou, e eu o que vós sois. Consagrai em vossa câmara nupcial a semente da luz. Recebei de mim o noivo, e recebei-o, e sede recebidos por ele. Eis que a graça veio sobre vós. Abri vossa boca, e profetizai” — AH 1.13.3) é falada pelo celebrante como o salvador, que dá o noivo à noiva (os eleitos na terra, o “elemento feminino” da semente), e os eleitos são exortados a “preparar-se para receber o noivo” com base em sua eleição, pois o Pai contempla seu “anjo” (sua identidade espiritual, o “esposo no pleroma”) em sua presença. * **A DISTINÇÃO VALENTINIANA ENTRE O BATISMO E A EUCARISTIA DA “IGREJA PSÍQUICA” E O SACRAMENTO DOS “ESPIRITUAIS”** * Os valentinianos diferenciaram claramente entre a prática e doutrina sacramental da “grande igreja” e aquela dos iniciados gnósticos: a “igreja psíquica” oferece apenas o “batismo de João” (isto é, do demiurgo) em dois aspectos (o ato somático da lavagem com água e o benefício psíquico do “perdão dos pecados” que concede uma “capacidade para a salvação” se persistirem em boas obras), enquanto a “ecclesia espiritual”, consistindo apenas dos eleitos, recebe o terceiro e superior batismo, a “redenção de Cristo” (apolytrōsis), que os redime dos elementos psíquicos de sua própria existência e do poder do demiurgo, transmite o espírito que os traz “à perfeição” e os restaura à unidade com o pleroma. * Os psíquicos também celebram uma eucaristia que “somaticamente” comemora a morte histórica de Jesus, interpretada “psiquicamente” como um “sacrifício pelos pecados” — o que eles celebram, “na carne e no erro”, é na verdade “a páscoa dos judeus”, uma vez que confundem os eventos históricos (eles mesmos “tipos”) com a realidade. * Os espirituais, no entanto, compreendem a “paixão do salvador” como o símbolo de sua própria restauração ao Pai, celebram a “páscoa divina” que lhes recorda a graça de sua eleição, invoca a graça que os traz à maturidade no presente, e antecipa o “casamento” escatológico no qual eles devem se tornar um “em espírito” com o Pai.