===== Judas e os Doze ===== //Elaine H. Pagels; Karen L. King. Reading Judas: the Gospel of Judas and the shaping of Christianity. New York: Viking, 2007.// * Uma vez que todos os evangelhos do Novo Testamento tratam a traição de Judas como vontade de Deus, parece menos estranho pensar que Judas possa ter sido visto como alguém que seguia as instruções de Jesus ao entregá-lo — e o Evangelho de Judas vai mais longe ao condenar severamente "os doze", mostrando que são eles, e não Judas, quem trai Jesus. * Quando os discípulos narram a Jesus um sonho perturbador sobre sacerdotes que sacrificam suas próprias esposas e filhos em nome de Jesus, a resposta de Jesus os choca: "Vós sois os que vistes recebendo oferendas no altar [...]. Os animais domésticos que vistes sendo trazidos para o sacrifício são a multidão que vós desviasdes naquele altar" — Evangelho de Judas 5, 1; 4 * Cada evangelho eleva um ou mais discípulos acima dos demais e narra conflitos entre eles — histórias importantes porque revelam cristãos primitivos em rivalidade pelo poder e mostram as questões sobre as quais os primeiros crentes disputavam * O Evangelho de Marcos apresenta Pedro como líder designado do grupo após a morte de Jesus, mas o Evangelho de Mateus vai além, acrescentando uma afirmação única: que o próprio Jesus declarou que Deus escolheu Pedro para ser a pedra fundacional da futura Igreja. * "Jesus respondeu: Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas! [...] E eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus" — Mateus 16, 17-19 * O Evangelho de Lucas narra que Jesus declara que todos "os doze" reinarão com ele como seu conselho no reino vindouro, mas que Pedro tem prioridade e fala por todos os apóstolos — Lucas 22, 29-32; 24, 34; Atos 1, 15; 2, 14 * O Evangelho de João reconhece Pedro como líder proeminente mas o coloca consistentemente abaixo do "discípulo amado", e afirma que Maria Madalena — não Pedro — foi a primeira a ver e falar com o Jesus ressuscitado e foi comissionada por ele a anunciar a ressurreição aos outros discípulos. * O Evangelho de Tomé sugere que foi Tomé quem recebeu uma compreensão mais profunda do evangelho de Jesus; ao ser perguntado sobre quem os lideraria após sua partida, Jesus disse: "Ide a Tiago, o Justo" — referindo-se ao irmão de Jesus, que chefiou um dos primeiros grupos de seguidores em Jerusalém até por volta de 62 da Era Comum * A Igreja de São Tiago em Jerusalém, onde preside o bispo da Igreja Ortodoxa Armênia, celebra Tiago — não Pedro — como o apóstolo primário de Jesus * O Evangelho de Tomé relata uma disputa entre Pedro e Maria de Magdala na qual Pedro exige que ela se retire — "as mulheres não são dignas da vida espiritual" —, mas Jesus repreende Pedro e declara que fará de Maria "um espírito vivente", e o Evangelho de Maria amplia esse conflito. * No Evangelho de Maria, quando Pedro pede a ela que compartilhe as palavras secretas de Jesus, e ela concorda, Pedro protesta com ciúme: "Ele então falou com uma mulher em particular sem nosso conhecimento? Devemos nos virar e ouvi-la? Ele a escolheu acima de nós?" — Evangelho de Maria 10, 3-4 * Maria responde: "Meu irmão Pedro, o que estás imaginando? Achas que inventei essas coisas por mim mesma em meu coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?" — Evangelho de Maria 10, 5-6 * Levi intervém como mediador: "Pedro, estás sempre pronto a ceder à tua inclinação perpétua à raiva. [...] Se o Salvador a considerou digna, quem és tu para desconsiderá-la? Com certeza o conhecimento que o Salvador tem dela é completamente confiável. É por isso que a amou mais do que a nós" — Evangelho de Maria 10, 7-10 * Ao elevar um ou mais discípulos acima dos outros, cada uma dessas histórias reivindica quem fala por Jesus depois de sua partida, e o efeito prático dessas narrativas foi limitar o círculo de pessoas autorizadas a um grupo pequeno e especificamente nomeado. * A questão de se uma mulher pode ser líder entre os discípulos — ou mesmo ser discípula — revelou-se explosivamente controversa, e cristãos ainda hoje invocam esses evangelhos junto a textos canônicos como 1 Timóteo para "provar" que mulheres não podem ocupar posições de autoridade nas igrejas * A diversidade não é nada nova: apenas vinte anos após a morte de Jesus, Paulo ficou consternado ao encontrar grupos de seus seguidores se filiando a diferentes mestres em Corinto — "quando um diz: sou de Paulo, e outro: sou de Apolo, não sois simplesmente humanos?" — 1 Coríntios 3, 3-4 * Paulo foi o primeiro, tanto quanto se sabe, a abrir uma disputa que ameaçou dividir o movimento, chamando Pedro de hipócrita em sua Carta aos Gálatas por recusar-se a comer com crentes não judaicos quando chegaram seguidores de Tiago — e chegando a amaldiçoar qualquer um que pregasse "um evangelho contrário" ao que havia proclamado. * O autor do Evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos buscou suavizar essa divisão, oferecendo um quadro exemplar de harmonia na assembleia de Jerusalém onde Tiago propôs uma solução de compromisso aceita por toda a congregação — Atos 15, 1-35 * Os ensinamentos que Ireneu rotulou de "ortodoxos" tendiam a ser aqueles que ajudavam os bispos a consolidar grupos dispersos numa única organização; os ensinamentos que denunciava como "heresia" podiam ser antagônicos a essa consolidação * O que está por trás das acusações polarizantes do Evangelho de Judas é a incapacidade de seu autor de reconciliar a crença em um Deus amoroso com a ideia de que Deus desejava a morte sacrificial de Jesus e de seus seguidores — e sua raiva se dirige não contra judeus ou romanos, mas contra seus próprios líderes cristãos. * As perseguições eram locais e esporádicas até que o imperador Décio, em 249-252 da Era Comum, instituiu uma tentativa sistemática de forçar os cristãos a provar sua lealdade exigindo que todos realizassem um sacrifício aos deuses e obtivessem um recibo chamado libellus; o imperador Diocleciano, em 303-305, ordenou que todos sacrificassem ou enfrentassem a morte * Tertuliano, cuja comunidade do Norte da África era perseguida no início do século III, insistia firmemente que os cristãos não deveriam de forma alguma tentar evitar o martírio: "Quanto mais nos ceifais, mais nos multiplicamos; o sangue dos mártires é semente" para a Igreja * Inácio, bispo de Antioquia, preso por volta de 115 da Era Comum, escrevia enquanto era transportado para Roma pedindo aos crentes que "orassem a Cristo por mim para que por esses meios eu me torne o sacrifício de Deus" — Inácio, Romanos 4, 2; ele imaginava seu próprio corpo tornando-se "o trigo de Deus, triturado pelos dentes de feras selvagens para fazer um pão puro para Cristo" — Inácio, Romanos 4, 1 * Paulo associou a morte de Jesus ao sacrifício pascal ao afirmar que "Cristo, nosso cordeiro pascal, foi sacrificado" — 1 Coríntios 5, 7 —, e o Evangelho de João identifica Jesus desde sua primeira aparição como "o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" — João 1, 29 —, mudando inclusive o relato da crucificação para mostrar Jesus morrendo no momento em que os cordeiros da Páscoa eram sacrificados. * O autor da Carta aos Hebreus é quem mais plenamente descreve a morte de Jesus como sacrifício: "não com sangue de bodes e bezerros, mas com seu próprio sangue" Cristo garantiu a redenção — Hebreus 9, 12-14 * O Evangelho de João narra que essa declaração — com sabor de canibalismo — foi tão ofensiva que muitos seguidores de Jesus o abandonaram por causa dela: "a menos que comais a carne do Filho do Homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós" — João 6, 53-55; e foi exatamente essa questão que no Evangelho de João levou Jesus a separar Judas "dos doze" e marcá-lo como traidor — João 6, 64-71 * O Evangelho de Judas é uma voz dissidente e não a única — outros dissidentes falam por meio de textos adicionais suprimidos e eventualmente enterrados em Nag Hammadi, do Testemunho da Verdade ao Apocalipse de Pedro —, e sua descoberta, junto às anteriores, permite ouvir pela primeira vez em quase dois mil anos vozes de quem discordou, suscitando duas questões fundamentais: o que tal ensinamento diz sobre Deus, e como impele as pessoas a agir? * Como os que a tradição posterior consagrou como "Pais da Igreja" estavam todos do outro lado dessa questão, as únicas vozes preservadas foram as de Ireneu e semelhantes, que descartaram obras como o Evangelho de Judas como "um abismo de loucura e blasfêmia contra Cristo" * A descoberta do Evangelho de Judas, junto aos achados anteriores, permite ver que a história primitiva do cristianismo foi tumultuada — e que o que se costumava chamar de "a Igreja cristã" como se houvesse apenas uma era na verdade um agregado de grupos com suas próprias reuniões, líderes e interpretações do evangelho