===== Mordomo infiel ===== [[..:start|Antonio Orbe]] — [[.:start|Parábolas Evangélicas em São Irineu]] ** Capítulo 17 — O mordomo infiel ([[b>Lc 16,9]]) ** * A eficácia escatológica do sacramento desenvolve-se no interior do corpo do comungante à maneira de um grão de trigo oculto na terra. * O incremento interno da semente assimila o indivíduo à vida divina até a manifestação plena no cenário da consumação final. * O interesse fundamental da exegese patrística repousa sobre a lição moralizadora do símil em detrimento da citação literal do texto. * A organização herética de Marcião concedeu inserção à parábola do mordomo infiel na estrutura de seu próprio Evangelho. * O mestre valentiniano Marcos utilizou a designação de filhos da luz para caracterizar a comunidade dos escolhidos e espirituais. * A literatura dos maniqueus e as homilias de Macário preservaram o uso do termo para identificar os indivíduos receptores da revelação. * A tradição medieval dos cátaros formulou um modelo interpretativo detalhado que identificava o mordomo da iniquidade com Satanás. * O sistema cátaro postula que Satanás exercia o principado sobre os anjos antes de sofrer a destituição por má administração dos bens. * A redução do encargo das orações devidas pelos anjos operou como o artifício fraudulento de Satanás para arrastar as potências na queda. * A aplicação moral dos cátaros exortava os fiéis a angariar amigos por meio do uso correto das riquezas transitórias deste mundo. * A produção literária de Irineu de Lyon menciona exclusivamente a sentença final da parábola sobre o uso das riquezas injustas. * O texto evangélico recebido traz a variante única sobre a recepção nos tabernáculos eternos por ocasião da fuga dos fiéis. * A instrução assegura ao cristão a legitimidade do uso dos bens materiais em benefício próprio e para a assistência aos necessitados. ** Expólio dos egípcios ** * A contestação herética do século segundo fustigava a conduta do povo de Israel no episódio do arrebatamento dos vasos e vestidos no Egito. * A acusação qualificava o ato como um roubo executado por determinação direta do Deus criador do Antigo Testamento. * O argumento marcionita afirmava que a autorização do mal demonstrava que Yahvé ignorava a justiça e não correspondia ao Deus bom. * A formulação da denúncia originou-se nos dias do presbítero alegado por Irineu e estendeu-se até as contestações de Fausto Maniqueu. * A refutação de Agostinho contra as teses de Fausto desenvolveu-se com amplitude sem adotar as linhas interpretativas de Irineu. * A resposta de Irineu classifica os ataques dos oponentes de Yahvé como uma demonstração de grave ignorância a respeito dos mistérios divinos. * O desespero interpretativo decorre do desconhecimento das justificações de Deus e das reais disposições que regem a economia. * A dimensão figurativa do Êxodo estruturava-se para prefigurar o real êxodo da Igreja para fora da comunidade dos povos gentios. * O estabelecimento da tipologia bíblica define o povo de Israel como o tipo do qual os cristãos constituem o cumprimento verdadeiro. * A nação do Egito com suas riquezas acumuladas figurava a totalidade da gentilidade da qual sairiam os membros da Igreja. * A permanência dos cristãos na posse de bens materiais adquiridos no período do paganismo justifica a aplicação do princípio do expólio. * A salvação humana far-se-ia impossível caso a entrada na fé exigisse o despojamento absoluto de todas as posses terrenas. * O arrebatamento das riquezas egípcias não correspondia a um ato de egoísmo por parte de Yahvé ou de busca de vantagens para Israel. * O ouro e a prata coletados operavam como a prefiguração dos bens mundanos de que os fiéis necessitam para a subsistência material. * A conversão das populações gentias introduzia na Igreja indivíduos que retinham propriedades e patrimônios de família. * Os bens trazidos do paganismo eram frequentemente originados de práticas de cobiça ou de caminhos de injustiça dos antepassados. * A necessidade de subsistência no mundo impõe a execução contínua de negócios e transações comerciais na vida prática. * A designação de riqueza da iniquidade aplica-se às posses materiais devido ao seu uso injusto entre os pagãos e ao risco de pecado entre os fiéis. * O ingresso das riquezas do Egito nas mãos de Israel servia para o sustento do povo durante a peregrinação no deserto. * O término da existência terrena assinala o limite intransitável para a retenção e utilidade das riquezas da iniquidade. * A teologia de Irineu resguarda a legitimidade do direito de propriedade privada sobre casas, vestes e objetos de conveniência. * A absolvição aplica-se mesmo às riquezas angariadas por ganância pessoal antes do recebimento do batismo na fé. * A execução normal do comércio dificilmente realiza-se com total isenção de faltas ou de interesses de lucro entre as partes. * A obrigação do cristão consiste em administrar os bens materiais como propriedade alheia, exercendo a virtude da esmola. * A remissão de pecados na era evangélica realiza-se pelo batismo, pelo martírio e pela prática constante da misericórdia aos pobres. * A conduta dos fiéis estabelecidos no palácio imperial atua como a ratificação prática do modelo de uso dos bens. * Os servidores cristãos do César utilizam os utensílios da corte para garantir a sobrevivência e para socorrer os irmãos necessitados. * A posição política permite a distribuição de auxílios aos indigentes em cumprimento aos preceitos sobre os direitos de Deus e do César. * A complementação do sentido figurativo do texto incorpora o argumento jurídico sobre o salário historicamente sonegado a Israel. * A tradição filoniana relata que os hebreus tomaram os bens dos egípcios a título de justa compensação pelos anos de cativeiro. * A apropriação dos vasos assemelhava-se ao recolhimento do estipêndio em tempo de paz ou à tomada de despojos de guerra contra inimigos. * A intervenção da mão protetora do Justo viabilizou a vingança de Israel sem a necessidade de organização de armas. * A recepção das teses de Filão manifestou-se explicitamente na obra de Clemente de Alexandria e nos comentários de Procópio de Gaza. * A lei de guerra outorga aos vencedores o domínio sobre os bens possuídos pelos vencidos após o término do conflito. * A soberania absoluta de Deus sobre o ouro e a prata autoriza a transferência das riquezas para quem for de sua vontade. * A alegoria dos despojos em Orígenes modificou o foco ao identificar as riquezas do Egito com o uso das ciências em suporte à teologia. * A concordância de Irineu com a paráidosis filoniana ocorre em linhas gerais, mas preserva independência na organização do argumento do salário. * O Egito possuía dívida histórica com os patriarcas desde o período em que a sabedoria de José salvou a população da morte. * O trabalho servil imposto aos israelitas na fabricação de tijolos e na edificação de cidades gerou o enriquecimento dos egípcios. * A ingratidão da nação manifestou-se na tentativa de extermínio total do povo que lhe prestava os serviços de escravidão. * A retirada de uma quantidade mínima de ouro e prata não constitui ato de injustiça perante a magnitude do trabalho executado. * O julgamento reto condena o senhor que retém o homem livre em servidão e absolve o escravo que se retira com um auxílio módico. * A hipocrisia dos críticos manifesta-se no porte de moedas com a inscrição do César enquanto condenam o recebimento de vasos sem marca por Israel. * A aplicação da compensação projeta-se sobre as relações entre a Igreja e as estruturas de poder do Império Romano. * O paralelismo entre o patriarca José e Cristo esclarece o direito dos fiéis sobre o uso dos bens do novo Egito. * A segurança material e a facilidade de trânsito por terra e mar constituem benefícios derivados da pax romana estabelecida pelos gentios. * A visão de Irineu avalia de forma positiva os méritos do império, sem identificar o cristianismo como o autor político da paz. * A lei da liberdade anunciada pelos apóstolos operou a transformação das armas de guerra em instrumentos pacíficos de agricultura. * A dívida das nações para com a Igreja difere do modelo do Egito, pois os romanos nada devem em estrita justiça aos cristãos. * A constatação do usufruto dos benefícios da paz romana qualifica a crítica gnóstico-marcionita como uma demonstração de hipocrisia. * A insistência dos gnósticos e marcionitas contra o expólio de Israel implicaria a necessidade de seu próprio isolamento da sociedade. * A coerência com o purismo exigiria a fuga dos heréticos para as montanhas e a adoção de uma vida de absoluta nudez e alimentação herbívora. * O uso diário de casas e utensílios materiais desautoriza o exercício do julgamento fundado em pretensos privilégios de ciência. * A formulação das Antíteses de Marcião contrapunha o mandato do Êxodo sobre o expólio ao preceito de Jesus sobre a pobreza dos discípulos. * A aparente contradição é superada pela exposição do real sentido do conselho evangélico a respeito da distribuição das vestes. * O mandamento sobre o despojamento da túnica sobressalente visa orientar a conduta do fiel no trato com os bens vindos de fora. * O resgate das almas realiza-se por meio da liberalidade que transforma os bens terrenos em instrumentos de justificação. * A afirmação de que vivemos de coisas alheias não valida a tese heterodoxa sobre a origem maligna do universo material. * A matéria permanece sob a propriedade de Deus, mas os objetos necessários à conservação humana são recebidos através dos gentios. * O destino do ouro e da prata retirados do Egito estava vinculado por ordem divina à edificação posterior do tabernáculo no deserto. * A rebeldia de uma parcela do povo desviou a finalidade dos tesouros para a fabricação idólatra do bezerro de ouro. * A responsabilidade pelo abuso recai exclusivamente sobre os homens, mantendo a retidão do mandamento inicial de Yahvé. * A comunidade cristã cumpre o propósito salvífico ao direcionar os despojos do paganismo para o socorro dos necessitados. * A edificação do novo tabernáculo opera-se na estrutura do homem plasmado, que constitui a habitação definitiva de Deus. * O contraste entre a conduta de Israel e a ação da Igreja confirma o caráter preparatório de todos os eventos do Antigo Testamento. * A totalidade da saída do Egito prefigurava a futura constituição da Igreja por meio da aglutinação dos povos gentios. * A condução da herança final realiza-se sob a autoridade de Jesus, Filho de Deus, que assume o lugar ocupado por Moisés. * A análise das profecias e das visões do Apocalipse indica a extensão universal das pragas que outrora atingiram o Egito de forma parcial. * A justificação do cristão cumpre-se na conversão dos bens adquiridos na injustiça do paganismo para a utilidade do Senhor. ** «Mammona» ** * A exortação ao estabelecimento de amizades com as riquezas iníquas direciona-se aos fiéis provenientes do ambiente da gentilidade. * O mandamento proíbe a retenção supérflua e o investimento dos tesouros na construção de habitações caducas na terra. * O auxílio material prestado ao homem necessitado atua em conformidade com as linhas do projeto do Criador sobre a obra moldada. * A leitura de Irineu sobre o destino dos justos após o escape do mundo incorpora a variante textual sobre a fuga. * A recepção nas moradas eternas realiza-se no evento da ressurreição final e do juízo, e não no momento da morte individual. * A identificação do acolhedor aponta para a pessoa de Cristo, que assume como feito a si mesmo o serviço prestado aos desvalidos. * As mansões da casa do Pai abrem-se para abrigar os corpos dos fiéis que foram edificados como templos de imortalidade. * A conversão das posses materiais para o serviço do Senhor opera o batismo dos bens e a consequente justificação do homem. * A exegese do Tertuliano montanista afasta-se do modelo de Irineu ao afirmar que a parábola do mordomo direcionava-se aos judeus. * O argumento de Tertuliano postula que os amigos da riqueza seriam os cristãos gentios aos quais os judeus deveriam se aliar. * A fuga mencionada na tradição eclesiástica evoca o conceito neoplatônico de retorno à pátria verdadeira por meio da elevação da alma. * A interpretação de Ambrósio e Agostinho sobre a fuga fundamenta-se nos movimentos internos da mente descritos na obra de Plotino. * A investigação sobre o significado linguístico do termo Mammón realiza-se no contexto do debate sobre o senhorio único de Deus. * A Escritura recusa a aplicação dos títulos de Deus ou de Senhor a qualquer entidade ou autoridade que não seja o Criador único. * O próprio Jesus preservou a distinção ao recusar os epítetos divinos ao César, designando-o sob a condição restrita de autoridade humana. * A igualdade entre Mammón e Yahvé foi utilizada por Marcião e pelos gnósticos para fundamentar a oposição entre o Pai e o Deus criador. * A heresia atribuía origem demoníaca às realezas da terra, equiparando o senhorio de Mammón à administração do mundo por Yahvé. * A tradição dos maniqueus e dos cátaros preservou a identificação de Mammón com o diabo sob o título de deus deste mundo. * A refutação de Irineu esclarece que o Salvador não conferiu a dignidade de senhor legítimo à figura de Mammón no texto evangélico. * O ensinamento de Jesus visa alertar os discípulos sobre a impossibilidade de submissão simultânea a Deus e às exigências de Mammón. * O senhorio exercido por Mammón constitui uma condição falsa que se estabelece pela entrega voluntária dos homens ao pecado. * A analogia com o escravo demonstra que o indivíduo que comete o pecado assume a condição de servo da própria transgressão. * A definição verbal fornecida por Irineu decompõe o significado de Mammón em conformidade com as tradições linguísticas antigas. * O idioma aramaico utilizado por samaritanos e judeus traduz o termo como a condição do codicioso que busca reter além do necessário. * A tradição hebraica com a adição do sufixo divino interpreta a palavra sob o sentido de glotão ou incapaz de conter os impulsos da gula. * A posterior herança filológica de Jerônimo e Agostinho fixou o significado de Mammón como sinônimo direto de riquezas ou de lucro. * A erudição de Irineu detém a primazia histórica, embora seus conhecimentos linguísticos particulares não tenham sido adotados pelos Padres.