===== Ressurreição e vida gloriosa ===== [[..:start|ANTONIO ORBE]] — [[.:start|CRISTOLOGIA GNÓSTICA]] **CAPÍTULO 32: RESSURREIÇÃO E VIDA GLORIOSA** A gnose heterodoxa admitiu as notícias sobre a ressurreição e aparições de Jesus com a mesma simplicidade com que deu cabida aos relatos sobre sua paixão e morte, embora os seus prejuízos não fossem contra o milagre ou o mistério, mas sim contra a exegese eclesiástica que a eles se vinculava. * O Evangelho de Filipe (§ 90) afirma que aqueles que dizem que primeiro vão morrer e depois ressuscitar se enganam, pois enquanto não lograrem a ressurreição em vida, nada obterão ao morrer, falando também do batismo como coisa grande para quem o recebe e viverá. * A Epístola a Regino sobre a ressurreição pergunta o que é a ressurreição e responde que é a revelação em todo momento dos que ressuscitaram, advertindo que, se alguém refletiu ao ler no Evangelho que apareceu Elias e Moisés com Ele, não deve pensar que a ressurreição é uma fantasia, mas sim a verdade. * O autor da Epístola a Regino recorre provavelmente à tradição, atestada por Josefo, Clemente, Orígenes e Evódio de Uzalo e procedente do apócrifo “Assunção de Moisés”, segundo a qual Josué viu em espírito como, ao morrer Moisés no monte, este se desdobrou: o Moisés corpóreo foi ao sepulcro e o outro associou-se aos anjos para viver com eles. **1. RESSUSCITA POR OBRA DO PADRE** Os primeiros discursos de São Pedro nos Atos dos Apóstolos e, em geral, os escritos do Novo Testamento indicam que o Padre ressuscitou a Jesus, fórmula habitual que os eclesiásticos traduziram sem dificuldade como Deus = o Padre. * Santo Inácio de Antioquia escreveu que Jesus Cristo ressuscitou verdadeiramente de entre os mortos, ressuscitando-o seu próprio Padre, e que os hereges não confessam que a eucaristia é a carne do Salvador, a mesma que padeceu por nossos pecados e que por sua bondade o Padre ressuscitou. * Santo Irineu, prevenindo o equívoco gnóstico, afirma que o mesmo Deus que enviou os profetas (Iahweh criador) ressuscitou Jesus de entre os mortos, e não um Deus Padre superior de diversa natureza, citando o discurso de Pedro ao Sinédrio (“O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus”). * Lógica e gnosticamente, a ressurreição de Jesus dever-se-ia a Deus Padre e não ao criador, sendo que os valentinianos nunca impugnaram a eficácia instrumental do criador a serviço da Sabedoria superior para os fenômenos sensíveis. **2. O ESPÍRITO RESSUSCITA A JESUS** Os ofitas de Irineu descrevem que, antes do [[tnpl:pathos:]], o Cristo superior (= Espírito Santo superior) havia-se retirado da humanidade de Jesus voltando ao Pleroma, mas não se esqueceu dele e, ao terceiro dia, enviou-lhe uma virtude (virtus quaedam) que o ressuscitou em corpo animal e espiritual. * Irineu relata que Jesus foi crucificado, morto e sepultado, e que Cristo (o superior) não se esqueceu do seu (Jesus), mas enviou do alto uma certa virtude que o excitou no corpo que chamam animal e espiritual, tendo ele remitido as coisas mundiais ao mundo. * Os valentinianos itálicos (a quem pertencem Heracleão e Ptolomeu) disseram que o corpo de Jesus foi feito animal e que por isso desceu no batismo o Espírito em figura de pomba (o Logos da Mãe superior, Sofia) e se lhe fez presente ao corpo animal e o despertou de entre os mortos, citando [[b>Romanos 8:11]] (“O que ressuscitou a Cristo de entre os mortos vivificará vossos corpos mortais”). * O Logos ou Cristo superior dos valentinianos itálicos, ao contrário dos ofitas, emprega a sua “vis” unicamente sobre o corpo animal de Jesus e não também (e principalmente) sobre o corpo ou semente espiritual. **3. JESUS RESSUSCITA POR SUA PRÓPRIA VIRTUDE** Santo Inácio de Antioquia, na carta aos de Esmirna, atesta a autoanástase do Salvador ao afirmar que o Senhor sofreu de veras e de veras se ressuscitou a si mesmo (os kai aletos anestesen heauton), e Santo Irineu, na Epideixis, manifesta que o Verbo, vindo a ser pessoalmente o primogênito dos mortos, ressuscitou em si mesmo ao homem abatido e o levantou à destra do Padre. * Marcion se negava positivamente a atribuir ao Padre a anástase de Jesus Cristo, omitindo em [[b>Gálatas 1:1]] a cláusula “et Deum Patrem” e querendo expor que Cristo foi ressuscitado por si mesmo, recorrendo para isso a [[b>João 2:19]] (“Destruí este santuário, e em três dias o levantarei”) e a [[b>João 10:18]] (“Ninguém tira a minha alma de mim, mas eu a ponho de mim mesmo. Tenho poder para a pôr e tenho poder para a tomar de novo”). * O autor das Antíteses (Marcion) não teve reparo em atribuir a Jesus sua própria ressurreição, pois o fato não constituía problema, mas teve inconveniente na missão de Paulo por Deus Padre como algo excessivo e em desacordo com a transcendência divina. * A carta a Regino afirma que o Salvador se tragou a morte, porque abandonou o mundo perecível, transformou-se em um eon imperecível e se irguiu, havendo tragado o visível com o invisível, e nos deparou o caminho da nossa imortalidade. **4. O CORPO REDIVIVO** A ressurreição de Jesus abriu um novo regime de secretas ensinanças, e a mudança de economia, segundo os gnósticos, entrañava uma mudança real na natureza humana do Salvador, especialmente em seu corpo, que até então passível deixou de o ser. * A Epístola dos Apóstolos apresenta o diálogo no qual os discípulos perguntam se a carne é corruptível ou o é o espírito, e o Salvador responde: “Em verdade vos digo: a carne ressuscitará e a alma se fará vivente; o que caiu ressurgirá, e o perdido será achado, e o que era débil é curado, para que neles se manifeste a glória de meu Pai”. * Os gnósticos negavam a aplicação do axioma “o que caiu ressurgirá” à carne, pois a carne ([[tnpl:sarx:]]) soteriológicamente nem cai nem se levanta, mas não interessa, e aplicá-la a queda e a ressurreição é abusivo, já que a carne não entra na natura do homem, sendo simples “vaso” ou instrumento da alma. * Tertuliano (De resurrectione 16) expõe o pensamento gnóstico de que o juízo preside unicamente à alma (conforme usou o vaso da carne), mas o vaso mesmo não é passível de sentença, porque nem os cálices se condenam se alguém os temperou com veneno, nem a espada é sentenciada às bestas se alguém com ela praticou latrocínio. * Os valentinianos (Excerpta ex Theodoto 7,5) dizem que o Senhor, para fazer uma imagem da ressurreição espiritual, aos mortos que ressuscitou não os ressuscitou incorruptíveis quanto à carne, mas como destinados a morrer em seguida, pois as ressurreições carnais (feitas na região do hysterema) só têm valor de imagem e duram o que basta para ensinar, em símbolo, a verdade. * Cerinto, navegando entre o ebionismo e o gnosticismo, fez de Jesus (filho de José e Maria) puro homem exaltado em prêmio à sua singular virtude, e ensinou que depois do batismo desceu sobre ele Cristo em figura de pomba, mas no fim Cristo re-voou de Jesus, e Jesus padeceu e ressuscitou, enquanto Cristo (espiritual) permaneceu impassível. Os ofitas de Irineu distinguem em Jesus crucificado três corpos: o mundiale (carnal, que não ressuscita), o animale (racional) e o spirituale (divino), sendo que o Salvador ressuscitou e atuou com os dois últimos durante os meses de vida gloriosa. * Irineu relata que os discípulos, vendo que Jesus havia ressuscitado, não o conheceram, nem sequer ao próprio Jesus (por cuja graça ressuscitou de entre os mortos), e este foi o maior erro entre os discípulos, pois pensavam que ele havia ressuscitado em corpo mundiale, ignorando que “carne e sangue não herdam o reino de Deus” ([[b>1 Coríntios 15:50]]). * Os ofitas ensinam que o autor verdadeiro e único responsável da ressurreição de Jesus homem foi o Cristo superior, o qual, assim como desceu sobre Jesus no Jordão para habilitá-lo para a pregação do Evangelho, baixou também agora, ao cabo de três dias, sobre o corpo animal (e espiritual), dando-lhe vida para a pregação gnóstica ao longo dos dezoito meses gloriosos. * O Apocalipse de Pedro (gnóstico) distingue em visão dramática os componentes do Salvador durante a paixão: o corpo passível (enclavado no leño, “casa de demônios”, sujeito à Lei, que se desfará em terra sem poder resurgir); o Salvador vivente ou anímico (corpo incorpóreo, que ressuscitará para vestir o Salvador glorioso); e a pessoa divina (o Espírito) do Salvador, que animará redivivo ao Jesus vivente. **5. VIDA GLORIOSA** Os gnósticos deram suma importância à atividade de Jesus ressuscitado no mundo, não tanto pelos fatos ou milagres (que foram raros ou inexistentes nesta fase), mas pelas palavras e revelações secretas que ele reservou para então, ensinando “desnuda e claramente” o que antes havia anunciado em parábolas. * A Hipóstase dos Arcontes (HA 144,33s) afirma que quando o homem verdadeiro se manifestar em um plasma, o Espírito da verdade que lhes enviar o Padre os adoutrinará sobre todas as coisas e os ungirá com o crisma da vida eterna. * Clemente Alexandrino (Hipotiposes) testemunha que o Senhor ressuscitado (meta ten anastasin) consignou a gnose a Tiago, o Justo, a João e a Pedro; estes a consignaram aos demais apóstolos, e os demais apóstolos aos setenta, de entre os quais era um Barnabé. * O Salvador, segundo os ofitas de Irineu (I 30,14), acomodava-se à capacidade daqueles a quem falava, e tendo descido sobre ele a sensibilidade ([[tnpl:aisthesis:]] = vis iluminante do espírito masculino), aprendeu o que é líquido, para depois ensinar estes mesmos mistérios a poucos dos seus discípulos, os que sabia (e fazia) capazes de tão grandes mistérios. * Santo Irineu (II 27,2) afirma que os hereges testemunham de si mesmos que o Salvador ensinou em oculto estas mesmas coisas não a todos, mas a alguns discípulos que podem compreender, significadas por argumentos, enigmas e parábolas aos inteligentes. **6. DURAÇÃO DA VIDA GLORIOSA** Os ofitas de Irineu e a Epístula Iacobi Apocrypha consignam a cifra de dezoito meses (ou 550 dias) para a duração da vida gloriosa de Jesus, número que os valentinianos (Ptolomeu) interpretam simbolicamente em relação aos trinta eons do Unigênito. * A Epístula Iacobi Apocrypha (2,19s e 8,3) relata que, 550 dias depois que Jesus havia ressuscitado de entre os mortos, os discípulos lhe disseram que ele se havia ido e se afastado deles, e Jesus respondeu que ia partir ao lugar de onde veio, tendo sido obrigado a ficar com eles ainda dezoito dias a causa das parábolas. * Ptolomeu (segundo Irineu, I 3,3) afirma que os restantes dezoito eons (do Pleroma) se manifestam por aquilo que depois da ressurreição dos mortos dizem que Ele conversou com os discípulos durante dezoito meses. * Os trinta eons do Unigênito (distribuídos em grupos de 8, 10 e 12, ou 18 + 12) se refletem, no plano temporal, nos trinta anos da existência oculta de Jesus (divididos em 12 e 18 anos) e nos trinta meses de sua atividade externa (12 meses até a paixão e morte e 18 meses até o regresso definitivo ao Pai). * Os valentinianos interpretavam a visão de Saulo no caminho de Damasco ([[b>Atos 9:3]]; 22,6; 26,13) como o símbolo da gnose da igreja espiritual até então abortiva, preparada em duas etapas pelo Salvador (até a paixão e até a conversão de Paulo), e calculavam o termo da iluminação de Paulo como símbolo da [[tnpl:gnosis:]] da igreja espiritual. * Heracleão, em exegese a [[b>João 4:40-41]], menciona os “dois dias” que Jesus se demorou perto dos samaritanos como símbolo do tempo antes de sua paixão e o posterior a ela, tendo realizado a paixão perto deles e convertido muitos mais à fé mediante a própria palavra antes de separar-se deles. * A cronologia dos quarenta dias ([[b>Atos 1:3]]) é testificada por Tertuliano (Apologético 21 e De baptismo 19) e conhecida por Irineu, e o Apocalipse sírio de Baruc (76,2-4) apresenta uma tradição paralela na qual Baruc sobe ao cume do monte e, dentro de quarenta dias, vê todos os lugares da terra antes de abandonar a terra para a conservação dos tempos. * A cifra 40 simbolizava, em círculos alejandrinos e helenísticos, a consagração do homem a Deus segundo o período requerido para a diatipose do feto, e Heracleão decompõe o número 46 (os anos do templo de Jerusalém em [[b>João 2:20]]) em 6 (símbolo da matéria ou plasma humano) e 40 (símbolo da alma e do espírito).