===== Mundo das Trevas ===== //Werner Foerster. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. Tr. R.M.L. Wilson. London: Clarendon Press, 1972.// * A descrição mais detalhada do mundo das trevas, contida no GR XII, seção 6, exorta os homens verdadeiros e crentes a se separarem do mundo de imperfeição pleno de confusão e erro, pois além da terra da luz e além da terra Tibil ao sul encontra-se aquela terra das trevas, de forma diferente em tipo e que se desvia da terra da luz em toda característica. * GR XII — Ginza Rba, livro doze, texto da mesma tradição do GR I e II 1; T. Noldeke discute o texto em Aufsatze zur Kultur- und Sprachgeschichte des Orients (Breslau, 1916) * A terra Tibil — denominação mandaica para o mundo terreno habitado pelos homens * As trevas existem por sua própria natureza maligna e são uma escuridão uivante, uma sombria desolação que não conhece o Primeiro nem o Último * O Rei da Luz, ao contrário, conhece e percebe o Primeiro e o Último, o passado e o futuro; ele sabia que o mal estava lá mas não queria causar-lhe dano, como disse: "Não prejudiques o perverso e o maligno, até que ele mesmo tenha causado dano" * Cf. Baruch-Gnose, Hipólito, Ref. V 26, 17 * Os mundos das trevas são numerosos e sem fim; a morada do mal é vasta e profunda, seus povos não mostraram fidelidade ao lugar que é sua habitação eterna, cujo reino veio a ser por si mesmo; sua terra é água negra e suas alturas são sombrias trevas * Da água negra o Rei das Trevas foi formado por sua própria natureza maligna e emergiu fortalecido, convocando e espalhando um número incontável de gerações malignas e criações feias, sendo as trevas representadas por uma enumeração exaustiva de entidades e atributos demoníacos. * As trevas proliferaram por meio de demônios, devs, gênios, espíritos, hmurthas, liliths, espíritos de templos e capelas, ídolos, archons, anjos, vampiros, duendes, espíritos nocivos, demônios de apoplexia, monstros, espíritos de redes e fechaduras e Satãs * devs — entidades demoníacas do imaginário iraniano; hmurthas — espíritos malignos específicos do universo mandaico; liliths — espíritos femininos maléficos de origem semítica * Seus atributos: sombrios, negros, desajeitados, rebeldes, furiosos, raivosos, venenosos, obstinados, tolos, preguiçosos, abomináveis, imundos e fedorentos * Alguns são mudos, surdos, estúpidos, gaguejantes, surdos-mudos, perplexos, ignorantes; outros são insolentes, irascíveis, violentos, estridentes, debochados, filhos do sangue, do fogo cintilante e da conflagração devastadora * Alguns são feiticeiros, vigaristas, mentirosos, falsificadores, ladrões, enganadores, exorcistas, caldeus, adivinhos — artífices de toda maldade, instigadores de opressão que cometem assassinato e derramam sangue sem piedade * O Rei das Trevas assumiu todas as formas das criaturas terrestres — cabeça de leão, corpo de dragão, asas de águia, dorso de tartaruga, mãos e pés de monstro — e embora conheça todas as línguas do mundo, é estúpido, confuso e não conhece nem o Primeiro nem o Último. * Paralelos maniqueus: Ibn an-Nadim, Fihrist 329, 12; Flugel, Mani 53, 10–12; Rudolph, Theogonie, 92 * Quando deseja se oculta dos seus para que não o vejam, mas conhece o coração dos que estão diante dele; quando suas gerações fogem ele as traz de volta por sua palavra * Quando quer se magnifica e quando quer se faz pequeno; sua natureza é dual — descrita como bissexual pela expressão técnica estudada por W. Sundberg, Mandaean Textual Cruces, e pelo dicionário Drower-Macuch * A espessura de seus lábios mede 144.000 parasangas — unidade persa de distância de aproximadamente 5,5 km * O sopro de suas mandíbulas funde o ferro; as rochas são chamuscadas por seu hálito; ao levantar os olhos as montanhas tremem; o sussurro de seus lábios faz as planícies estremecerem * Em sua arrogância pergunta: "Há alguém que seja maior do que eu? Há alguém cujo poder seja igual ao meu? Se houver alguém mais forte do que eu, então me levantarei para lutar com ele e descobrirei de onde vem sua força" * Escondendo-se, o Rei das Trevas contemplou de longe os mundos de luz na fronteira entre as trevas e a luz — como fogo no cume de montanhas elevadas, como estrelas brilhando no firmamento, como a radiância do sol ao nascer, como o luar — e ao ver o esplendor da terra de luz como lâmpadas ardentes protegidas por recipientes de vidro, decidiu ascender àquela terra brilhante e travar guerra com seu rei para tomar-lhe a coroa. * O Rei das Trevas disse: "O que é esta morada das trevas para mim, cuja magnificência é horrível e aterrorizante, cujo alimento é água negra e corrupção? Ascenderei àquela terra brilhante. Se ela for uma vestimenta, vesti-la-ei; se for alimento, comê-la-ei; se for bebida, bebê-la-ei; se for uma casa, destruí-la-ei; se for uma edificação, torná-la-ei uma ruína; se for algo mais forte do que eu, travarei uma disputa com ela" * Inflamado de fogo e ardendo de raiva, chegou acima da terra em um momento até a fronteira inferior das trevas, cobrindo em um dia de viagem uma distância de cem anos * Ao contemplar aquela forma resplandecente tentou se lançar das trevas para ela, mas não encontrou porta pela qual pudesse entrar, nem caminho a trilhar, nem ascensão pela qual pudesse subir — pois aquela forma estava nas alturas e ele estava nas profundezas, como os seres humanos, os animais e o gado que não podem ascender às alturas do céu * Os mundos de luz ouviram o clamor do Rei das Trevas e o exército perecível se reuniu e se agitou como um corpo cujo membro começa a tremer; então uma voz saiu do sublime Rei da Luz, ordenando calma aos uthras e skinas e anunciando o aprisionamento do dev maligno em seu próprio recipiente (kanna). * kanna — recipiente ou cápsula, termo técnico mandaico que designa o conteúdo ou a essência própria de um ser * O Rei da Luz disse: "Ficai calmos, uthras, e permanecei onde estais em vossas skinas. Não vos alarmeis com a fúria do dev estúpido e maligno que está tomado de raiva. Em seu próprio recipiente (kanna) ele será aprisionado. Todos os seus planos serão frustrados e suas obras (malignas) virão a nada" * O mensageiro de Manda dHaiye relata uma visão poética do mundo das trevas que contemplou quando estava na Casa da Vida, percorrendo suas portas, profundezas, guerreiros enterrados nas trevas, portas de fogo e a figura de Hewath a feminina. * Manda dHaiye — termo mandaico transliterado: Manda dHaiye — "Conhecimento da Vida", uma das principais figuras salvadoras do mandaísmo * "Quando eu estava na Casa da Vida, contempl os rebeldes. Contemplei as portas das trevas, contemplei as profundezas cheias de trevas. Contemplei os destrutivos e os senhores da morada sombria. Contemplei os guerreiros que estão enterrados nas trevas. Contemplei as portas de fogo, como elas ardem e brilham. Os perversos ardem e brilham e deliberam sobre imperfeição e deficiência" * Hewath — entidade feminina das trevas no universo mandaico; seu nome é transliterado como Hewath * "Contemplei Hewath a feminina, como ela fala nas trevas e na malícia. Ela fala em malícia, em feitiçaria e bruxaria que ela pratica. Ela fala com sabedoria ilusória e se entroniza na falsidade" * "Contemplei a porta das trevas e as artérias da terra Siniawis. Contemplei a água negra nela, que subia, fervia e borbulhava. Quem entra ali morre e quem a contempla é chamuscado. Contemplei os dragões que foram lançados ali e se contorcem — dragões de todo tipo e toda espécie" * "Contemplei as carruagens dos filhos das trevas, que não se parecem umas com as outras. Contemplei os rebeldes perversos sentados em suas carruagens, preparados com armas de maldade e maquinando o mal contra o Lugar da Luz" * O mensageiro interroga a Vida sobre a origem das trevas, de seus habitantes, de suas obras, de sua deficiência e de todas as entidades que as habitam, incluindo Hewath a feminina. * "De onde vêm as trevas? De onde são seus habitantes que nelas se sentam? De onde são suas obras tão horríveis e assustadoras? De onde vem sua deficiência tão abrangente, cuja aparência é horrível e temível e cheia de falhas?" * "De onde são os monstros poderosos e malignos que vivem no fogo? De onde são as águas negras que fervem e borbulham? Quem entra ali morre e quem as vê é consumido. De onde são os dragões lançados nelas que se contorcem? De onde são suas carruagens, de onde são os perversos que estão nelas? De onde é Hewath, a feminina?" * Sem resposta direta, o texto oferece apenas uma instrução sobre a precedência da luz: "Não há limite para a luz e não se sabia quando ela veio a ser. Nada era quando a luz não era, nada era quando a radiância não era. Nada era quando o Poderoso (Vida) não era; nunca houve limite para a luz. Nada era quando a água não era; a água é anterior às trevas" * "Os uthras são anteriores às trevas, anteriores às trevas são os uthras e mais antigos do que seus habitantes. A bondade é anterior à malícia do Lugar das Trevas. A gentileza é anterior à amargura do Lugar das Trevas. O fogo vivo é anterior ao fogo consumidor do Lugar das Trevas. O louvor é anterior à feitiçaria e bruxaria que os perversos praticam. O terceiro jordan é anterior à água corrente do Lugar das Trevas. A percepção é anterior ao que os perversos do Lugar das Trevas praticam. O chamado dos uthras é anterior ao dos poderosos perversos do Lugar das Trevas. O trono do repouso é anterior ao trono da rebelião. Hinos e recitações são anteriores à feitiçaria de Hewath, a terrível mulher" * B'haq-Ziwa e Ruha — B'haq-Ziwa é anterior a Ruha, assim como ela era; o designio de todos os uthras é anterior ao chamado rebelde; os justos eleitos são anteriores a todas as criações das trevas * "A água não se mistura com o piche e as trevas não podem ser equiparadas à luz. As trevas se formaram e quando se formaram imediatamente testaram sua força. Por causa da malícia que guardavam em sua mente, são aprisionadas em seu próprio kanna. Os filhos das trevas vêm a nada, mas os filhos do Poderoso (Vida) permanecem firmes. A casa dos perversos vem a nada e o fogo consumidor se apaga. Sua feitiçaria morre e cessa de ser, pois não existe desde a eternidade. Suas obras chegam ao fim, mas as gerações da Vida permanecem firmes para sempre e sempre. A instrução viva se levanta e ilumina a morada perecível" * O arco-demônio Ruha — também chamada Ruha Qadishta — é descrito como a mente da malícia e da mentira, plena de feitiçaria, bruxaria e sabedoria falsa, que se entroniza e pratica magia falsa com seus espíritos femininos, provocando perturbações. * Ruha Qadishta — transliterado: Ruha Qadishta — literalmente "Espírito Santo" em aramaico, mas no mandaísmo designa a potência feminina das trevas, inversão da figura positiva do Espírito * "Ruha Qadishta, sua mente é maliciosa, cheia de mentiras. (Tal é) a mente de Ruha, a mentirosa que está cheia de feitiçaria. Completamente cheia de feitiçaria é ela, cheia de bruxaria e sabedoria falsa" * "Hewath, a mulher, Ruha senta ali com seus hmurthas e arranca os cachos de seu cabelo. Ela senta e pratica magia falsa; ela e seus espíritos femininos e se entrega à sabedoria falsa" * "Como Ruha pondera e busca e provoca alvoroço pela magia falsa, e é possuída por feitiçarias malignas em que está enredada. Quanto a Ruha — quem lhe disse, a imperfeita e deficiente — quem lhe deu instrução, quem deu instrução à mentirosa, a feminina, a mãe do monstro vil?" * A referência ao monstro vil remete ao próprio governante das Trevas * Diferentes visões sobre a origem das trevas circulam nos textos mandaicos: Hibil interroga Qin sobre a procedência dos mundos das trevas e ela responde que vieram do Tanna e do plantio das trevas e do domínio das águas negras. * Hibil — figura mítica do mensageiro de luz mandaico; Qin — personificação feminina das trevas * Tanna — termo mandaico que designa o domínio primordial das trevas * Qin mostrou a Hibil o poder e a força das trevas e o mistério secreto guardado pelos poderosos monstros, os gigantes das trevas; mostrou-lhe uma fonte cujos limites e profundezas eram conhecidos e reconhecidos apenas por Hibil * ML, Qol 1 (Lidzbarski, 4 = CP seção 1): "No tempo não havia terra sólida nem habitantes nas águas negras. Delas e daquelas águas negras a malícia se formou e emergiu, da qual vieram a ser mil mil mistérios e mil mil planetas com seus próprios mistérios" * O texto do Jb, capítulo 13 apresenta uma descrição incomum de dois reis e duas naturezas: o rei deste mundo com espada e coroa de trevas que mata seus filhos, e o rei além dos mundos com coroa de luz e kushta na mão direita que instrui os seus. * "Dois reis vieram a ser (ou: estavam lá), duas naturezas foram criadas: um rei deste mundo e um rei além do mundo. O rei desta época vestiu uma espada e coroa de trevas. A coroa das trevas ele vestiu e tomou uma espada em sua mão direita. Uma espada tomou em sua mão direita, ele está lá e mata seus filhos. Ele está lá e mata seus filhos e seus filhos se matam mutuamente" * "O rei além dos mundos vestiu uma coroa de luz. Uma coroa de luz ele vestiu e tomou kushta em sua mão direita. Kushta tomou em sua mão direita, ele está lá e instrui seus filhos. Ele está lá e instrui seus filhos e seus filhos se instruem mutuamente" * Textos tardios sobre o dualismo afirmam que entre trevas e luz não pode haver nem kushta nem laufa — apenas ódio, inveja e dissensão — e os dois princípios são descritos como irmãos emanados de um único mistério, sendo o tronco o Adão cósmico que retém ambos em si. * ATS I, parágrafo 142 (Drower, Questions, 36, 146): "Vede e entendei que entre as trevas e a luz não pode haver nem kushta nem laufa; ao contrário, apenas ódio, inveja e dissensão, embora estejamos cientes de tudo o que acontece e poderia acontecer; pois as trevas são o adversário da luz; eles são direita e esquerda, espírito (ruha) e alma (nisimta), sol e lua, noite e dia, terra e céu, e são chamados Adão e Eva" * ruha — espírito; nisimta — alma ou sopro vital no vocabulário mandaico * ATS II, parágrafo 54 (Drower, Questions, 69, 213): "Os mundos de luz e os mundos de trevas são um para o outro como corpo e contraparte, que não podem nem se separar nem se aproximar um do outro, nem ser distinguidos um do outro, embora cada um extraia força do outro" * ATS II, parágrafo 307 (Drower, Questions, 95, 264): "Observai que luz e trevas são irmãos, emanando de um único mistério, e o tronco retém ambos em si. Todo sinal que pertence à luz tem no corpo um sinal correspondente que pertence às trevas. Quem não for marcado com o sinal das trevas não será estabelecido nem se aproximará do batismo (celestial?) e será marcado com o sinal da vida" * O "tronco" refere-se ao Adão cósmico, o macrocosmo — torso inanimado distinto de um ser vivo