===== Tratado sobre a Ressurreição ===== //Werner Foerster, W. [[tnpl:Gnosis:]]. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.// ** O TRATADO SOBRE A RESSURREIÇÃO ** ** INTRODUÇÃO ** * O Códex I de Nag Hammadi — também chamado Códex Jung — contém nas páginas 43, 25–50, 18 um tratado cujo título, aposto ao final (50, 17–18), é O Tratado sobre a Ressurreição, redigido na forma de uma carta desprovida, porém, de praescriptio. * Praescriptio — termo técnico da epistolografia antiga que designa o cabeçalho formal da carta, com remetente, destinatário e saudação * O remetente não revela seu nome e permanece desconhecido; H.-Ch. Puech e G. Quispel propõem identificá-lo com Valentino, hipótese considerada incerta * Valentino — fundador da escola gnóstica valentiniana, ativa no século II * O destinatário é Régino, residente na Palestina (44, 17) * A ocasião da carta é uma consulta de Régino sobre a ressurreição (44, 4) * O remetente apela tanto a uma revelação direta de Jesus (49, 37) quanto a citações de [[b>Mateus 17:3]] (48, 6) e a uma combinação de textos das epístolas paulinas (45, 24), enfatizando a necessidade da ressurreição — em que muitos não creem e que poucos encontram — e afirmando que ela é um fato, não uma ilusão (48, 10). * São distinguidas três ressurreições: espiritual, psíquica e carnal (45, 40) * O tratado frequentemente se refere à ressurreição em termos gerais sem indicar claramente qual das três tem em mente, gerando obscuridades * Uma ressurreição já ocorreu — cf. [[b>2 Timóteo 2:18]] — quando o homem se afastou das divisões e dos laços e se conheceu a si mesmo (49, 13); ela acontece na terra antes da morte * Referências a essa ressurreição terrena aparecem nos ditos 23 e 90 do [[gnosis:ef:start|Evangelho de Filipe]] e nas exposições da Exegese sobre a Alma 133, 31 e 134, 11 * A ressurreição espiritual é descrita em detalhe (45, 28): como raios somos atraídos ao céu * A ressurreição carnal também é ensinada (47, 2), como no dito 23 do [[gnosis:ef:start|Evangelho de Filipe]] * K. Rudolph (ThR 34, 1969, p. 204) discute a questão da autoria com bibliografia ** O TRATADO SOBRE A RESSURREIÇÃO ** * Diante de alguns que buscam aprender muitas coisas pelo simples prazer de resolver problemas e se vangloriar das soluções, constata-se que esses não se firmaram na palavra da verdade, pois buscavam o repouso que se recebe do Salvador ao perceber a verdade. * Referências paralelas à atitude dos buscadores vaidosos: [[gnosis:ev:start|Evangelho da Verdade]] 19, 21; 24, 16–20; 42, 11–25 * Régino pergunta de modo acolhedor sobre a ressurreição; em resposta afirma-se que ela é necessária, que muitos não creem nela e que poucos a encontram * O Filho de Deus era também Filho do Homem e possuía ao mesmo tempo humanidade e [[tnpl:divindade:]]: pela condição de Filho de Deus venceu a morte, e pela condição de Filho do Homem tornou possível o retorno ao Pleroma, pois era desde o princípio uma semente da verdade anterior à estrutura do mundo. * Pleroma — termo gnóstico designando a plenitude divina, o conjunto dos éons celestiais * Referências paralelas à dupla natureza do Salvador: Exc. Theod. 61, 4; Irineu I 12, 4; 15, 3 * O Salvador falou sobre a lei da natureza — chamada de morte — enquanto estava na carne e se revelou como Filho de Deus * Referências à vitória sobre a morte: Exc. Theod. 61, 7; Irineu I 15, 2–3 * A solução revelada visa não ocultar nada mas expor claramente a origem das coisas — de um lado a destruição do mal, de outro a revelação do excelente — e isso é a emanação da verdade e do Espírito; a graça faz parte da verdade * O Salvador devorou a morte, depôs o mundo que perece e o transformou num éon incorruptível * Ao devorar o visível pelo invisível, o Salvador deu o caminho da imortalidade, e conforme o Apóstolo — [[b>Romanos 8:17]] — sofremos com ele, ressuscitamos com ele e fomos ao céu com ele; manifestos no mundo como portadores dele, somos seus raios e somos por ele sustentados até nossa morte nesta vida, sendo atraídos ao céu como os raios pelo sol — e isso é a ressurreição espiritual. * Referências paralelas à atração ao céu: Irineu I 7, 1 * A ressurreição espiritual absorve a psíquica e a carnal * Referências paralelas nos ditos 23 e 90 do [[gnosis:ef:start|Evangelho de Filipe]] * A ressurreição não é matéria de persuasão mas de fé; o que morreu ressuscitará * Mesmo dentre os filósofos deste mundo há quem creia e ressuscitará — mas o filósofo não deve imaginar que revolve em torno de si mesmo * Pela fé conheceu-se o Filho do Homem, crendo que ressuscitou dos mortos; ele se tornou a destruição da morte; grandes são os que creem * O pensamento dos salvos não perecerá; a mente dos que o conheceram não perecerá * Os eleitos foram ordenados desde o princípio — [[b>Romanos 8:29]] — para não caírem na insensatez dos ignorantes, mas para atingirem a sabedoria dos que conheceram a verdade * O sistema do Pleroma é forte; o que dele se desprendeu é pequeno e se tornou o mundo — mas o Todo, que abarca tudo, não veio a ser, ele existia; e quem não estava na carne ao entrar no mundo recebeu carne, do mesmo modo que ao ascender ao éon receberá carne. * A verdade guardada não pode ser abandonada nem veio a ser — ou não virá a ser * Referência paralela ao Todo e ao Pleroma: [[gnosis:ef:start|Evangelho de Filipe]], dito 57 * O resíduo do corpo é a velhice; a corrupção é a perda, mas há nela graça; ninguém nos redime deste mundo — o Todo que somos é que é salvo; a salvação foi recebida do começo ao fim * A questão de se o salvo, ao abandonar o corpo, é salvo imediatamente não deve gerar dúvida: os membros visíveis mas mortos não impedirão a ressurreição, pois os membros vivos que estão neles ressuscitarão * A ressurreição é a revelação em todo tempo dos que ressuscitaram — não uma ilusão mas um fato — e o próprio mundo é mais ilusão do que ela, pois a ressurreição é a verdade estabelecida, a revelação do que é, a transformação das coisas e uma passagem para a novidade. * A aparição de [[tnpl:Elias:]] e [[tnpl:Moisés:]] no Evangelho — [[b>Mateus 17:3]] — é evocada como prova de que a ressurreição não é ilusão * Os vivos morrerão; os ricos empobreceram; os reis foram derrubados; tudo muda — o mundo é ilusão * A incorrupção desce sobre a corrupção e a [[tnpl:luz:]] flui sobre as trevas devorando-as — [[gnosis:ev:start|Evangelho da Verdade]] 24, 37–25, 1 * O Pleroma preenche a carência; esses são os sinais e imagens da ressurreição; isso é o que cria o bem * Régino é exortado a não perceber em parte, a não viver segundo esta carne em nome da unidade, mas a afastar-se das divisões e dos laços — e então já se tem a ressurreição; quem sabe que vai morrer e ainda assim age como se fosse morrer revela falta de exercício espiritual. * Referências paralelas às divisões e aos laços: [[gnosis:ev:start|Evangelho da Verdade]] 25, 10–19; 25, 12 * O exercício em várias formas liberta do princípio elemental para que o crente não se extravie mas se receba de volta tal como era no princípio * O remetente declara ter recebido essas coisas da bondade do Senhor Jesus [[tnpl:Cristo:]] e as ter ensinado a Régino e seus irmãos sem omitir nada do que convém para o fortalecimento deles * Caso haja algo profundo na exposição do tratado que precisar ser interpretado, o remetente promete fazê-lo quando solicitado * O remetente saúda Régino e os que o amam em amor fraterno