===== Franz Cumont ===== [[.:start|Escolas Gnósticas]] — Mani (216-276) **NOTAS DE MITOLOGIA MANIQUEIA** Mani não foi somente o criador de uma poderosa teologia, cujo dualismo consequente dava uma solução aparentemente simples ao eterno problema da existência do mal, nem apenas um profeta que teve bastante domínio sobre as almas para elevá-las até as alturas de uma renúncia quase sobrenatural. Sua religião, apesar do rigor lógico que lhe assegurou forte influência sobre os espíritos instruídos, não era um puro sistema de metafísica que implicasse certos princípios de moral; uma mitologia exuberante e fantástica fazia nela as vezes de cosmologia. Esses contos extravagantes, nos quais a imaginação oriental podia comprazer-se, contradiziam a ciência grega e chocavam o bom senso romano; por isso os apologistas cristãos os relatam com predileção. Foram sobretudo essas “fábulas intermináveis sobre o céu, as estrelas, o sol e a lua” que desviaram Santo Agostinho da seita em que se havia extraviado, depois de se ter esforçado em vão por conciliá-las com as teorias da astronomia. Para nós, que já não vamos buscar no maniqueísmo ensinamentos científicos, esses mitos assumiram outro valor. Eles reproduzem — ao menos é lícito supô-lo — antigas crenças que circulavam na região onde Mani escreveu, isto é, na Babilônia. Concepções de proveniência muito diversa deviam, em sua época, encontrar-se e combinar-se na religião desse país; mas as ideias dominantes eram as do clero oficial do Império Sassânida. Esses “magos” persas haviam admitido, ao lado das antigas tradições do zoroastrismo, doutrinas indígenas que remontavam em parte até os antigos caldeus. Estudaram-se pouco as relações que elas podem oferecer com a teologia maniqueia. Pretender-se-ia, nestas notas, tentar mostrar como certas fábulas, das quais os escritores cristãos zombam como invenções grotescas ou escandalosas de Mani, têm, na realidade, por fonte o mazdeísmo, meio semítico, que esse reformador pretendeu renovar. **I A SEDUÇÃO DOS ARCONTES** Os polemistas cristãos comprazem-se em repetir um mito licencioso que era narrado no “Tesouro de Vida” de Mani. Essa fábula, contra a qual se indignam não sem alguma razão, aparece sob duas formas diferentes. Os príncipes das trevas, depois de haverem vencido e absorvido os deuses luminosos, foram capturados pelo Espírito vivo, enviado por Deus, e foram crucificados ou acorrentados no céu. A esses demônios machos e fêmeas aparece por vezes uma figura andrógina, a Virgem de Luz, que se mostra a uns sob a forma de uma jovem sedutora, a outros sob a de um belo jovem. Os arcontes impuros inflamam-se do desejo de possuir essa visão; fazem esforços vãos para alcançá-la, mas ela lhes escapa sempre; urram de luxúria e o suor escorre de seus corpos gigantescos: é a chuva que cai sobre a terra no estrondo das tempestades. Nos autores que se acaba de citar, a fábula não é senão ridícula, julga Beausobre; mas em Santo Agostinho e em Evódio ela é de uma obscenidade horrenda. Essa segunda tradição oferece duas diferenças em relação à primeira: em primeiro lugar, não é a Virgem de Luz que se faz ver sob seu duplo aspecto aos demônios cativos, mas, em geral, “Virtudes” que acendem a concupiscência dos arcontes: elas deixam os “navios luminosos”, o Sol e a Lua, onde residem, para vir mostrar-se sob a forma de jovens sem vestes e de jovens resplandecentes. São as próprias expressões de que se servia a versão latina do “Tesouro”, da qual Santo Agostinho cita um longo extrato. Em segundo lugar, já não se trata nesse mito de provocar a chuva, mas de libertar o “princípio vital” encerrado nos membros desses espíritos perversos, isto é, conforme a teologia maniqueia, as parcelas de luz que eles absorveram. Essas “almas luminosas” sobem então de volta ao céu, sua primeira pátria. Somente as expressões vagas de que Mani se servia para designar a substância que o ardor de sua concupiscência devia fazer sair dos arcontes se prestavam às interpretações mais escabrosas. Os escritores cristãos não se privaram de extraí-las, e, como se verá, não estavam de todo errados. O honesto Beausobre, que não pode resignar-se a tornar o maniqueísmo responsável por “profanações tão estranhas”, prefere pôr em dúvida o testemunho de Santo Agostinho. “Não o acuso de mentira”, diz ele; “mas estou persuadido de que foi enganado por uma tradução, ou antes, por algum extrato infiel do Tesouro de Maniqueu.” Seria muito espantoso que um controversista tão erudito não tivesse conhecido exatamente os livros de uma seita na qual permanecera nove anos. Mas todas as dúvidas que se poderiam conservar sobre a exatidão da passagem que ele cita foram dissipadas pela descoberta do “Livro dos Escólios” de Teodoro bar Khouni. Eis, com efeito, o que continha, segundo esse autor sírio, o “ensinamento impuro” de Mani: “O Pai de grandeza — isto é, Deus — criou o Mensageiro... Quando os vasos — o Sol e a Lua — chegaram ao meio do céu, o Mensageiro fez aparecer suas formas, tanto a forma masculina quanto a forma feminina, e foi visto por todos os Arcontes, filhos das Trevas, machos e fêmeas. À vista do Mensageiro, que era belo em suas formas, todos os Arcontes ficaram cheios de desejo; os machos desejaram a forma feminina, e as fêmeas, a forma masculina, e começaram, em seu desejo, a restituir essa luz que haviam absorvido ao tomá-la dos cinco deuses luminosos.” Vê-se que esse resumo dos Escólios siríacos concorda absolutamente com a tradição latina, salvo em um detalhe: o papel atribuído aqui a vagas Virtudes é ali desempenhado por uma personagem bem determinada, o “Mensageiro”. Mas ver-se-á que isso é antes uma diferença de expressão que uma divergência de doutrina. Que seja de conhecimento, o único texto latino em que se trata do “Mensageiro” é uma passagem de Evódio, que se refere precisamente à sedução dos arcontes; esse autor fala nela do “Pai bem-aventurado, que reside nos navios luminosos, aquele que é chamado terceiro Mensageiro, Virtude altíssima, que transformou suas virtudes em seres de sexo diferente”. Por que esse Mensageiro é chamado “terceiro”? Poder-se-ia supor que tivesse sido identificado com o Espírito Santo, chamado pelos maniqueus “terceira majestade”. Mas Teodoro bar Khouni dá a chave desse enigma mitológico: o Mensageiro foi a terceira criação do Pai de Grandeza. A tradição grega não ignorou a existência desse enviado celeste, mas o título deste foi desfigurado por uma corrupção paleográfica muito antiga. Os Acta Archelai dizem que, quando os séculos forem cumpridos, o sinal da conflagração universal será dado pelo “terceiro Ancião”. Os eruditos esforçaram-se em vão por compreender o que poderia ser esse “terceiro Ancião”, que aparecia bruscamente no fim do mundo sem nunca ter entrado antes em cena. Vê-se agora que se deve simplesmente ler “terceiro Mensageiro”, que é o equivalente exato do legatus tertius de Evódio; e, com efeito, o Fihrist afirma igualmente que, no último dia, o “Mensageiro da Salvação” chegará do Oriente. Pode-se, portanto, riscar o misterioso “Ancião” da lista dos deuses maniqueus. Há mais: os Acta unem o Mensageiro à Virgem de Luz e os colocam ambos nos vasos celestes — não se vê claramente se se trata do Sol ou da Lua. É ali que se sentam também as “Virtudes” de Santo Agostinho, e elas provavelmente não designam outra coisa senão esses dois gênios siderais. Os maniqueus do Ocidente terão experimentado alguma repugnância em falar de monstros dimorfos e de um sexo ambíguo; mas a doutrina desenvolvida no extrato latino do “Tesouro” é, no fundo, a mesma que aquela exposta mais cruamente nas outras fontes. As “Virtudes” masculinas e femininas não são concebidas como seres independentes, possuidores de uma essência própria, mas como manifestações do “Pai bem-aventurado”, que reside no Sol — Evódio informa que é o “Mensageiro” — e de outra potência inominada que habita a Lua, e que se identificava sem dúvida com a Virgem luminosa. Como o profeta da Babilônia introduziu em seus escritos imaginações tão bizarras, e qual foi sua fonte de inspiração? É preciso buscá-la nas crenças mazdeístas que ele pretendia reformar. Segundo a teologia avéstica, o Mensageiro de Ahura-Mazda é o deus Nairyô-Sanh. Seu culto era popular no vale do Eufrates e até na Armênia. Era representado, talvez à imitação do Hermes helênico, como um efebo cuja beleza juvenil exercia irresistível sedução. No Avesta, associa-se a seu nome o epíteto “de alta estatura”. Os Atos siríacos de Mar Pethiôn contam que o santo, tendo permanecido na prisão sem comer durante dois meses e seis dias, “foi encontrado vivo pelo chefe dos magos, e semelhante, pela frescura de seu rosto e por toda a sua aparência, ao deus Narsaï”. Uma lenda mazdeísta conta o seguinte a respeito da criação desse gênio encantador: “Tendo Satanás permitido às mulheres pedir o que quisessem, Ormuzd temeu que elas pedissem ter relações com os justos e que disso resultasse para estes um tormento. Procurou um expediente e fez o deus Narsaï, personagem de quinhentos anos. Colocou-o inteiramente atrás de Satanás, para que as mulheres o vissem, o desejassem e o pedissem a Satanás. As mulheres levantaram as mãos para Satanás e lhe disseram: ‘Satanás, nosso pai, dá-nos o deus Narsaï de presente’.” Vê-se que é absolutamente o mesmo tema que foi retomado por Mani, e a semelhança estende-se até a certos detalhes, pois o “Tesouro de Vida” observa, como o relato dos magos, que as “Virtudes” se mostrarão aos arcontes femininos sem vestes. Isso poderia não passar de um conto licencioso, como se encontram em todas as mitologias; mas outras fábulas, ainda mais impudicas, precisam o caráter de Nêryosang e o aproximam ainda mais do Mensageiro maniqueu. Que o leitor perdoe se as traduções do zende e do pálavi afrontam aqui a honestidade. Nêryosang é, na origem, um gênio ígneo. O Avesta o chama “o fogo que reside no umbigo dos reis”, isto é, “que se transmite de rei em rei pela hereditariedade”. Ele assegura a propagação da raça dos heróis e provoca, em geral, “o crescimento do mundo”. É ele quem faz crescer o “germe dos príncipes quianidas” e a quem foi confiado o de Zoroastro. “Três vezes”, conta o Bundahishn, “Zoroastro se aproximou de Hvôgvî, e a cada vez o germe caiu à terra. O izede Nêryosang recolheu o que havia nesse germe de luz e de força, confiou-o a Anâhid, e, chegado o tempo, ele se uniria a um seio materno...” Uma lenda análoga circulava sobre Gayômart, o Homem primitivo: Gayômart, ao morrer, emitiu uma semente; essa semente foi completamente purificada pelo movimento da luz do sol, e Nêryosang conservou duas porções, enquanto Spendarmad, a deusa da Terra, recebeu uma porção. Dessa semente nasceu em seguida o primeiro casal humano. Perceber-se-á agora a conexão estreita da doutrina maniqueia com as antigas crenças dos magos. Segundo Mani, como segundo o Bundahishn, o Homem Primitivo sucumbe sob os golpes do Espírito das trevas; aqui, ao morrer, ele deixa escapar sua semente fecunda, da qual cuida Nêryosang, mensageiro dos deuses, como o mesmo Nêryosang o fará mais tarde com a de Zoroastro e a dos heróis; ali, a luz vivificante do Homem primitivo é absorvida pelos demônios, mas o Mensageiro divino os obriga a entregá-la. De um lado e de outro, essa “substância vital” deve ser purificada na luz celeste e sobe para o sol ou para a lua, enquanto uma parte — a mais grosseira — recai sobre a terra, onde frutifica. Mani apropriou-se, portanto, de um velho mito de naturalismo sem pudor, que era ensinado pelos magos do Império Sassânida; mas quis, por uma interpretação ousada, fazer dele um episódio da luta entre seus dois princípios eternos. A “substância vital” torna-se para ele a luz mantida cativa pelos Príncipes das trevas. Esse capítulo da cosmologia maniqueia pôde assim aparecer aos orientais como a revelação de uma verdade pressentida havia muito. Mas, sob o véu do símbolo, a obscenidade da lenda primitiva ainda transparecia, e sua grosseria devia chocar ao mesmo tempo a consciência e o gosto dos latinos. O mesmo ocorreu com muitas outras fábulas do maniqueísmo. **II O OMÓFORO** Mani representava o mundo mantido em equilíbrio por dois gênios colossais: um, que os textos latinos chamam Splenditenens, mantinha suspensos os céus luminosos; o outro, o Omóforo, sustentava a terra. Santo Agostinho, que o denomina ironicamente “o Atlas portador”, descreve-o com um joelho dobrado, o outro apoiado no solo, carregando sobre seus robustos ombros seu pesado fardo, que mantinha com as duas mãos. Os escólios siríacos de Teodoro bar Khouni falam igualmente do “Portador que, ajoelhado sobre um de seus joelhos, carrega as terras”, e o Fihrist ensina que, no fim do mundo, “o Anjo encarregado de carregar a terra levantar-se-á” — antes, portanto, estava acocorado —, “enquanto aquele que puxa o céu para si o soltará”, o que produzirá uma confusão e uma conflagração gerais. A descrição do polemista cristão é, portanto, certamente, como ele deixa entender, tomada de um hino sagrado de seus adversários, e sem dúvida a imagem do gênio cósmico era representada nesses manuscritos ilustrados com preciosas miniaturas, que a devoção dos maniqueus eruditos se comprazia em multiplicar. Ora, a mesma personagem é reproduzida nos baixos-relevos em que se figura a cosmogonia dos mistérios de Mitra. Por vezes essa representação aproxima-se da do Atlas grego; mas em outros lugares seu caráter exótico é conservado mais fielmente. Assim, o baixo-relevo de Neuenheim mostra-o sob a aparência de um jovem em traje oriental, coberto pelo barrete frígio, carregando sobre os ombros um largo disco, e toda a sua atitude corresponde, traço por traço, àquela que Santo Agostinho descreve. Mas, muito mais antigamente, a mesma atitude é atribuída a uma personagem análoga na iconografia religiosa da Mesopotâmia. Os textos cuneiformes descrevem um deus “porta-céu” que é frequentemente figurado nos cilindros assírios, ajoelhado, como o Omóforo, e sustentando com as duas mãos elevadas o disco alado. Reconheceu-se nele, com razão, um Atlas babilônico. Outros indícios provam a difusão de seu culto em todos os países semíticos. Atlas passava, desde a época helenística, por inventor da astrologia caldeia. Segundo a cosmogonia de Fílon de Biblos, Atlas é filho de Urano e de Gaia, e seu irmão Cronos o sepulta no seio da terra. Ele tinha também um lugar nos cultos sírios: Luciano informa que sua estátua se encontrava no templo de Hierápolis. Nem mesmo os árabes haviam perdido a lembrança dessa estranha figura mitológica. Um autor do primeiro século da Hégira, Wahb ibn Munabbih, que se interessava pelas antigas religiões pagãs, relatava o seguinte: a terra é como um navio que é puxado e avança. E Deus criou um anjo enorme e fortíssimo, ao qual ordenou que entrasse sob a terra e a carregasse nos ombros, o que ele fez. Tirou uma das mãos do Oriente e a outra do Ocidente, abraçou as extremidades da terra e a sustentou, etc. Mani apropriou-se, portanto, de uma antiga crença muito popular entre os semitas e que havia mesmo penetrado no mazdeísmo, como o prova a doutrina dos mistérios de Mitra. Que se trate de uma ideia vulgar muito antiga é o que mostra a sequência dada ao mito maniqueu. Este fornecia uma explicação infantil dos terremotos, que seriam devidos a falhas passageiras do Omóforo. Produziam-se “fora dos tempos determinados” quando o Portador, fatigado, cedia sob seu fardo, ou então quando o mudava de ombro. A mesma explicação ingênua dos abalos sísmicos se encontra entre os selvagens dos países mais distantes, sobretudo na ilha de Timor e entre os astecas da América. Ela remonta à época em que o transporte de mercadorias às costas de homens ainda era geral. Resta resolver uma dificuldade. O sacerdote Timóteo de Constantinopla, que escreveu, ao que parece, no século VI, um tratado contra as heresias, dá ao Omóforo o nome de Saclas. Beausobre tratou esse testemunho tardio com muito desdém: “Um autor grego da Idade Média confunde indevidamente o Atlas dos maniqueus com um demônio famoso chamado Saclas.” Quem é, pois, esse demônio? Segundo o relato maniqueu da criação, tal como o referem os autores ocidentais, Saclas, o príncipe da fornicação, unindo-se a Nébrôd, teria gerado Adão e Eva. Há muito se observou que “Saclas, príncipe da fornicação” é um nome e um título que os maniqueus tomaram emprestados aos gnósticos. No Oriente, essa personagem chamava-se de modo diferente. Do mesmo modo, o gigante bíblico, Nebrôd ou Nemrod, foi substituído pelo demônio Nabroël ou Namraël. Vê-se operar nesses detalhes aquela cristianização progressiva pela qual a religião do profeta babilônico procurou adaptar-se às crenças do mundo romano. Parece, portanto, que Saclas, pai do primeiro casal humano, nada tem de comum com o Omóforo, e que se deve admitir, como queria Beausobre, um simples erro de Timóteo. Mas esse pretenso erro reencontra-se em um texto absolutamente independente do sacerdote bizantino, os “anátemas de Próspero”, redigidos no ano 526, na Gália e em latim. Neles se fala de “Atlas, isto é, do Omóforo, que as blasfêmias maniqueias fazem pai de Adão”. A confusão deve, portanto, remontar muito mais alto que Timóteo e, sem dúvida, até uma fonte oriental. O Omóforo chama-se em siríaco — a língua na qual Mani narrou essa lenda — o “Portador”, Sâbâla. Mas, nas escrituras aramaicas, nada é mais frequente que a confusão entre beth e qof. Assim, Sâbâla mal se distinguia de Saqla, e essa semelhança fortuita foi a fonte de todas as combinações posteriores. Bruxelas. Franz Cumont.