====== Texto ====== //// {{tag>"Biblioteca de Nag Hammadi", "Evangelho de Filipe"}} O EVANGELHO SEGUNDO FILIPE ([[https://www.naghammadi.org/traductions|BNH]] II, 3) [[https://www.naghammadi.org/sites/naghammadi.org/files/uploads/traductions/nh-ii-3-evangile-selon-philippe.pdf|Tradução de Louis Painchaud]] (1) Um hebreu faz hebreus, e chama-se [as] pessoas dessa espécie de “prosélitos”; mas um p[rosél]ito não faz prosélitos. Ora, [alguns] são como são [desde o princípio] e fazem ou[tros, mas a eles] basta-lhes somen[te] nascer. (2) O escravo busca somente tornar-se livre, mas não cobiça a fortuna de seu senhor. Não somente o filho é filho, mas entra na posse da herança do pai. (3) Os herdeiros dos mortos são eles mesmos mortos, e é dos mortos que herdam. Os herdeiros do vivente são eles mesmos viventes e herdam do vivente e dos mortos. Os mortos não herdam de ninguém. Como, de fato, aquele que está morto poderia herdar? O morto, se herdasse do vivente, não morreria, mas, muito mais, viveria, o morto. (4) Um gentio não morre, pois jamais viveu para poder morrer. Aquele que creu na verdade viveu, e ele corre o perigo de morrer, pois vive. Desde que o Cristo veio, (5) o mundo é criado, as cidades são embelezadas, retira-se o que está morto. (6) Nos dias em que éramos hebreus, éramos órfãos; tínhamos apenas nossa mãe. Mas, quando nos tornamos cristãos, tivemos pai e mãe. (7) Aqueles que semeiam no inverno colhem no verão. O inverno é o mundo; o verão é o outro éon. Semeemos no mundo a fim de colher no verão! Por isso, não convém que oremos no inverno. O que procede do inverno é o verão. Se alguém colhe no inverno, não colherá, mas arrancará. (8) Porque aquele que é dessa espécie não pode produzir fruto, não somente quando serve [ . . . . . . ], mas também durante o sábado; [ . . . . . . . ] não dá fruto. (9) O Cristo veio para comprar uns, para salvar outros, e ainda para resgatar outros. Aqueles que são estrangeiros, ele os comprou e os fez seus, e separou os que voluntariamente depositara como penhor. Não foi somente quando apareceu que depositou sua alma como penhor quando quis, mas foi desde que o mundo existe que depositou sua alma. No momento em que quis, apresentou-se para retomá-la, visto que ela havia sido depositada como penhor. Ela estava entre os ladrões, e eles a mantinham prisioneira, mas ele a salvou. E resgatou os bons no mundo e também os maus. (10) A luz e as trevas, a vida e a morte, os da direita e os da esquerda são irmãos uns dos outros. É impossível separá-los uns dos outros. Eis por que nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte, morte. Por isso, cada um se dissolverá em seu princípio inicial. Mas aqueles que são superiores ao mundo não estão sujeitos à corrupção, eternos. (11) Os nomes que se dão às realidades deste mundo contêm um grave erro, pois desviam o espírito daquilo que é estável para aquilo que é instável. E aquele que ouve “deus”, não concebe aquilo que é estável, mas concebe aquilo que é instável. O mesmo se dá com as palavras “pai”, “filho” e “espírito santo”, “vida” e “luz”, “ressurreição” e “igreja”, [e] todo o resto: não é aquilo que é [estável] que se concebe, mas aquilo que é [in]stável que se concebe, [a] menos que se tenha sido instruído acerca daquilo que é estável. Os no[mes que se] ouvem pertencem ao mundo. [Que não se] [enga]ne [alguém]. Se pertence[ssem] ao éon, jamais serviriam para nomear no mundo e não teriam sido colocados entre as realidades deste mundo. Eles têm seu limite no éon. (12) Um só Nome não é proclamado no mundo, o Nome que o Pai deu ao Filho; ele está acima de toda coisa, é o Nome do Pai. Pois o Filho não poderia tornar-se o Pai a menos que tivesse revestido o Nome do Pai. Esse Nome, aqueles que o possuem certamente o compreendem, mas não o pronunciam. Quanto aos que não o possuem, não o compreendem. Mas a verdade gerou nomes no mundo por causa de nós, que não podemos instruir-nos a seu respeito sem os nomes. Única é a verdade; ela é também múltipla por causa de nós. Instruir-se acerca desse único é apenas possível por meio do múltiplo. (13) Os arcontes quiseram enganar a humanidade assim que viram que ela era aparentada àquilo que é verdadeiramente bom. Tomaram o nome daquilo que é bom e o atribuíram àquilo que não é bom, a fim de enganá-la por intermédio dos nomes e de prendê-los àquilo que não é bom, e depois — que favor lhes fazem! — a fim de desprendê-los daquilo que não é bom e de colocá-los entre aquilo que é bom a seus olhos. Pois, na realidade, queriam tomar todo aquele que era livre e prendê-lo a si como escravo para sempre. (14) Há potências que são ú[teis ao] homem sem chegar a querer que ele seja [salvo], com o objetivo de sub[sistir]. Com efeito, se o homem fosse sal[vo, não haveria] mais sacrifícios [ . . . . . . . . ], e ofereciam-se animais às potências. Pois eram animais que se [lhes] ofereciam. Ofereciam-nos vivos, mas, quando eram oferecidos, morriam. Quanto ao homem, foi oferecido a Deus morto, e viveu. (15) Antes que o Cristo viesse, não havia pão no mundo. É como o paraíso, o lugar onde estava Adão: ele continha muitas árvores como alimento para os animais, mas não continha trigo como alimento para o homem. O homem alimentava-se como um animal. Mas, quando veio o Cristo, o Homem perfeito, trouxe o pão do céu a fim de que o homem se alimentasse do alimento do homem. (16) Os arcontes criam que era por seu próprio poder e por sua própria vontade que faziam o que faziam. Mas o Espírito Santo, em segredo, realizava tudo através deles, como queria. A verdade é semeada em todo lugar, ela que existe desde o começo. E há muitos que a veem semeada, mas poucos são aqueles que a veem colhida. (17) Alguns dizem que Maria concebeu do Espírito Santo. Enganam-se. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher jamais concebeu de uma mulher? Maria é a virgem que nenhuma potência maculou. Ela é um grande anátema para os hebreus que são os apóstolos e [os] “apostólicos”. Essa virgem que nenhuma potência maculou [é] uma [ . . . . ]: as potências se [macularam] a si mesmas. E o Senhor não t[eria] dito: “Meu P[ai que estás] nos céus” a menos que tivesse tido um [ou]tro Pai, mas teria dito simplesmente [“Meu Pai”]. (18) O Senhor disse aos discíp[ulos: “ . . . . ] [de] toda [ca]sa. Trazei para a casa do Pai, mas nada tomeis e nada leveis da casa do Pai. (19) “Jesus” é um nome oculto; “Cristo” é um nome manifesto. Por isso, “Jesus” não é traduzido em nenhuma língua, mas seu nome permanece “Jesus”, e é assim que se chama. O Cristo, por sua vez, seu nome em siríaco é Messias, mas em grego é Cristo, e, certamente, todas as outras línguas possuem um equivalente que é próprio de cada uma. O elemento manifesto daquilo que é oculto é “Nazareno”. (20) O Cristo contém tudo em si: homem, anjo ou mistério, e o Pai. * (21) Aqueles que dizem que o Senhor morreu primeiro e depois ressuscitou estão no erro, pois ele ressuscitou primeiro, depois morreu. Se alguém não obtém primeiro a ressurreição, não deve morrer? Pelo Deus vivo, esse não deve ? (22) Ninguém esconderia um objeto muito precioso numa coisa de grande valor. Mas frequentemente se puseram milhões e milhões numa coisa que não valia um asse. O mesmo se dá com a alma: ela é uma coisa preciosa, mas habita um corpo sujeito à vergonha. (23) Há alguns que têm medo de ressuscitar nus; por isso, querem ressuscitar na carne. Mas não sabem que são aqueles que estão revestidos da carne que estão nus. São aqueles que [ . . . . . . ] . . . . . despir-se que não estão nus. Nem carne nem sangue herdarão o rei[no de De]us? O que não herdará? Aquilo que está sobre nós! E o que herdará? Aquilo que pertence a Jesus e seu sangue! Eis por que ele disse: “Aquele que não comer minha carne e não beber meu sangue não tem a vida em si.” Como isto? Sua carne é o Verbo e seu sangue é o Espírito Santo. Aquele que os recebeu tem alimento, bebida e vestimenta. Eu censuro os outros que dizem que ela não ressuscitará. — “Mas, no entanto, os dois estão na deficiência!” — Tu dizes que a carne não ressuscitará? Mas dize-me o que ressuscitará, para que te rendamos glória. Tu dizes que é o espírito que está na carne? E também que é essa luz que está na carne? Mas aquilo de que falas encontra-se sempre na carne, pois o que quer que possas dizer, nada dizes que esteja fora da carne! É necessário ressuscitar nesta carne, visto que tudo está nela. (24) Neste mundo, aqueles que portam as vestes são superiores às vestes; no reino dos céus, as vestes são superiores àqueles que as portam. (25) Pela água e pelo fogo toda coisa é purificada: aquilo que é visível por aquilo que é visível, aquilo que é oculto por aquilo que é oculto. Há coisas ocultas por aquilo que é visível: há uma água numa água, há um fogo num crisma. (26) Jesus os tomou a todos graças a um subterfúgio, pois não apareceu tal como era, mas mostrou-se tal como se [seria] capaz de vê-lo. Foi a to[dos] que apareceu. Apareceu aos grandes sob o aspecto de um grande, apare[ceu] aos pequenos sob o aspecto de um pequeno; apareceu [aos] anjos sob o aspecto de um anjo e aos homens sob o aspecto de um homem. Por isso, seu Verbo permaneceu oculto a todos. Alguns o viram crendo ver a si mesmos. Mas, quando apareceu em glória a seus discípulos sobre a montanha, não era pequeno. Tornou-se grande, mas, para que eles pudessem vê-lo grande, fez crescer seus discípulos. Naquele dia, disse na ação de graças: “Tu que uniste a luz perfeita ao Espírito Santo, reúne também os anjos a nós enquanto imagens.” (27) Não desprezeis o cordeiro, pois sem ele é impossível ver o . Ninguém poderá aproximar-se do rei estando nu. (28) O homem celeste, seus filhos são muito mais numerosos que os do homem terrestre. Se os filhos de Adão são numerosos embora morram, quanto mais os filhos do homem perfeito, que não morrem e nascem sem cessar. (29) Um pai faz filhos, mas um filho não pode fazer filhos, pois quem é gerado não pode gerar. Mas um filho tem irmãos, não filhos. (30) Todos aqueles que são gerados no mundo são gerados pela natureza, e os outros, é [de onde] são gerados que se ali[mentam]. O homem recebe seu [ali]mento da [pro]messa, em [vista do lu]gar do alto. [Se . . . . ] dele da boca — [de onde] provém a palavra —, então seria alimentado por aquilo que provém da boca e se tornaria perfeito. (31) Com efeito, os perfeitos concebem e geram por um beijo. É por isso que também nós nos beijamos mutuamente, e é pela graça que está em nós mutuamente que recebemos a concepção. (32) Havia três mulheres que eram próximas do Senhor: sua mãe Maria, irmã e Maria Madalena, chamada sua companheira. Com efeito, sua irmã era uma Maria, sua mãe e sua companheira também. (33) “O Pai” e “o Filho” são nomes simples. “O Espírito Santo” é um nome duplo. Eles estão, de fato, por toda parte. Estão em cima. Estão embaixo. Estão no oculto. Estão no manifestado. O Espírito Santo está no manifestado. Está embaixo. Está no oculto. Está em cima. (34) As potências más servem os santos, pois são tornadas cegas pelo Espírito Santo, de sorte que creem servir seus homens todas as vezes que o fazem pelos santos. É por isso que um discípulo pediu ao Senhor, certo dia, alguma coisa do mundo. Ele lhe disse: “Pede a tua mãe, e ela te dará daquilo que é estrangeiro.” (35) Os apóstolos disseram aos discípulos: “Que nossa oferenda inteira obtenha sal.” Chamavam [a Sabed]oria de “sal”. Sem ela, nenhuma of[erenda] poderia ser aceita. (36) E a Sabedoria é estér[il, sem] filho. É por isso que [a] chamam [ . . . . . ] . . . . . de sal. O lugar onde eles . . . [ . . . . ] . . à sua maneira. O Espírito Santo [ . . . . . . ] [e] seus filhos são numerosos. (37) Aquilo que o pai possui pertence ao filho. E o próprio filho, enquanto é pequeno, não se lhe confia aquilo que é seu. Quando se torna homem, seu pai lhe dá tudo o que possui. (38) Ó extraviados! Aqueles que o Espírito gera são também extraviados por ele. É por isso que se diz que o mesmo sopro pode avivar ou apagar a chama. (39) Uma coisa é Echamoth, e outra coisa é Echmoth. Echamoth é simplesmente Sabedoria. Echmoth é a Sabedoria da morte, isto é, aquela que conhece a morte, chamada pequena Sabedoria. (40) Há animais que são submetidos ao homem, como o boi, o asno e outros dessa espécie. Há outros que não são submetidos, que vivem afastados no deserto. O homem lavra o campo com a ajuda dos animais que são submetidos e, graças a isso, alimenta-se, assim como os animais, estejam eles a seu serviço ou não. O mesmo se dá com o homem perfeito: é por intermédio de potências que são submetidas que ele lavra, preparando toda coisa para advir. Eis, portanto, por que toda coisa se mantém, tanto o bem quanto o mal, a esquerda e a direita: o Espírito Santo apascenta todas elas e comanda [todas] as potências, as que são submetidas e as i[nsubmi]ssas e solitárias. Pois ele . . . [ . . . . ] . . . . elas, de [modo que], se [elas] quiserem, não possam sair. (41) [Aquele que] foi criado era [ . . . . . . . ]; tu acharias que seus filhos são nobres criaturas. Se não tivesse sido criado, mas gerado, tu acharias que sua semente é nobre. Agora, ele foi criado e gerou. Que espécie de nobreza é esta? (42) O adultério surgiu primeiro, depois o homicídio, o homicida. E ele foi gerado no adultério, pois era o filho da serpente. Por isso, foi homicida como também seu pai, e matou seu irmão. Toda união que ocorre entre dois seres que não se assemelham mutuamente é adultério. (43) Deus é um tintureiro. Assim como as boas tinturas ditas “de grande solidez” morrem com aquilo que tingiram, o mesmo se dá com aqueles que Deus “tingiu”. Visto que suas tinturas são imortais, eles se tornam imortais por causa de suas cores. Mas Deus batiza aqueles que batiza na água. (44) É impossível a qualquer um ver algo das realidades estáveis a menos que se torne como elas. O homem no mundo vê o sol sem ser sol, e vê o céu e a terra e todo o resto sem ser nada disso; não se dá o mesmo no alto, na verdade; ao contrário, viste algo daquele lugar e te tornaste aquilo, viste o Espírito e te tornaste Espírito, viste o Cristo e te tornaste Cristo, viste o [Pai e te] tornarás Pai. É por isso que [neste lugar] vês toda coisa sem te veres a ti mesmo, mas te vês na[quele lugar], pois aquilo que vês, tu o tornarás. (45) A fé recebe, o amor dá. [Ninguém pode] [receber] sem a fé. Ninguém pode dar sem amor. (46) É por isso que, a fim de receber, cremos, e a fim de dar verdadeiramente <.>, pois se alguém dá sem amor, não tira nenhum proveito daquilo que deu. Quem recebeu <.> não o Senhor, ainda é hebreu. (47) Os apóstolos que nos precederam invocavam assim: “Jesus”, “Nazôreo”, “Messias”, isto é, “Jesus, o Nazôreo, o Cristo”. O último nome é “o Cristo”, o primeiro é “Jesus”, aquele que está no meio é “o Nazareno”. Messias tem dois sentidos: ao mesmo tempo “o ungido” e “o medido”. “Jesus” em hebraico é o “resgate”; Nazara é a verdade; o Nazareno, por conseguinte, verdade; é o Cristo que foi medido; são o Nazareno e Jesus que foram medidos. (48) Uma pérola, se é lançada na lama, não é por isso depreciada, nem, se é ungida com bálsamo, adquire preço, mas tem sempre valor para seu proprietário. O mesmo se dá com os filhos de Deus: onde quer que estejam, ainda têm valor para seu Pai. (49) Se tu dizes: “Sou judeu”, ninguém se comoverá; se tu dizes: “Sou romano”, ninguém ficará perturbado; se tu dizes: “Sou grego, bárbaro, escravo, [homem li]vre”, ninguém tremerá. [Se] tu [dizes]: “Sou cristão”, o [ . . . . . . ] tremerá. Que ele venha a ser . . . . [ . . . . de]ssa espécie. Aquele que . [ . . . . . . ] não poderá suportar [ouvir] seu nome. (50) Deus é um comedor de homem. É por isso que se [sacrifica] a ele o hom[em]. Antes que se sacrificasse o homem, sacrificavam-se animais, pois aqueles a quem se ofereciam sacrifícios não eram deuses. (51) Os vasos de vidro e os vasos de argila provêm do fogo. Mas, se se quebra um vaso de vidro, refaz-se, pois foi pelo sopro que veio à existência. Em contrapartida, se um vaso de argila é quebrado, destrói-se, pois foi sem sopro que veio à existência. (52) Um asno que girava em torno de uma mó de pedra fez cem milhas caminhando. Quando o soltaram, encontrou-se ainda no mesmo lugar. Há homens que fazem muito caminho e nunca chegam a lugar algum. Chegada a noite, não viram nem cidade nem aldeia, nem construção, nem abrigo natural; nem potência nem anjo. Os infelizes penaram em vão. (53) A Eucaristia é Jesus, pois é chamada em siríaco “Pharisatha”, isto é, “o estendido”. Com efeito, Jesus foi crucificado para o mundo. (54) O Senhor entrou na loja do tintureiro Levi. Tomou setenta e duas cores e lançou-as no caldeirão, depois retirou-as todas brancas. E disse: “Eis que o Filho do homem se faz tintureiro.” (55) A Sabedoria, chamada “a estéril”, é a mãe [dos] anjos e [a] companheira do S[alvador]. [Quanto a Ma]ria Ma[da]lena, o S[alvador a amava] mais que [todos] os discí[pulos, e] a beijava na [boca fre]quentemente. O resto dos [discípulos] [ . . ] . . . . . [ . ] . [ . . ] . . lhe disseram: “Por que a amas mais que a todos nós?” O Salvador respondeu e lhes disse: “Por que não vos amo como a ela?” (56) Um cego e um vidente, encontrando-se na obscuridade, não diferem um do outro. Sobrevenha a luz, então o vidente verá a luz e o cego permanecerá na obscuridade. (57) O Senhor disse: “Bem-aventurado aquele que é antes de ter sido. Pois aquele que é foi e será.” (58) A superioridade do homem não é visível, mas reside naquilo que é oculto. É por isso que ele domina os animais que são mais fortes e maiores que ele, tanto segundo aquilo que é visível quanto segundo aquilo que é oculto, e isso lhes permite sobreviver. Mas, se o homem se encontra separado deles, eles se matam entre si, dilaceram-se mutuamente. E devoram-se precisamente por não terem encontrado sua pastagem. É, pois, porque o homem trabalhou o solo que eles encontram sua pastagem. (59) Se alguém desce à água e dela sai sem ter recebido nada, e diz: “Sou cristão”, apenas tomou o nome por empréstimo com juros. Mas, se recebe o Espírito Santo, tem o nome como um dom. A quem recebeu um dom não se retira o que recebeu, mas a quem tomou emprestado com juros exige-se pagamento. Assim se dá conosco. (60) Se existe uma coisa na ordem do mistério, [o] mistério do casa[mento] é uma grande, pois [sem] ele o mun[do] não exis[tiria]. Com efeito, [a ex]istência do [mun]do [ . . . . . ] . . Mas a existência [ . . . . . . . . o casa]mento. Compreendei que a un[ião im]aculada possui [ . . . . . ] potência. Sua imagem está na mácula. (61) As formas que o espírito impuro assume podem ser masculinas ou femininas. As masculinas são aquelas que se unem às almas que habitam uma forma feminina, e as femininas são aquelas que se acasalam com as que têm uma forma masculina de maneira inconveniente. E ninguém pode escapar-lhes quando é tomado, a menos que receba uma potência masculina e feminina, o noivo e a noiva. Recebem-se em uma imagem da câmara nupcial. Quando as mulheres levianas avistam um homem vivendo só, precipitam-se sobre ele, divertem-se com ele e o maculam. Do mesmo modo, os homens levianos, quando avistam uma bela mulher vivendo só, persuadem-na, violentam-na, desejando maculá-la. Mas, se avistam o esposo e sua esposa vivendo juntos, as mulheres não podem introduzir-se junto do homem, nem os homens junto da mulher. O mesmo se dá se a imagem e o anjo se unem um ao outro: ninguém poderá ousar introduzir-se junto do homem ou da mulher. Quem quer que saia do mundo e não possa mais ser retido porque estava no mundo, é evidente que se elevou acima do desejo de . [ . . ] . [ . . ] . [ . ] . o temor. Domina . . . [ . . ] . [ . ] . É superior ao ciúme. Se [ . . . . ] . . . se ap[ode]ram dele, [o] sufocam. E co[mo] poderá [ele] escapar às gran[des potên]cias [ . . . . . . ] . . ? Como poderá [ . . . . . . . . . . ] . . . ? Alguns [dizem:] “Somos fiéis”, de modo a [ . . . . . . ] [ . es]pírito im[puro] e os demônios. Pois, se tivessem tido o Espírito Santo, nenhum espírito impuro teria podido unir-se a eles. (62) Não temas a carne nem a ames. Se tu a temes, ela te dominará; se tu a amas, ela engolirá e te sufocará. (63) E assim ele permanece ou neste mundo, ou na ressurreição, ou nos lugares do meio. — Que eu jamais aí me encontre! — Há bom neste mundo, há mau. Aquilo que há de bom nele não é bom, e aquilo que há de mau nele não é mau. Mas há mau depois deste mundo, que é verdadeiramente mau, aquilo que se chama “o meio”. Isso é a morte. Enquanto estamos neste mundo, é-nos necessário adquirir o repouso, a fim de que, quando nos despojarmos da carne, nos encontremos no repouso e não vamos para o meio. Pois muitos se extraviaram no caminho. Com efeito, é bom deixar o mundo antes de ter pecado. (64) Alguns não querem e não podem. Outros, se têm a vontade, não tiram proveito, pois não agem. É [a v]ontade que faz deles pecadores? Mas, se não querem! A justiça permanecerá fora de alcance nos dois casos, tanto a ausência de vontade [quanto] a inação. (65) Um apostólico viu [numa] visão pessoas encerradas [numa] casa em chamas e . [ . ] . . . . . [ . . . . . ] fogo lançados (?) [ . . . ] . fogo [ . . . . . ] . . . eles em (?) [ . . . . . ] . . . [ . ] . [ . . . . ] e lhes disseram: [ . . . . . . . . . . . ] . . a eles salvar [ . . . . . . . . . . . . ] não quiseram. Receberam [ . . . . . . . . ] castigo chamado treva [exterior], porque ele . [ . . . . ] (66) É da água e do fogo que a alma e o espírito procedem; o filho da câmara nupcial procede da água, do fogo e da luz. O fogo é o crisma; a luz é o fogo. Não falo deste fogo informe, mas do outro, cujo aspecto é resplandecente, que é luz radiante e que dá a beleza. (67) A verdade não veio ao mundo nua, mas veio em tipos e imagens. Ele não a receberá de outro modo. Há renascimento e imagem de renascimento. É preciso realmente nascer de novo pela imagem. O que é a ressurreição e a imagem da ressurreição? — É pela imagem que ela deve ressuscitar. — A câmara nupcial e a imagem da câmara nupcial? — É pela imagem que eles devem penetrar na verdade. Isso é a restauração. Isso vale para aqueles que não adquiriram apenas o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas que sua pessoa. Se alguém não os adquire, ser-lhe-á retirado até o nome de cristão. E eles são recebidos pelo crisma do . . . [ . . ] da virtude da cruz, que os apóstolos chamavam “a direita e a esquerda”. Pois esse já não é um cristão, mas um Cristo. (68) O Senhor tudo [fez] misteriosamente: ba[t]ismo, crisma, eucaristia, redenção e câmara nupcial [ . . . . . . ] . . (69) Ele [disse]: “Vim para tornar [as coisas de bai]xo semelhantes às coisas [do alto e as do ex]terior como as do [interior, e para reuni-las] naque[le] lugar [ . . . . . . . . . ] esses lugares por ti[pos . . . . . . . . . ] aqueles que dizem que [ . . . . . . . . . . . . . ] e que há um acima [ . . . . engana]m-se, pois é aquele que é revelado [ . . . . ] . . lá, [que] chamam ‘aquele de baixo’, e aquele a quem pertence o oculto, esse estaria acima dele. Pois seria bom dizer ‘o interior’ e ‘o exterior’, e aquilo que é ‘exterior ao exterior’. É por isso que o Senhor chamou a destruição de ‘as trevas exteriores’. Não há nada que lhes seja exterior. Ele disse: ‘Meu Pai que está no secreto.’ Disse: ‘Vai para teu quarto, fecha a porta atrás de ti e ora a teu Pai que está no secreto’, isto é, que está no interior de cada um. E aquilo que está no interior de cada um é o pleroma. Para além dele, nada há de mais interior. Deste eles falam como daquele que está acima deles. (70) Antes do Cristo, alguns saíram de onde não puderam mais entrar e entraram onde não puderam mais sair. Mas o Cristo veio: aqueles que haviam entrado, ele os fez sair, e aqueles que haviam saído, ele os fez entrar. (71) Quando Eva estava [em] A[d]ão, a morte não existia. Quando ela foi separada dele, a morte sobreveio. — De novo, desde que ele entrou e ela o recebeu em si, a morte deve cessar. (72) “[M]eu Deus, meu Deus, por que, Senhor, me [aban]donaste?” Foi na cruz que ele disse essas palavras, pois se separou naquele lugar. [ . ] . . [ . . ] gerado de aquele que [ . . . . . . . ] por Deus . . [ . . . . . . . . . . ] dos mortos [ . . . . . . . . . . . . . . ] é, mas . . [ . . . . . . . . . . . . ] ele é perfeito [ . . . . . . . . . . . . . . ] de carne, mas esta [ . . . . . . . uma c]arne verdadeira [ . . . . . . . ] . não é verdadeira, mas [ . . . . . . ] uma imagem da verdadeira. (73) Uma câmara nupcial não é para os animais nem para os escravos nem para as mulheres maculadas, mas é destinada a homens e a virgens. (74) Pelo Espírito Santo, somos gerados de novo, mas pelo Cristo somos gerados em dois elementos. Somos ungidos pelo Espírito. Quando fomos gerados, fomos reunidos. (75) Ninguém pode ver-se na água ou num espelho sem luz. E tu não podes ver-te na luz sem água ou espelho. Por isso, é preciso batizar nos dois, na luz e na água. A luz é o crisma. (76) Havia três edifícios para o sacrifício/a oferenda em Jerusalém. Um primeiro, abrindo-se para o oeste, chamava-se o Santo; outro, abrindo-se para o sul, chamava-se o Santo do Santo; o terceiro, abrindo-se para o leste, chamava-se o Santo dos Santos, o lugar onde apenas o sumo sacerdote entrava. A casa Santa é o batismo; o Santo do Santo, a re[den]ção; quanto à câmara nupcial, é o [San]to dos Santos. O [batis]mo compreende a ressurrei[ção e a] redenção, ao passo que a redenção está na câmara nupcial, e [a] câmara nupcial naquilo que é superior a [eles, aqui]lo a [que] pertencemos. Não encontrarás seu [igual]. . . . [ . . . . ] são aqueles que oram [em espírito e em verdade; não oram em] Jerusalém. [Há os que oram em Jeru]salém; eles [oram em Jerusa]lém enquanto aguardam [os mistérios], aquilo que se chama [o San]to dos Santos, [cujo . . . . . . . . . o] véu se rasgou . . [ . . . . . . Nossa] câmara nupcial não é outra senão a imagem [da câmara nupcial de] cima. Ei[s por] que seu véu se rasgou de alto a baixo, pois era preciso que alguns fossem de baixo para cima. (77) Aqueles que revestiram a luz perfeita, as potências não os veem nem os apreendem. Revestir-se-á a luz no mistério da união. (78) Se a mulher não se tivesse separado do homem, ela não teria morrido, nem o homem. A separação deste foi o começo da morte. É por isso que o Cristo veio reparar essa separação ocorrida nas origens, reunir os dois, dar a vida àqueles que estavam mortos em razão da separação e uni-los. (79) E a mulher une-se a seu marido na câmara nupcial. E aqueles que se unem na câmara nupcial não mais se separarão. (80) Eis por que Eva se separou de Adão: ela não se havia unido a ele na câmara nupcial. É de um sopro que procede a alma de Adão. O E[spí]rito é seu cônjuge. Aquilo que lhe foi dado é sua mãe. Sua alma lhe foi [tirada], e um [espírito] lhe foi dado em seu lugar. Porque, quando foi unido, [pro]nunciou palavras superiores às potências; elas o invejaram [ . . . . ] . . [ . . . . . u]nir o espiri[tual] [ . ] . [ . ] . [ . . . . . ] . . . oculta . . [ . . . . . . . . . . . . ] . . . . . o [ . . . . . . . . . . . . ] . para si mesmos [ . . . . . . . . . . . câ]mara nupcial a fim de [ . . . . . . . . . . . . ] . . . (81) Jesus desvelou [ . . . . . . Jor]dão a ple[nitude do rei]no dos céus. Aquele que [havia sido gerado] antes de toda coisa foi gerado de novo; aquele [que já havia] sido [un]gido recebeu o crisma de novo; aquele [que] havia sido resgatado resgatou por sua vez. (82) É preciso dizer um mistério! O Pai do todo uniu-se à virgem que desceu, e um fogo a iluminou naquele dia, e revelou a grande câmara nupcial. Eis por que foi nesse dia que seu corpo veio a ser: saiu da câmara nupcial como aquele que procede do noivo e da noiva. Assim Jesus estabeleceu toda coisa nele por meio deles. E é preciso que cada um dos discípulos entre em seu repouso. (83) Adão procede de duas virgens, do Espírito e da terra virgem. É por isso que o Cristo foi gerado de uma só virgem, a fim de endireitar a falta ocorrida no começo. (84) Há duas árvores que crescem [no] paraíso. A primeira produz [animais], a outra produz homens. Adão co[meu] da árvore que produzia ani[mais; ele] tornou-se animal e gerou ani[mais. E]is por que os filhos de Adão veneram os a[nimais]. A árv[ore . . . . . . . . . . . ] fruto é . [ . . . . . . . . . . . . . . . ] . . . . . . . . [ . . . . . . . . . . . . . . . . ] comer o [ . . . . . . . . . . . . . . . . . ] fruto do [ . . . . . . . . . . . . ] produzir os homens [ . . . . . . . . . . . . . . ] . . . o homem. (85) . [ . . . . . . . . . . . ] Deus criou o hom[em . . . . os hom]ens criam Deus. Assim se dá no mundo: os homens criam deuses e veneram suas criaturas. Conviria que os deuses venerassem os homens! (86) Verdadeiramente, as obras do homem procedem de sua potência! É por isso que são chamadas “as potências”; são suas obras. Seus filhos procedem de seu repouso. É por isso que sua potência reside em suas obras, mas é nos filhos que o repouso aparece. E tu encontrarás que isso se aplica à imagem; tal é também o homem segundo a imagem: produz suas obras por sua potência, mas é no repouso que gera seus filhos. (87) Neste mundo, os escravos servem as pessoas livres; no reino dos céus, as pessoas livres servirão os escravos: os filhos da câmara nupcial servirão os filhos do casamento. (88) [Os] filhos da câmara nupcial têm um só e mesmo nome: “repouso”. [Estando] uns com os outros, não precisam . . . . . . [eles têm] a contemplação. [ . . . . ] . [ . . . . . . ] . . . . . são numerosos [ . . . . . . . . . . . ] . . . naqueles que estão em . [ . . . . . . . . . . . ] . as glórias . . . [ . . . . . . . . . . . ] . . . . . . . . . . (89) [ . . . . . . . . . . des]cer na á[gua . . . . . . . . . ] ele a resgatará [ . . . . . . . . . . ] . aqueles que têm [ . . . . . . . . . . ] em seu nome, pois disse: “[É as]sim que devemos cumprir toda justiça.” (90) Aqueles que dizem que morrerão primeiro e depois ressuscitarão enganam-se. Se não recebem primeiro a ressurreição enquanto vivem, e se morrem, nada receberão. Eis como se fala do batismo; diz-se que o batismo é grande porque, se as pessoas o recebem, viverão. (91) O apóstolo Filipe disse: José, o carpinteiro, plantou um jardim porque precisava de madeira para seu ofício. Foi ele quem fabricou a cruz com as árvores que havia plantado. E sua semente estava suspensa àquilo que havia plantado. Sua semente era Jesus, e aquilo que havia plantado era a cruz. (92) Mas a árvore da vida estava no meio do paraíso, e é por intermédio da oliveira, da qual provém o crisma, que advém a ressurreição. (93) Este mundo é um comedor de cadáveres. Também tudo o que nele se come é mortal. A verdade é uma comedora de vida. Eis por que nenhum daqueles que são nutridos de [verdade] morrerá. É desse lugar que Jesus veio e trouxe alimento. E, àqueles que o desejavam, deu [de comer] a[fim] de que não morressem. (94) D[eus plant]ou u[m para]íso; o hom[em . . . . . . . para]íso. Há . [ . . . . . . . . . . . . . . . . ] . . . . no [ . . . . . . . . . . . . ] de Deus, em [ . . . . . . . . . . . . ] . . aqueles que estão em [ . . . . . . . . . . . . ] eu quero. Esse parad[iso seria o lugar onde] me diriam [ . . . . comer] isto ou não comas [aquilo como eu] quereria? Ele está lá [onde] posso comer de toda coisa! É lá que se encontra a árvore do conhecimento. Aquela matou Adão; aqui, ao contrário, a árvore do conhecimento vivificou o homem. A lei era a árvore. Ela tem a propriedade de dar o conhecimento do bem e do mal. Não pôde nem arrancar Adão do mal nem estabelecê-lo no bem, mas causou a morte daqueles que dela comeram, pois, quando se disse “Come isto, não comas aquilo”, isso foi o começo da morte. (95) O crisma é superior ao batismo, pois nos chamamos “cristãos” por causa do crisma, e não por causa do batismo. E foi por causa do crisma que se deu seu nome ao Cristo. Pois o Pai ungiu o Filho, o Filho ungiu os apóstolos, e os apóstolos nos ungiram. Aquele que recebeu o crisma possui toda coisa; possui a ressurreição, a luz, a cruz. (96) O Espírito Santo, o Pai lho deu na câmara nupcial, e ele o recebeu. O Pai esteve no Filho, e o Filho no Pai. Isso é o rei[no] dos céus. (97) Com razão, o Senhor disse: “Alguns entraram no reino dos céus rindo e dele saíram [ . . . ] . [ . ] . . . [ . . . ] . . . um cristão [ . . ] . . . [ . . . . . . ] . . E imediatamente [ . . . . . . . . . des]ceu à água, foi [ . . . . . . . . . . . . . ] . toda coisa por causa de [ . . . . . . . . . . . é uma b]rincadeira, ma[s . . . . . . . despre]za isto . . [ . . . . . . . . . . . ] . . o reino dos [céus . . . . . . ] se despreza [ . . . . . . e] o considera uma brinca[deira . . . . . . . ] . . rindo. (98) O mesmo se dá tanto para o pão quanto para a ta[ç]a e para o óleo, ainda que exista alguma outra coisa que lhes seja superior. (99) O mundo resulta de um fracasso, pois aquele que o criou queria criá-lo incorruptível e imortal. Fracassou e não realizou suas expectativas, pois a incorruptibilidade do mundo não existia, assim como não a incorruptibilidade daquele que criou o mundo. Pois não há incorruptibilidade das obras, mas dos filhos. E ninguém poderá receber a incorruptibilidade se não se tornar um filho. Mas aquele que não é capaz de receber, quanto menos será capaz de dar! (100) A taça de oração contém vinho e água, visto que é considerada o tipo do sangue — sobre a qual se rende graças —. E está cheia do Espírito Santo e pertence totalmente ao homem perfeito. Quando dela bebemos, recebemos em nós o Homem perfeito. (101) A água viva é um corpo. É-nos necessário revestir o Homem vivente. É por isso que, se se desce à água, despe-se para revesti-lo. (102) Um cavalo gera um cavalo; um homem gera um homem; um deus gera um deus. Assim se dá [com um] noivo e [também com uma noi]va: eles [pro]cedem de . . [ . . . . . . ] . [ . . . . . . ] Nenhum judeu . [ . . . . . . . . . . . . ] dos . . [ . . . . . . . . . . . . . ] é e . . [ . . . . . . . . . . . . ] dos ju[deus . . . . . . . . . . . ] os cristão(s) . . [ . . . . . . . . . . . . ] . chamou-se estes . . [ . . . . . . . . ] a raça eleita . . . [ . . . . . . . . . ] e o Homem verdadeiro e o filho do homem e a semente do filho do homem. Essa raça verdadeira é renomada no mundo. Estes são o lugar onde habitam os filhos da câmara nupcial. (103) Enquanto neste mundo a união se produz entre homem e mulher, o lugar para a força e a fraqueza, outra é a forma da união no éon. (104) E é por esses nomes que os chamamos. Há outros, contudo; eles são elevados acima de todo nome que se possa nomear. E são superiores ao forte. Pois onde há violência, ali estão aqueles que são superiores em potência. Aqueles não são diferentes, mas ambos são uma só e mesma coisa. É aquele que não poderá elevar-se acima do coração de carne. (105) Quem possui todas as coisas não deve conhecê-las todas? Alguns, certamente, se não as conhecem, não gozarão de suas posses, mas aqueles que foram instruídos nelas gozarão delas. (106) Não somente não poderão apreender o homem perfeito, como não poderão vê-lo, pois, se o vissem, o apreenderiam. De outro modo, ninguém poderá obter essa graça a menos que revista a luz perfeita [e] se torne [ele pró]prio lu[z] perfeita. [Aquele] que [a reves]tiu entrará [ . . . . . . . . . . . . ]. Este é o perfeito [ . . . . . . ] (107) [ . . . . . . . ] que nos tornemos . [ . . . . . . . . . . . . ] . . antes que deixemos [ . . . . . . . ] Aquele que recebeu toda coisa [ . . . . . . . . . . ] esses lugares, ele poderá (?) [ . . . . . . . . ] aquele lugar, mas ele . . [ . . . . o me]io, porque imperfeito. Somente Jesus conhece o fim dessa pessoa. (108) O homem santo é totalmente santo, até em seu corpo. Se toma o pão, santifica-o. A taça ou todo o resto que ele toma, se os santifica, como então não santificaria seu corpo? (109) Assim como Jesus tornou perfeita a água do batismo, também a esvaziou da morte. Eis por que descemos à água. Não descemos à morte. Não seremos derramados no espírito do mundo. Quando ele sopra, traz o inverno. Mas, quando o Espírito Santo sopra, vem a primavera. (110) Quem detém o conhecimento da verdade é livre. Quem é livre não peca. Quem peca é escravo do pecado. A verdade é mãe, mas é o conhecimento. Aqueles a quem é dado não pecar são chamados livres pelo mundo, aqueles a quem é dado não pecar. O conhecimento da verdade eleva seu coração, isto significa que os torna livres e os eleva acima do universo inteiro. Mas “o amor edifica”. Aquele que o conhecimento libertou é servo por amor daqueles que ainda não alcançaram a liberdade que o conhecimento proporciona. Mas o conhecimento os torna capazes de se tornarem livres. O amor [ . . . . ] nada . . seu [ . . . . . . ] . . [ . . . . . . . ] é seu. Ele não [diz “Isto é meu”] ou “aquilo é meu”, [mas antes “tudo o que é] me[u] é teu.” (111) O amor espi[ritual] é um vinho e um perfume. Todos aqueles que dele se ungem tiram dele agrado. Também tiram agrado aqueles que se encontram na presença dos que dele se ungiram. Se aqueles que se ungiram com esse nardo se afastam e vêm a partir, aqueles que não são ungidos e que estavam apenas junto deles permanecem em seu mau odor. O Samaritano nada deu ao ferido senão vinho e óleo. Isso nada mais é que o unguento. E ele curou suas feridas. O amor recobre uma multidão de pecados. (112) Os filhos que a mulher gerar assemelham-se àquele que ela ama. Se é seu marido, assemelhar-se-ão a seu marido. Se é um adúltero, assemelhar-se-ão a seu amante. Frequentemente, se uma mulher se deita com seu marido por obrigação e seu coração está com o amante com quem tem o costume de se unir, aquele que eventualmente concebe se assemelha ao amante. Mas vós, que viveis com o Filho de Deus, não ameis o mundo, mas amai o Senhor, a fim de que aqueles que gerardes não se assemelhem ao mundo, mas se assemelhem ao Senhor. (113) O ser humano une-se ao ser humano; o cavalo une-se ao cavalo; o asno une-se ao asno. Os indivíduos pertencentes a uma raça unem-se [a] seus congêneres. É assim que o espírito se une ao espírito e o ver[bo] se une ao verbo [e a] lu[z se u]ne [à luz. Se tu] te tornas homem, é o homem que te amará; se te tornas [espírito], é o espírito que se unirá a ti; se te tornas verbo, é o verbo que se unirá a ti; se [tu] te tornas luz, é a luz que se unirá a ti; se te tornas um daqueles do alto, aqueles do alto repousarão sobre ti. Se te tornas cavalo, asno, boi, cão, ovelha ou algum outro animal entre aqueles que estão fora e aqueles que estão embaixo, não poderão amar-te nem o homem, nem o espírito, nem o verbo, nem a luz, nem aqueles que estão em cima, nem aqueles que estão no interior. Eles não repousarão em ti e tu não tens parte alguma com eles. (114) Quem é escravo contra sua vontade será capaz de ser livre. Quem foi libertado pela graça de seu senhor e deu-se a si mesmo em escravidão não poderá mais ser livre. (115) A cultura no mundo necessita de quatro elementos: reúne-se no celeiro graças à água, à terra, ao vento e à luz. Tal é também a cultura de Deus graças a quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento. A fé é nossa terra, onde nos enraizamos; a esperança é a á[g]ua da qual [nos sa]ciamos; o amor é o vento que nos faz crescer; o conhecimento [é] a luz que nos leva [à maturidade]. (116) A graça tem q[uatro modalidades: ela é] terrestre; ela é [celeste . . . . . . . ]; o mais alto dos céus . . [ . . ] . . [ . . ] [Bem-aven]turado aquele que não af[ligiu] ninguém. Este é Jesus Cristo. Ele foi ao encontro de todos e não sobrecarregou ninguém. É por isso que aquele que é tal é bem-aventurado, pois é um homem perfeito. (117) — A esse respeito, o Verbo nos interroga: Como é difícil conseguir isso. Como poderíamos conseguir essa grande coisa? Como se pode dar repouso a cada um? (118) Antes de toda coisa, não se deve afligir ninguém, grande ou pequeno, infiel ou fiel; em seguida, dar o repouso àqueles que repousam no bem. Há alguns que tiram vantagem de dar repouso àquele que é bom. Aquele que faz o bem não pode dar repouso a esses, pois não toma aquilo que deseja. E não pode afligir, visto que não os oprime. Mas quem se comporta bem às vezes os aflige. Ele não é assim, mas é sua própria maldade que os aflige. Aquele que possui tal natureza (?) proporciona alegria àquele que é bom. Mas alguns se afligem grandemente (?) por causa dele. (119) Um senhor de casa possuía tudo: filhos e escravos, animais, cães, porcos, trigo, cevada, palha, erva, [ . . . ] . , carne e bolotas. Era avisado e conhecia o alimento de ca[da um]. A seus filhos, deu pão [ . . . ] . . [ . . . A seus] escravos, serviu . . [ . . . . . . . . . . . . . . ] . . . E aos animais [lançou ce]vada, erva e pa[lha; aos] cães, lançou ossos [e aos porcos] lançou bolotas e detritos. O mesmo se dá com o discípulo de Deus. Se é avisado, compreende o que é ser discípulo. As formas corporais não o enganarão, mas ele observará a disposição da alma de cada um e falará com ele. Há no mundo numerosos animais com forma humana. Quando os tiver reconhecido, aos porcos lançará bolotas; ao gado, lançará cevada, palha e erva; aos cães, lançará ossos. Aos escravos dará as primícias; aos filhos dará aquilo que é perfeito. (120) Há o Filho do homem, e há o filho do Filho do homem. O senhor é o Filho do homem, e o filho do Filho do homem é aquele que cria com a ajuda do Filho do homem. O Filho do homem recebeu de Deus o poder de criar. Ele tem o poder de gerar. (121) Quem recebeu o poder de criar é uma criatura; quem recebeu o de gerar é gerado. Quem cria não pode gerar. Quem gera tem o poder de criar. Ora, diz-se que aquele que cria gera, mas aquilo que ele gera é uma criatura, por[que] as criaturas não são seus filhos, mas [obras]. Aquele que cria opera em plena luz e é ele mesmo visível. Aquele que gera gera no [segredo] e é oculto, [ . ] . [ . ] . . [ . . . . . . . ] a imagem. Aquele que cria [cria em] plena luz. Aquele que gera [gera os] filhos no segredo. (122) [Ninguém pode] saber em que di[a o homem] e a mulher se unem juntos, senão eles mesmos. Com efeito, o casamento neste mundo é o segredo daqueles que tomaram mulher. Se o casamento da mácula é oculto, quanto mais o casamento imaculado é um verdadeiro mistério. Não é carnal, mas puro; não pertence ao desejo, mas à vontade; não pertence à obscuridade e à noite, mas pertence ao dia e à luz. Um casamento, se se expõe, torna-se fornicação. E a esposa fornicou, não somente quando recebe a semente de outro homem, mas mesmo quando deixa sua câmara e é vista. Que ela se mostre somente a seu pai e a sua mãe, ao amigo do esposo e aos filhos do esposo. A estes é permitido penetrar todos os dias na câmara nupcial. Quanto aos outros, que desejem somente ouvir sua voz e gozar de seu perfume, e que se alimentem das migalhas que caem da mesa como os cães. Esposos e esposas pertencem à câmara nupcial. Ninguém pode ver o esposo nem a esposa a menos que seja dela. (123) Quando Abraão [ . . . . ] para ver aquilo que ia ver, [cir]cuncidou a carne do prepúcio, ensinando-nos que é preciso destruir a carne. [ . . . . ] . . [do] mundo permanecem de pé e vivem, enquanto suas [partes internas] estão ocultas. [Se estas] são expostas, eles morrem, pelo ex[emplo] evidente do homem: [enquanto] as entranhas do homem estão ocultas, o homem vive; se suas entranhas são descobertas e saem dele, o homem morre. Do mesmo modo, a árvore brota e cresce enquanto sua raiz está oculta; se sua raiz é descoberta, a árvore seca. Assim se dá com tudo o que é gerado no mundo, não somente com aquilo que é visível, mas com aquilo que é oculto. Com efeito, enquanto a raiz do mal está oculta, ela é forte; mas, se é reconhecida, é destruída; se é exposta, perece. É por isso que o Verbo diz: “Já o machado está posto à raiz das árvores; ele não cortará — aquilo que fosse cortado brotaria de novo —, mas o machado cavará em profundidade até extirpar a raiz.” Jesus arrancou completamente a raiz, mas outros o fizeram apenas parcialmente. Quanto a nós, que cada um de nós cave até a raiz do mal que está nele e a extirpe de seu coração até sua raiz. E ela será extirpada se a reconhecermos. Mas, se a ignoramos, ela cria raiz em nós e produz seus frutos em nosso coração. Domina-nos, somos seus escravos, mantém-nos ca[t]ivos, de sorte que fazemos aquilo que [não] queremos [fazer], e aquilo que queremos [não] fazemos. É poderosa porque não a reconhecemos. Enquanto [ex]iste, ela age. A igno[rância] é a mãe de [todos os males]. A ignorância [ . . ] . . . . . . [ . . . . . ] aqueles que procedem da [ignorância] não eram, nem [são] nem serão [ . . . . . . . ]; serão perfeitos quando a verdade inteira aparecer. Pois a verdade, à maneira da ignorância, quando está oculta, repousa em si mesma. Se aparece e é reconhecida, rende-se-lhe glória na medida em que prevalece sobre a ignorância e sobre o erro. Ela proporciona a liberdade. O Verbo disse: “Se conheceis a verdade, a verdade vos tornará livres.” A ignorância é escravidão; o conhecimento é liberdade. Se conhecemos a verdade, encontraremos os frutos da verdade em nós; se nos unimos a ela, ela receberá nossa plenitude. (124) Por ora, dispomos das aparências da criação; temos o costume de dizer que elas são poderosas e estimáveis, ao passo que aquilo que é oculto é fraco e desprezível. Eis o que se dá com as aparências da verdade: elas são fracas e desprezíveis, mas é aquilo que é oculto que é forte e estimável. Os mistérios da verdade são manifestados em figuras e em imagens. (125) A câmara é oculta: é o Santo no Santo. O véu ocultava como Deus administrava a criação. Mas, se o véu se rasga e aquilo que estava no interior aparece, então se abandonará essa casa deserta; mais ainda, ela será [des]truída. E a divindade inteira fugirá desses lugares, não para os Santos [dos] Santos, pois ela não poderá misturar-se à lu[z] sem mistura nem ao pleroma sem [deficiência, ma]s permanecerá sob as asas da cruz [e sob] seus braços. Essa arca será [sua] salvação quando o dilúvio de água estiver prestes a levá-los. Se alguns pertencem à classe sacerdotal, serão capazes de entrar no interior do véu com o sumo sacerdote. Eis por que o véu não se rasgou somente em cima, visto que apenas o alto teria sido aberto, e não foi somente embaixo que se rasgou, visto que teria revelado somente aquilo que está embaixo, mas abriu-se de alto a baixo, e o mundo superior abriu-se para nós com aquilo que está embaixo, a fim de que possamos penetrar o segredo da verdade. Isso é verdadeiramente estimável e forte. Mas entraremos por intermédio de figuras desprezíveis e fracas. Elas são desprezíveis em relação à glória perfeita. Há glória e glória; há potência e potência. Eis por que as realidades perfeitas nos foram abertas com os segredos da verdade. E os Santos dos Santos foram desvelados, e a câmara nos chamou para dentro. Enquanto a semente do Espírito Santo permanece oculta, o mal é certamente inativo, mas não é retirado de seu seio — eles são escravos do mal. Mas, quando ela for desvelada, então a luz perfeita se espalhará sobre cada um, e todos aqueles que estiverem nela [receberão a un]ção. Então os escravos serão li[vres e] os cativos resgatados. (126) [Toda] planta [que] meu Pai que está nos céus [não] plantou [será] arrancada. Aqueles que estão separados serão reunidos . [ . . . . . . . . ] e serão cumulados. Quem quer que [entre] na câmara acenderá a lu[z . . ] . pois, como os casamentos que . . . [ . . . . . . ] estar na noite. O fogo . [ . . . . . . . . . ] na noite se apaga. Mas os mistérios deste casamento são realizados em pleno dia e na luz. Jamais esse dia nem essa luz declinam. (127) Se alguém se torna filho da câmara nupcial, receberá a luz. Se alguém não a recebe enquanto está aqui embaixo, não a receberá em nenhum outro lugar. Quem recebeu essa luz não poderá ser visto nem poderá ser tomado. E ninguém poderá atormentar tal pessoa, mesmo quando ela permanece no mundo, nem mesmo quando deixar o mundo; ela já recebeu a verdade em imagens. O mundo tornou-se o éon, pois o éon é para ela plenitude. E é assim: ele é revelado a ela somente, não oculto nas trevas e na noite, mas oculto num dia perfeito e numa luz santa.