===== EVANGELHO DOS EGÍPCIOS ===== Biblioteca de Nag Hammadi: [[http://www.gnosis.org/naghamm/goseqypt.html|The Gospel of the Egyptians]]; [[https://www.naghammadi.org/sites/naghammadi.org/files/uploads/traductions/nh-iii-2-iv-2-livre-sacre-du-grand-esprit-invisible.pdf|Le Livre sacré du Grand Esprit invisible]] O assim chamado Evangelho dos Egípcios está preservado em duas versões cópticas que froam traduzidas independentemente do grego. Não se relaciona com o apócrifo Evangelho dos Egípcios que é citado na literatura patrística. Esta obra que também se intitula “O Santo Livro do Grande Espírito Invisível”, é um escrito esotérico do tipo setiano de Gnosticismo mitológico. Pode ser descrita como uma obra que apresenta a história gnóstica da salvação. Posto que o mitológico e celestial Set é representado como o [[tnpl:pais:]] da raça gnóstica, é apropriado que o tratado o liste com o autor deste livro divinamente inspirado. O tratado se divide em quatro seções: a primeira sobre a Origem do Mundo celestial; a segunda discute a origem, preservação e salvação da raça de Set; a terceira é um hino; e a quarta contem um relato conclusivo da origem setiana e da transmissão do tratado. ==== O Evangelho dos Egípcios (III,2) ==== O título deste tratado, na realidade, é "O (santo) livro dos Egípcios a propósito do Grande Espírito Invisível, o Pai", título que abre e fecha o escrito. Isso significa que este tratado nada tem em comum com o Evangelho dos Egípcios, bem conhecido na literatura apócrifa. Trata-se aqui de obra gnóstica de mitologia, atribuída ao Set celeste, pai da raça setiana, cuja origem é justamente relatada pelo texto. Do ponto de vista de seu conteúdo, o texto pode ser dividido em duas partes principais, sobre a origem mítica do mundo e de Set: — p. 40,12-55,16: a origem do mundo celeste; — p. 55,16-66,8: a origem, a preservação e a salvação da raça de Set, para a qual Set reaparece em Jesus e cumpre função cósmica. As páginas 66,8-67,26 constituem um hino de encantamento e as páginas 68,1-69,17 apresentam relatório da origem dos Setianos e da transmissão do tratado. O tratado não apresenta nenhum relato sobre a queda de Sofia. Em contrapartida, apresenta longa enumeração dos componentes míticos do Pleroma. Por exemplo, na p. 49,22-50,17: O homem louva o Grande Espírito invisível, incompreensível e virginal, a virgem-macho, o Filho três vezes macho, a virgem-macho Ioel, Esefech, a maravilhosa, filho do filho e coroa de sua glória, o grande Doxemedão-Eão, os tronos que estão nele, as Forças que o cercam, as Glórias e os Incorruptíveis e o seu Pleroma inteiro, que já mencionei, e a terra etérea, que recebe Deus, onde o santo homem da grande luz recebe (sua) imagem, o homem do Pai, do Silêncio, do Silêncio Vivente, o Pai e todo o seu Pleroma, como já indiquei. Set é enviado ao mundo como salvador (p. 62,24-64,9): Então o Grande Set foi enviado pelos quatro Luminares, pelo bem querer do Autógeno e todo o Pleroma, segundo o dom e o bom grado do Grande Espírito invisível, dos cinco Selos e do Pleroma inteiro. Passou através das três parusias que mencionei — o dilúvio, a conflagração e o juízo dos Arcontes, das Forças e das Autoridades — para salvar a raça perdida, por meio da reconciliação do mundo e pelo batismo, através do corpo do [[tnpl:logos:]] gerado, que o grande Set preparou para si mesmo secretamente na virgem, de modo que os santos possam ser gerados pelo Espírito Santo, pelos símbolos secretos invisíveis, por reconciliação do mundo com o mundo, pela renúncia ao mundo e aos deuses dos treze Eões, pelas assembleias dos santos, dos Indizíveis e das Matrizes incorruptíveis e pela grande luz do Pai, que preexistiu com sua Providência e que estabeleceu por meio dela o santo batismo, que supera os céus, pelo incorruptível [[tnpl:logos:|Logos]] gerado, Jesus Vivente, aquele que o Grande Set designou. E, através dele, imobilizou as Forças dos treze Eões e determinou aqueles que são gerados e levados. Ele os cingiu com a armadura da gnose dessa verdade e com uma força invencível de incorruptibilidade. Por vezes, o texto resvala para o gênero hínico. Eis um exemplo, um hino encantador (p. 66,9-22). Verdade de verdade! Ó Iesseus Mazareus Iessedekeus! Ó água viva! Ó filho do filho! Ó nome glorioso! \\ Verdade de verdade! Eão da existência! Iiii êêêê eeee oooo uuuu ôôôô aaaaa! \\ Verdade de verdade! Êi aaaa ôôôô! Ó Existente que vê os Eões! \\ Verdade de verdade! Aee êêê iiii uuuuuu ôôôôôôôô, que és eternamente eterno! \\ Verdade de verdade! Iêa aiô, no coração, que existe, u aei eis aei, ei o ei ei os ei! Por fim, a subscrição do escriba, Eugnosto-Congessos (Concessus), permite-nos entrever como o redator (ou copista) situava-se a si próprio nessa revelação (p. 69,6-20): O Evangelho dos Egípcios. O livro Divino, santo, secreto. Graça, inteligência, compreensão e prudência àquele que o escreveu, Eugnosto, o bem-amado segundo o Espírito, segundo a carne meu nome é Congessos, e a meus companheiros nas luzes da incorruptibilidade. \\ Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, ICHTUS. \\ O santo livro do Grande Espírito invisível é escrito por Deus. \\ Amém. //MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.// * As duas versões coptas do Livro Santo do Grande Espírito Invisível — III,2; IV,2 — são cópias de traduções independentes de basicamente o mesmo texto grego; ambas as cópias estão bastante danificadas — a do Códice IV mais do que a do Códice III —, mas sobrevive o suficiente para reconstruir cerca de 90 por cento do texto. * O título real do texto está preservado como "O Livro Santo do Grande Espírito Invisível" no subtítulo e no colofão do Códice III e nas linhas iniciais de cada cópia * Desde o final da década de 1940, tornou-se costume referir-se a ele inadequadamente como "Evangelho dos Egípcios" — título baseado no nome dado a ele no início do colofão em III 69, 16–17 * Como sugerido por Hans-Martin Schenke, a ênfase do Livro Santo parece recair sobre o bem definido ritual do batismo e as orações invocatórias que concluem a obra — III 63, 4–68, 1; cf. IV 74, 17–80, 15 —, enquanto as seções precedentes fornecem uma justificação mitológica para eles sob a forma de uma elaborada teogonia. * Na segunda parte, as três vindas — parousiai — de Sete são resumidas: suas descidas no dilúvio, na conflagração — de Sodoma e Gomorra — e no julgamento dos arcontes, para salvar sua semente — os "santos" — que se extraviou no mundo; esse esquema de três descidas é semelhante ao das do iluminador na Revelação de Adão * Na terceira descida, Sete é dito ter descido em um corpo gerado pelo Verbo — Logos — e preparado para ele pela "virgem" — provavelmente Barbelo —, revestido de Jesus, e ter derrotado os poderes dos treze éons * Como a Revelação de Adão, o Livro Secreto de João e as Três Formas do Primeiro Pensamento, o Livro Santo do Grande Espírito Invisível retrata a salvação como culminação de uma série de três descidas de um ser celestial à terra. * Tanto o Livro Santo quanto as Três Formas do Primeiro Pensamento atribuem o ato final de salvação à terceira descida do salvador: no primeiro, Sete como o Logos reveste Jesus; no segundo, Protennoia — Primeiro Pensamento — como o Logos resgata Jesus da cruz — 50, 12–16; cf. a versão Ofita desse tema em Ireneu, Contra as Heresias 1.30.12–13 * Em ambos os casos, essa descida está associada à outorga de um ritual de ascensão batismal conhecido como os Cinco Selos, no qual a veste corporal e psíquica do espírito é substituída por luz e incorruptibilidade imortal * O papel escatológico de Jesus nesses dois textos reflete claramente influência cristã — positiva no Livro Santo, mas de teor mais polêmico nas Três Formas do Primeiro Pensamento, onde Jesus não é o salvador, mas o que é salvo * A primeira parte do Livro Santo do Grande Espírito Invisível — III 40, 12–62, 24 — consiste em uma longa teogonia semelhante, porém mais complexa, à do Livro Secreto de João, apresentando uma série de pelo menos seis tríades entrelaçadas de Pai, Mãe e Filho que explicam a geração do supremo Quinteto — Pentade — bem como do Filho Autogênito, Adamas, Sete e sua semente. ^Pai^Mãe^Filho^ |1. Espírito Invisível|Silêncio-Providência-Barbelo|Filho Triplamente Masculino–Grande Cristo| |2. Filho Triplamente Masculino|Youel|Esefech, Filho do Filho| |3. Grande Cristo|Providência|Logos Autogênito| |4. Logos Autogênito|Mirothoe|Adamas| |5. Adamas, Logos Autogênito|Profania|Sete e os Quatro Luminares| |6. Sete|Plesithea|Semente de Sete| * Uma possível sétima tríade consiste no casal Logos Autogênito e Edokla, que produz a raça de seres humanos moralmente bons — não descendentes de Sete, mas guiados pela verdade e justiça, ao contrário da semente corrompida de Caim * O Autogênito, que é o Filho da suprema tríade Pai-Mãe-Filho do Livro Secreto de João, é agora rebaixado da tríade suprema, tornando-se filho de um filho ainda mais elevado — o Filho Triplamente Masculino, o grande Cristo — e redefinido como o Logos — Autogênito — de Cristo * Esse Logos Autogênito ainda é creditado com o estabelecimento dos Quatro Luminares e, na conclusão ritual do tratado, fornece o corpo para a descida final de Sete na forma de Jesus e serve como nome em que se é batizado * A partir da emanação do Autogênito e seus sucessores — Adamas, Sete com os Quatro Luminares, a semente de Sete e seus anjos guardiões —, cada emanação parece ser pontuada por cinco doxologias séxtuplas dirigidas a uma série de seres transcendentes principais cujas origens foram narradas nos episódios precedentes da teogonia. * Essas cinco doxologias parecem celebrar o surgimento de: o Logos Autogênito; Adamas; Sete e os Quatro Luminares; a semente de Sete; e Aerosiel, Selmechel e os quatrocentos anjos etéreos que guardam a semente de Sete até seu retorno final * Elas parecem constituir respostas tradicionais em uma teogonia articulada como uma litania de versículo e resposta comunitária: as respostas seriam as doxologias dirigidas ao Penteto primordial mais elevado — talvez pensados como os Cinco Selos —, enquanto as porções de versículo seriam narrativas faladas do surgimento dos seres subsequentes ao Penteto primordial * Pode-se sugerir que essa segunda porção da teogonia era recitada em voz alta por um oficiante, ao qual os candidatos ao batismo respondiam com essas doxologias * As partes conclusivas da teogonia incluem também um relato da criação do mundo inferior e das primeiras criaturas por seus criadores e governantes Sakla, Nebruel e seus doze anjos, por instigação do quarto luminar Eleleth por meio de Sofia. * O Livro Santo parece conhecer o mito de Sofia a partir de uma versão como a encontrada nas Três Formas do Primeiro Pensamento, na qual uma voz do quarto luminar Eleleth inicia a produção de um governante para o caos, isentando efetivamente Sofia de responsabilidade pela criação do mundo inferior * No Livro Santo, isso inicia a descida da nuvem de Sofia hílica, que produz primeiro, aparentemente, a matéria do mundo inferior e, segundo — mediante o comando de Gamaliel, ministro do primeiro luminar Harmozel —, dois seres: o anjo supremo Sakla, deus dos treze éons, e sua parceira demoníaca Nebruel, que juntos criam doze éons, anjos e finalmente seres humanos * Após a declaração arrogante de Sakla sobre sua divindade exclusiva e a tradicional voz vinda do alto anunciando a existência anterior da humanidade e do filho da humanidade, uma dupla de Sofia chamada Metanoia — "Arrependimento" — é introduzida para compensar a deficiência no éon de Eleleth devida à descida de Sofia; Metanoia então desce ao mundo chamado "imagem da noite" e ora pelo arrependimento dos humanos criados, incluindo a semente de Sete * A segunda parte do Livro Santo — III 62, 24–68, 1 — começa mencionando as três vindas pelas quais Sete passa nos tempos do dilúvio, da conflagração e do julgamento final — semelhante às três descidas do iluminador mencionadas na Revelação de Adão 76, 8–17. * O Livro Santo insere a tradição das vindas de Sete em um contexto batismal, uma vez que em sua terceira descida ele estabelece um batismo salvífico por meio de um corpo gerado pelo Logos, preparado pela virgem — provavelmente Barbelo * Tanto as Três Formas do Primeiro Pensamento quanto o Livro Santo equiparam a descida do Logos sobre a figura terrena de Jesus com a outorga do rito batismal dos Cinco Selos * O relato dessa outorga é seguido por uma longa lista das várias figuras invocadas no curso do rito batismal — III 64, 9–65, 26 —, incluindo uma multidão de novos nomes que aparecem também nas seções batismais de Zostrianos, ao lado dos mais tradicionais, como Micheus, Michar, Mnesinous, Gamaliel e Samblo — tanto na Revelação de Adão quanto nas Três Formas do Primeiro Pensamento —, e Abrasax e Yesseus Mazareus Yessedekeus — na Revelação de Adão * A oração batismal conclusiva — III 66, 8–22 — e a profissão pós-batismal — 66, 22–68, 1 — consistem em dois hinos separados de cinco estrofes cada, refletindo talvez a tradição batismal setiana dos Cinco Selos conhecida do Livro Secreto de João e das Três Formas do Primeiro Pensamento. * O batismo parece ter envolvido uma imersão quíntupla durante a qual o batizando pronunciava uma oração quíntupla a Yesseus Mazareus Yessedekeus, a água viva — como "filho do filho" * Ao concluir o batismo, o batizando — tendo agora se tornado luz — reconhece que o nome do divino Autogênito está agora sobre ele * Todo o procedimento conclui com os atos rituais de reconhecer a graça da Mãe estendendo as mãos dobradas, enquanto o recebimento do nome purificador do Filho é reconhecido pela declaração de que o incenso ou ungüento da vida foi misturado com a água dos arcontes * O Livro Santo, em conjunto com as Três Formas do Primeiro Pensamento e os materiais rituais em outros tratados setianos, fornece evidência de uma série de gestos e performances verbais passíveis de encenação ritual: renúncia, despojamento, invocação e nomeação de poderes santos, oração doxológica à água viva, unção, entronização, investidura, imersão batismal e certos outros gestos manuais, como estender os braços em círculo. * Se algum desses atos — e quais — compreende os Cinco Selos é difícil determinar; certamente todos esses elementos eram frequentemente parte do rito batismal na Igreja cristã em sentido mais amplo