===== EVANGELHO DOS EGÍPCIOS ===== [[gnosis:bnh:start|Biblioteca de Nag Hammadi]] [[http://www.gnosis.org/naghamm/goseqypt.html|The Gospel of the Egyptians]]; [[https://www.naghammadi.org/sites/naghammadi.org/files/uploads/traductions/nh-iii-2-iv-2-livre-sacre-du-grand-esprit-invisible.pdf|Le Livre sacré du Grand Esprit invisible]] ** 1. O Evangelho dos Egípcios ** * O Evangelho dos Egípcios depende mais diretamente do [[gnosis:aj:start|Apócrifo de João]] do que qualquer outra obra setiana, servindo como elo intermediário entre o Apócrifo e obras como Zostrianos, e constitui inequivocamente uma obra cristã. * Cristo é chamado pelo nome Cristo e por outros nomes: o Filho, o Logos, o Autógeno, Adamas, a Criança * Jesus é referido sob seu próprio nome e sob a figura do "grande Seth", filho de Adamas — isto é, filho do Homem * Esefech é mencionado como "a Criança da Criança": Cristo sendo a Criança, e Jesus tendo com Cristo a mesma relação que Seth tem com Adamas * A obra é mais complexa na descrição do mundo transcendente e muito menos desenvolvida quanto ao mito de Sofia em relação ao Apócrifo * No Evangelho dos Egípcios os sinais da decadência do valentinianismo são mais marcados do que no Apócrifo, e o autor parece preocupado sobretudo em celebrar a riqueza da Luz, multiplicando entidades sublimes com nomes bizarros de caráter mágico, sem sentir o lado trágico do mito valentiniano. * A queda de Sofia não é narrada — há apenas alusões a uma "deficiência" inexplicada * O aparecimento do Demiurgo parece dever-se a uma decisão voluntária do mundo superior * Eleleth deseja que, "após cinco mil anos", haja alguém para reinar sobre o caos e o mundo inferior * Uma "Sofia hílica" — Sabedoria material — aparece sem cair, pois parece ser de origem material * O nascimento da Sofia hílica e do Demiurgo "após cinco mil anos" talvez aluda ao aparecimento do judaísmo na história humana * Seth, filho de Adamas, encarna-se por fim em Jesus, Filho do Homem * Böhlig e Wisse, em sua edição do Evangelho dos Egípcios, concluem a partir da substituição de Cristo por Logos que Cristo seria apenas uma figura secundária e marginal nessa obra, e que o Apócrifo teria introduzido o nome Cristo onde uma tradição anterior — possivelmente não cristã — mencionava o Logos; mas essa suposição não se sustenta, pois o Evangelho dos Egípcios é claramente posterior ao Apócrifo. * Alexander Böhlig e Frederik Wisse: editores do Evangelho dos Egípcios * A obra é datada do fim do século II ou início do século III * Em todos os casos paralelos ao Apócrifo, é mais simples supor dependência direta do que recurso a uma tradição anterior * As diferenças em relação ao Apócrifo têm caráter de evolução posterior, não de retorno a uma tradição mais antiga * Cristo desempenha no Evangelho dos Egípcios um papel tão importante quanto no [[gnosis:aj:start|Apócrifo de João]], pois as figuras que parecem substituí-lo derivam dele: o "grande Logos vivo, o Autógeno" é filho do "grande Cristo", e Adamas é apenas outra designação de Cristo, aquele "por quem e para quem tudo foi feito, e sem quem nada teria sido feito". * Citação do texto copta — CG IV, 60, 1-8: o Logos é filho e instrumento de Cristo * Citação — CG IV, 61, 8-11 e III, 49, 10-12: "por quem e para quem tudo foi feito, e sem quem nada teria sido feito" — remissão a Paulo, [[b>1 Coríntios 8:6]] e [[b>Colossenses 1:16]], e a [[b>João 1:3]] * Um autor que conhece Paulo e João e atribui ao Logos o que as Escrituras dizem de Cristo não pode ser classificado como menos cristão por preferir o nome Logos ao nome Cristo * Há pouco que sugira que esse Logos seja simplesmente o dos estoicos * O Evangelho dos Egípcios é obra do gnosticismo cristão e não há razão para vinculá-lo a um gnosticismo menos cristão do que o do [[gnosis:aj:start|Apócrifo de João]] O assim chamado Evangelho dos Egípcios está preservado em duas versões cópticas que froam traduzidas independentemente do grego. Não se relaciona com o apócrifo Evangelho dos Egípcios que é citado na literatura patrística. Esta obra que também se intitula “O Santo Livro do Grande Espírito Invisível”, é um escrito esotérico do tipo setiano de Gnosticismo mitológico. Pode ser descrita como uma obra que apresenta a história gnóstica da salvação. Posto que o mitológico e celestial Set é representado como o [[tnpl:pais:]] da raça gnóstica, é apropriado que o tratado o liste com o autor deste livro divinamente inspirado. O tratado se divide em quatro seções: a primeira sobre a [[gnosis:origem-do-mundo:start|Origem do Mundo]] celestial; a segunda discute a origem, preservação e salvação da raça de Set; a terceira é um hino; e a quarta contem um relato conclusivo da origem setiana e da transmissão do tratado. ==== O Evangelho dos Egípcios (III,2) ==== O título deste tratado, na realidade, é "O (santo) livro dos Egípcios a propósito do Grande Espírito Invisível, o Pai", título que abre e fecha o escrito. Isso significa que este tratado nada tem em comum com o Evangelho dos Egípcios, bem conhecido na literatura apócrifa. Trata-se aqui de obra gnóstica de mitologia, atribuída ao Set celeste, pai da raça setiana, cuja origem é justamente relatada pelo texto. Do ponto de vista de seu conteúdo, o texto pode ser dividido em duas partes principais, sobre a origem mítica do mundo e de Set: — p. 40,12-55,16: a [[gnosis:origem-do-mundo:start|origem do mundo]] celeste; — p. 55,16-66,8: a origem, a preservação e a salvação da raça de Set, para a qual Set reaparece em Jesus e cumpre função cósmica. As páginas 66,8-67,26 constituem um hino de encantamento e as páginas 68,1-69,17 apresentam relatório da origem dos Setianos e da transmissão do tratado. O tratado não apresenta nenhum relato sobre a queda de Sofia. Em contrapartida, apresenta longa enumeração dos componentes míticos do Pleroma. Por exemplo, na p. 49,22-50,17: O homem louva o Grande Espírito invisível, incompreensível e virginal, a virgem-macho, o Filho três vezes macho, a virgem-macho Ioel, Esefech, a maravilhosa, filho do filho e coroa de sua glória, o grande Doxemedão-Eão, os tronos que estão nele, as Forças que o cercam, as Glórias e os Incorruptíveis e o seu Pleroma inteiro, que já mencionei, e a terra etérea, que recebe Deus, onde o santo homem da grande luz recebe (sua) imagem, o homem do Pai, do Silêncio, do Silêncio Vivente, o Pai e todo o seu Pleroma, como já indiquei. Set é enviado ao mundo como salvador (p. 62,24-64,9): Então o Grande Set foi enviado pelos quatro Luminares, pelo bem querer do Autógeno e todo o Pleroma, segundo o dom e o bom grado do Grande Espírito invisível, dos cinco Selos e do Pleroma inteiro. Passou através das três parusias que mencionei — o dilúvio, a conflagração e o juízo dos Arcontes, das Forças e das Autoridades — para salvar a raça perdida, por meio da reconciliação do mundo e pelo batismo, através do corpo do [[tnpl:logos:]] gerado, que o grande Set preparou para si mesmo secretamente na virgem, de modo que os santos possam ser gerados pelo Espírito Santo, pelos símbolos secretos invisíveis, por reconciliação do mundo com o mundo, pela renúncia ao mundo e aos deuses dos treze Eões, pelas assembleias dos santos, dos Indizíveis e das Matrizes incorruptíveis e pela grande luz do Pai, que preexistiu com sua Providência e que estabeleceu por meio dela o santo batismo, que supera os céus, pelo incorruptível [[tnpl:logos:|Logos]] gerado, Jesus Vivente, aquele que o Grande Set designou. E, através dele, imobilizou as Forças dos treze Eões e determinou aqueles que são gerados e levados. Ele os cingiu com a armadura da gnose dessa verdade e com uma força invencível de incorruptibilidade. Por vezes, o texto resvala para o gênero hínico. Eis um exemplo, um hino encantador (p. 66,9-22). Verdade de verdade! Ó Iesseus Mazareus Iessedekeus! Ó água viva! Ó filho do filho! Ó nome glorioso! \\ Verdade de verdade! Eão da existência! Iiii êêêê eeee oooo uuuu ôôôô aaaaa! \\ Verdade de verdade! Êi aaaa ôôôô! Ó Existente que vê os Eões! \\ Verdade de verdade! Aee êêê iiii uuuuuu ôôôôôôôô, que és eternamente eterno! \\ Verdade de verdade! Iêa aiô, no coração, que existe, u aei eis aei, ei o ei ei os ei! Por fim, a subscrição do escriba, [[gnosis:eugnosto:start|Eugnosto]]-Congessos (Concessus), permite-nos entrever como o redator (ou copista) situava-se a si próprio nessa revelação (p. 69,6-20): O Evangelho dos Egípcios. O livro Divino, santo, secreto. Graça, inteligência, compreensão e prudência àquele que o escreveu, [[gnosis:eugnosto:start|Eugnosto]], o bem-amado segundo o Espírito, segundo a carne meu nome é Congessos, e a meus companheiros nas luzes da incorruptibilidade. \\ Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, ICHTUS. \\ O santo livro do Grande Espírito invisível é escrito por Deus. \\ Amém.