===== Origens ===== //Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.// **Investigação das raízes dos sistemas gnósticos** * Uma investigação das raízes dos sistemas gnósticos deve, de acordo com a tipologia do gnosticismo exposta no primeiro capítulo, resolver primeiramente um problema fundamental de natureza metafísica: expor a origem da atitude gnóstica básica, que é o despertar do Si-Mesmo e o sentimento de alienação gerado ao conceber a ilusão do não Si-Mesmo. * Poucos especialistas tentaram vislumbrar esta verdadeira raiz, sendo que a maioria dos trabalhos sobre as origens da religião gnóstica colocou sua ênfase na etapa secundária de estabelecer os possíveis antecedentes históricos das figuras relevantes dos mitos gnósticos, com lamentável detrimento do princípio condutor. * A maior parte dos historiadores do fenômeno gnóstico vê sua origem no campo da religião que constitui sua especialidade (Grécia, Pérsia, Egito, Palestina), mas atualmente se reconhece que todo sistema gnóstico contém elementos helenísticos, orientais (Pérsia, Mesopotâmia, Próximo Oriente Antigo, Síria), judaicos, cristãos e até hindus, embora se dê preponderância decisiva a algum deles. **Origens cristãs** * Os heresiólogos (Irineu e Hipólito) foram os primeiros escritores sobre o fenômeno gnóstico e consideraram estes sistemas como heresias ou falsas religiões surgidas do cristianismo por um excesso de filosofia, tendo como inspirador o pensamento grego e algumas doutrinas do Oriente. * Simone, o Mago, é considerado por Irineu e Hipólito como o pai do gnosticismo e rival de Pedro, sendo este gnosticismo um cristianismo gnostizado que tem inspiração em filósofos e mitólogos pagãos como Antifanes, Homero (Ilíada), Hesíodo, Tales, Anaximandro, Anaxágoras, Demócrito, Epicuro, os pitagóricos, Platão, Aristóteles, Heráclito, etc. * S. Péremment sustenta que o primeiro gnosticismo cristão (Simão, Menandro, Cerinto, Saturnino) é um cristianismo que levou ao extremo ideias profundamente cristãs e patentes nas Epístolas de São Paulo e no Evangelho de São João. * O Padre Daniélou sustentou as raízes judaico-cristãs do gnosticismo, por uma interpretação desmedida da escatologia começada, enquanto outros autores (R. M. Grant, H. Jonas, R. Bultmann) sustentam os orígenes judaicos ou judaico-helenísticos. * R. M. Grant viu o surgimento do gnosticismo nas seitas apocalípticas judaicas, vinculando sua razão decisiva com a desilusão causada pela destruição de Jerusalém no ano 70 da nossa era. * Autores que seguem Santo Irineu (Adv. Haer. I, 23,1-3) reconhecem Simão como o pai do gnosticismo e afirmam, por isso, sua origem samaritana e sua prolongação siríaca. **Origens helenísticas** * Harnack foi o principal sustentador das origens gregas do gnosticismo, impulsionando ao extremo o pensamento dos heresiólogos cristãos, especialmente de Hipólito de Roma, e atualmente J. E. Ménard insiste sobre as influências estoicas no pensamento dos gnósticos cristãos. **Origens orientais** * As primeiras investigações de caráter científico sobre as origens gnósticas (Mosheim, 1739) fixaram a posição de que a Gnose era uma filosofia oriental surgida na Pérsia e na Caldeia, sendo que G. Widengren sustenta a origem iraniana do gnosticismo com base no dualismo ou oposição central Deus-mundo. * Reitzenstein estuda o maniqueísmo e o mandeísmo como religiões soteriológicas medulares, considerando o fragmento M 7 no qual Zaratustra, chegando do mundo da luz, encontra seu espírito misturado com a matéria, em sonho e embriaguez, e o desperta com a fórmula vivificante, relacionando isso com o que o Elenchos diz sobre o Baruch de Justino. **Origens mesopotâmicas** * W. Anz (Zur Frage nach dem Ursprung des Gnostizismus, 1897) rastreia as origens do gnosticismo em textos babilônios, fundamentando-se no fato de que o dogma central da doutrina gnóstica é a ascensão da alma ao mais alto dos céus do universo. * H. Jonas orienta as origens do gnosticismo para um princípio espiritual novo surgido na época helenística pela interação de diversas forças religiosas do Oriente. **Reapresentação da questão dos orígenes** * A noção de gnosis do gnosticismo é idêntica à ideia de salvação pelo conhecimento da literatura religiosa hindu (Brahman/átman, ignorância, mundo como ilusão, moksha), o que permite vislumbrar um quadro mais amplo de profundidade doutrinal e interesses especulativos comuns que participam de um mesmo nível de compreensão profunda e capacidade de exigências lógicas. * A partir da perspectiva de delimitar previamente o conceito de gnosticismo e sua intenção, o caminho fica expedito para buscar sua origem histórica começando pela mais antiga amostra do gnosticismo que se possui: o gnosticismo cristão. * As primeiras referências seguras sobre o gnosticismo são encontradas por volta do ano 55 nos escritos paulinos (Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos 11 e 12), onde os adversários combatidos por Paulo de Tarso são descritos como judeus sábios, de pensamento independente e tendência mística. * Os primeiros gnósticos foram cristãos, mas sua qualidade de pneumáticos e especulativos por excelência lhes vinha do fato de procederem de um judaísmo místico e esotérico, sendo sua rebeldia tripla: como corrente esotérica dentro do judaísmo, como reconhecedores da qualidade espiritual da mensagem de Jesus de Nazaré e como críticos dos elementos conciliatórios da teologia cristã contemporânea em relação ao Antigo Testamento. * As etapas precursoras dos sistemas gnósticos incluem: a gnose como conhecimento salvador equivalente ao conhecimento místico do esoterismo hebreu (refletido na cabala); a noção de Divindade Suprema equivalente ao Deus Pai que transcende ao Nome e à sua Sabedoria (experiência peculiar de Jesus, o Cristo, por ser um gnóstico); o Pleroma com seu paralelo na Sabedoria preformal e nas especulações sobre o trono de Deus; a queda de Sofia com seu caminho prévio na sabedoria inferior ou eletiva dos yeser rabínicos ou das duas potências (Textos de Qumran, Manual de Disciplina III, 18-19; Filon de Alexandria). * O demiurgo é equivalente aos anjos criadores ou ao Yahweh veterotestamentário como princípio oposto ao Deus Pai, sendo posterior à queda da Sabedoria, e neste princípio de origem exegética unem-se o esoterismo hebreu e o menosprezo gnóstico pela interpretação superficial da experiência religiosa do Pai de Jesus de Nazareth. * O mundo como caído tem seu paralelo na noção de mundo de Paulo e dos escritos joaninos (II Coríntios 4,4; João 8,23,44; 14,30) como estrutura cosmológica que inclui aspectos ético e sociológico, e a oposição de mundos da imagética apocalíptica participa parcialmente do mesmo conceito. * O Salvador tem seu correspondente hebreu na figura do Messias, e a connaturalidade divina é intrínseca à própria noção de gnose, sendo o gnóstico o mais fiel testemunho da universalidade por natureza da filiação divina. * O retorno tem suas semelhanças hebraicas no descenso à Merkabah, na imagética apocalíptica que inclui a viagem pelas moradas celestes e nas fórmulas de passagem, sendo que entre os gnósticos cristãos o ascenso exemplar foi cumprido por Jesus, o Cristo.