===== Plotino ===== //Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.// A interpretação tradicional de que o ataque de [[plato>neoplatonismo:plotino:|Plotino]] nos tratados Enéadas era dirigido contra os cristãos foi rejeitada por alguns intérpretes, e um tratamento metodologicamente claro é necessário para superar a impasse histórica sobre a identificação dos gnósticos que ele conheceu. * Os primeiros trabalhos diretos sobre Enn. II,9 concluíram que o alegado plotiniano era contra os cristãos (Heigl, Baruzy, Lebreton-Zeiller), mas esta opinião foi rejeitada por Creuzer e, mais tarde, por Bouillet com boa erudição sobre gnosticismo e cabala. * A partir do Poimandres de Reitzenstein, distinguiu-se uma literatura gnóstica pagã de uma cristã, e Bousset identificou o sistema gnóstico combatido por Plotino como pagão, tese similar e mais genérica apresentada por Festugière, embora seus argumentos nem sempre sejam felizes. * Schmidt, em trabalho que indica um verdadeiro progresso graças ao seu método, analisa V.P. XVI, descobre vinculações com os paralelos gnósticos e trata de identificar os gnósticos de Plotino, mas sua identidade histórica não é muito sólida e ele não percebe que Enn. II,9 faz parte de um escrito maior. * Posteriormente, Puech ofereceu a melhor atualização sobre o tema (Plotino e os gnósticos), e Orbe, desde 1954, facilita elementos dilucidatórios sobre as críticas de Plotino baseadas em conhecimento incompleto da ideologia combatida, sempre delineando o solo seguro do valentinismo. * Jonas, ao fazer preceder o enfoque fenomenológico ao histórico-crítico, não é eficaz em suas análises, e os especialistas em Plotino (Arnou, Armstrong, Bréhier, Trouillard, Gandillac, Hadot, Dodds, Rist) pouco ofereceram de positivo, sendo desilusionadoras suas alusões ao problema. **A unidade do grande tratado e o contexto do alegado antignóstico** A compreensão do alegado contra os gnósticos exige considerar que as Enéadas não refletem diretamente a ordem de redação de Plotino, mas o resultado da atividade editora de Porfírio, que subdividiu ou reuniu escritos que constituíam uma unidade original. * Porfírio, ao organizar as Enéadas em seis partes com nove tratados cada, não apenas transtornou a ordem cronológica da produção de Plotino (registrada nos capítulos IV a VI da Vida de Plotino), como também, em várias ocasiões, subdividiu ou reuniu escritos que ao começo constituíam uma unidade ou eram notas esparsas. * Enn. II,9 (33) é a parte final de um extenso tratado primitivo (o grande tratado ou grande tetralogia) formado também por Enn. III,8 (30), V,8 (31) e V,5 (32), que nos seus começos lectivos e redacionais teve unidade literária antes de ser fracionado por Porfírio. * A unidade literária destes quatro tratados foi demonstrada por Harder mediante análise interna, como a recapitulação em Enn. V,5 (32), 4,1-8 de pontos expostos nos últimos capítulos de Enn. III,8, e a frase inconclusa no final de Enn. V,8 (31), 13, que encontra resposta nos primeiros capítulos de Enn. V,5 (32). * Plotino ditou as lições que constituem a grande tetralogia durante o curso escolar dos anos 265/266, tendo como motivo para esta dedicada a refutação antignóstica, sintetizando e expondo sua própria doutrina nos três tratados que precedem Enn. II,9 para, então, concluir com a enojosa questão contra os gnósticos. * Nos capítulos inaugurais de Enn. II,9, o ordenamento das três hipóstases plotinianas (Um, Espírito, Alma) se sustenta recapitulativamente, e a impossibilidade de existirem outras hipóstases ou de reduzi-las a um número menor é expressa com claras alusões polêmicas, como a distinção do Espírito em repouso/silêncio e movimento/enunciação refutada por Irineu aos valentinianos. **Enéada III,8: Sobre a natureza, a contemplação e o Um** O tratado Enn. III,8 delineia o programa sobre o último nível da alma universal (natureza), seu modo de produção (contemplação), e sobre o Princípio (o Um) que sustenta a operatividade contemplativa do Espírito e da Alma. * A natureza é anterior às disposições anímicas racionais, está em si plenamente e sua auto-sabedoria é uma multiplicação de logoi spermatikoi que se desenvolvem em seres viventes, sendo um princípio que informa, um logos e uma atividade contemplativa que permanece e produz. * O filósofo neoplatônico insinua uma primeira referência à relação theoria-praxis, demonstrando a dependência da ação em relação à contemplação. * A alma universal é superior à natureza, depende diretamente do Espírito, e sua vida perfeita se manifesta como vida natural que se cristaliza em vidas particulares, mantendo com a alma cósmica uma relação de contemplação mais débil. * No Espírito, ao contrário da alma virtuosa, não existe afinidade entre conhecedor e conhecido, mas identificação pura, permitindo estabelecer a hierarquia ascendente da síntese vida/conhecimento como sensível, natural, universal anímico e paradigmático espiritual. * Plotino levanta a dúvida de que, por mais unidade que o Espírito seja, é uma unidade múltipla e preenchida de modelos ideais, sendo menor que a unidade verdadeira do Um, para o qual eleva através de elementos vocabulares das vias eminencial, positiva, simbólica e negativa. **Enéada V,8: Sobre a beleza espiritual** No tratado Enn. V,8 demonstra-se que, assim como o mundo é uma existência sábia, ele é também uma realidade bela, havendo uma hierarquia nas manifestações da beleza paralela ao ordenamento ascendente dos logoi. * Tanto a beleza artística quanto a beleza natural se remetem a um logos natural mais alto, mas acima da beleza exterior e produzida está a beleza interior, manifestação da alma universal própria da vida virtuosa, rematando na beleza em si que reside no Espírito. * Oferece-se outro caminho de ascensão, não por meio do ser, mas pela beleza que se consubstancializa com ele, desenvolvendo considerações sobre a segunda hipóstase como um-todo, Vida e Sabedoria, entendendo que não se trata de dois aspectos interiores do Espírito, mas de uma unidade refletida fragmentadamente no que está abaixo. * Quanto está sob o Espírito é sua imagem fiel, como o mundo sensível é o reflexo do kosmos noetikos, existência plena em seu plano e beleza em seu nível, situação que se manifesta no homem permitindo-lhe, ao elevar-se em sua interioridade, ascender à beleza e compreendê-la como indissociável do ser. **Enéada V,5: Sobre o conhecimento e a verdade** Pelo conhecimento real (gnosis) e não pela opinião pode-se chegar ao Espírito, pois o critério de verdade no âmbito gnoseológico é o da imediatez, que se dá plenamente na segunda hipóstase onde sujeito e objeto de conhecimento constituem uma unidade. * As imagens (sensação, juízo, raciocínio) participam do modelo espiritual, enchendo-se de sua luz própria e adquirindo sentido cognoscitivo a partir da Verdade, não sendo conhecimentos por si, mas pela autêntica evidência do reino do Espírito. * É necessário libertar-se das formas lógicas do conhecimento pertencentes ao domínio da mera doxa, reconhecendo que ser, beleza e verdade são aspectos do mesmo arquétipo espiritual, unificando o conhecimento inferior em seu sentido real do qual é cópia. * Este é o terceiro caminho que leva ao Espírito desde o mundo, a via gnoseológica, que permite abrir as especulações sobre as relações da segunda hipóstase com a primeira e as ensinanças sobre a impossibilidade metafísica da expressão do Um. **Enéada II,9: O ataque direto aos gnósticos valentinianos** Os capítulos 10, 11 e 12 de Enn. II,9 revelam elementos específicos do mito valentiniano, permitindo identificar os gnósticos combatidos por Plotino com o valentinismo romano (Ptolomeu e Teodoto) e justificar a tese de que é necessário delimitar este setor específico. * Plotino se retém de passar revista a todos os erros dos gnósticos porque entre eles há amigos e confrades seus, que já eram gnósticos antes de travar relação com ele, e porque dirige seu ensino aos alunos íntimos (gnorimoi) para evitar que sejam abalados pela arrogância dos hairetikoi. * O filósofo neoplatônico expõe a teoria extravagante sobre a origem do mundo, registrando suas dúvidas sobre a denominação do ser caído (Alma ou Sabedoria), que são a mesma entidade, sendo que o mais grave é os adversários sustentarem que esta entidade se inclinou (estando presa por seus fragmentos anímicos) mas ao mesmo tempo não caiu, senão que iluminou e refletiu sua imagem na obscuridade (matéria). * Da imagem desta imagem surgiu o demiurgo (a alma natural), que separado da Mãe (Sofia inferior) e com a matéria resultante das paixões e conversão de Sofia, vai formando o mundo orgânico e inorgânico. * A análise de Plotino revela um esquema gnóstico idêntico ao de Irineu de Lyon: os Eones superiores que dão forma a Sofia inferior através do Salvador (=Logos), e a Sofia inferior que, imóvel na Ogdoada, inspira o demiurgo a organizar a matéria e atrai os espirituais. * Plotino aponta contradições no relato, como que os gnósticos não são imagens psíquicas, mas almas verdadeiras (=partes de Sofia), ou seja, não psíquicos, mas pneumáticos, e que o demiurgo, que veio a ser depois deles, capta o projeto do cosmos analiticamente enquanto os gnósticos, apenas um ou dois, alcançam compreender suas origens reais. **Indícios e confirmações do alegado contra os gnósticos** As relações de Plotino com os gnósticos valentinianos de Roma podem ser divididas em cinco grandes etapas ao longo das Enéadas, desde uma franca convivência inicial até uma ruptura explícita. * No primeiro momento de franca convivência (tratados I,6; IV,7; III,1; IV,2; V,9), não há notas polêmicas perceptíveis, mas numerosos rasgos gerais do espiritualismo da época, comuns ao platonismo alexandrino, aos tratados herméticos e aos gnósticos, revelando uma atmosfera mística e uma modalidade linguística radicalizadora do platonismo. * No segundo momento (tratados entre o 6° e o 26° inclusive), as suspeitas de Plotino aumentam e iniciam-se os rechaços das doutrinas alheias, como no tratado Sobre o descenso da alma no corpo (Enn. IV,8 [6]), onde ele perfila pela primeira vez suas linhas sobre a bondade do mundo e a situação da alma particular sob condições de alma caída. * No terceiro momento (ano escolar anterior à polêmica), a ruptura já está no horizonte, com elementos dilucidatórios em Enn. IV,3 (27) sobre a alma universal (irmã das almas particulares que lhes prepara moradas) e em Enn. IV,4,9, onde se martelam ideias contra os gnósticos: Zeus (Alma) ordena o mundo porque se conhece a si mesmo, e o demiurgo deve ser chamado assim por seu ato de olhar para as ideias. * O quarto momento é o curso da polêmica direta e dilatada (265/266), constituído pela grande tetralogia (Enn. III,8; V,8; V,5; II,9), onde as fronteiras doutrinárias se tornam explícitas. * O quinto momento é constituído por alusões posteriores ao que ficou bem estabelecido no curso de 265/266, como em Enn. II,1 (40), Enn. III,7 (45), os tratados Sobre a providência (Enn. III,2 [47]), e finalmente no tratado De onde os males (Enn. I,8 [51]) e no capítulo 16 de Enn. II,3 (52), onde Plotino se mantém fiel aos rechaços antropomórficos. **O testemunho de Porfírio (V.P. XVI) e a conclusão sobre a polêmica** O testemunho de Porfírio em V.P. XVI ratifica a origem cristã dos gnósticos, confirma sua inspiração especulativa de corte platônico e o uso de literatura gnóstica profusa, sem contradizer o que foi estabelecido pelas Enéadas. * Porfírio confirma que Plotino polemizou com eles mais de uma vez, deu liberdade a seus discípulos para examinar seus livros com maior detalhe e refutá-los, mencionando as controvérsias de Amélio contra o Zostrianos e a própria de Porfírio com o Apocalipse de Zoroastro. * A síntese apresentada, movendo-se dentro dos limites do método crítico-positivo, anula as meras hipóteses teóricas de oposição helenismo/orientalismo, mas deixa em pé o nível fenomenológico que permite estudar dois universos espirituais próximos pelas intenções (Plotino e a Gnose), sem confundir a intuição do sentido último com a lógica individualizadora do sistema. * Plotino combateu os gnósticos valentinianos porque eles se aferravam agora mais do que antes à letra e não ao significado veiculado pelo mito, diferindo de outros gnósticos (como os que ele conheceu em Alexandria) que utilizavam seu mito com maior liberdade significativa emanada do uso do simbolismo.