===== Fontes de Apollos ===== //Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.// Embora se saiba pouco sobre Apollos, o pouco que se sabe é suficiente para mostrar que ele pode ser um cruzamento de diversas influências, conforme se lê em [[b>Atos 18:24-28]]. * Em [[b>Atos 18:24-28]] está escrito que um judeu chamado Apollos, natural de Alexandria, chegou a Éfeso, sendo ele eloquente e versado nas Escrituras, instruído no caminho do Senhor e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava com precisão as coisas concernentes a Jesus, embora conhecesse apenas o batismo de João. * O texto de Atos indica três fontes possíveis para o ensino de Apollos: a influência paulina por meio de Priscila e Áquila, o judaísmo alexandrino e os círculos ligados a João Batista. * Priscila e Áquila, sendo discípulos de Paulo que viveram com ele em Corinto e o acompanharam até Éfeso, conheciam bem sua doutrina e, ao instruírem Apollos, fizeram com que ele assimilasse algumas ideias paulinas. * Tendo sido instruído por eles, Apollos deve ter parecido alguém cuja doutrina não diferia obviamente do paulinismo, pois Priscila e Áquila lhe deram uma carta de recomendação para os coríntios, certamente sem pensar que ele ensinaria ideias diferentes das de Paulo. * Dado o caráter fervoroso que Lucas lhe atribui, é possível que Apollos tenha exagerado algumas ideias de Paulo, indo mais longe do que ele, o que explicaria por que Paulo mais tarde não reconheceu seu próprio ensino no de Apollos. * O cristianismo de Apollos não derivou inteiramente dos discípulos de Paulo, pois era mais antigo do que o encontro com eles, e é provável que não provenha de uma das igrejas ligadas à comunidade de Jerusalém, já que ele conhecia apenas o batismo de João. * Uma variante do texto de Atos afirma que Apollos foi instruído no cristianismo em sua terra natal, Alexandria, mas não se sabe se essa variante faz parte do texto original nem como era o cristianismo alexandrino no primeiro século. * Onde quer que Apollos tenha conhecido o cristianismo, é muito provável que tenha sido em Alexandria que ele foi instruído no judaísmo, tendo estudado com judeus letrados e adquirido seu notável conhecimento das Escrituras. * Os judeus alexandrinos eram os mais helenizados dos judeus, e foi entre eles que se formou a admirável síntese do judaísmo, platonismo e estoicismo que é a filosofia de Fílon, bem como o livro grego chamado Sabedoria ou Sabedoria de Salomão. * Uma das características que distinguem o judaísmo alexandrino do judaísmo palestino é que, sob influência grega, ele permite uma distinção mais profunda entre alma e corpo e concebe uma sobrevivência da alma independentemente do corpo após a morte. * No livro da Sabedoria aparece a palavra imortalidade, e afirma-se que os justos mortos pelos ímpios pareceram morrer mas não estão realmente mortos, que suas almas estão na mão de Deus e que os fiéis permanecerão com ele no amor, sem que pareça haver questão da ressurreição do corpo. * Fílon acredita na imortalidade da alma, ou melhor, na imortalidade da parte da alma que conhece as realidades inteligíveis, e jamais parece acreditar que a alma não possa estar sem o corpo e que um dia ambos ressuscitarão juntos. * É possível que, devido à sua origem alexandrina, Apollos tivesse uma concepção particular da ressurreição, enfatizando a eternidade que pode estar presente na alma nesta vida, de modo que as dúvidas de alguns coríntios sobre a ressurreição talvez não o incomodassem tanto quanto incomodavam Paulo. * Os oponentes de Paulo na Segunda Epístola aos Coríntios eram, segundo Käsemann, pneumáticos extáticos, interessados nas inspirações do espírito, e essa ideia de que a alma pode ser tomada por uma inspiração divina e levada para além de si mesma até Deus não é diferente do que os oponentes pareciam pensar. * Quando Paulo protesta contra aqueles que dizem que ele age de modo mundano, quando afirma que também tem o espírito de Deus e que também pertence a Cristo, percebe-se que o cristianismo de seus oponentes era mais místico e mais apaixonado do que o seu, podendo ter raízes no misticismo alexandrino. * A terceira fonte das ideias de Apollos são os círculos ligados a João Batista, pois Lucas afirma que Apollos conhecia apenas o batismo de João, o que leva a supor que ele tinha algum vínculo com esses círculos, talvez em Éfeso, em Alexandria ou na Palestina. * João Batista não levava muito em conta o nacionalismo judaico, pois não bastava ser filho de Abraão para ser salvo, e ele pregava uma ética do amor, ensinando que certas disposições interiores são mais importantes aos olhos de Deus do que ser irrepreensível segundo a lei. * João Batista enfatizava a escatologia, o fim do mundo e o juízo futuro, e para ele o batismo no espírito parecia ligado à ira e ao fogo celestial que estavam próximos, uma escatologia que não se encaixa facilmente na filosofia predominantemente platônica do judaísmo alexandrino. * Não se vê, nas epístolas aos Coríntios, que Apollos enfatizasse especialmente a escatologia, de modo que talvez a única coisa que ele tivesse em comum com João Batista fosse certa maneira de manter distância das igrejas ligadas a Jerusalém. * Talvez o único vínculo de Apollos com os discípulos de João fosse que, como os joanitas de Éfeso, ele não sabia que o batismo devia ser seguido da transmissão do espírito pela mediação de um apóstolo, ou então não queria saber, pois não se lê em Atos que ele tenha sido rebatizado ou que tenha recebido o espírito segundo esse rito. * Apollos parece ter sido uma pessoa importante, segura de si e bem diferente dos humildes joanitas, sendo possível que tenha sido ele quem os converteu ao cristianismo sem lhes falar da necessidade de receber o espírito pela mediação de um apóstolo, talvez porque não reconhecesse essa necessidade nem desejasse estar demasiado ligado à igreja de Jerusalém. * Mesmo depois de ser instruído por Priscila e Áquila, Apollos não ensinou a seus amigos ou discípulos o dever de receber o espírito, o que pode indicar uma tendência sua a manter-se à parte do cristianismo organizado. * Essa tendência de Apollos talvez o ligasse aos helenistas, o pequeno grupo de cristãos primitivos que se opunha ao privilégio do templo e que teve desentendimentos com a comunidade dos doze apóstolos, não tendo recebido a imposição de mãos antes de seu acordo com os apóstolos. * A referência a João Batista em relação a Apollos e aos joanitas pode simplesmente remeter à tendência para um cristianismo mais amplo, mais aberto e menos ligado a um centro definido do que aquele vinculado à comunidade de Jerusalém. * Resumidamente, pode-se admitir que as ideias de Apollos poderiam ter vindo principalmente do judaísmo alexandrino e do cristianismo, que ele conheceu tanto de uma fonte desconhecida, talvez próxima dos batistas ou dos helenistas, quanto por meio dos discípulos de Paulo.