===== Prefácio ===== //MOPSIK, Charles. Les grands textes de la cabale: les rites qui font Dieu. Lagrasse: Verdier, 1993.// * A confusão das palavras leva à confusão das ideias, e esta, por sua vez, leva à mentira e à malversação. * A frase é atribuída a Confúcio e utilizada como epígrafe para introduzir a temática da precisão conceitual. * A religião judaica perpetuou-se através de práticas concretas em vez de uma doutrina religiosa estabelecida. * Apesar da preeminência social dos ritos sobre as representações, isso não impediu elaborações intelectuais numerosas e fecundas. * Os sistemas de pensamento formados a partir dessas práticas não se fixaram em doutrinas teológicas como as do cristianismo e do islamismo, devido à necessidade de integrar essencialmente as práticas religiosas. * A posição crítica da questão dos ritos tendeu a relativizar qualquer outra consideração de forma quase mecânica. * A relativização das crenças em relação às práticas fez destas um grande ideal ideológico. * Ao lado das discussões jurídicas, desenvolveu-se um discurso espiritual nutrido por uma reflexão aprofundada sobre as normas cultuais. * O domínio do rito foi um extraordinário laboratório de ideias e teve um papel heurístico de primeiro plano, originando uma imensa literatura religiosa. * Aqueles que tentavam descobrir o significado dos ritos eram também aqueles que tinham uma experiência prática diária deles. * Como não era a fé que salvava, mas as obras, era preciso compreender por que e como estas poderiam trazer a salvação. * A questão prejudicial da eficácia das obras, quando colocada, desencadeou uma grave crise na sociedade judaica e provocou gigantescas polêmicas. * Uma vez admitido o postulado de sua eficácia, restava estabelecer sua natureza e suas formas. * Um trabalho sistemático nesse sentido foi empreendido por uma corrente de pensamento chamada cabala, que, originada no sul da França no final do século XII, colocou desde o início a questão dos mandamentos religiosos no centro de suas preocupações. * Uma imensa literatura acumulada ao longo dos séculos testemunha uma atividade intelectual centrada no significado e na função dos ritos. * A questão da natureza da eficácia das observâncias encontrou na cabala respostas que participavam de uma estrutura doutrinal que concebia as práticas religiosas como parte essencial de sua própria substância. * As razões dos mandamentos concerniam a múltiplos aspectos, como a escatologia celeste da alma, a imitação de Deus, a união com a divindade, a salvaguarda da forma humana criada à imagem de Deus e, sobretudo, a ação sobre a própria divindade. * É feita uma alusão às polêmicas desencadeadas no sul da França e na Espanha pela publicação da obra filosófica de Maimônides, O Guia dos Perplexos. * A intenção inicial de tratar todos os temas mostrou-se inviável, exigindo vários volumes, optando-se por uma análise aprofundada do último tema mencionado. * O tema escolhido tem a propriedade de tocar todos os outros e demonstra o caráter decisivo das reflexões sobre as práticas religiosas para a construção dos sistemas do mundo e de Deus. * Através da eficiência das observâncias religiosas sobre o mundo divino, este não aparece mais como uma estrutura fixa, mas como um sistema relacional interativo cujo dinamismo é regulado pelos atos humanos. * A obra é a primeira monografia inteiramente consagrada ao estudo da crença no poder de ação sobre Deus das obras humanas. * A genealogia dessa concepção é um capítulo importante da história do pensamento judaico, tendo sido relegada pelos modernos ao domínio da magia e do mito. * Essa crença, ignorada ou subestimada na história do judaísmo, aparece cada vez mais como um elemento importante do discurso das autoridades espirituais para explicar e valorizar as práticas religiosas. * Embora seja a cabala medieval que dá a essa crença uma sólida base conceitual, ela já está presente na Bíblia hebraica, na literatura rabínica e em diversos escritos correlatos. * Essa concepção apresenta similaridades com a teurgia neoplatônica da Antiguidade tardia, tendo-se adotado o termo teurgia para designá-la. * É citado o julgamento severo de Kant sobre a teurgia como uma loucura mística que imagina sentir e poder agir sobre seres suprassensíveis. * Vários trabalhos importantes mostraram o interesse da teurgia para os estudos sobre o pensamento dos últimos filósofos pagãos, os sacramentos cristãos e o gnosticismo. * O interesse da teurgia antiga também é grande para a investigação das correntes do judaísmo qualificadas como mistagógicas. * A obra pretende escrever alguns capítulos da história do que se tornará uma doutrina professada pelas mais altas autoridades rabínicas. * Até o final do século XVIII, e em certas regiões até o final do século XIX ou meados do XX, a crença de que as práticas do culto agem sobre a divindade suscitará tentativas de sistematização no cerne de grandes obras religiosas. * O trabalho não pretende tratar de todas as explicações dos mandamentos (ta'amé ha-mitsvot), mas apenas daquelas ligadas à crença em sua eficácia teúrgica. * O livro não pode ser considerado um complemento da obra de Isaac Heinemann, que cobre o conjunto da questão, mas cujo autor não pôde escrever o volume que abrangeria o domínio da cabala. * O ponto de partida da obra foi a leitura de dois capítulos que Moché Idel consagra à teurgia judaica antiga e à teurgia da cabala em seu livro que renova a abordagem geral desse campo de estudo. * Também foi utilizado um capítulo da tese do autor que serviu como núcleo organizador da pesquisa. * O livro se apresenta como um recueil (coletânea) dos escritos mais significativos sobre o assunto. * A maioria das traduções é de autoria do próprio pesquisador, provindo de edições impressas e manuscritos de difícil acesso e em linguagem especializada. * A forma antológica é vantajosa por evitar dissertações na ausência dos textos e por introduzir elementos do contexto, limitando os efeitos semânticos de citações ocasionais muito curtas. * A sucessão organizada e a estratificação aparente dos textos evidenciam sua inserção histórica e suas filiações. * A massa crítica atingida, com textos de cerca de sessenta cabalistas e nomes de mais de cem autores, permite uma exploração aprofundada de uma tradição de pensamento. * São estudados essencialmente textos escritos entre o final do século XIII e meados do século XVIII, período em que a cabala nasceu, floresceu e adquiriu suas formas definitivas. * Foram selecionados principalmente os exposições teóricas ou aquelas que colocam em prática mais claramente uma teoria das observâncias. * O livro não pretende ser um grande passo, mas um pequeno passo em direção ao objetivo de compreender a história e a estrutura do pensamento da religião judaica a partir de seus desenvolvimentos conceituais. * Deve-se explicar uma opção terminológica importante que vai contra um hábito bem estabelecido: preferiu-se a palavra mistagogia e seus derivados em vez da palavra mística para qualificar a cabala. * A palavra místico é considerada um termo mal definido, frequentemente empregado de maneira imprecisa, conforme observado por Pierre Hadot. * O sentido mais comum de místico designa estados psicológicos análogos à experiência unitiva plotiniana, caracterizados pelo desapego de toda atividade corporal e por exercícios puramente espirituais. * Os neoplatônicos, no entanto, empregam a palavra místico no sentido do que se relaciona aos mistérios, aos ritos religiosos e teúrgicos, e por extensão ao que é oculto, secreto, misterioso. * Diante da contradição entre esses dois sentidos, Pierre Hadot sugere banir a palavra místico, solução adotada pelo autor. * Preferiu-se a palavra mistagogia porque é empregada pelo neoplatônico Proclo (século V) para designar tradições secretas, mistérios divinos transmitidos sob forma de enigmas. * A etimologia de mistagogia evoca ao mesmo tempo a ideia de segredo e a ideia de ensino ou iniciação, sugerindo uma sabedoria não apenas especulativa, mas transformante, conforme Jean Trouillard. * Não se pretende negar a existência de atitudes ou experiências místicas no seio da cabala medieval ou pós-medieval, mas elas não deveriam autorizar a generalização do termo a ponto de fazer da expressão mística judaica um equivalente do hebraico qabbalah (cabala).