===== Evangelho de João ===== [[.:start|Jean-Yves Leloup]] * O Evangelho de João contém grego e hebraico, abrindo assim o espaço da letra para a poesia e o diálogo — espaço para um pensamento do Ser sem esquecimento do Outro. * Rabi Nathan de Beit Govrin: "Convém à humanidade falar quatro línguas: o grego para a poesia, o persa — outros dizem o aramaico — para as elegias, o hebraico para o diálogo, e o latim para a guerra." * Lido apenas em grego, o texto dá a ver e a contemplar "o Verbo da Vida"; mas os numerosos semitismos do texto convidam também a escutá-lo, discuti-lo, "dialogá-lo." * Coloca-se a questão de saber se no Evangelho de João existe um encontro possível do pensar grego e do pensar semita capaz de renovar o campo da hermenêutica contemporânea. * Paul Ricœur observa a propósito de Heidegger que este "às vezes pensou a partir do Evangelho e da teologia cristã; mas sempre evitando o maciço hebraico, que é o estrangeiro absoluto em relação ao discurso grego," evitando o pensamento ético com suas dimensões de relação ao outro e à justiça, e não reconhecendo sua diferença radical com o pensamento ontológico. * Ricœur considera essa incompreensão paralela à incapacidade de Heidegger de dar o "passo atrás" de modo a permitir pensar adequadamente todas as dimensões da tradição ocidental. * "A tarefa de pensar a tradição cristã por um 'passo atrás' não exige que se reconheça a dimensão radicalmente hebraica do Cristianismo, que está antes enraizado no Judaísmo, e somente depois na tradição grega?" (Ricœur) * O "passo atrás" não significa necessariamente a retroversão do grego em hebraico, mas implica dar uma tradução do texto que respeite ao menos o sabor semita do grego joanino — não para facilitar a leitura, mas como convite ao leitor para que aproxime seu sopro dessas brasas obscuras e descubra nelas seu peso de clareza e calor. * Rabi Hayim de Volozhine — em referência aos Avot 2,10 e 5,22 — descreve a participação necessária do leitor: "se aplicas teu sopro à brasa, apagada em aparência, tu a animarás e a atiçarás soprando... Mesmo que suas palavras nos pareçam simples e sem envergadura, sob a força do martelo elas se disseminam; 'Gira lá, e retorna lá, pois tudo está lá.'" * Quanto mais o leitor se aproxima, mais o Sentido se revela inacessível — experiência que todo homem de desejo pode viver ao se debruçar sobre um "livro sagrado." * A palavra do Evangelho não se torna "objeto de conhecimento" ou "algo a compreender," mas epifania de uma Presença que se oferece a uma liberdade sem alienar nada da sua — e é por isso que esse livro se chama "livro sagrado," sendo a santidade o que preserva de irredutível uma autêntica Alteridade. * Santidade — o irredutível de uma autêntica Alteridade. * O Evangelho de João é ao mesmo tempo palavra de homem e palavra de Deus, pertencendo a outro tempo e outro espaço — daí sua estranheza — e ao mesmo tempo ao que não é do tempo nem do espaço — daí sua radical Alteridade e sua "santidade." * Uma tradução que respeite a estranheza — dimensão histórica e humana do texto — e a Alteridade — santidade e inspiração do texto — só pode suscitar espanto com gratidão pelo fato de que esse texto ainda seja legível, mas de uma legibilidade não explicativa e não ideológica, que não dispensa a liberdade de interpretação. * O Evangelho de João não convida apenas a pensar, mas também a crer e a duvidar — e mais ainda a viver e a praticar. * "Aquele que 'faz' a verdade vem à luz" — convite ao que David Banon chama, em A leitura infinita, de "exegese(é)tica": "o homem sendo mais o resultado de seus atos do que a consequência de suas ideias."