===== Basílio ===== //Ysabel de Andia — MÍSTICOS DO ORIENTE E DO OCIDENTE// **A ILUMINAÇÃO PELO ESPÍRITO EM //DE SPIRITU SANCTO// DE SÃO BASÍLIO** * A citação do [[b>Salmo 35,10]] é aplicada por [[primal:basilio:start|São Basílio]] tanto em sentido cristológico quanto pneumatológico. * No Contra Eunômio II, 16, 14-15, o versículo é interpretado em relação ao [[tnpl:filho:start|Filho]]. * No Tratado do Espírito Santo, 18, 47, o mesmo versículo recebe uma interpretação pneumatológica. * Atanásio já havia aplicado o versículo ao Filho, ligando-o a [[b>Hebreus 1:3]] para mostrar que o Pai nunca existiu sem o Filho. * Basílio retoma o raciocínio de [[primal:atanasio:start|Atanásio]] contra Eunômio, que diferenciava a natureza do Pai ingênito da do Filho gerado e posterior. * Afirma-se que o Filho é imagem gerada e resplendor da glória de Deus, não como qualidade, mas como substância viva e atuante. * A glória de Deus resplandece totalmente no Filho, sendo tolice dizer que a glória divina não tem resplendor ou que a sabedoria nem sempre estava com Deus. * Refuta-se Eunômio: o fato de o Filho ter sido gerado não implica que ele não existia; ele sempre é e está com o Pai. * A geração do Filho não significa uma passagem da eternidade ao tempo, pois o ser do Verbo é eterno e seu “estar com o Pai” não é ingênito. * Basílio distingue entre a substância divina e as propriedades distintivas do Ingênito e do Engendrado. * O Pai não pode ser conhecido sem o Filho, pois se conhece Deus, que é luz, na luz do Verbo. * A diferença entre o ingênito e o engendrado não é quantitativa (como entre luz maior e menor), pois isso permitiria que um se tornasse o outro. * A distância entre eles é a irredutibilidade das propriedades características: a divindade é comum, mas a paternidade e a filiação são propriedades. * Como luz e luz, não há contrariedade entre Pai e Filho; como ingênito e engendrado, eles são considerados sob o aspecto da antítese. * A impiedade de Eunômio consiste em transferir para a substância a antítese das propriedades, enquanto na substância divina não há contrariedade. * No Tratado do Espírito Santo, a citação do [[b>Salmo 35,10]] diz respeito à relação entre o Filho e o Espírito, não mais entre Pai e Filho. * A analogia fundamental permanece: a luz é inseparável de seu resplendor, e a contemplação do Pai pelo Filho é inseparável do Espírito no qual o Filho é visto. * A contemplação da beleza da imagem do Deus invisível seria impossível sem a força iluminadora do Espírito Santo. * O Espírito de [[tnpl:conhecimento:start|conhecimento]] é inseparável, dando em si mesmo a força de ver a imagem. * Cita-se: “Ninguém conhece o Pão senão o Filho” e “Ninguém pode dizer: Jesus é Senhor, senão no Espírito Santo”. * Afirma-se que não é dito “pelo Espírito”, mas “no Espírito”, e que “Deus é Espírito, e é necessário adorá-lo no Espírito e na verdade”. * Conclui-se que, no Salmo: “Na tua luz, veremos a luz”, entende-se: na iluminação do Espírito, veremos a verdadeira luz que é o Verbo. **“NA TUA LUZ”** * Basílio estabelece um paralelo entre as expressões “na luz” e “no Espírito” por meio de três citações bíblicas. * [[b>Salmo 35,10]]: “Na tua luz, veremos a luz”. * [[b>1 Coríntios 12:3]]: “Ninguém pode dizer: Jesus é Senhor, senão no Espírito Santo”. * [[b>João 4:24]]: “Deus é Espírito, e é necessário adorá-lo no Espírito e na verdade”. * O Espírito é apresentado como o lugar e o meio da iluminação, da confissão da senhoria de Cristo, da adoração e da manifestação da glória do Monogênito. * A iluminação da alma ou do olhar espiritual pelo Espírito é inseparável da santificação, conforme a analogia do sol. * O Paracleto, como um sol que toma um olho puríssimo, mostra em si mesmo a imagem do invisível. * Na contemplação bem-aventurada da imagem, vê-se a beleza indizível do Arquétipo. * O Espírito brilha nos que se purificaram, tornando-os espirituais pela comunhão com ele. * As almas que portam o Espírito tornam-se espirituais e refletem a graça sobre os outros, como corpos límpidos e transparentes que refletem o brilho de um raio. * A inseparabilidade da contemplação do Pai no Filho e do Filho no Espírito leva logicamente à adoração do próprio Espírito. * Não se pode contemplar a imagem de Deus sem o iluminamento do Espírito. * A divindade do Espírito é indicada pelo fato de ele mostrar em si mesmo a divindade do Senhor, o que não seria possível se ele não fosse Deus. * O Espírito é o “lugar” da verdadeira adoração, conforme a interpretação de Basílio para a teofania do Êxodo e a visão de Jacó. * Cita-se: “Eis um lugar perto de mim; instala-te sobre a rocha”, interpretado como a contemplação no Espírito. * Moisés, ao chegar a esse lugar, pôde ver distintamente Deus aparecer-lhe. * “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no Espírito e na verdade”. * Jacó viu este lugar e exclamou: “O Senhor está neste lugar”. * O Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos, e o santo é um lugar próprio para o Espírito, pois se oferece para habitar com Deus e se chama seu templo. * A confissão da senhoria de Cristo é feita no Espírito, e o mesmo vale para a confissão da paternidade do Pai. * Atesta-se que confessar o Cristo e negar Deus, ou invocar Deus e rejeitar o Filho, ou recusar o Espírito torna a [[tnpl:fe:start|fé]] vazia. * Não se pode crer no Filho sem crer no Espírito, nem no Pai sem crer no Filho. * Ninguém pode dizer “Jesus é Senhor” senão no Espírito Santo, e ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho Unigênito o deu a conhecer. * Quem não adora no Espírito Santo está excluído da verdadeira adoração, pois não se pode adorar o Filho nem invocar o Pai senão no Espírito. **AS DUAS GLÓRIAS** * O possessivo “tua” em “na tua luz” indica, analogicamente, a relação do Espírito com o Cristo, pois o Espírito é o “Espírito de Cristo”. * O Espírito procede de Deus (ek tou theou proelthon), mas não por modo de geração como o Filho, e sim como Soprar da boca de Deus. * A boca não é um membro corporal, e o sopro é uma substância vivente, senhora da santificação. * A maneira de existir do Espírito é indizível, embora sua parentela com Deus seja manifesta. * O Espírito é o único que glorifica dignamente o Senhor, não como a criação, mas como Espírito da verdade e da sabedoria. * Como Paracleto, ele traz em si a marca da bondade do Paracleto que o enviou e manifesta em sua própria dignidade a majestade daquele de quem procede. * O Espírito mostra, faz resplandecer e manifesta em si mesmo a glória do Monogênito e a divindade do Senhor. * Em 26,64 e 18,47, diz-se que o Espírito Santo “mostra em si mesmo” a glória do Monogênito. * Em 18,46, diz-se que o Espírito “faz resplandecer em si mesmo” a verdade, “revela” o Cristo e “manifesta” aquele de quem procede. * O “Paracleto que o enviou” é o Cristo, enquanto “aquele de quem procede” é o Pai. * Há uma glória natural, como a luz é glória do sol, e uma glória que vem de fora, oferecida livremente aos dignos. * A glória natural é aquela pela qual o Espírito glorifica a majestade do Pai e traz em si a marca do Filho, ao qual está intimamente unido por natureza. * A glória que vem de fora pode ser servil (prestada pela criação) ou familiar (prestada pelo Espírito). * O Filho glorificou o Pai e é glorificado por ele, assim como o Paracleto glorifica o Filho. * O Espírito é glorificado por sua comunhão com o Pai e o Filho, correspondendo às duas doxologias litúrgicas (“pelo Filho no Espírito” e “com o Filho e com o Espírito”). **A VISÃO DA LUZ DIVINA NA LUZ DO ESPÍRITO** * O “exercício dos olhos do coração” começa pela iluminação batismal e pelo caminho da ciência de Deus. * O batismo é um batismo no Espírito, que transforma o batizado em filho da luz. * Pelo Espírito Santo vêm o restabelecimento no paraíso, a subida ao reino dos céus, o retorno à adoção filial e a confiança para chamar Deus de Pai. * O Espírito dá a participar da graça de Cristo, a chamar-se filho da luz e a ter parte na glória eterna. * A visão atual é uma visão “em espelho” da luz divina, que se verá face a face na glória. * A metáfora dos “reflexos na água” e a “caverna” platônica são usadas para mostrar a passagem gradual das sombras e tipos do Antigo Testamento à verdade revelada. * O exercício dos olhos do coração é necessário porque o homem carnal, que não exercitou a parte alta de sua alma ([[filo>n:nous|Noûs]]), não consegue erguer os olhos para a luz espiritual. * Esse exercício supõe a purificação da vida e a pureza do coração para aceder à contemplação dos altos mistérios do Espírito. * A “conversão para o Senhor”, que é o Espírito, permite a passagem da letra ao espírito na interpretação das Escrituras. * Aplica-se a [[b>2 Coríntios 3:14-18]] em sentido pneumatológico, identificando o “Senhor” com o Espírito. * Quem se aplica apenas ao sentido literal tem o coração coberto por um véu, como a interpretação judaica da letra. * Com a vinda do Cristo, a Lei e os Profetas calam-se diante da Verdade, como o sol ao aparecer. * Aquele que se converte ao Senhor remove o véu da letra, assim como Moisés tirava o véu quando falava com Deus. * A conversão ao Espírito produz a iluminação do coração pela verdade que vem do Espírito e a transformação de glória em glória pelo Espírito. **“A LUZ”** * A “luz” no De Spiritu Sancto possui tanto um caráter hipostático quanto designa a natureza divina comum às hipóstases. * O Espírito Santo é chamado de “luz inteligível” ([[tnpl:phos:start|phos]] [[tnpl:noeton:start|noeton]]), fonte de santificação. * A luz também é identificada com o Verbo, conforme [[b>João 1:9]], na citação do Salmo 35,10. * A natureza divina é comum às hipóstases, de modo que no Pai e no Filho contempla-se uma única forma divina. * O termo “forma” (morphe), tomado de [[b>Filipenses 2:6]], caracteriza a propriedade da substância divina. * No De Spiritu Sancto, Basílio reserva o termo “propriedade” (idiotes) para as propriedades das pessoas, distinguindo-as da natureza comum. * Adorar o Pai e o Filho é adorar um só Deus, pois neles não há diferença na deidade. * O Filho está no Pai e o Pai no Filho, sendo um como o outro e os dois um só quanto à natureza comum. * Segundo a propriedade das pessoas, Pai e Filho são um e um; segundo a natureza comum, os dois são um. * Contempla-se uma única forma figurando, por assim dizer, o indiferenciado da deidade que é comum às pessoas divinas. * No [[b>Salmo 35,10]], o que se contempla é a luz que é o Verbo e, nela, a luz do Pai, sem que haja separação ou confusão.