===== 4 Marcion ===== //Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)// **4 “Desfazer as obras femininas”: Marcion, Taciano e os encratitas** 1. A questão que preocupou muitos grupos cristãos do século II era saber o que o Senhor trouxera de inédito ao descer à Terra, pois a resposta era que um só feito poderoso bastara a Deus — trazer liberdade ao ser humano —, e foi a propósito de como isso aconteceu e de como era possível ver que tinha acontecido em sua própria comunidade que muitos mestres e discípulos chegaram a conclusões espantosamente radicais. 2. Acreditava-se que a vinda de Cristo havia posto fim aos tempos atuais, pois o dever de cada cristão era deixar clara Sua vitória e apressar a queda do poder dos governantes dos tempos atuais, que eram produto de uma tirania demoníaca a que os seres humanos e o universo tinham ficado assujeitados. 3. A vitória de Cristo sobre a morte acarretara assombrosa inversão do fluxo esmagador dos processos negativos irreversíveis que tornavam a tirania dos demônios aparentemente irresistível na terra, pois o problema era onde situar exatamente o sinal visível externo da imensa mutação interna que trouxera a liberdade para uma humanidade aprisionada entre as tenazes de gigantescas forças do mal. 4. Tertuliano formulou a pergunta aos radicais com sua costumeira clareza brutal, pois indagava como simples seres humanos, homens e mulheres ainda sujeitos aos médicos e às dívidas, ousavam afirmar que tinham conquistado a nova liberdade que se lhes tornara acessível com a vinda de Cristo, perguntando como era possível pensar-se livre do Governante destes Tempos quando até mesmo as moscas ainda fervilhavam sobre eles. 5. Havia um processo potencialmente reversível compartilhado por todos os seres humanos, pois a sexualidade se baseava num impulso amplamente citado como irresistível — um eufemismo grego corrente para pênis era A Necessidade — e era a causa conhecida do único processo irrefutavelmente unidirecional para o qual os seres humanos contribuíam espontaneamente, a procriação. 6. Sem a colaboração humana, pelo menos essa camada do sombrio desmoronamento dos tempos atuais não prosseguiria, pois, se a atividade sexual cessasse entre os seres humanos, deter-se-ia a turbulenta cascata da raça humana que ia da copulação à sepultura, passando pelo nascimento, e o Jordão correria para trás. 7. Sabia-se que desistir da união sexual era humanamente possível, pois, dada a maneira como se formulou a liberdade dos tempos atuais em termos da detenção dos processos unidirecionais, sustar a atividade sexual pôde ser encarado como um gesto simbolicamente assombroso. 8. Essa foi a resposta perfeita para a pergunta de Tertuliano, pois, talvez os tempos atuais fossem uma máquina imensa demais para ser vista, mas pelo menos uma parte dessa corrente podia ser simbolicamente condensada no anseio sexual e em suas consequências manifestas, o ciclo infinitamente repetido de nascimento e morte. 9. Num mundo aparentemente regido por férreas coerções, o corpo humano podia se destacar como locus claramente marcado de livre opção, pois renunciar às relações sexuais era inverter a posição de um interruptor colocado no ser humano, e, invertendo-se a posição desse exato interruptor, julgava-se possível cortar a corrente que mantinha o sinistro perpétuum mobile da vida nos tempos atuais. 10. A partir do século II, e quase certamente desde um período anterior menos bem documentado, pequenos grupos de homens e mulheres espalhados pelas comunidades cristãs empenharam-se em tornar quase audível, mediante sua solteirice e seu isolamento deliberado do matrimônio, o vasto sussurro do fim iminente dos tempos, pois afirmavam que era por essa razão que Cristo viera à terra, para nos libertar do erro e desse uso dos órgãos reprodutores. 11. Quando Salomé perguntou ao Senhor por quanto tempo a morte haveria de imperar, Ele respondeu enquanto vós, mulheres, gerardes filhos, pois afirmam que o próprio Salvador disse que vim desfazer as obras femininas, referindo-se com esse femininas ao desejo sexual, e com obras ao nascimento e à corrupção da morte. 12. Até o século II, os cristãos, tal como outras pessoas da antiguidade, pagãs e judias, haviam-se inclinado a encarar a realidade da morte como o marco privilegiado que servia de parâmetro da extensão da fragilidade humana, pois, em contraste, a vulnerabilidade do ser humano aos anseios sexuais continuara a ser objeto de um interesse relativamente provinciano, sem parecer oferecer ponto de observação desde onde se pudesse esquadrinhar o que era realmente universal na condição humana. 13. O discurso sobre os perigos sexuais sempre se referia a grupos e ocasiões particulares, pois considerava-se que o desejo sexual afetava mais os jovens fogosos do que os velhos, e, quando os homens se preocupavam com ele, tendiam a vê-lo em termos do perigo que para eles representava a perpétua sedução das mulheres, enquanto a morte recaía sobre todos como lembrete inescapável da mais universal, íntima e persistente fraqueza da humanidade. 14. Por serem tão estreitamente associadas ao anseio de suplantar a morte através da geração de filhos, as relações sexuais sempre haviam trazido em si um toque de tristeza, pois, para muitos gregos e romanos, sua própria necessidade de se deitar com mulheres para conseguir prole era lúgubre lembrete da transitoriedade e da sepultura. 15. A nova maneira de pensar que emergiu nos círculos cristãos no curso do século II deslocou da morte para a sexualidade o centro de gravidade das reflexões sobre a natureza da fragilidade humana, pois o desejo sexual deixou de ser apresentado como remédio benigno para a morte, e alguns pensadores cristãos apresentaram-no como a causa primária da morte, enquanto outros, menos drásticos, viram-no como a manifestação original e mais patente da perda, por parte de Adão e Eva, da imortalidade conferida pela posse do Espírito Santo. 16. A sexualidade foi-se introduzindo gradativamente no centro da atenção de todos como sintoma privilegiado da queda da humanidade na servidão, pois, consequentemente, a renúncia às relações sexuais passou a ficar ligada, num nível simbólico profundo, ao restabelecimento de uma liberdade humana perdida, à recuperação do Espírito Santo e à capacidade humana de desfazer o poder da morte. 17. É importante frisar a grande diversidade dos grupos radicais que haviam emergido no correr do século II, pois tampouco se deve tratá-los como inovações que pouco devessem ao espírito original do cristianismo, visto que muitos cristãos já aceitavam sem questionamento alguns hábitos de rigorosa abstinência sexual e vinham desde longa data praticando rituais de iniciação batismal que vinculavam o começo da verdadeira vida cristã à renúncia perpétua à atividade sexual. 18. Até mesmo por trás das afirmações mais extremadas de muitos dos líderes dos séculos II e III podemos sentir, em geral, o assentimento mudo de igrejas inteiras e até de regiões cristãs inteiras, pois as carreiras de Marcion e Taciano ilustram a tenacidade dos vínculos entre figuras inicialmente havidas como professores isolados em Roma e seu eleitorado espiritual em distantes regiões do Império. 19. Marcion era filho de um bispo de Ponto, chegou a Roma em 140 e pôde afirmar que era o autêntico expoente da mensagem de Paulo ao mundo gentio, pois a atitude que esperava que seus seguidores adotassem perante o Deus Criador — uma atitude de sombria não-cooperação com todos os objetivos do Criador — foi uma reprodução emocional da atitude de grupos cristãos anteriores perante os tempos atuais. 20. Por volta do ano de 80, os cristãos de Antioquia compilaram o Evangelho de S. Lucas, que continha algumas das afirmações mais intransigentes de Jesus sobre o papel de seus discípulos nos tempos atuais, pois, nessas afirmações, foram os pobres tout court — os sem lar, os desarraigados, os oprimidos — que receberam o nome de abençoados, e as Bem-aventuranças do Sermão da Montanha funcionaram como carta régia para os seguidores itinerantes de Jesus. 21. As Bem-aventuranças foram lidas por Marcion e seus seguidores como havendo afirmado que os discípulos que não se casassem nem fossem dados em casamento já poderiam tornar-se iguais aos anjos e já haviam alcançado o mundo mais além e a ressurreição, pois esse estado das opiniões entre muitas igrejas locais explica por que os marcionitas puderam afirmar-se representantes do verdadeiro cristianismo em muitas partes da Síria. 22. Embora o rompimento de Taciano com a Igreja de Roma em 172 tenha sido lembrado por muito tempo no Mediterrâneo greco-romano, ele voltou a se fundir imperceptivelmente num cristianismo sírio que talvez sempre tivesse sido tão radical quanto ele, pois sua principal realização foi a composição de um Evangelho único, em grego e siríaco, que harmonizou os quatro Evangelhos — seu Diatessaron —, aceito sem questionamento no mundo sírio, onde ainda no século V pelo menos duzentas cópias continuavam a circular numa única diocese. 23. De modo geral, as concepções e atitudes apresentadas na polêmica literatura que chegou até nós com a aparência de terem sido obra de inovadores marcantemente idiossincráticos circularam por muitas igrejas da Palestina, Síria e algumas áreas da Ásia Menor como nada além de um punhado de variações de um sólido consenso radical, pois, do mesmo modo que as campanhas de evangelização varreram em intervalos regulares as regiões Queimadas do Estado de Nova York no século XIX, deve-se imaginar que as comunidades cristãs do interior do Mediterrâneo oriental partilharam, ao longo dos séculos II e III, de uma tendência comum da militância cristã a encontrar sua expressão mais clara na renúncia à vida conjugal. 24. Estamos abordando um mundo muito diferente do de Policarpo em Esmirna, de Hermas em Roma, de Irineu em Lyon e de Tertuliano em Cartago, pois as enormes cidades flagrantemente pagãs do Mediterrâneo estavam menos em evidência, e, a uma distância maior do Mediterrâneo, a leste de Antioquia, a perseguição era questão relativamente insignificante para os cristãos, já que o martírio nas mãos das autoridades imperiais só se tornou realidade depois de 300 d.C. 25. Em vez disso, os cristãos sírios viviam às portas dos judeus, como parentes pobres que não se falavam, pois a mobilidade das fases iniciais do Movimento de Jesus na Palestina prosseguia nesse cristianismo oriental, e, numa paisagem de vilarejos e cidades menores e menos coesas, a ideia de que a posse do Espírito Santo acarretaria um rompimento dramático com toda a identidade social do fiel brilhava tentadoramente no centro da imaginação cristã, de um modo que teria chocado o rígido Tertuliano. 26. Embora possam ter-se difundido num cenário comum e imposto seus significados próprios a uma sensibilidade religiosa comum, os ensinamentos de Marcion e Taciano diferiam enormemente, pois ambos exigiam dos cristãos batizados a total abstinência sexual, mas o sentido dessa abstinência não era o mesmo em cada um dos grupos. 27. Para Marcion, os tempos atuais eram o mundo visível, inteiramente submetido ao domínio de um Deus Criador para quem o verdadeiro Deus do amor era desconhecido, pois um abismo separava o mundo presente do mundo celestial de onde Cristo viera salvar a humanidade, e o universo presente fora produzido por uma potência formadora muito distante da radiosa tranquilidade do Deus supremo. 28. A vida humana se passava à sombra de uma força opressiva e indigna de confiança, que mantinha e norteava o mundo material, pois, ao contrário de muitos contemporâneos igualmente soturnos, Marcion conferiu a esse rígido dualismo entre o espírito e a matéria uma dimensão social acentuada, sendo o Deus Criador o Deus da Lei judaica, cujo poder sinistro se demonstrava menos na tensão entre o corpo e o espírito do que nos terríveis constrangimentos da sociedade convencional. 29. Ele impusera à raça humana regras obtusas e compartimentalizações estreitas, que isolavam os seres humanos entre si, pois a humanidade como um todo, e não apenas os judeus, vivia sob a Lei, e fora para soltar esses pesados grilhões que Cristo havia aparecido repentinamente, como um perfeito estranho, num mundo estreito e obsoleto. 30. Sua pessoa irradiara uma abertura nova e perturbadora, pois, enquanto o Criador havia ordenado aos homens evitar os leprosos, Cristo os tocara, e, enquanto o Criador decretara que as mulheres menstruadas eram fonte de impureza, Cristo deixara que as mulheres com sangramento impusessem nele suas mãos, de modo que a bondade básica e mais absoluta de Cristo é que tal bondade possa derramar-se sobre completos estranhos, sobre aqueles com quem não temos nenhuma dúvida de parentesco, como um ato livre da vontade. 31. A mensagem cristã era não familiar, em ambos os sentidos da expressão, pois era uma mensagem de que não podiam ter nenhuma ideia aqueles que se achavam aprisionados nos confins estreitos da família, e somente tornando homens e mulheres totalmente estranhos uns aos outros, exigindo que renunciassem aos casamentos que antes os mantinham unidos e até desatando os laços que uniam os filhos a seus pais, é que os verdadeiros cristãos poderiam unir-se numa comunhão livremente escolhida, não determinada por laços familiares, partidarismos e hábitos preexistentes. 32. Essa foi uma mensagem singularmente inquietante para as igrejas cristãs médias, pois, até meados do século II, as comunidades cristãs haviam tendido a se expandir hesitantemente, à maneira da maioria dos grupos religiosos do mundo antigo, e os laços familiares, os casamentos e a fidelidade aos chefes de família tinham sido o meio mais eficaz de recrutar os membros da igreja e haviam mantido a adesão constante do cristão médio ao novo culto. 33. Em muitas regiões, a liderança da igreja tinha estado nas mãos de dinastias inteiras de Fiéis Antigos, pois, na década de 190, o bispo Polícrates de Éfeso afirmou que sete de seus parentes já tinham sido bispos da cidade, e abandonar o matrimônio equivalia a promover a erosão do núcleo da igreja baseado na família, de modo que um grupo que definisse a comunidade cristã como conjunto de celibatários batizados teria que se comprometer com formas diferentes de liderança, ligadas a uma estratégia missionária agressiva muito incomum no mundo antigo. 34. Em vez de se expandir lentamente, formando-se a partir de um núcleo de sólidas famílias de Cristãos Velhos, as igrejas marcionitas arrancavam deliberadamente o indivíduo das estruturas familiares da sociedade, pois Tertuliano advertiu seus leitores de que a visão que Marcion professava sobre a vinda de Cristo ao mundo para arrebatar os Seus da regra aceita do Deus Criador ameaçava arrebatar os filhos dos pais, os alunos dos mestres e os escravos dos senhores. 35. Por menores que possam ter sido esses grupos, eles se espalharam com uma rapidez incomum, pois as igrejas marcionitas competiam em igualdade de condições com as demais comunidades cristãs da Ásia Menor e da Síria, e, fora das fronteiras romanas, no Iraque e nos contrafortes do Irã, os marcionitas monopolizaram com sucesso o termo cristão até o fim do século VI. 36. As preocupações de Taciano levam-nos para um mundo de ponderações diferente, pois Marcion perscrutara a sociedade desde uma perspectiva horizontal, em que abandonar o Deus Criador era sair dos confins estreitos de uma sociedade baseada na família para a abertura inesperada de uma igreja missionária e celibatária, enquanto Taciano enfatizou a dimensão vertical do ser humano, tendo a união do ser humano existente e insuficiente com o Espírito Santo como centro de gravidade de seu pensamento. 37. Sua insistência na abstinência sexual decorreu dessa preocupação preponderante, pois o homem dos tempos atuais era um tronco acéfalo, e, desde que Adão se separara de Deus no Paraíso, faltava uma camada da alma que tornava a pessoa verdadeiramente humana. 38. O homem não é, como dizem os filósofos agourentos, meramente um animal racional, pois apenas o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, mas o que se quer dizer com homem não é aquele que pratica ações semelhantes às dos animais, e sim aquele que avançou além dessa mera humanidade até o próprio Deus, e o Espírito Santo não está com todos, mas faz sua morada naqueles que amam a retidão, combinando-se intimamente com a alma daqueles que se ligaram a tal Espírito cognato. 39. A alma humana em si não era nada, pois existia para desposar o Espírito Santo, e as almas que não se apegavam ao Espírito Santo eram forçadas a voltar a um estado igualmente íntimo e englobante de possessão pelos espíritos do mal, de modo que os seres humanos não batizados viviam nas garras de dez mil tiranos. 40. A inundação da pessoa pelo Espírito Santo, baseada numa união tão permanente e intensa quanto a mescla inextricável de duas vidas que era admirada pelos autores pagãos contemporâneos no casamento humano ideal, formava a essência da vida do cristão, pois esse casamento com o Espírito Santo diferia da poderosa inspiração que raramente recaía sobre os profetas isolados, sendo antes um estado benigno de possessão permanente adquirido pelo cristão no momento do batismo. 41. Esse estado incluía uma noção da obra do Espírito Santo nas profundezas da alma do fiel batizado, que tinha sua expressão mais apropriada no êxtase comedido do canto e da poesia, pois o que Cristo trouxera ao mundo era a possibilidade do casamento com Seu Espírito, e, como o braço do esposo sobre a esposa, assim é o jugo sobre aqueles que Me conhecem. 42. O Espírito Santo era uma fonte nutriente infalível, pois, em siríaco, a palavra correspondente a Espírito era feminina, e o Espírito Santo era a mãe da alma, que moldara os membros e preparara os seios para que bebessem do leite sagrado e dele vivessem. 43. No pensamento de Taciano, as imagens do vínculo conjugal e da alimentação eram tão poderosas que impediam a possibilidade da união sexual no casamento corriqueiro, pois uma realidade interna tão imensa não admitia rivais. 44. No Diatessaron, Taciano reinterpretou sutilmente a passagem do Gênesis a que Cristo havia recorrido como fundamento de sua exigência do casamento monogâmico, pois, para ele, tendo Adão decidido voluntariamente abandonar seu Pai e sua Mãe, Deus e o Espírito Santo, ficou sujeito à morte e foi forçado a se apegar a uma mulher através da relação sexual física, mediante o casamento com Eva. 45. Para recuperar o Espírito Divino que um dia elevara Adão acima da morte e, portanto, acima da necessidade do casamento, os seres humanos deveriam abandonar o coito conjugal, pois este era o mais claro sintoma da fragilidade de Adão e o obstáculo mais decisivo à habitação pelo Espírito Santo. 46. Os contemporâneos atribuíram às concepções de Taciano, bem como dos inúmeros grupos mais ou menos associados a ele, o termo genérico encratita — de enkrateia, continência —, pois os encratitas declaravam que a igreja cristã deveria consistir em homens e mulheres continentes no sentido estrito, que teriam contido o anseio de manter relações sexuais entre si. 47. A essa continência básica os encratitas acrescentavam restrições dietéticas, abstenção de carne e da ingestão de vinho, pois essas abstenções estavam intimamente ligadas ao ato constitutivo da renúncia sexual, visto que se considerava que a ingestão de carne vinculava os seres humanos à natureza selvagem e carnívora dos animais, assim como o coito os ligava à natureza sexual das feras não domesticadas, e o vinho era fonte conhecida de energia sexual. 48. Pouca diferença fazia se os fiéis batizados permaneciam virgens desde o nascimento ou se resolviam abster-se do coito depois de já casados, pois o importante era que o domínio dos demônios sobre o ser humano fosse substituído, no batismo, pelo alimento exclusivo e íntimo do Espírito Santo, que a partir de então não admitiria outra união sexual. 49. Os encratitas expuseram sua concepção da causa da servidão universal da humanidade através da exegese da história da Queda de Adão e Eva, tal como narrada nos capítulos iniciais do Livro de Gênesis, pois, obcecado como ficara com a vitória de Cristo sobre a morte na Ressurreição, Paulo já havia despertado o mito de Adão de sua letargia, e a partir do século II esse mito estava realmente destinado a ficar bem desperto. 50. Para Taciano e seus seguidores, Adão e Eva representavam a humanidade tal como originalmente criada por Deus, pois tinham sido seres santificados no sentido estrito, possuidores do Espírito Divino e destinados a viver eternamente, e a anomalia básica da existência humana — pela qual os seres humanos, embora um dia dotados do Espírito Santo, morriam agora como as bestas não-humanas — havia começado quando Adão e Eva abandonaram seu casamento com o Espírito Divino e se viram forçados, através da mortalidade, a manter relações entre si de um modo que Deus não pretendera para eles. 51. Mediante esse ato, eles excluíram ainda mais o Espírito Santo e turvaram a fronteira clara que mantinha o ser humano numa categoria distinta da dos animais, pois houve até discípulos radicais de Taciano que atribuíram a perda original do Espírito Santo por Adão e Eva diretamente a um ato sexual, afirmando que Eva tinha deparado com a serpente, que representava o mundo animal, e que esta lhe ensinara a fazer o que os animais faziam — ter relações sexuais. 52. Assim unidos ao reino animal por se haverem sexualizado, Adão e Eva descobriram-se numa rampa escorregadia que desceu, através da sexualidade, até o reino animal, e daí até a sepultura, pois o homem não dura na opulência, torna-se comparável aos animais que não refletem e a eles se torna semelhante, e o que sucede aos filhos do homem sucede também aos animais: tal como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo sopro, e o homem não tem predomínio algum sobre o animal. 53. Em qualquer das concepções, a perda do predomínio do homem sobre os animais era demonstrada com brutal clareza pelo fato de que os seres humanos, tornando-se mortais, haviam passado a compartilhar com o mundo animal as realidades do sexo, pois era uma visão lúgubre em que a antiga continuidade entre o homem e o mundo natural foi rompida e, com ela, também o foi a suposição de que a sociedade humana brotava organicamente dos impulsos naturais. 54. Pela união sexual, Adão e Eva não fundaram e fizeram continuar a sociedade, caíram numa sociedade falsa, pois a sociedade humana, tal como então constituída e sustentada através do casamento, não se desenvolvera naturalmente, era, ao contrário, uma sociedade criada por um contrato social tácito, e, para mantê-la, os seres humanos haviam renunciado e teriam que continuar a abrir mão das qualidades originais inalienáveis que originalmente os haviam distinguido dos animais como seres imortalizados pela presença do Espírito Santo. 55. Por continuarem a contribuir para uma sociedade construída através de arranjos matrimoniais associados às relações sexuais físicas, os seres humanos se condenavam a compartilhar do outro aspecto da vida dos animais — eram criaturas mortais, intocadas pelo Divino Espírito vivificador —, pois dar início ao sexo mediante o ingresso no casamento era, portanto, contribuir diretamente para o ciclo da mortalidade, e o casamento seguiu-se à mulher, e a reprodução seguiu-se ao casamento, e a morte seguiu-se à reprodução. 56. Essa era uma visão destinada a arrasar com o panorama social do mundo romano, pois a sociedade que os contemporâneos mais otimistas gostavam de retratar como desabrochando, geração após geração, através do impulso natural de procriação dos homens e mulheres jovens, passou a ser apresentada como deslizando irrevogavelmente para a sepultura: o mundo é criado, as cidades são adornadas, e os mortos continuam a ser transportados para fora. 57. De um só golpe, a sexualidade foi desvinculada da sociedade, pois as sociedades pagãs e judaicas haviam partilhado de uma vigorosa confiança na capacidade do homem de socializar os impulsos físicos que homens e mulheres tinham em comum com o mundo animal, acreditando que a sexualidade podia ser absorvida pelo círculo encantado da sociedade. 58. Fosse qual fosse a angústia que os sentimentos sexuais desordenados pudessem causar aos devotos, essa angústia era contida pela certeza da existência de um sexo bom, isto é, de um sexo socialmente útil: só aos aspectos anti-sociais da sexualidade é que era preciso renunciar, pois os encratitas descartaram esse otimismo como uma compartimentalização seletiva e arbitrária, sustentando que o sexo era o sexo, onde, quando, como e com quem quer que acontecesse, e que qualquer que fosse sua forma, lícita ou ilícita, ele deixava clara a separação atual entre a humanidade e o Espírito Santo. 59. Os exegetas judeus haviam sugerido que Adão e Eva tinham-se deixado penetrar pela serpente, no intuito de explicar, através desse mito, o que lhes parecia constituir variações peculiarmente bizarras e aberrantes do comportamento sexual, tais como a bestialidade e a sodomia, pois a exegese encratita apresentava a sexualidade em si como o sinal permanente de um parentesco antinatural com o mundo animal, imposto a Adão e Eva pelo parentesco. 60. A sexualidade era um afloramento inalterado do estranho mundo selvagem em que os primeiros casais se transformaram, e cada um relinchava à mulher do próximo, pois a denúncia do adultério por Jeremias na antiga Israel foi lida pelos autores encratitas como referida a qualquer tipo de relação sexual conjugal. 61. O complexo sistema de sexualidade disciplinada que as comunidades cristãs haviam herdado do judaísmo, e em cuja observância tinham fundamentado seu direito à admiração no mundo pagão, tornou-se irrelevante, pois a sexualidade não existia para ser disciplinadamente utilizada: existia apenas para que se renunciasse a ela. 62. Não obstante, é possível captar nessa terrível sinfonia um refrão agudo de alegria e liberdade, pois foi esse o refrão que os adeptos do movimento encratita parecem ter escutado, e é importante fazer o mesmo. 63. As relações sexuais e o contágio assustador da sepultura resumiam a fragilidade humana, mas as relações sexuais podiam ser detidas, o que não acontecia com a morte, pois o sinistro contínuo que ligava a raça humana ao reino animal e à sepultura fora composto, um dia, por uma série de escolhas livres, e o passo fatal de Adão e Eva podia ser desfeito pelo livre-arbítrio. 64. Estava ao alcance de cada pessoa recuperar a santidade original imperturbável que a posse do Espírito Santo conferira a Adão e Eva, pois está ordenado que cada um corrigirá sua própria queda. 65. Os homens e mulheres jovens podiam optar por permanecer virgens, pois, atravessando a puberdade sem relações sexuais, poderiam superar as tentações sexuais a que Adão e Eva tinham finalmente sucumbido, e as jovens casadas podiam iniciar nada menos do que um boicote do ventre, negando o corpo às relações sexuais e assim ludibriando a conquista de novas presas pela morte. 66. Marido e mulher podiam recusar-se ao leito conjugal depois do batismo, pois, assim fazendo, recuperariam um estado de santidade, termo que se tornou praticamente sinônimo de continência na igreja siríaca quando se fazia referência aos casais continentes. 67. Além disso, o batismo era apresentado como um rito de dessexualização efetiva, pois os iniciados entravam nus na lagoa batismal, julgando-se que tinham despido as vestes sexualizadas de seu antigo corpo e postando-se junto à lagoa como crianças pequenas. 68. As crianças eram consideradas intocadas pelo opróbrio sexual adulto e, desse modo, pela necessidade adulta de vestimentas, pois ainda não tinham sido plenamente recrutadas pelas estruturas da sociedade adulta, não estando sujeitas, portanto, à obrigação adulta de contrair matrimônio, e a água fria anulava o fogo ardente que lhes dera origem. 69. Sobre essa água descia o Espírito Santo, envolvendo a pessoa num manto de glória, com a mesma sutileza com que a envolviam os filetes translúcidos de líquido que recobriam o corpo nu quando este se elevava das águas, pois a abstinência de carne e vinho singularizava ainda mais os membros do grupo batizado como pessoas inequivocamente santas, e qualquer um que se confrontasse com tal grupo sabia com certeza o que ele representava. 70. Encontrando-se num templo pagão da distante Clésifon, por volta de 214, o pai de Mani ouviu um misterioso brado — Oh, Futtuq, não comais carne! Não bebais vinho! Não desposeis seres humanos! —, pois muitas vezes foi dessa forma que os habitantes do Oriente Próximo e de outros lugares travaram seu primeiro contato com o cristianismo. 71. Os lendários Atos de S. Judas Tomás permitem-nos penetrar no mundo imaginativo do cristianismo encratita na Síria, pois foram escritos em siríaco, em Edessa, aproximadamente em 220, e os problemas que preocuparam Hermas, Irineu e Tertuliano nas cidades do Ocidente romano parecem muito distantes desse relato notável do impacto de um ideal missionário da tradição encratita sobre a sociedade ao redor. 72. Somos levados a observar os tempos atuais através dos olhos silenciosos de Cristo, pois esse Cristo havia descido ao abismo de um mundo dominado por poderes demoníacos, e Tomás era o Gêmeo de Cristo, dando prosseguimento à missão de Cristo na terra como militante ideal da tradição síria. 73. Tomás deslocou-se como um estrangeiro contestador numa sociedade que tinha de ser revirada de alto a baixo para finalmente ficar na posição certa, pois penetrou no quarto de dormir para deter em sua fonte a ruína trazida pela sexualidade, e em nenhum outro texto lendário dos Atos depara-se de forma tão vívida com o clássico cenário asceta da renúncia sexual na noite de núpcias. 74. O Senhor, parecendo-se com Tomás, sentou-se no leito e deixou que os jovens se sentassem nas cadeiras, pois assim eles foram preservados da imunda concupiscência e passaram a noite em seus lugares separados. 75. As mulheres já casadas foram exortadas a rejeitar seus maridos, pois o Príncipe Karish se aproximou e se postou diante dela, despindo suas vestimentas, e ela o percebeu e lhe disse que não havia lugar para ele a seu lado, porque seu Senhor Jesus Cristo, a quem estava unida, era melhor do que ele. 76. Karish terminou a noite amarrado por sua esposa inflexível, Migdônia, que fugiu dele envolta apenas no véu que estava atirado sobre o leito conjugal, pois em sua humilhação no quarto via-se desmoronar o orgulho arrogante dos tempos atuais, quando ele se apresentava como Karish, o marido de sua juventude e seu verdadeiro marido, a quem todo o país honrava e temia. 77. Daí a importância perene da visão da sexualidade apresentada nos Atos de S. Judas Tomás, pois o coito conjugal foi tratado como o esteio fundamental da imponente estrutura dos tempos atuais, e quebrar o encanto do leito matrimonial era quebrar o encanto do mundo. 78. Aquele era um mundo cujas estruturas sociais estavam condenadas, pois se estava examinando não apenas uma sexualidade, mas também uma sociedade cujos valores estavam de pernas para o ar — uma sociedade em que os pobres passavam fome no inverno enquanto os reis projetavam palácios imensos, em que os criados carregavam as grandes damas em palanquins majestosos, pisoteando seus semelhantes para abrir caminho para suas patroas. 79. Era uma sociedade sem notícia de um paraíso em que tudo pudesse ser reposto em seu devido lugar para aqueles que abandonassem a riqueza e a família nesta vida e que empatassem o dinheiro geralmente acumulado para fins exibicionistas no cuidado com os pobres anônimos, pois o paraíso de Tomás era um lugar onde não mais haveria alguém que fosse presunçoso e se erguesse acima dos humildes. 80. Tomás foi apresentado como apregoando, ante um mundo sem compreensão, uma nova doutrina de pureza, para que o homem não possa viver a menos que se separe de tudo o que lhe pertence, e se torne um asceta e um mendigo errante à semelhança dele, e eis que desejará conseguir companheiros. 81. Na tradição encratita, o fim dos tempos atuais seria desencadeado pelo boicote do ventre, pois o boicote do ventre era crucial porque a sexualidade era apresentada menos como um impulso do que como símbolo de processos inelutáveis, como o símbolo mais claro da servidão humana. 82. A exortação de Tomás foi para que as mulheres rejeitassem seus maridos, e não mais apenas para que os homens resistissem à sedução feminina, pois isso marcou um deslocamento significativo da ênfase, já que as demais tradições cristãs haviam-se contentado em encarar a sexualidade apenas tal como podia ser vivenciada pelos homens, tratando-se de um impulso perigoso e oculto, frequentemente despertado no homem pela mulher. 83. Ao chamar a atenção para a fragilidade generalizada da raça humana como um todo, os encratitas introduziram um toque mais acerbo e abafado em todas as futuras representações cristãs da sexualidade, pois há uma espécie de visão binocular, uma tentativa de unir as percepções masculina e feminina do que podia significar a sexualidade no ciclo vital completo dos membros de cada um dos sexos, vibrando por trás da retórica solene dos Atos de S. Judas Tomás. 84. Nunca nos afastamos de uma sensação de vulnerabilidade da humanidade inteira à catástrofe da vida social, tal como convencionalmente organizada nos tempos atuais, pois era uma catástrofe que se revelava da maneira mais clara na enorme pressão com que a sociedade oprimia o corpo das mulheres casadas. 85. Em termos concretos, o casamento e o parto foram apresentados como obrigando as famílias a darem continuidade à soberba e à violência, pois as aldeias referiam-se ao casal, sem nenhum alvoroço, como Os Santificados, e esse incidente é um lembrete de que a renúncia sexual, tal como praticada numa dada região, podia ter um aspecto muito diferente para os cristãos de outra parte do mundo romano. 86. O celibato dos encratitas era um celibato de grupo, e não um celibato que favorecesse reclusos isolados, pois o indivíduo adquiria um sentimento de segurança, que o sustentava em sua renúncia, através do sentimento de pertença a um grupo santificado claramente definido. 87. Entre as comunidades encratitas e as igrejas dos marcionitas, havia uma tendência embutida no próprio panorama do Oriente Próximo a se estabelecerem em aldeias sectárias estreitamente unidas, pois é possível que essas aldeias se assemelhassem às famílias Shaker da América do século XIX, sobrevivendo por períodos muito longos, atraindo convertidos e funcionando como substitutos dos asilos entre os camponeses da vizinhança, florescendo nas regiões montanhosas da Síria e da Ásia Menor, onde a população sempre ultrapassava os magros recursos locais e onde havia muitas crianças a serem acolhidas. 88. Mas essa não foi a única solução adotada pelos continentes, pois, ao final do século III, pequenos grupos de homens e mulheres abstinentes — Os Filhos e Filhas do Pacto — eram encontrados no cerne das comunidades cristãs casadas das regiões de língua siríaca do Oriente Próximo, não se tratando de povoações de ascetas extremados, mas de agregados de uma serena confiança em que o Espírito Santo habitava aqueles que haviam recuperado, através do batismo e da continência, a humanidade plena de Adão e Eva. 89. Sua presença inundava a comunidade cristã como um todo com o sentimento de ser um grupo que se destacava por uma santidade inviolável, pois, acotovelados nas igrejinhas da Síria e do norte do Iraque, eles ficavam como os animais na arca de Noé, com seus anseios sexuais maravilhosamente aquietados pela presença de Deus, e o Espírito Santo transbordava neles no cântico dos Salmos e nos hinos tranquilos que são a glória da igreja siríaca. 90. Desunidos no corpo, os mancebos e as jovens eram verdadeiramente unidos pela harmonia etérea de suas vozes, dulcificada pela ausência de atividade sexual, que os antigos sabiam afetar negativamente a voz, nos cânticos espirituais que davam densidade e calor humano às doutrinas austeras, pois fora da Arca bramiam ondas temíveis, mas dentro havia vozes encantadoras; todas aos pares, as línguas juntas se enunciavam castamente, prenunciando o dia de festejos em que, solteiros, as donzelas e mancebos cantam juntos, na inocência, louvores ao Senhor da Arca. 91. Devemos agora voltar a Roma e Alexandria, a Valentino e aos outros mestres gnósticos do século II, para examinar mais um modo significativamente diferente pelo qual, nos diversos círculos cristãos, considerou-se que a cessação da atividade sexual assinalava a redenção dos tempos atuais. {{tag>Brown corpo Marcion}}