===== BRIANTCHANINOV IGREJA DO ORIENTE ===== Ignacio Briantchaninov — Introdução à tradição ascética da Igreja do Oriente (Les miettes du festin, Editions Présence, 1978) Aquele que deseja se consagrar a Prece de Jesus (Kyrie [[tnpl:Eleison:]]) sem cometer erros deve se controlar a si mesmo, assim como a maneira de agir ([[tnpl:praxis:]]) com a prática ([[tnpl:praktike:]]), por uma leitura assídua dos seguintes escritos patrísticos : as Centúrias sobre a sobriedade ([[tnpl:hesychia:]]) e a virtude ([[tnpl:arete:]]) de Hesíquio, Padre em Jerusalém; os Capítulos sobre a sobriedade ([[tnpl:hesychia:]]) e a vigilância de S. Filoteu o Sinaita; as Instruções dobre a atividade oculta no Cristo de S. Teoleptos, metropolita de Filadélfia; os escritos de S. Simeão o Novo Teólogo e de S. Gregório do Sinai; o Tratado da vigilância ([[tnpl:nepsis:]]) e da guarda do coração de Nicéforo o Solitário; as obras dos santos Callisto e Ignácio Xanthopoulos; a Tradição de S. Nilo da Sora; a Antologia do hieronimo Doroteo, etc. Na Filocalia no Tratado sobre os três modos de oração de S. Simeão o novo Teólogo, no Tratado de Nicéforo o Solitário e nos escritos dos santos Ignácio e Callisto Xanthopoulos, o leitor encontra um ensinamento sobre a Arte de introduzir o espírito no coração por meio da respiração natural, ou seja, a técnica que ajuda a alcançar a oração mental ([[tnpl:euche:]]). Não se atenha tanto as instruções, forçando sua natureza, mas entenda que o essencial e que o espírito se uma ao coração durante a oração, mas é a graça ([[tnpl:kharis:]]) de Deus que realiza isto, a seu tempo. Outra maneira de fazer a oração ([[tnpl:euche:]]), equivalente à técnica mencionada consiste em pronunciar a prece sem pressa, respeitando breves pausas, a respiração calma e lenta, fixando o espírito nas palavras da prece. Isto leva a certo grau de atenção ([[tnpl:epimeleia:]]), onde a o coração começa a entrar em harmonia com a atenção do espírito. Esta harmonia se transforma pouco a pouco em união do espírito com o coração, e o método proposto pelos Padres se revela por si mesmo. O atributo essencial, indispensável da prece é a atenção ([[tnpl:epimeleia:]]). Sem atenção não há oração. A verdadeira atenção dada pela graça nos chega quando mortificamos os desejos de nosso coração a respeito do mundo. Os suportes adicionais nada mais são suportes. Os próprios Padres dizem que uma vez criado o hábito desta união do espírito com o coração, pelo dom e ação da graça, nenhuma técnica se faz mais necessária. Esta união pela graça nos dá um movimento único e corretamente orientado para Deus. Essa união proporciona também as condições de resistir aos pensamentos ([[tnpl:logismos:]]) e as paixões ([[tnpl:pathos:|pathos]]), pelo efeito da graça, como fruto do Espírito Santo que cobre por sua sombra invisível o trabalho ascético ([[tnpl:askesis:|askesis]]) do atleta de Cristo. Quanto ao “lugar do coração” ([[tnpl:kardia:]]), os Padres designam como tal a potência contemplativa do coração (o olho do coração que é o “órgão” de contemplação de Deus — “Bem aventurados os que têm o coração puro, pois verão Deus” — Mat. 5,8), alojada na parte superior do coração. Esta potência é o diferencial entre o coração humano e animal, pois estes possuem, como os homens, a força da vontade ([[tnpl:thelema:]]), ou potência concupiscível e a força do zelo, ou potência irascível. A potência contemplativa manifesta-se pela consciência moral ou pela intuição direta (sem intervenção da razão), pelo temor ([[tnpl:phobos:]]) a Deus, pelo amor espiritual a Deus e ao próximo, por um sentimento de arrependimento ([[tnpl:metanoia:]]), de humildade e de doçura, pela contrição de nosso espírito (ou profundo lamento por nossos pecados) e por outros sentimentos, desconhecidos nos animais. A potência da alma (psyche) é o espírito (intelecto — nous)), e sendo imaterial tem sua sede no cérebro. A união do espírito e do coração é a união dos pensamentos espirituais, do espírito (intelecto, nous) com os sentimentos espirituais do coração. Pela Queda os pensamentos ([[tnpl:logismos:]]) e sentimentos, de espirituais se tornaram carnais (sarx) e psíquicos, devendo ser reconduzidos à esfera espiritual de onde provêm. Curados de sua “enfermidades” os pensamentos e sentimentos se reúnem ao Senhor, formando na parte do coração onde se encontra a potência contemplativa o templo de Deus, “não feito da mão do homem” mas espiritual, o Santo dos Santos: onde o espírito ordenado padre e consagrado bispo vai adorar Deus em Espírito e em Verdade. “Pois somos, nós, o templo do Deus Vivente, como Deus disse: No meio deles habitarei e andarei, serei seu Deus e eles serão meu povo” (2Cor 6,16). Abaixo da potência contemplativa, no meio do coração, se situa a potência irascível ([[tnpl:thymikon:]]); e acima dela, na parte inferior do coração, encontra-se a sede da potência concupiscível ([[tnpl:epithymia:]]) ou vontade. Nos animais estas potências agem de modo grosseiro sem a presença de uma potência contemplativa. Nos homens sua ação depende do grau de desenvolvimento da potência contemplativa. No cristão, enquanto àquele que se submete à sabedoria de Cristo, o espírito e o coração se unem pelo Espírito e pela Verdade, na renúncia à natureza caída para atrair a graça ([[tnpl:kharis:]]) do Espírito Santo, e assim alcançar as condições de exercício de sua cura.